terça-feira, 30 de março de 2021

Não leia esta crónica

Quando eu era apenas um rapazote a zanzar pelas ruas de Barra do Corda; quando era apenas um menor a trabalhar de Carteira assinada, nos Armazéns Parnaíba, de propriedade do Celso e do Vicente Noleto, lembrome das tão desejadas calças masculinas Wollens. O que me chamava mais a atenção não era nem a marca em si que, suponho eu, pudesse ser o nome ou o sobrenome de alguém, mas o slogan*: "O mundo trata melhor quem se veste bem". Frise-se que, até hoje, concordo com a frase. Não vou aqui discutir nenhum mérito nem pretendo polemizar detalhes, cônscio que sou acerca do fato de os maiores golpistas serem os que mais investem em seus visuais. 

Para provar que imagem é tudo, permitam-me citar sua indelével influência nas igrejinhas de beira de estrada ou de fim de rua, lá pelas periferias, ou nos mega templos, inclusive o de Salomão, em São Paulo. Pode até ser um terno barato, em cuja gravata nem o nó esteja feito corretamente, mas o pastor precisa bem se apresentar para poder levar as almas ao Reino, bem como conduzi-las ao pagamento dos dízimos. No marketing "imagem é tudo". 

Acredito no poder da sonoridade, seja do nome de uma marca ou até de um indivíduo. Um slogan, quando bem criado, fixa-se na cabeça do consumidor, talvez por toda a vida. 

- "Bombril: mil e uma utilidades" - e se você nunca fez de uma bucha de Bombril uma antena de tv ou de rádio, não deve ter mais do que 25 anos de idade; 

- "Skol: a cerveja que desce redondo" - e não penso só no gole a escorrer redondo e aveludado garganta abaixo, mas nos bêbados a descerem, que nem bolas em declive, as ladeiras da Altamira, com os cocos cheios de cana; 

- "Doril: tomou Doril, a dor sumiu" - e quem nunca perguntou a um amigo que havia muito tempo não o víamos: __ “tomou doril, foi?”.

Penso, então, nos muitos livros que já comprei, só por causa dos títulos. E há escritores que são craques em escolher bons títulos. "A Casa dos Budas Ditosos", de João Ubaldo Ribeiro, por exemplo. Só pelo título eu já o compraria, mas não só, visto que eu também já conheço o estilo do autor. "Memorial do Convento", de José Saramago. Aliás, Saramago era mesmo um mago nas escolhas dos títulos de seus livros. "A Viagem do Elefante", do mesmo autor. Que título!

Assim como uma boa marca ou um bom mote**, "imagem é tudo"! Aquela casinha de sapê à beira do caminho fica um charme se a sua dona plantar umas florezinhas, onze-horas, ao seu redor; e a mulher, mesmo que feia, se cuidadosa for, acenderá um brilho vaidoso a refletir-se na persona, de tal maneira que nunca lhe faltará pretendentes. A mesma regra serve ao sexo oposto, claro. A propaganda do desodorante AXE já nos ensinava: "A primeira impressão é a que fica". 

Quando se faz com esmero, seja lá o que for, fica bonito e desejado. Não importam os recursos financeiros, mas a criatividade para se fazer bonito e bem feito com os recursos que se tenha à disposição. E como dizia a propaganda da Semp Toshiba: "Nossos japoneses são mais criativos que os outros".

Rodam o mundo os vídeos do prefeito de Colatina – ES, que põe a mão na massa e planta, ele mesmo, as flores dos jardins públicos da sua cidade, ou pinta muros e meios-fios, enquanto arregimenta os demais cidadãos e multiplica as ações do bem. Faz bem feito e com capricho quem faz com amor, e não quem tem recursos financeiros a esbanjar. Aliás, amiúde, quem esbanja recursos financeiros, na verdade, torna-se mesmo é muito brega. 

Quem usa de uma pitada de malícia, naquilo que cria, põe em prática o slogan da Caninha 51: "Uma boa ideia". Daí fico a pensar no título de um livro que pretendo lançar um dia. Qual o título que, dentre centenas, despertaria a aguçada curiosidade dos leitores, ao menos para pegá-lo nas mãos, folheá-lo e, quem sabe, comprá-lo? Ainda não o sei, confesso. 

Aposto que a maioria dos leitores chegou até a este parágrafo por pura curiosidade em relação ao título da presente crónica. 

"Amo muito tudo isso" é o slogan do Mc Donald´s, com o qual encerro esta despretensiosa crónica que - eu sabia - você leria. 

• Slogan*: expressão concisa e fácil de se lembrar, usada em campanhas de publicidade, propaganda política e, principalmente, no lançamento de marcas e produtos comerciais; 

• Mote**: termo sinônimo de lema, bordão, legenda etc. 


Wan Lucena

quinta-feira, 25 de março de 2021

Cabe todo o Brasil em Portugal

O número de brasileiros em Portugal, por conta da pandemia, diminuiu drasticamente. Mas não só por conta da pandemia, mas também por conta da deterioração da economia brasileira que desvaloriza o Real ante o Euro e muitos eram os aposentados que, como eu, viviam por aqui. 

A economia portuguesa e a europeia como um todo, sentiu o baque da pandemia e muitos são os empresários, pequenos ou grandes, brasileiros ou não, que estão em situação de desespero. Nem todos conseguem acesso às ajudas do Estado português e as contas se acumulam a cada dia. Muitas lojas foram encerradas e os imóveis para aluguel estão vazios muitos deles.

Apesar de tudo, muitos são os que resistem bravamente. Aqui pertinho de casa tem um pedainho de Brasil onde a pastelaria se chama Skina Brasil e dono é um mineirinho gente boa e cuja esposa é dona do salão de beleza para senhoras logo ao lado. Já o Ricardo é um quase um garoto, mas jovem de coragem e visão. É o dono do Ricardu´s Barber Shop, a barbearia onde corto o cabelo com o Rodrigo, barbeiro dos bons, brasileiro também de Minas, uai!

O Ricardo agora passa 15 dias dentro da boleia de um caminhão a viajar pela Europa. Da última vez que cortei o cabelo com ele já não foi na barbearia porque ele já não consegue mais dar expediente por lá e agora, só quando está por aqui, atende na própria casa. E foi na casa dele que tomei um cafezinho passado no saco que só o brasileiro sabe tirar.

Mas, naquele pedacinho de Brasil em Portugal se ouve o bom mineirês, principalmente. E no Skina Brasil como uma deliciosa coxinha só pra matar a saudade do meu país. 

- Hoje tem vaca atolada! - anuncia o proprietário para quem quiser ouvir nas redondezas.

Mas, a verdade é que Lisboa já não está tão babilônica. Diminuiu a quantidade estrangeiros a viver em terras lusas e a comunidade brasileira foi das mais prejudicadas. 

A comunidade estudantil universitária é outra que sentiu o baque. Alem dos estabelecimentos de ensino fechados, os alunos não conseguiram se manter por aqui e tiveram que voltar para o Brasil. 

Mas, naquele pedacinho de Brasil localizado da Boa Hora, na Freguesia da Ajuda, aqui pertinho de casa, fica sempre um punhado de gente a bebericar o café ou a beber uns copos. O cigarro está entre todos os dedos e não só dos frequentadores do Skina Brasil mas dessa Europa inteira. E aqui quase não se faz campanha contra o cancer de pulmão. Não sei se porque o cigarro daqui não causa cancer ou se porque a industria do tabaco se impõe. Certo é que aqui é dificil achar quem não fume. E o mais interessante é que a carteira de cigarros é caríssima  e o mais vagabundo deles não sai por menos de 5 Euros, ou seja, mais ou menos 35 Reais.

