terça-feira, 18 de junho de 2019

A Tourada


O acaso é touro bravo que tentamos segurar pelos chifres o tempo todo
Uma luta sangrenta maravilhosa 
O touro nos atravessa os chifres sem dó e sem piedade repetidas vezes
E somos masoquistas masoquistas e adoramos ver o chifre a nos furar
E o sangue escorrer rua abaixo 
E rimos
E choramos 
E rimos
E choramos
Com a dor e as lágrimas sentimos toda a intensidade do prazer da vida
E mesmo com o sorriso sabemos que a tragédia é parte do espetáculo ao qual somos o ator principal
E é da platéia que aplaudimos encantados e achamos que o próximo Oscar deveria ser nosso
And the Oscar goes too...

domingo, 16 de junho de 2019

As Flores de Plástico



As flores de minha casa não cheiram.
Se cheirassem... meu Deus!
Mas, deixo a modéstia ao canto e...
mesmo sem cheiro
que bonitas que sois.

Intenção




- Eu nunca sei se foi você que escreveu ou se você copiou algum texto de algum livro
- Sou eu sim. Quando não sou eu costumo por as aspas. Fica poético o que escrevo? É a intenção. Além de embelezar, prende a atenção de quem ler. Eis a arte ou a intenção dela! Seu comentário me traz a certeza de que estou a atingir meu objetivo.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Vive Melhor

Vive melhor a vida quem bem olha os seus detalhes, as suas nuances, as suas cores.
Vive melhor a vida quem vai mais longe todos os dias e na caminhada experimenta novos sabores e conhece as gentes.
Vive melhor a vida quem não fica a remoer as mágoas e dores do passado.
Vive melhor a vida quem com atenção escuta o farfalhar das folhas, o riacho a correr entre as pedras e os pássaros a cantar nas árvores.
Vive melhor a vida quem abre as janelas e recebe o ar fresco e puro e deixa exalar o bom cheiro de sua casa para o universo.
Aqui agora, um cheirinho de café quentinho e fresco.
Quem quer?

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Provai


Mando-vos um pouco de mim
Provai-me e vede se vos é doce ou amargo
Se ácido ou cítrico
Provai
Vede se é bom
Não vos esqueçais
Não há ceia ruim quando a fome é grande
Eu vos ofereço o melhor de mim
Provai-me
Em vossa mesa uma porção de coração
Provai-me
Provai todos vós

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Não é Não e Ponto

Você, assim como eu, muito provavelmente, tem aquela enorme dificuldade de dizer não à quem lhe procura pedindo aquele favor, muitas vezes dinheiro que você não tem. Você vai ao banco e com raiva, saca a quantia,  já do seu limite de cheque especial, na quase certeza de que está a fazer o que não devia. Que tal empréstimo vai lhe tirar o sono ante a possibilidade de, quase certa, de que nunca lhe será pago. Você já sabe, de antemão, que terá que, repetidas vezes, se aborrecer em cobrar a qual quantia emprestada. Começa também já a sofrer a angústia ante o aborrecimento vindouro e a certeza de que a amizade, depois disso, vai às favas. Depois que você emprestou a quantia passa a dormir mal e se odeia por ter feito o que não queria. Pois é! Eu passei por essas situações diversas vezes até que desenvolvi uma técnica de atender ao favor, porém, não da forma solicitada.

Quem vem lhe pedir tal favor, em geral, já pensou no discurso, criou todo um enredo de lamúrias e queixas para lhe tocar o coração que ele já sabe, é bom.  Ele, muito provavelmente, já está devedor na praça e está a lhe pedir dinheiro para pagar parte da outra dívida e com a outra parte, divertir-se um pouco porque ninguém é de ferro, não é verdade? Ele sempre diz que é para comprar comida ou para outro fim nobre e você desconfia que esteja a mentir mas prefere acreditar que seu anjo da guarda a lhe buzinar o ouvido quer fazer-lhe pessoa má e egoísta. 

