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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ABDUZIDO POR UM E. T. PASSARINHO


Almocei sozinho e fui pagar a conta. Saquei a carteira do bolso e quando a olhei de perto não reconheci. Não era minha a carteira que estava em meu bolso. A carteira era de meu amigo que se encontrava, naquele momento, em minha casa a usar, de favor, a minha internet.

Peguei o cartão de crédito dele e entreguei à moça do caixa, certo de que, depois de explicar ao meu amigo a situação, ele não se importaria de eu ter usado seu cartão de crédito naquela emergência. Tudo bem se o caixa não tivesse me mandado digitar a senha do cartão na maquina. O cartão era de chip e precisava, obrigatoriamente, de uso da senha. Retirei o cartão e pedi um tempo.

Peguei meu celular no bolso da bermuda e liguei para meu amigo que, com certeza me passaria a sua senha. Senti vibrar o outro bolso da bermuda e um celular a tocar. O celular do meu amigo também estava comigo. Fiquei espantado e encrencado, sem saber como pagar a conta. Onde estaria a minha carteira? Com sorte, na minha casa. Não me restou alternativa a não ser chamar o gerente e explicar-lhe a situação. Deixei nome e telefone para que a conta pudesse ficar pendurada e eu pagá-la depois. 

Já saia com meu carro da garagem a céu aberto e empurrei o cartão do estacionamento na maquininha que libera a cancela quando, sobre ela, pousou um passarinho todo faceiro, olhando para um lado e para o outro, cantando feito um louco, na altura da minha mão, a menos de meio metro de mim, sem medo algum. Ele ignorava totalmente fato de eu ser predador natural, o meu tamanho ante o seu, o barulho do carro ou a cancela a se levantar. Eu poderia tocá-lo com minha mão tranquilamente. Fiquei ali parado a observá-lo por uns minutos e acelerei o carro em seguida, deixando-o ali, sobre a maquininha, a cantar, como se rindo da minha cara. Olhei o céu limpo e azul do planalto central esperando ver alguma nave espacial. Nem uma nuvem sequer. Tudo azul.

Pensei, ainda no restaurante, que tinha sido abduzido. afinal, a carteira do meu amigo em nada se parece com a minha e o celular muito menos. Quando vi o passarinho, tive certeza ser ele o E. T. que estava ali naquela forma alada, a gozar de minha cara.

A minha carteira eu tinha mesmo esquecido em casa. Não fumei nada. Aliás, não fumo nada. Mas se tivesse fumado, a danada tava estragada. Mas o juízo é que não achei até agora.

Wanderley Lucena