- Olha que a fornada de pão de queijo tá saindo já já - grita de novo o dono do Skina Brasil. E todo mundo quase entra em polvorosa enquanto se anseia pelo bom pão de queijo do mineiro.

E jã a voltar para minha casa, na descida do Jardim do Rio Seco, me para ao lado um carro e uma rapariga linda me pergunta em bom português de Portugal:

- Olhe! Com licença se faz favor! Como faço para chegar naquele local aqui perto que foi todo revitalizado por agora?

- A senhora está a procurar o Largo da Boa Hora. A senhora segue por essa rua, dobra ali para direita e depois para a esquerda. Não passe por baixo do arco. Pegue o trilho do Elétrico e a senhora já vai chegar lá. É bem aqui pertinho - informei-lhe eu com minha simpatia brasileira de momento.

- Brasileiro! - falou com um sorriso farto e gentil - Há! Esse Portugal precisa é se encher de brasileiros pra ver isso melhora um bocadinho  - concluiu enquanto engatava a primeira - Muito obrigadinha e boa tarde! - e seguiu.

Eu desconfio que ela não sabia bem o que dizia. Espero que a pandemia acabe logo e que as coisas voltem aos seus lugares e que esse Portugal volte a se encher de todo mundo, inclusive de brasileiros.

Deixemos o Brasil daqui restrito ao pedaço do Skina Brasil e já está bom demais. E viva o Brasil! E viva Portugal!


Wan Lucena

 

quarta-feira, 17 de março de 2021

Uma Santa brasileira em Lisboa

A paisagem que se vê desde o Miradouro* de Santa Luzia é de fazer babar aos mais insensíveis. Os telhados vermelhos e as fachadas azulejadas dos edifícios de Lisboa colorem a sua paisagem abaixo e, mais adiante, um imenso espelho - Rio Tejo - no horizonte, riscado pelos navios cruzeiros que chegam e partem lotados de turistas. Dali ainda se veem as abóbadas – peculiares domos sagrados - das igrejas, e as ruas típicas, sempre apinhadas das gentes da cidade. Do outro lado, as cidades de Almada, Alcochete, Montijo e várias outras. 

O miradouro, por si só, já é desbunde aos olhos. Há um imenso pergolado que sustenta os bougainvilles, de floradas exuberantemente rosadas, os quais sobem pelas paredes da Igreja de Santa Luzia, situada no mesmo local, e que se espalham a sombrear os casais enamorados e os artistas que por ali ganham seus trocados. Ademais, todas as paredes da referida igreja, assim como as muretas do miradouro, estão cobertas por centenários azulejos portugueses, em cujos quadros pode-se contemplar cenas históricas das aventuras e das glórias portuguesas.

Aos fundos da linda igreja, o visitante, mais curioso e atento, perceberá uma escada discreta e, se por ela subir os degraus, achará um platô** onde funciona um Café; ali poderá sentar-se a observar toda a cena, confortavelmente, enquanto se refresca com uma boa cerveja ou saboreia um delicioso “drink”. 

A Igreja de Santa Luzia, também de telhados vermelhos, não é tão grande, mas é superbém cuidada e se mantém altiva tanto quanto a coluna do seu guardião: um senhor de uns 90 anos, magro e narigudo; vestido em um uniforme jaquetão garboso, azul petróleo, com uma medalha da Cruz de Malta no peito e um bigodinho indefectível, como não poderia deixar de ser.  Respeitoso e rígido como um militar de plantão numa guarita, mãos para trás em completa subordinação, devidamente enquadrado por trás do balcão, logo à entrada, recebe os visitantes ou pagadores de promessas. Ali, sobre o balcão, numa cesta-gazofilácio*** são depositadas as oferendas e as esmolas. 

- Muito bom dia e seja muito bem-vindo à Igreja de Santa Luzia! - assim me recebeu, com distinta simpatia, o fiel soldado-guardião de Santa Luzia.

Ao perceber que eu era brasileiro, esclareceu:

- A nossa Santa Luzia é brasileira, o senhor sabia? - Claro é que eu não sabia. O que eu sabia, até então, era que o Brasil não tinha santos reconhecidos pelo Vaticano.

- Brasileira? Como assim? - Indaguei com enorme curiosidade e ele acompanhou-me até ao oratório e, à minha direita, discreta e sem enfeites, sem brilho ou velas, encontrava-se uma estátua em madeira, de cor marrom como um hábito franciscano, de pescoço longo que, com todo o respeito, me lembrou a Olívia Palito. As suas formas mostravam com exuberância uma mulher de saias esvoaçantes e cabelos tão volumosos e ondulados que faziam o seu rosto ficar minúsculo. 

- O senhor sabe quem esculpiu a nossa Santa Luzia? - Perguntou-me o velho guardião.

Como eu poderia saber? Eu acabara de chegar a Lisboa e não sou grande conhecedor de artes, muito menos de santas. 

 Eu, em minhas conjecturas mentais, tentava adivinhar quem seria o autor. Pensei nos artistas pernambucanos e baianos que tão bem sabem fazer santos, seja em barro, madeira ou quaisquer outros materiais.

- Quem esculpiu a nossa Santa Luzia foi o mineiro Aleijadinho. – Foi então que, muito, me emocionei ante a obra de Antonio Francisco Lisboa, o nosso escultor maior, aclamadíssimo artista da arquitetura colonial, o nosso brasileiro: o Aleijadinho.

Não sei se por ironia, ressalte-se, Lisboa já lhe ia de sobrenome, e eu que sou um quase ateu, de imediato, fiz o sinal da cruz em reverência a Aleijadinho e em seguida à Santa Luzia, de quem eu nem poderia ser devoto. 

Saí da igreja emocionado, depois de, até mesmo, acender umas velas por intercessão de parentes e amigos que ficaram no Brasil; e o gazofilácio do bom velhinho guardião recebeu a minha esmola.

·        * Miradouro: mirante; local elevado de onde se tem uma visão    panorâmica.

·        ** Platô: esplanada; local plano e alto; chapada; “deck”; “terraço”.

·        *** Gazofilácio: caixa onde os fiéis depositam suas ofertas; lugar em que, nos templos, se colocam as ofertas; na Grécia Antiga significava caixa de joias.

 

Wan Lucena


terça-feira, 9 de março de 2021

O poeta Pessoa, a astrologia e seus heterónimos

 

Hoje, atrever-me-ei a falar sobre Fernando António Nogueira Pessoa ou, como todos o conhecemos, Fernando Pessoa. Considerado um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa e reverenciado em todos os países de cultura lusófona, como tal, despejou talento e competência em todas as vertentes em que engenhou sua arte. 

Assumiu, pelo menos, quatro heterónimos, ou seja, escrevia sob nomes autorais fictícios e dava a cada um deles um estilo próprio, o que lhes criava personalidades distintas. 

Foi prematuro na arte da poesia e já aos seis anos, em 1894, escreveu: 

À Minha Querida Mamã: 

Ó terras de Portugal 
Ó terras onde eu nasci 
Por muito que goste delas 
Gosto ainda mais de ti 

Foi poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, inventor, comentarista político, empresário, correspondente comercial, crítico literário e até, por incrível que pareça, astrólogo. Isso mesmo, astrólogo! Nesta crônica, pois, quero me concentrar nesse Pessoa, o Astrólogo. 

Em Portugal, a Astrologia é profissão reconhecida, seus operadores emitem recibos e notas fiscais, pagam impostos e, como operários dos astros, aposentam-se, sim senhor. 

É do Pessoa, todavia, que quero vos falar e é, assim mesmo, nessa intimidade toda, que o chamamos pelo mundo afora. 

- E que te pareces o Pessoa? - pergunta qualquer um numa prosa informal e logo se conclui que se está a perguntar do grande Fernando Pessoa. 