Eu passei a usar da seguinte estratégia. Digo que sim. Isso mesmo, digo que sim. Mas... nunca atendo de imediato. Sempre digo que tenho algo urgente a fazer. Que não tenho o dinheiro no bolso, ali disponível. Que preciso ir ao banco etc e tal. Meia hora são mais do que suficientes para que eu arrume uma estratégia que anula a investida e não saio de todo por mau. Eu volto à ele e lhe informo que verifiquei meu saldo e que está no negativo, mas que mesmo assim tenho como ajudá-lo porque é meu amigo e coisa e tal. Digo que vou fazer a compra no cartão de crédito e vou fazer parcelado para que facilite o pagamento dele. Ocorre que neste momento você terá a certeza de que era mentira o motivo alegado para o pedido. Ele vai lhe informar que já mais precisa e que outra pessoa já lhe fez o tal favor ou outra mentira qualquer lhe será contada. 

Experimente a estratégia e se cuide!


















domingo, 21 de abril de 2019

Originalidade

Quem se preocupa em agradar aos outros, quase e sempre, incorre em um erro que é o fingimento. Quem quer agradar cria capa que não lhe é original. O fingimento é carga pesada que requer vigilância constante e capa que inevitavelmente cairá logo mais adiante. Quem quer agradar tem qualquer problema de auto estima que o impede de se valorizar e de aceitar-se capaz de atrair por si só, sendo quem é verdadeiramente. E quando se é verdadeiro não se está mais preocupado em atrair ninguém porque já se chegou a algumas conclusões óbvias do "eu me basto". E é nesse nível que se percebe que o poder da atração lhe é inerente não importando de se se é feio ou bonito. Auto confiança é poder que transpira na pele e brilha nos olhos. E já não mais se leva o peso da capa do fingimento nem se passa pela vergonha de se ser desmascarado. Ser original é qualidade preciosa. A falsidade é defeito grave que não justifica nem ante a covardia de quem acha-se tão inferior ao outro que tenha que fingir ser o que não é. 

Há quem finja ser rico e há quem finja ser honesto. Há fingimento de todos os tipos a depender do momento e do que se considere necessidade de vestir a capa. Desmascarada fica rota e não remendo que a conserte. Quem se decepcionou ante a falsidade de quem um dia confiou não volta a confiar jamais. É perda irreparável e traição imperdoável. 

Há que se olhar ante o espelho e se ter orgulho do que se ver. Se não se gosta do que se ver há que exercitar a mudança que levará á auto-valorização. E nada tem a ver a aparência física. Pode-se ser feio e se ser atraente. Pode-se ser bonito e nada atrair. O poder da atração passa pela por se ser verdadeiro e autentico ao máximo e sempre.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Tesão

Tesão é carne, é pele, é força bruta, é posse de momento. É importante e faz a população crescer. É imprescindível à perpetuação da raça humana. Ocorre que a gente amadurece e essa força brutal flui para o cérebro. E nessa fluidez ela muda de intensidade e ganha novas nuances. Há que se adaptar ante ao fato de que o desejo e a força passam a ser mais racionais e a entrega já não é abrupta como antes. Os significados e valores dados a tudo, muda. Não sei qual das duas fases é melhor ou pior, mas sei que em ambas sempre valerá muito à pena todo o desfrute de cada gota sorvida ou derramada. 














domingo, 7 de abril de 2019

Cegueira Feliz

Assim que terminei de subir a velha ladeira, já a dobrar no beco de casinhas rebocadas e mal pintadas, de janelas tortas, lá no fim dele, ela me acenou e caminhei rápido já que lá embaixo, olhares furtivos e curiosos me miravam a buscar motivos para a boa fofoca.

A casinha era das mais humildes daquele beco pobre e estava recuada e protegida por uma cerca de madeiras irregulares. Era caprichosa a humilde anfitriã. O teto do casebre era baixo e tinha sido improvisado com velhas telhas de amianto e, nas paredes constavam alguns remendos de  tábuas em compensado encardido. Mas estava limpinha e arrumada para receber visita.

Sentado em falso num tamborete de madeira fiquei a olhar porta á fora as flores aleatórias de onze-horas, de bem-me-queres e margaridas que nasciam sem vergonha no pequeno terreiro em frente. O chão estava ainda com as mascas da vassoura riscadas no chão.  Estava a fazer muito calor e ela vestia um vestidinho estampado em flores minusculas e calçava só umas havaianas velhas e zeladas caprichosamente. O cheiro do café era de pó barato e foi servido em copo americano mesmo.  E, de todo, não estava de sabor ruim. Ela não demonstrava qualquer acanhamento e parecia resignada e ereta como quem se recusava a ver a realidade. A velha máquina de costura servia para unir os milhares de pedaços de tecidos doados por alguma ONG e com os quais fazia tapetes coloridos com muito esmero e que fez questão de me presentear com um.

Era educada e falava em bom português. Era morena quase branca e cabelos meio encaracolados e num coque de evangélica que não era. Havia rigidez de valores em seu caráter e isso se percebia ante seus posicionamentos relacionados à vida. A vida a impunha aquela pobreza, talvez por algum castigo divino. E se a divindade castiga alguém, não sei e duvido. Mas, a vida lhe obrigara aquela realidade e ela parecia saber que era o momento zero de onde pior não poderia fica e que era apenas um momento. Não reclamava de nada a pobre mulher.

Quando voltei a casinha estava já de paredes de tijolo e toda rebocada, mas ainda sem pintura e isso deixava tudo marrom triste. No lugar da cerca agora um muro baixo que lhe dava até certo encanto e poesia. As flores pareciam multiplicadas e agora tinham também vasinhos em terracotas com crisântemos, rosas, marias-sem-vergonha e cravos. Ela continuava limpíssima e a usar a mesma sandalinha surrada, mas muito limpinha. E pegou o par que lhe levei e apertou forte nos peitos enquanto abria sorriso de orelha a orelha como se tivesse recebido uma barra de ouro. Estava mais magra, entretanto a pele e os olhos estavam mais brilhantes. A cara era de saúde e felicidade. Ela, como sempre, de nada me reclamou todas as vezes que lhe visitei e aceitava minha ajuda de bom grado e repetia feliz - amanhã vou comer carne. 

Hoje a casinha tem tom esverdeado triste e ela contraiu diabetes e ficou cega. Faz-lhe companhia o velho e fiel cão a quem chama de Moisés.

- E Moisés lá  é nome de cachorro? - perguntei eu em tom de brincadeira.

Alem do cão fiel, diz ela, faz-lhe companhia os anjos que a protegem e, segundo ela, não são poucos. A casa continua limpa e além das flores agora tem a chão coberto de pedrinhas brancas lavadas que combinam com seu sorriso largo, de orelha a orelha. Continua pobrezinha e a receber minha ajuda aqui e ali. De nada reclama, sequer da cegueira. E desde aqui fico ouvi-la dizer: Oba! Amanhã vai ter carne!


Anjos e Demónios

Todos trazemos em nossa essência duas poderosas forças, o bem e o mal. Como dois cães ferozes eles avançam em direção ao que lhes oferecemos. Não de todo impossível que ao se alimentar apenas um desses cães ele venha a matar por completo ao outro. Aqui e ali escuto alguns elogios à minha pessoa:

- Es um anjo para mim - diz uma

- Es um anjo para nós - dizem outros

E eu de cá a pensar quanto estão todos eles enganados em suas gentilezas que, bem sei, podem ser também apenas momentâneas. É que não sou nem um nem outro. Ou posso ser quaisquer dos dois. Tudo depende apenas do momento e do humor. A mesma mão que abençoa também amaldiçoa. A mesma mão que oferece ajuda é a mesma que pede a depender da fartura e generosidade ou da carência.