Talvez, os caríssimos leitores não saibam que era ele astrólogo - e dos bons -, dizem os registros. Diga-se, por oportuno, que eu até acredito na interferência dos astros como, por exemplo, na influência magnética da lua nas marés e na migração de animais marinhos, ou do sol sobre as estações climáticas etc., mas não acredito que se possa ler o futuro, ao menos o futuro das pessoas, por meio deles, muito menos nos quesitos amorosos. 

Consta que realizou mais de 300 horóscopos. Há quem afirme tenha sido mais de 1.500. Há que se considerar que um mapa astral levava em torno de 7 horas para ser produzido. Um mapa astral requer uma centena de cálculos matemáticos que, naquele tempo, eram feitos à mão. É de se indagar: e Pessoa ganhou algum dinheiro como astrólogo? Sim. Ele cobrava pela consulta; não era uma brincadeira ou uma mera curtição. 

Pessoa, aliás, criou um heterônimo para atuar como astrólogo. Raphael Baldaya foi o nome escolhido. Recebia sua clientela com preços pré-fixados em uma tabela e, ressalte-se, chegou a prever a data da própria morte. Diga-se que quase a acertou. 

Pessoa era criatura das mais fascinantes, segundo consta. Chegou a ter quatro heterónimos, para assinar aquilo que o alter ego escrevia. Há quem afirme que seus quatro heterónimos foram inspirados nas quatro estações do ano e por influência da sua astrologia. 

Como Raphael Baldaya, Pessoa escreveu diversos textos sobre astrologia e dizem que sua encarnação em Baldaya era de matar de rir. Descrevia ele o tal astrólogo como um homem de longas barbas brancas e o qualificava também como místico e sebastianista*, - vejam só! 

Alberto Caeiro, Álvaro Campos e Ricardo Reis eram os outros três heterónimos de Fernando Pessoa. A cada uma dessas personalidades fictícias criava uma data de nascimento, uma profissão, formação etc., e eles comunicavam entre si. Um chegava a ser discípulo do outro e tal - mas, veja bem, tudo isso na ficção criada pelo verdadeiro Pessoa. 

Vez por outra, quando ao passar pelo emblemático bairro do Chiado, em Lisboa, eu paro no Café A Brasileira, onde uma estátua do Pessoa lhe faz homenagem. Ali tomo um café, ou cerveja, só para ter o prazer de também pisar aquele que foi um dos lugares prediletos do gênio literário que nos legou um patrimônio comum de cultura, em língua portuguesa. 

Não pensem, caros leitores, que sou especialista em Pessoa ou que já li todos os seus livros. Não é esse o caso. Sei, porém, da dimensão de quem falo e, diante de tamanha magnificência, rendo-me e o aplaudo de pé. 

Para fechar esta minha crónica, segue-se aí um pingo de perfume da antologia poética, não de algum dos seus heterônimos, mas do próprio Fernando Pessoa: 

O poeta é um fingidor 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente.

*Sebastianismo: crença mística, propagada em Portugal logo após o desaparecimento de D. Sebastião, 1554-1578, segundo a qual este rei, como um novo messias, retornaria para levar o país a outros apogeus de glórias e conquistas. ( fonte: História da religião); expressão sinônima de teimosia, caturrice, misticismo, apego anacrônico ao passado político superado que se quer restabelecer.  

Nota 1: Oportunamente, não me furtarei à oportunidade de, humildemente, tentar homenagear outros monstros sagrados da literatura em língua portuguesa, como : Guimarães Rosa; Machado de Assis; Drumond; Saramago... (dentre outros tantos talentosíssimos escritores)  
 
Nota 2: Fernando Pessoa, descobrimos depois desta crónica, usou muitos mais heterónimos. Há quem afirme tenha sido ao menos 64. 
    
Wan Lucena

terça-feira, 2 de março de 2021

A Humanidade tem jeito

 Vi na revista eletrônica, Turma da Barra, da qual tenho grande honra em ser um dos colunistas, uma estória ocorrida na minha cidade natal, Barra do Corda. Trata-se de uma jovem senhora, cujo nome prefiro não citar, pois não lhe pedi autorização, cheia de amor ao próximo e sabedora que, muito além de ficar no discurso hipócrita da caridade de sacristias, podia efetivamente arregaçar as mangas e fazer o bem.


Pelas ruas de Barra do Corda, desde o diabólico plano Collor, havia um senhor que fora à ruína financeira e, consumada a falência, passara a morar nas ruas como um mendigo. Essa moça o convidou para morar em sua própria casa e o tratou com toda dignidade e respeito, como se um parente ou um familiar fosse. A revista registrou que ela elogiava os hábitos de higiene do antigo e maltrapilho mendigo e as fotos de um “antes e depois“, da revista TB, demonstram uma transformação simplesmente incrível.


Quero falar, no entanto, é desse "arregaçar de mangas" que leva os indivíduos a fazer o bem, independentemente de suas religiões, crenças e/ou diferenças que possam existir, àqueles que necessitam de uma boa ação.


É público e notório que o bem que uma mão faz a outra jamais deva saber. O intuito é impedir que o ato se esvazie pelo ralo da vaidade, eu sei. Ocorre que atos de maldade , principalmente os mais bárbaros, frise-se , enchem os jornais televisivos ou escritos, 24 horas do dia. Muitos são os que se deliciam ao ver tais estórias, enquanto abrem suas bocas, estupefatos ante a iniquidade.


Atos de bondade raríssimas vezes são mostrados e, se não são mostrados, não inspiram aos demais, não servem de exemplos a serem copiados. Assim, parece-me que passou da hora de se reconhecer que os atos de generosidade não deveriam ser escondidos. A argumentação em contrário serve muito mais aos que nada desejam fazer e, assim, não venham a ser incomodados ou interpelados com cobranças de fazer o que de fato não desejam.


Quem não se sensibiliza ante a humilhação alheia, seja ela qual for, sociopata é. Quem não se apieda com o sofrimento alheio por não se pôr no lugar de outrem, ou seja, é absolutamente incapaz de sentir empatia, sociopata é.


Eu, a meu modo, também vigio por ajudar a quem possa, sempre que a oportunidade surge. Sei que são muitos a se aproveitar da bondade alheia e outros tantos se passam por necessitados só para arranjar uns trocados, a fim de poderem encher o coco de cachaça, mas, vez por outra, temos umas surpresas.


Assim que cheguei a Lisboa, já se vão quatro anos, ao sair da agência do Banco do Brasil, bem na praça Marquês de Pombal, esbarrei com um gajo* alto, com idade acima de 60 anos, barba longa e branca, com uma mochila a tira-colo e jeitão de pessoa de bem com a vida, mas que, aparentemente, precisava de um teto ou de uma toillete**, para proceder a um alinhamento, apenas para passar um pente nos cabelos, visto que a mim não me parecia precisar também de um banho. Estava até limpinho, o gajo... Ele estagnou-se e curvou-se com simpatia...


- Por favor, pode passar, meu senhor.


- Pode passar o senhor, meu senhor – respondi, a reconhecer-lhe a humildade e nobreza.


- Brasileiro, não é? Adoro-vos! Brasileiro é o povo mais amável e simpático do mundo. Eu conheci o Brasil quando muito jovem, quando marinheiro. Estive por Manaus, Belém do Pará e outras cidades do Brasil. E as brasileiras? Ah... As brasileiras! Mulheres mais lindas no mundo não há! - Disse-me ele com simpatia e começamos a descer a Avenida da Liberdade, enquanto conversávamos animadamente.


Ele me explicou que morava pelas ruas fazia muito tempo e, ao ser indagado se era feliz, respondeu-me de forma convincente que sim. Eu, compadecido, ofereci-lhe uma nota de 10 euros, a qual ele recusou de forma veemente e causou-me não só surpresa, mas espanto.