É ideal que alimentemos sempre mais ao cão da bondade. Mas, em alguns casos, alguns indivíduos alimentaram tanto ao cão da maldade que já não têm mais recuperação ante ao fato de terem alimentado por demais a sua maldade. e nós que somos do bem, por sentimento de sobrevivência, devemos afastar-nos de tais criaturas. Talvez possamos apenas assisti-los aqui e ali. Mas que tal assistência se dê por pura generosidade e sem envolvimentos maiores.

Anjos ou demônios a depender da situação. E se alguém lhe foi anjo, agradeça. Mas, não exija que lhe seja sempre anjo. No futuro pode ser que lhe atenda o demônio de quem lhe foi anjo. 

Não sou anjo, nem demônio. Sou igual a você. E você é igual à mim. Somos bons e maus. E somos falhos e erramos o tempo todo conosco mesmos e com os demais. Mas, somos assim porque o Universo assim nos fez e quis. 


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Retrato do Amor

Muitos são os indivíduos que vivem toda uma vida sem experimentar o amor. Muitíssimos são os que pensam que a paixão e o desespero pelo outro é amor. Pode-se nunca ter sentido esse desesperado sentimento que é a paixão e ter-se experimentado o amor uma única vez. E quando se experimenta o amor em sua essência jamais se voltará a viver sem ele. A paixão é mesquinha, egoísta e possessiva. O amor é libertador, divisível e generoso. Quanto mais se divide o objeto amado mais se sente amor por ele e por todos e passa-se a amar, muitas vezes, aqueles com quem se estar a dividir. É um “estar preso por vontade”, é um “servir a quem vence o vencedor”. Não é o “meu” amor, mas o amor que sinto. E se amo quero que seja feliz com toda a intensidade. E se não consegue ser feliz ao meu lado, pois que se vá em busca de quem ame. E que saiba amar e não apenas se apaixonar. E eu promoverei a viagem se o puder. E continuarei a amar. O sofrer de amor é “dor que não se sente”. Quem ama, ama a todo mundo. Quem ama, ama a si próprio em primeiro lugar. O amor não se apropria. Quem experimenta o amor logo quer dividir com os demais o objeto amado porque, por amor, se quererá que todos sintam o que se estar a sentir. O amor é banquete farto e alegre de confrades harmónicos e que ao se dividir renasce multiplicado. E como sabiamente disse Saint-Exupéry “as coisas que amo, deixo-as livres. Se se me voltarem é porque as conquistei. Se se me forem é porque se não me pertenciam “. E mais: “Não confundas amor com delírio da posse que provoca os piores sofrimentos”. O ciúme é a insegurança da posse. O amor apenas pede respeito!

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Santa de Mafra

Trabalhar por aqui em terra estranha nunca foi uma intenção minha. Eu já estou a entrar na terceira idade e tenho minha aposentadoria que me garante um presente de conforto e a segurança de um futuro nas mesmas proporções. Entretanto, a convite, me inscrevi numa agência de figuração e o fiz sem grandes expectativas que não a de por algum trocado à mais no bolso e de ter certa obrigação de vez em quando porque sem compromissos a vida pode até perder algum sentido. Mas, e não que a coisa tem caminhado melhor do que eu esperava. Fui convocado - não ouso dizer "convidado" porque isso para as estrelas já estabelecidas - para fazer figuração no filme "Fátima", produção hollywoodiana com atores ingleses, espanhois, brasileiros - Sonia Braga fará a Irmã Lucia já adulta - e que tem á frente os diretores italianos  Edoardo Ferreti e Mario Pontecorvo. Já lá se vão mais de dez dias de muito trabalho que pode começar às 4 da madruga e se estender até às 22h. Sob sol intenso e na secura desértica que vira Mafra em Portugal nessa época do ano ou a levar banhos, muitos banhos, de banheira de mangueira de bombeiros que simulam um dos milagres da Santa do Rosário de Fátima, segundo a lenda. Vi marmanjos a desmaiarem como jaca podre a cair do pé depois de algumas horas imóveis e em fila para o perfeito enquadramento da câmera. Vi um drone a se fazer de sol e toda uma multidão, ao comando, desembestar morro acima e morro à baixo, a fugir do astro regente que caia sobre todos depois de um dilúvio, de dançar aos céus e de ficar multicolor como se um caleidoscópio fora. O café que aqui é o pequeno almoço, o almoço, os lanches todos eram servidos sob tendas calorentas e que em nada protegiam da poeira constante. Tudo se passou no Parque Nacional da Tapada de Mafra. É uma área verde que também é zona de caça nacional. São 1187 hectares de área, toda protegida por um muro de 21 km de extensão que conta com grande diversidade de espécies animais e vegetais, sendo a área regulada e de acesso pago. Criada em 1747, no reinado de D. João V e na sequencia da construção do Palácio de Mafra que lhe é contíguo que tinha a função inicial de lazer real que consistia da caça. Atualmente a caça é feita de forma regulada e limitada. A fauna consiste de gamos, veados-vermelhos, javalis, lobos-ibéricos, raposas, doninhas e ginetas. Pássaros que podem ser águias, perdizes, rouxinois e muitas especies mais. Anfibios como salamandras, tritões verdes, lagartixas e víboras podem ser encontrados nas zonas mais úmidas do parque. Os gamos, veados e javalis são dóceis ao ponto de virem comer frutas ou sementes nas mão de quem lhes oferece, embora a prática seja proibida pelas normas do parque. Certo é que é divertido desde os onibus lotados de figurantes a cantar e dançar um gira ainda durante a madrugada e com uma portuguesa na qual quase vi um bigode a animar a todos com sua dança coreográfica digna da Praça da Alegria ou de um episódio dos Trapalhões. Já tarde da noite e esgotados todos fazemos o mesmo percurso de volta a Lisboa ainda sob a mesma animação e com alguns componentes à menos depois de terem desmaiado durante a filmagem. Mas, o cachet é ótimo e a alegria é uma opção de quem não quer ver outra coisa que não o fato de estar vivo e desfrutar de tudo isso. 










segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O Essencial

Meu inglês é parco, meu espanhol está enferrujado. Basta manter a calma que se consegue se virar numa viagem internacional. Até agora tenho conseguido me comunicar no inglês de maneira a não passar fome porque “one big mac” qualquer um consegue falar. “Do you speak spanish or portuguese?” Quando a resposta é positiva se consegue travar um diálogo mais prolongado, intenso e rico e quando é com o recepcionista do hotel é a salvação para diversas dificuldades. Sair para o aeroporto com mais duas horas que as normais é manter a segurança de pegar o trem na direção errada e ter tempo de consertar tudo antes de perder o voo. Os aeroportos e estações de trens podem ser labirinto gigantesco que se não se tiver o fio de Ariadne, o desespero e os prejuízos serão certos. Comprar o bilhete de passagem direto no guichê e mais seguro que comprar numa maquina onde você vai escolher numa língua que não domina e onde as escolhas são muitas e o erro é quase certo. Os atendentes dominam várias línguas e, geralmente, o inglês e o espanhol para eles é obrigatório e isso pra mim facilita um bocado. Se não se pode falar ou entender tudo, ao menos, “one ticket from...” tem que se aprender antes. Deixar o google maps ligado e a acompanhar o trajeto dp trem em direção ao destino desejado é a certeza de se consertar a tempo e voltar o destino desejado sem grandes perdas e frustrações. Viajar sozinho - é o meu caso - pode ser benção já que não haverá ninguém a ajudar no desespero. Ler várias vezes e com muita atenção as regras de embarque contidas nos talões é importante e pode evitar que você tenha de entregar ao povo do raio X do aeroporto aquele perfume caríssimo que não se adequa dentro do padrão de transporte. Uma mala pequena - pequena mesmo - nunca maior que o tamanho permitido nem acima do peso exigido ou você terá que pagar com os olhos da cara por cada grama ou milímetro que passar. Ousadia e coragem ante a cultura desconhecida é essencial. E não precisa sair falando mal do país ou cidade só porque um garçom não lhe foi gentil. Geralmente todo mundo se predispõe a ajudar. Só não exagere na dificuldade e fique sempre dentro do conforto de fazer o seu pedido e calar-se! Não ouse travar um diálogo e querer contar ao garçom toda estória de sua vida. São algumas das minhas dicas a você que, como eu, quer conhecer o mundo. E depois de uma ou duas viagens fica tudo mais fácil. Então, faça a mala e vá pra o mundo porque ele é seu também!