- Como assim? O senhor pode almoçar bem com esses 10 euros, meu Senhor. E o faço de coração. Por favor, aceite-os! - Insisti eu.


- O senhor se importa, não é? - Perguntou-me ele, emocionado - Eu já almocei e não tenho fome, mas agradeço muito o seu gesto de generosidade, que os céus estão a ver... - e se foi sem nada querer de mim, que não fosse aquela circunstancial troca de palavras.


Ainda ontem, já quase meia-noite, aqui perto de minha casa, numa saída com o Karl, meu cão mudo, fui abordado por um rapaz cheio de saúde, o qual vejo com frequência aqui pelas redondezas. Contou-me aquela velha ladainha cansativa de que o seu carro estava de tanque vazio logo ali, e que ele não tinha dinheiro para gasolina, e que estava a pedir a uns e outros alguns trocados para poder abastecer e ir encontrar-se com sua esposa "coitadinha", do outro lado do rio Tejo e bla-bla-blá...etc. Eu o informei que estava desprovido naquele momento enquanto percebia o seu hálito alcoólico, mesmo estando ele a usar máscara, por conta da pandemia.


O gesto de bondade da minha conterrânea cordense requer muita coragem e amor. Não deixa de ser um risco colocar um estranho a morar dentro de sua casa, mas soube que ela o observava fazia algum tempo e que sabia da sua estória, conhecia sua índole e, quem sabe, seus familiares. É mesmo um ato que requer cuidado, muito cuidado, mas acima de tudo é ato que declara: a humanidade ainda tem jeito.


Wan Lucena


*Termo informal usado em Portugal como sinonimo de fulano, sicrano, cara, rapaz, pessoa do sexo masculino quando não se sabe ou não se deseja mencionar o nome da pessoa.


**Termo francês usado para banheiro, bem como, a ação de se lavar, pentear ou maquiar e cuja pronúncia é “toalete”.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Karl, o cão que não ladra

Determinado a adotar um cão, fui à Casa dos Animais de Lisboa, do  outro lado do Parque Monsanto, e fui de bicicleta. Eu já sabia que não escolheria um cão de raça nobre e, quiçá, com pedigree. Eu resgataria mesmo era um a quem ninguém, talvez jamais, escolheria para adotar. 

A Casa de Animais de Lisboa está encravada, discretamente, no alto de um monte coberto de vegetação nativa. Mais de quatrocentos cães estavam à disposição para minha escolha. Todos estavam separados em jaulas frias e húmidas. Havia muito mal cheiro, mas não que o lugar fosse imundo. Ocorre que os animais fazem suas necessidades em horários diversos e a respectiva recolha, ou limpeza, obedece a horários pré-fixados.

Os cães da Casa também não recebem os frequentes banhos que costumamos dar, todas as semanas, naqueles com quem compartilhamos nossas casas.

Já no primeiro corredor de jaulas, um vira-latas de porte médio, de cor branca, de olhar doce e triste, com um defeito congênito que lhe fazia ter uma orelha a apontar para a frente e a outra para trás, chegou até a grade. Estendi-lhe a mão, cuidadosamente, por não saber da sua agressividade. Ele cheirou minha mão e se recolheu tristemente, como se soubesse que suas chances eram mínimas. .

Perguntei ao funcionário sobre aquele cão, sem que ele me desse muita atenção enquanto me levava para outras jaulas e me mostrava cães menores, de raças mais apuradas. 

- Está conosco faz mais de quatro anos e tem cerca de seis anos de idade - disse-me o cuidador.

- Vou levar aquele cão. Já podemos parar de escolher - informei decidido.

- Mas... o senhor tem certeza? Há tantos cães mais bonitos - indagou-me o funcionário, na tentativa de fazer-me mudar de ideia.

- Sim, tenho certeza, é mesmo aquele cão que vou levar!

E assim, com dificuldade de me equilibrar na bicicleta enquanto o segurava por uma corda-coleira improvisada, chegamos a casa e fomos direto para o banheiro, que aqui se diz “casa de banho”, tomar uma “duche”, que no Brasil se conhece por chuveirada ou , simplesmente, banho; afinal importava mesmo era tirar-lhe o forte odor de não sei quanto tempo sem um xampu*.

Decidi escolher um nome curto, de uma sílaba apenas: "Karl". Tudo estaria perfeito, se não tivesse eu de justificar que, nem de longe, seria uma homenagem a Karl Marx**, o filósofo-pai do Comunismo e a quem pouco admiro.

- Não, não é uma homenagem ao Marx, mas ao Laguerfeld - Respondo eu, sempre que alguém o associa ao Marx. Karl Lagerfeld foi aquele designer de moda, também alemão, diretor da Chanel e da Fendi, além de colaborador de diversos projetos de moda e de arte. Figura exótica, de longa cabeleira branca amarrada em rabo de cavalo, cujas criações eram desejadas pelas poderosas que desfilavam em tapetes vermelhos, mundo à fora. Muito mais a ver comigo do que o Marx, com certeza! 

Assim sendo, Karl, meu cão vira-latas, agora goza do conforto burguês da minha casa e pousa a cabeça em minha perna quando paro, ante ao computador, para vos escrever crónicas***. 

Em Portugal, por lei, os cães devem estar sempre presos à guia, porém todo mundo solta seus cães, a depender da docilidade, nos parques públicos. Vez por outra, um ou outro rapagão marombado, cheio de anabolizantes e de “outras substâncias”, igualmente ilegais, repreende-me:

- Se o meu cão estraçalhar o seu, teremos problemas! - avisam-me em alarde tom de ameaça.

Eu sei que meu cão deveria estar na guia e que, se ocorrer de ele ser estraçalhado pelo pitbull de um desses malucos, terei – sim - que assumir a culpa! 

- Com certeza terei que assumir a culpa - concordei!

- O problema aqui, entretanto, não é o seu ou o meu cão, mas os seus proprietários ... E me calo, já a dar-lhe as costas.

Em quase três anos em minha companhia ouvi-o latir uma vez apenas, e um latido rouco e baixo - acho que é mudo - se os cães tivessem cordas vocais - o meu cão. Karl tem sonhos que o fazem delirar todas as noites, e imagino podem ser pesadelos. Peculiarmente, nunca quer brigar com os demais cachorros e nunca avança contra ninguém.

Karl é uma doce criatura que, se pudesse falar, me agradeceria todos os dias por tê-lo adotado. Ele me olha com candura e toca-me com o focinho; aí , não sabe ele, sou eu a agradecer-lhe quando a cabeça lhe acaricio, com carinho. 

- Obrigado por sua existência e companhia, querido Karl!


Wan Lucena


* A forma original inglesa, shampoo, foi recepcionada no português lusitano como champô;

** Karl Heinrich Marx, filósofo, sociólogo, historiador e economista, que bebeu nas fontes da filosofia idealista alemã, no socialismo francês e na política econômica inglesa, antes de vomitar suas teorias revolucionárias no século XIX. Morreu apátrida, em 1883, aos 64, em Londres.

*** a palavra – crônicas - foi grafada com o acento agudo mesmo (crÓnicas ), pois é a atmosfera lusitano-europeia que respiro e em que me inspiro, quando sento-me a vos escrever.




terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O Erva da Discórdia

Acabara de me fixar na Freguesia da Ajuda, em Lisboa, e decidi que iria fazer uma boa e velha “vaca atolada”, um prato típico do Brasil, composto, basicamente, de costela de vaca com mandioca, ou como se diz na Barra do Corda, macaxeira.
Já quase tudo pronto para sair da panela, que fumegava um vapor cheiroso que inundava todo o quarteirão, quando percebi a falta de um ingrediente crucial: o coentro. Há quem afirme que o coentro é a salsinha com o demônio no corpo. Eu acho o contrário, é a salsinha que é o coentro com o demônio no corpo. Adoro o tempero que me lembra os canteiros suspensos, onde minha mãe cultivava cebolinha e coentro, regados com as águas do doce Rio Corda e que também temperava as piabas e os piaus que nós mesmos pescávamos, enquanto ela lavava trouxas de roupa, escanchada numa tábua.
Ante a falta do coentro, saí correndo até o Mercado Municipal da Ajuda, aqui pertinho, só para comprar um maço e voltar às pressas para finalizar o suculento almoço.
Logo na primeira barraca de legumes e verduras, vi o imenso maço da erva e me dirigi ao atendente, um típico português, ali com seus quase 70 anos, camisa aberta até o umbigo e suado tal qual a minha panela de pressão, que eu deixara em casa, com a vaca atolada a me esperar.
- Por favor, um maço de coentros. Pedi.
- Mas... e o que o freguês vai comprar? Perguntou-me ele.
- Um maço de coentros apenas, se faz favor. Respondi.
- Mas... e vais comprar o quê? Repetiu ele enquanto eu me perguntava se estava a falar-lhe em grego ou na língua dos anjos*.
- Meu senhor, eu quero comprar apenas um maço de folhas de coentro, para terminar de fazer o meu almoço. Insisti.
- Mas... é que aqui não vendemos coentro. Respondeu-me ele, certo do que dizia.
Eu pensei que estava ele de chiste ou a se irritar por causa do valor módico da compra.
- Meu senhor, aquele maço de coentros, ali dependurado, não está à venda?
- Não, não está! Respondeu-me ele.
Este cidadão está mesmo com gracejos, a gozar da minha cara, só pode! Pensei eu, porém disposto a ver aonde ia dar aquela prosa toda torta.
- Aqui não vendemos coentro, mas o oferecemos de graça por ser tão barato. Assim sendo, o freguês compra alguma coisa e lhe ofertamos o coentro. Então... o que o freguês vai comprar? Perguntou-me o português, já bastante fulo da vida comigo.
Eu nada queria comprar a não ser o coentro e me mantive na decisão de não comprar nada que não fosse o coentro.
- Meu senhor, eu quero apenas o coentro, se faz favor! Pedi novamente.
Ele, enraivecido, encheu a mão com um maço de coentros, jogou-o por sobre o tabuleiro e me disse que eu podia, então, levar o coentro e nada pagar, pois ele ali não vendia coentros.
Foi quando pensei: ai caramba! Um entreveiro desse por causa de um maço de coentros? Sério? Eu não estava a acreditar.
- Já não quero os seus coentros nem de graça nem pagos. Retruquei !
E já me ia a sair do mercado, quando fui abordado pelo dono da banca ao lado que, muito simpaticamente, fez questão de esclarecer o que o seu colega já me explicara, mas que não me convencera.
É que, nas feiras, o coentro é um agrado, o qual é dado a quem compra outros produtos. Pediu-me que, por favor, aceitasse de si um maço de coentros e que não levasse o mal-entendido em consideração. Comprei o que nem precisava na banca do simpático português, então peguei o maço de coentros e fui-me dali, certo de que quase criara um incidente diplomático.
No Mercado Municipal da Ajuda não botei mais o pé e quando preciso de coentros vou direto aos supermercados adjacentes, onde estão devidamente expostos em prateleiras e com os respectivos valores anunciados em etiquetas.
A vaca atolada ficou uma delícia e, enquanto a saboreava, pensava se o cômico incidente por causa do coentro viraria crônica... e ri a valer!
* Labaxurias labacantas xarababeias

Wan Lucena

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A Vizinhança

- Oh, vizinho! Diga-me cá uma coisa! Será que aquela sua desafeta aí do seu condomínio não estava apaixonada por si? – pergunta-me a senhora, uma vizinha de janela, com quem desabafei sobre problemas que ando a ter com uma doida daqui. 

Chamo-a de doida porque ela própria assim se denomina e alardeia – não mexa comigo, porque eu tenho atestado de loucura. 

Quando cá cheguei neste apartamento, já no primeiro momento, percebi a curiosidade intromissiva dela. Estava sempre à espreita para ouvir e ver tudo o que acontece na vizinhança. Mora num apartamento bem ao lado da portaria e sabe tudo de todos. Quem entra, quem sai. Quem entrou e não saiu. Quem é de primeira visita e qual a rotina de cada um dos moradores. 

Eu, incauto que fui, permiti que ela adentrasse o meu apartamento, já logo na primeira semana. Ocorre que nem foi bem uma permissão que lhe dei, mas ela que adentrou  sem ser convidada, aproveitando-se que eu estava com a porta aberta. Sentou-se à minha sala e passou a descrever-me a vida de todos. 

A vizinha do andar logo acima do seu, com um filho adolescente era, segundo sua versão, um verdadeiro demônio ao qual eu jamais deveria dirigir a palavra. Que de sua casa a gravava em áudio e vídeo a agredir o filho adolescente e que o marido, um policial, abusava sexualmente do rapaz. 

Hoje, sei que a vizinha a que se referia, há mais de quatro anos, vive a ser infernizada pela louca que, com cabo de vassouras, cutuca e bate na laje, justo onde sabe que está a outra a dormir ou descansar. A doida já chamou-lhe a polícia tantas vezes que já nem lhe atendem mais. Ambas estão com uma pendenga judicial, na qual pede uma indenização por danos morais e materiais por que, apesar de doida, não rasga dinheiro. 

A doida veio parar no meio da minha sala depois de o técnico que montava a cozinha serrar uma tábua, cujo pó descera dois lances de escada. 

Apareceu-me ela com balde, panos e rodos e a gritar que aquilo não era permitido no prédio e que eu só podia ser mesmo um brasileiro sem educação. Pedi-lhe mil desculpas e avisei-lhe que eu mesmo limparia todo o pó, no entanto, sem ser ouvido por ela. Até então, não sabia que se tratava de uma doida e peguei os meus apetrechos de limpeza e passei a ajudá-la, enquanto tentava contornar o desentendido, com reiterados pedidos de desculpas. 

Ainda na minha sala, contou-me que o Zé, o dono da pastelaria da rua - um simpático português que já não tem espaço para tanta clientela - nada valia. E que, se eu um dia qualquer fosse por lá, jamais deveria dizer que a conhecia, pois não suportava a ideia de ter seu nome esparramado na medina, pois era o Zé um grande fofoqueiro do bairro. 

Além do Zé, danou a falar de todos da rua e do bairro. Com ninguém se dava. Eu, então, decidi que faria de tudo para não entrar na mira da doida. Disse-me odiar cães e adorar gatos. No seu  apartamento, criava três gatunos. Nada tenho contra os gatunos, senão os seus donos que, desleixados, nem se preocupam em limpar a casa que fica empestiada com o cheiro do xixi deles e, diga-se de passagem, é o caso da dita cuja. 

Ao abrir a porta do elevador, certa feita, e esta bateu no tapete de piaçava postado à frente da porta dela. Ato simultâneo, ela abriu a porta e passou a destratar-me; perguntou-me se eu pretendia derrubar a sua casa. Fiquei bastante assustado e concluí, então, que já entrara na mira da doida. 

Dito e feito! 

Deixou ela de responder aos meus cumprimentos de bom dia e, desde então, vira-me a cara todas as vezes que por mim passa. Eu, que também sou doido, ainda que sem atestado médico, faço questão de cumprimentá-la todas as vezes; assim como abro-lhe a portaria quando, por coincidência, nos encontramos. Ela, entretanto, recusa-se a passar e mesmo assim faço questão de permanecer segurando a porta por algum tempo, até que desisto e me vou. Confesso que morro de rir. Agora ando tendo ideias de colocar-lhe flores à janela. Não pensem, porém, que me apaixonei pela doida ou que ainda nutro a esperança de alguma amizade futura.