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Lisboa

Essas ruas seculares por onde pisaram os pés de Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Amália Rodrigues e muitos mais; esses tantos largos, pracetas e esplandas que tanta estória testemunharam; esses tantos jardins deslumbrantes que de tantas cenas de amor entre casais foram palco; essas igrejas tão ricas e cheias de arte que a tantos reis e rainhas serviram para cerimônias grandiosas de casamento, batismos ou velórios; esses telhados vermelhos que reluzem ao sol e que vidas protegem felizes ou não; esses velhos elétricos que sobem e descem íngremes ladeiras e levam gente que já foi lisboeta mas hoje é de Babilônia; esses cafés aos quais paro só pra pedir "um expresso, faz favor" como se bom português fosse; essas tabacarias que vendem elegantes cachimbos a homens cultos e de bigodes mustache mais cuidados que a menina dos olhos; essas estátuas às centenas em pose eterna de eterno olhar sempre para o mesmo lugar e que assim continuarão talvez até o próximo terremoto; esses museus muito bem cuidados e que destoam do desleixo da minha história nacional que arde sob fogo ardente ante políticas negligentes; esses mirantes de onde miro o Tejo e muito além dele e de onde vejo o Cristo, um terço do nosso, mas que é exibido com o mesmo orgulho lusitano dos barqueiros que trazem as sardinhas que são assadas na frente de casa e que infestam toda a Lisboa com seu cheiro e que eu nem gosto.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Tosca e Rasa

A ignorância pode ser uma benção, diz o adágio popular. O problema é quando o ignorante leu a bíblia e por isso se dar ao direito de argumentar com falácias de sua crendice. "Menino é menino e menina é menina. Deus fez assim e ninguém conseguirá mudar isso", diz um post de uma rede social. E o "d" maiúsculo a que me me refiro ao deus bíblico neste texto deveria ser minúsculo e só não é por obedecer às regras da língua portuguesa. Mas, e o hermafrodita? Quem fez o hermafrodita? E eles estão por ai, muitas vezes do nosso lado, apavorados ante a possibilidade de serem descobertos e tidos por monstros. Nesse caso a ignorância deixa de ser benção e passa a ser maldição.  A falácia é tão tosca e rasa que bastaria pensar um pouquinho e já estaria em terra. O pior é que, muitas vezes, o ignorante até percebe que seu argumento é falso, mas sabe que se o lançar ao vento encontrar bom pouso em cabeças tão ou mais ignorantes como a sua e que engrossarão o caldo do preconceito e vontade de jogar pedras ao próximo. A verdade é que a vida não está apenas em branco e preto e não precisa ser eterna dualidade. Existem muitas mais cores nesse leque. E o bom é que apesar da insistência em represar a corrente da vida que corre por si só e não por vontade alheia, a represa é mal construída e a todo instante é derrubada. Sexualidade é individual e não é transmissível como se uma peste fora. É inerente à todos e única em cada um. Tentar interferir na sexualidade alheia é para gente inxerida e desocupada que fica a olhar a vida a alheia e, com inveja, medo, ódio e mesquinhez quer que o mundo dos outros seja tão miserável, medíocre e ressequido quanto o seu!