 - "Existem mulheres que não são correspondidas em suas expectativas em relação ao algum gajo; coitado dele!" – Concluiu minha vizinha de janela. 

- E se forem doidas, então...! – pensei eu com convicção. 

Comprei belíssimas orquídeas e as presenteei, não à doida, mas à minha vizinha de janela, tão simpática quanto bem-casada e certo de que seu marido não seria outro doido a pensar que estou a dar em cima de  sua esposa, uma senhora que parece ter quase 70 anos. 

Wan Lucena

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O 18 - O Bondinho Lisboeta

- Bom dia – dizem ao maquinista, portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, sã- tomenses, goêses e timorenses, todos usuários do Elétrico 18, o bondinho lisboeta que passa em frente à minha casa e que tenho tanto prazer em também usar.


O 18 é o Elétrico que sai desde o Cais do Sodré, às margens do Tejo e vai até ao Cemitério da Ajuda. Entrar num Elétrico, bondinho no Brasil, é adentrar uma cápsula mágica, transportar-se para o mundo multidimensional e voltar ao século XIX; basta-nos um pouco de imaginação. Os trilhos centenários que dão rumo à nossa cápsula-bonde são os mesmos de séculos atrás. A decoração interna e a tecnologia usadas também permanecem inalteradas . As pessoas é que se modernizaram e poucos são os cavalheiros de chapéus e as damas com sombrinhas-fru-frus.

Já na primeira “paragem” – parada é o termo no Brasil – sobem várias pessoas, quase todas a falar línguas diferentes. Nessa paragem recebe os turistas que atravessaram o Tejo e os demais que estavam no Mercado da Ribeira, o “Time-out” , logo do outro lado da avenida. O imponente mercado fora apenas um belo edifício até ser ocupado pelos chefs da gastronomia local que o transformaram numa imensa meca gastronômica, onde é obrigatório, a todo turista que passar por ali, comer não só o famoso pastel de nata, mas tudo o que de bom se serve na boa cozinha portuguesa.

O Elétrico segue pela avenida, ladeada à esquerda pelos trilhos de comboios – que no Brasil se diz trens - que vêm desde Cascais e que, com certeza, o afortunado usuário do 18 terá a sorte de vê-los a passar em sentido contrário, rumo à estação final, o Cais do Sodré.

À direita, toda a imponência desta velha Lisboa, com seus armazéns e prédios históricos. Aliás, há que se ser rápido ao olhar para todos os lados, para que tudo se veja e, mesmo assim, muita coisa deixará de ser vista.
Quinze minutos depois, algumas paragens, donde desceram e onde subiram usuários plurais, estamos no Largo do Calvário. Sobem passageiros que, pela cor de pele, provavelmente são indianos ou de algum país asiático naquelas vizinhanças. O local é repleto de restaurantes com pegada asiática, sem falar das lojas de chineses que vendem de tudo o que o leitor possa, ou não, imaginar. 

Ali também se encontra a turistada oriunda do LX FAXTORY, logo ali do lado. O que foi a casa da imprensa do ditador Salazar virou um ambiente descolado, cheio de atrações culturais, que vão desde studios de arquitetos a livrarias que parece terem saído do filme de Harry Potter e que vive apinhado de turistas do mundo inteiro, até porque muitos são os restaurante e bares lounge que ali se fixaram.

- Bonjour – diz o grupo de jovens franceses, com suas peles sedosas e sorrisos que parecem gentis e educados.

- Good Morning – diz o casal de idosos que me faz deduzir serem ingleses .

E o manobrista vai lhes respondendo a todos com muita discrição, e no idioma em que for cumprimentado.

- Buenos días – diz o jovem de cabelos degringolados e que me parece ser um vizinho espanhol.

E o Elétrico já dobra à direita, a subir uma ladeira e a passar por baixo da megaestrutura da ponte 25 de Abril. Estamos, agora, em Alcântara, apenas mais uma charmosa freguesia, que corresponde, grosso modo, à palavra bairro, de Lisboa. Tão histórica e tantas estórias se vão vendo e poderia contá-las aqui, mas não por ora , pois receio ser barrada a minha publicação nesta revista, Turma da Barra, na qual se pede o obséquio de escrever com parcimônia de caracteres.

Já estamos em Santo Amaro, e dentro de um túnel de jacarandás que, quando florido, fica surreal. Desde aqui se vê todo o Tejo e a magnifica 25 de Abril. Passamos, a seguir, pelos fundos majestáticos do Pestana Palace Hotel, um palacete riquíssimo, onde morou, até mesmo , a diva Madonna, famosa pop star .

Ainda na Calçada da Tapada, os trilhos do 18 fazem um “S” e começam a descer pela Rua da Aliança Operária e, no Largo do Rio Seco, dou sinal para descer da minha cápsula do tempo. Volto ao século XXI e, depois de atravessar a rua, já estou à portaria do meu condomínio.

O 18 continua a sua viagem mágica, passa pelo Largo da Boa Hora e sobe uma ladeira sinuosa; passa entre a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, à direita, e o Mercado Municipal. Desse mercado, tenho tantas estórias para vos contar..., mas ficam para outra crónica.

A cápsula-bonde do tempo segue apinhada de gentes encantadas por agora poderem ver o magnífico Palácio Nacional da Ajuda. É ali , nesse régio paço, que nasceu Dom João VI, aquele que foi, de mala e cuia, para o Brasil varonil, a fugir das tropas napoleônicas. Depois de passar pelos fundos do referido palácio, um descampado e os trilhos seguem numa linha reta e, então, já chegamos à paragem final, aos pés do muro do Cemitério da Ajuda. Desde aqui se pode descer à pé até Belém e ao Mosteiro dos Jerónimos, só para comer os famosos e patenteados pastéis de Belém. A iguaria foi inventada pelos monges e, de tão deliciosa, tanto arrecadaram dinheiro que construíram o mosteiro – uma obra megalómana.

Os amigos leitores cordenses talvez tentem imaginar o sabor do pastel de Belém, mas não precisam se apoquentar tanto. É que aí nós temos tantas delícias que cá não existem, que eu trocaria os pastéis de cá pelos pastéis de feira daí; ou pelas pamonhas de milho que cá não se veem nem de longe.

 Buon giorno e grazie – é o que diz um italiano, simpático e sem a cara de mafioso, ao descer na parada final do 18.

E veio a pandemia... e já já tudo voltará a ser como dantes.

Wan Lucena 


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Sob Cobertas


Sob as cobertas:


Eram quase sete horas quando voltei para debaixo dos meus lençóis, depois de ter saído com meu cão para o seu passeio matinal. Tomei um café, ansioso por voltar para debaixo das minhas cobertas. E sei que voltarei a dormir o melhor sono até ao meio-dia. Mas, um sonho doce me vem chegando e relaxo comovido.


A yoguini:


Todos os dias de pandemia a atriz, em posição de flor de lótus, busca o equilíbrio enquanto faz a sua yoga. Magra e esbelta, linda. Tenta e intenta o nirvana, enquanto procura esvaziar a mente e pensar em nada.


E começa a ouvir os pombos, a arrulharem todos ao mesmo tempo, a emitirem o som derivado do rufar de seus papos. Ela que nunca gostara do som dos pombos, embora acordasse todas as manhãs a ouvir-lhes. Eles pareciam trazer maus agouros, mas naquele instante passou a percebê-los como mensageiros de notas ou letras, que lhe diziam uma mensagem cifrada.