domingo, 2 de setembro de 2018

A Cor Laranja




A minha casa tem luz amarelada e cheiro de café
Tem um Buda lindo e Stromae a cantar Formidable
Tem uma janela e posso olhar para outros mundos
Que também têm janelas de salas que têm luzes alaranjadas
Tem um silêncio imenso no interior azul e atmosfera de saudades
E amor que emana rumo a todas as janelas de luzes alaranjadas
Para a sua janela de luz amarelada
Tem um café ai?

sábado, 1 de setembro de 2018

Um Ovo chamado Preguiça

Em meu retiro não voluntário chamado preguiça não encontro inspiração para escrever sobre nada. Sinto inveja da Clarice Lispector que quando sem inspiração escrevia sobre o primeiro objeto que lhe chamasse a atenção. Tem um texto dela sobre o ovo. Um quase tratado sobre um ovo. Sim, um ovo. E aqui com uma mesa bagunçada e com tanta riqueza de objetos. Até uma cuia de bambu com uma banana dentro. E olha que a banana já inspirou todas as artes, da pintura à musica, da arquitetura ao cinema e até na pornografia é fruta recorrente. Só me vem a preguiça que me impede botar cada coisa em seu lugar. E sei que a preguiça é pecado capital. A cidade está muito quente e quero culpar à natureza. Ma, sei que é fuga mentirosa. É preguiça mesmo! Assumo! Estou empolgado com algumas viagens já prontas e que farei logo e que espero, me tirem desse estado de letargia. Confessar pecados, ainda mais quando capitais, é sempre arriscado inclusive se ao padre. Padres sempre preguiçosos que te darão uma penitência de passar alguns dias de joelhos sobre o milho quando ele próprio, como o macaco, está sentado sobre o rabo. Padre é profissão sim e para gente preguiçosa e covarde. O padre é sempre aquele indivíduo a fugir de sua própria estória ou do monstro que carrega em si. É aquele indivíduo que quer uma sombra de árvore mas que não tem coragem de plantar uma. O mesmo serve para o pastor. Pastor é profissão. Imagine se alguém lhe pergunta: qual a sua profissão? e você responder: Pastor. Eu morreria de vergonha de ter tal profissão. Mas, estou a sair do foco já que é da minha própria preguiça que estou a falar e não da preguiça do padre. Mas, que interessante a preguiça do padre. Uma hora escreverei sobre ela. Até porque me lembrei de um deles que era o responsável por uma paróquia perto da minha casa. O típico pançudo que sentava nos degraus das escadas e ficava a bocejar por todo o dia enquanto vigiava a vida dos rapazes que viviam ali em regime de internato. Eu nunca fui preguiçoso. E digo sem medo de estar a vos mentir. A minha vida sempre foi de muita labuta e desde muito menino já ia para a roça a ajudar meu pai a capinar o arroz. Aos 14 anos já estava a trabalhar a varrer uma loja na minha cidade e antes disso, juntamente com meu irmão mais velho, trabalhei em olaria a fazer tijolos, em carvoaria, a quebrar pedras etc... aos 16 anos minha carteira profissional já estava assinada e aos 18 anos estava aprovado em concurso na capital federal do Brasil e em atividade que sempre requereu muita disciplina. Mas, hoje... aposentado... com esse tempo quente... com a vida ganha... sem preocupações já que o dinheiro para pagar as contas é certo... acordo tarde e com dificuldade. Talvez seja mesmo a idade. Não sei. Escrever é ato tão prazeroso quanto comer manga madura e se lambuzar com ela. Mas, nessa preguiça me falta a inspiração. Vontade sempre tenho. Mas, fico a buscar o ovo da Clarice e não acho. Por fim desisto e me entrego à minha indolência. Ligo a tv e deslizo os dedos o dia inteiro no controle remoto a buscar algo interessante. Hoje achei um ovo chamado preguiça e olhe no que deu! Mas, o ovo bem que podia ser a banana!