E, ainda mais, aquela festa, na verdade, informava que a ninhada está esfomeada e a luta pela sobrevivência de mais um dia tem de ser iniciada. Que o alimento deve ser achado depois de muito procurar em vôos que exigirão não apenas a visão apurada, mas o milagre do acaso que levou alguém a jogar migalhas, santas migalhas, à calçada. E o gavião, perigo constante e previsível, está à espreita para cravar-lhes as garras, porque também está na mesma luta pela sobrevivência para alimentar os filhotes.


Entretanto, os pombos não pensam e não sentem como a nossa yoguini. Apenas por instinto arrulham quando acordam. E acordar é uma benção, pois a existência só é boa se valorada como quem sorve cada gota de água enquanto atravessa um deserto. E que saber dos riscos de perdê-la a qualquer momento, por acidente ou naturalmente, é a melhor maneira de valorizá-la e agradecer por esse milagre/fagulha cósmica que é a vida. E os pombos são felizes exatamente nessa intranquilidade da rotina que lhes obriga a luta diária pela sobrevivência.


Puta da vida - perdoem a expressão que já foi chula - ela desiste da yoga evai fazer um café.


- Malditos pombos! - conclui ela.


Pelo menos não foram as gaivotas. Essas fazem muito mais barulho enquanto clamam para que das janelas se lhes joguem os nacos de carne que lhes alimentarão.


Sob as cobertas:


- Quando eu sair de debaixo destas cobertas, lá para o meio-dia, tomara eu me lembre desse sonho/devaneio e o escreva numa crônica só pra encantar o povo lá da minha Barra do Corda. E penso no Rio Corda e me arrepio de tanta saudade. Era um tempo ruim...  mas era tão bom!

A yonguini continuará a busca pelo nirvana até que a pandemia seja controlada. Na segurança de sua casa, concluiria o mais otimista dos leitores. Já o leitor mais realista se lembraria do arrulhar dos pombos a irritar a moça. 

Eu yoga não faço, mas ouço boa musica, leio bom livro, canto, danço, cozinho, olho a cena pela janela e espero que o tempo logo à frente seja de festa pelas ruas a comemorarmos o fim dessa peste pandemia. 


Wan Lucena

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Varal Escatológico

 

Duas típicas portuguesas, dentro de um autobus - ou seja, de um ónibus - conversavam como se estivessem numa sala de suas casas a tomar um chá. Tagarelavam Sem se importar se os demais estavam a gostar ou não. E eu, pra falar a verdade, estava eu a gostar e era muito. E aposto que todos os demais igualmente.

Uma delas usava sapatos em pele - falsa com certeza - a imitar a das onças e, no pescoço, um cachecol em tecido, igualmente falso, também de onça - porque não pode deixar de combinar senão fica brega, não é mesmo minha senhora? - e na sacola, um outro tecido que parecia ser uma blusa de frio, na mesma estampa. Um show de visual digno de se ver num metrô... só que na Tanzânia. 

- Mas opá! Essas chuvas de dezembro que muito cedo chegaram e que não se querem ir. Mas, parece que amanhã o tempo já se vai fazer melhor - disse a velhota vestida de onça

- Ai, Jisuis! Que tenho tanta roupa para secaire...  é que não gosto de secar roupa em máquina porque não fica igual à que seca ao sol e fica sempre com aquele cheiro de roupa que não secou direito, compreendes? Mas, vi que amanhã já vem sol e que a temperatura também vai subir um pouquinho... - respondeu a outra velhota mais discreta, vestida toda de marrom dos pés à cabeça, mas ao menos não imitava onça, leão, zebra ou girafa.

- Há sim! Mas opá! Aproveita para secar a roupa amanhã porque depois já lá vem chuva de novo - respondeu a outra velhota onça.

E eu só pensava no meu próprio varal, na minha roupa que havia quase uma semana levava chuva no aqui na janela do apartamento. Não tenho máquina de secar e não tenho a intenção de comprar tal trambolho. Quando estou muito precisado, desço até a lavanderia ali embaixo e ponho tudo na máquina de secar deles e 15 minutos depois tenho a roupa pronta.

Mas, decidi que, se fizesse mesmo sol, iria até as margens do Tejo, o rio Tejo, aquele que nasce lá na Espanha e depois banhar as terras de Dom Quixote de La Mancha, vem desaguar aqui abaixo da minha casa, pouco mais que 400 metros. E porque essa informação? Porque sou mesmo um deslumbrado com o fato de poder viver tudo isso e até o Tejo passar logo ali. E me lembro do Rio Corda ao qual me banhava ao menos três vezes por dia já que minha casa fazia fundos pra ele. E no Tejo não se toma banho. As aguas geladas não permitem. 

E sim, amanheceu com um sol lindo. E antes de sair, já lá pelas 11 horas, decidi tirar a roupa do varal. E que merda! Metade dela estava "cagada" pelos pombos e voltaram à máquina de lavar - e a palavra escatológica que acabo de citar vai entre aspas a partir de agora porque só pretendo usá-la esta única vez  para não causar sensações de repulsa à leitura. Usarei o termo "caca" em sua substituição. 

Eu não sei, mas desconfio que a população de pombos nessa Lisboa é muito maior que a de gente. "Portugas" adoram pombos, gatos, cachorros e até as gaivotas. Não gostam muito é de gente. E aí já quase concordo com eles. 

A minha vizinha aqui de janela joga nacos de carne, diária e religiosamente, às gaivotas que descem aos bandos e a gritar feito doidas - coitadinhas das bichinhas! Estão a "morreire" de fome! - 

Os gatos estão em todas as casas, a se lamber nas janelas, e são garantia de uma boa fotografia. Lá pelas tantas da noite, sempre que saio com meu cachorro, vejo os portugas a encher as vasilhas de comidas para os gatunos de rua. São muitas as pessoas que se dedicam a eles. São os gatunos controlados pela zoonose do país e coisa e tal. Mas, o pior mesmo é que todo mundo tem um cão e todos fazem suas "cacas" duas vezes por dia - ao menos o meu - e nem todo mundo se ver obrigado ou tem a educação de recolhê-las. 

Pra todo lado se acham os depósitos com saquinhos de recolha de "cacas" que o poder publico disponibiliza. Ocorre que muitos são os donos de cães que não querem por a mão à "caca". Aqui, frente ao restaurante, a cadelinha da madame batizou a calçada enquanto eu passava. A madame se fez de cega, embora com o saquinho de recolher a "caca" na mão, e se ia displicente, a disfarçar ter visto a obra. 

- Olha, a sua cadelinha acabou de sujar a calçada - não resisti 

- Não foi a minha cadela que fez tal coisa - Respondeu

- Como assim? Eu vi!

- E por acaso o senhor é fiscal de "caca" agora? - e vi que a temperatura podia subir e decidi me calar e me fui 

Assim sendo, recomendo ao amigo que, por acaso ou não, tenha o privilégio de vir passar uma temporada por aqui, olhar muito bem aonde põe o pé se não quiser pisar no monte de "caca". Quase todos os dias volto para casa com meus sapatos batizados com uma "caca" canina.

Quanto às velhotas a fazer do ónibus sala de chá, torço por encontrá-las mais vezes. Em nada me aflige ou me incomoda. Afinal, é um ônibus e não uma igreja sacro-santa ou um velório - velórios, aliás, são sempre ótima temática para cronicas. E a escatologia que também adjetiva o fim do mundo, também adjetiva até aos que nasceram com muita sorte - e peço licença para usar mais uma vez a palavra - "fulano nasceu cagado!". 

O meu varal escatológico não é o fim. As "cacas" do meu cão recolho-as todas. Quase todas, confesso! Mas nunca as deixo de recolher se ele as faz num local donde passam transeuntes distraídos a olhar pombos, gaivotas ou gatos. É questão de empatia e de educação!


 


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Letras e Temperos

Sempre lembro da Clarice, a Lispector, todas as vezes que me sento pra escrever e me pergunto: qual vai ser o assunto de hoje? - E olho para todas as coisas sobre a minha mesa e penso: vou escrever sobre a laranja ou sobre o panetone de natal? - E olho pela janela a buscar uma cena inusitada e pitoresca de um vizinho - não quero escrever sobre aquilo mas sobre esse momento que pre-antecede a escrita e que se vai até o ponto final dela.

Seria aquilo que chamamos de inspiração, talvez. Mas, ouso dizer que é mais. E explico: a inspiração é aquele lapso de tempo que nos chega por meio da fome de criar algo. Imaginemos que a fome nos leve a pensar e ter que decidir sobre o que fazer para o almoço. Depois de decida qual carne, qual arroz, se vai ao forno, frito ou cozido... tudo isso eu chamaria de inspiração. Mas tem o momento posterior que aquele em que já estamos a cortar os pedaços e a acrescentar temperos e que segue com a boca do fogão sendo acesa e com o alho e acebola a dourar. E se espera que o sabor seja muito bom no final. Esse segundo momento é o da criação. Ou seja, criar o que se tem por inspiração.

Se na cozinha, escolhem-se os melhores ingredientes. Mas há que corta-los de maneira uniforme e com faca bem afiada para o corte ficar bonito. Há que se mexer, vez em quando, com carinho e leveza. Os temperos verdinhos e cortados ou picados já esperam a hora exata de ir para a panela. O cheiro começa a exalar e talvez chegue até a vizinha que, encantada, quer só dá uma "provadinha" e termina é ficando pra o almoço.

Mas, a mesa tem de ser posta. E vamos arrumar os pratos e talheres com esmero. Não é por frescura, é por carinho e por querer bem viver. E a vida fica tão melhor, mais agradável e bela, quando intentamos a perfeição.

Escrever uma crónica, ou mesmo um livro, também segue a mesma concepção. Primeiro se escolhe o objeto, o assunto. Depois a maneira sobre como se vai escrever sobre a coisa. E há que se escolher as palavras. Troca essa, apaga aquela outra. O primeiro parágrafo tá pronto. Será que tá demais aqui? Menos essa palavra, mais aquele adjetivo. Capricha na emoção porque senão pode ficar insosso. 

Depois de pronto, servimos! Pode ser que nem agrade a todo mundo - aliás, nem o Cristo agradou... - mas, haverá quem muito goste e espere com o estômago a roncar pelo próximo almoço.

E a Clarice, a Lispector, podia servir sopa de pedras que a gente ia comer e se lambuzar. 

Hoje eu amanheci com vontade de escrever. Na falta de ingredientes, vai o meu caldinho ralo que pode ser servido com aquele pãozinho dormido ali.

Wan Lucena



terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Seremos aquilo que sonharmos

Inicio a minha cronica dessa semana a pedir desculpas ao leitor ante ao fato de que ela pode soar piegas ou coisa de auto ajuda. A minha intenção com o texto é o incentivo e a inspiração àqueles que se encontram presos em suas realidades duras e cruéis. A minha cronica talvez esteja direcionada aos mal nascidos como eu que não tiveram o suporte necessário para o crescimento enquanto ser humano. 

Embora falte o suporte para o crescimento, com luta e superação, com esperança e desejo, podemos nós mesmos chegarmos aonde sonharmos. A questão é que muitos não sonham e se entregam à desesperança. Alguém já declarou que "seremos do tamanho que sonharmos". 

Cada individuo tem a sua própria perceção de felicidade, a meu ver. A minha felicidade consta de viver bem e em segurança. As duas opções continuam recheadas de subjetividade, diria o leitor mais crítico. O que é inseguro para mim pode não ser ao outro e vice-versa. A subjetividade aumenta ainda mais quando consideramos o que seria esse "viver bem". Nesse caso teríamos que levar em conta os desejos de cada um. No meu caso que sou um cosmopolita inveterado, nunca daria conta de viver isolado numa casinha de sapê, às margens de caudaloso riacho mesmo que uma imensa montanha riscasse o céu com as suas linhas. Adoro as paisagens bucólicas para um fim de semana ou em fotografias. Mas para o meu dia a dia preciso de uma padaria na rua que ofereça pão quentinho.

Quando sai de minha cidade Barra do Corda, no Maranhão, depois de três noites sem dormir, com dores de estomago e ansias de vomito ante a ansiedade e o medo do que a vida me reservava na cidade grande - e eu tinha razão já que não foi mesmo fácil chegar até aqui e muitas foram as dores e momentos em que me faltou desde o pó de café ao ombro de um amigo que pudesse apenas me apoiar com uma ou duas palavras de ânimo e solidariedade. 

Quando já em Brasília, poucos meses depois, foi também para lá meu primo, Roselino, o Turita, filho de meu tio Benjamim. Ele ficou por lá não mais que um mês e voltou para Barra do Corda onde se casou e hoje mora na região de Grajau a fazer o que sempre quis. Tem um pedacinho de terra, cabeças de gado pra cuidar e tirar leite, esposa, filhos e netos. É um homem feliz, com certeza. Não suportou viver na cidade grande.

Em Alagoas, quando por lá passei uma temporada difícil, já depois de aposentado, percebia os jovens a fazer nada que não fosse surfar e namorar as raparigas turistas - e rapariga aqui em Portugal é moça, esclareço.  Perguntava-lhes sobre o que esperavam do futuro e eles respondiam com certa indolência maconheira: 

- Não quero outra vida. Aqui que sou feliz. Aqui que vou viver e morrer porque lugar melhor que este no mundo não há!

E quando diziam que "lugar melhor no mundo não havia" eu lhes perguntava qual outro lugar do mundo conheciam e eles, de novo respondiam sem titubear: 

- Conheço tudo pela internet  ou pela televisão e me basta. Aqui nesse praia, nesse povoado, com meus amigos, tomando a minha cervejinha que os outros pagam, com minha família por perto... saio daqui nunca não, viu moço!

E captava essa informação sempre com um misto de desconfianças. Pode ser um acomodado preguiçoso a blefar? Pode sim! Pode ser um apavorado ante a suspeita de que a batalha na cidade grande ou na vida além da sua pequena geografia pode ser por demais difícil e penosa e que o sucesso não é certo? Pode! Pode ser que o individuo esteja mesmo muito é consciente de que não precisa de mais que aquilo de que já dispõe para ser feliz? Pode! Pode ser que não lhe incomode a boca banguela por não ter condições de cuidar dos dentes? Pode! 

Tive lá nas Alagoas uma camareira que do altos dos seus quase 40 anos, casada e com duas filhas moças, me informou certo dia, com tristeza visível, que o local mais longe que fora da sua cidade natal tinha sido a cidade vizinha a apenas 10 kms. 

E eu entendo que a vida, muitas vezes, não nos permite as mesmas oportunidades. Mas também sei, por experiencia própria, que se a porta não nos for aberta por bem, como autoridade que somos de nossas próprias vidas, temos de arrombá-la. E não estou a fazer defesa de violência ou de atos desonestos. Mas acredito que seremos aquilo que sonharmos. Seremos aquilo que desejarmos 24 horas por dia, 365 dias por ano. Há que se mexer, derramar sangue, suor e lágrimas. Há que se romper barreiras e limites. Talvez se deslocar para outra localidade, para uma cidade grande ou para outro país.

Há que se sonhar com um alvo muito bem estabelecido e futuro. O sonho pode se tornar realidade desde que vc opere o milagre que vc está a esperar que deus, o acaso, a sorte ou sei lá o quê, lhe traga.

Mas, nunca mais se voltaremos a sermos quem já fomos. É uma regra da natureza. Entretanto, que amanhã estejamos sempre melhores em tudo.


Wan Lucena