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Saudades de Brahma

A paisagem com a ponte do outro lado do rio; o passarinho que leva no bico o inseto para alimentar os filhotes no ninho que não sei em qual árvore fica; o estridular do gafanhoto; o canto da cigarra; a abelha a recolher o pólen das flores e que vai virar mel; as maçãs sobre a minha mesa e que poderiam virar natureza morta na tela do pintor; o Fred Mercury na tela e no ouvido a cantar Under Pressure, mas pra ficar ainda melhor, com o bom e velho camaleão David Bowie - aumenta o som porque essa é pra ouvir no volume máximo porque a vizinhança merece também e porque a vida não é pra ser gozada ao meio tom muito menos em baixo volume; a sopa rica e que leva, alem da cenoura e das batatas, só pra lembrar o meu Brasil, a boa e velha macaxeira. Nova York está, imensa, na minha parede; a cafeteira vermelha, linda e que não faz café bom; e eu; a saudade bate e o coração acelera como quem desce num escorregador; e o Pink Floyd canta com Pearl Jeam, Confortably; o cheiro da sopa; o Buda com flor nas mãos e que encanta a sala.

A saudade só não é maior que o prazer de sentir tudo por meio de todos os meus sete sentidos. A saudade não é triste. São saudades de Brahma, o meu shitsu tão lindo e querido que está em melhores mãos que as minhas, nas de Dona Davina, minha velha mãe. A saudade é a certeza de que vivi. As coisas estão em ordem e a vida flui como o riacho caudaloso por entre as pedras no Jardim do Gulbenkian. E o sol que faz traz calor que obriga a moças a fazerem topless em total liberdade e sem serem incomodadas. Apreciar o vinho vermelho púrpura, seco e encorpado e que desce como veludo depois de me inchar ao extremo as glândulas palatais. Não há mesmo nada a reclamar. Se fosse reclamar seria de algumas desventuras que estão no passado. E se está no passado já passou. Planos e planos. Todos eles cheios de vida e de lugares novos. A abelha na flor, o canto da cigarra, o passarinho... 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Pássaros e Morcegos

Numa dessas crises de culpa que todos temos procurei uma amiga lisboeta que me indicasse um bom psicólogo para me servir por terapeuta. Crise culpa sim senhor! Quem não sente culpa de alguma coisa que fez ou deixou de fazer nessa vida não sabe o que é viver e aconselho a procurar, não um psicólogo por terapeuta, mas um psiquiatra por médico. De já lhe adianto que aquela sua velha desconfiança de ser um psicopata tem grandes chances de ser lhe ser diagnosticada. Mas, as minhas culpas, eu ao menos acho, convivo com elas como se me fossem velhos chocalhos enferrujados que insistem em me tirar o sono algumas vezes. Eu ando a falar comigo mesmo - isso é falar sozinho? Não é. É falar comigo mesmo! Falo com minhas culpas, pode? Comecei a achar que devia procurar um psicólogo. E foi o que fiz. Psicólogo pra mim - perdoe-me você psicólogo que me venha a ler, pois sei que você vai discordar de mim e você pode ter razão sim - é aquele profissional que você paga para falar à ele tudo o que você não tem coragem de falar à mais ninguém. Você conta aquela sua confidência bem cabeluda pra ele e fica sempre à torcer pra que ele não se assuste o suficiente pra lhe indicar ao psiquiatra. Você sempre vai contar e torcer pra ele seja aquele profissional sério e que por ética profissional jamais contaria o que você contou à ele a nenhum outro cristão da face da terra. Pois bem... minha amiga me indicou na mesma hora um psicólogo amigo dela, profissional seríssimo e dos melhores de Lisboa.

- Ele é espiritualista e médium, viu? Mas, ó! É seríssimo! Podes ir de olho fechado. Depois me conta! - disse-me ela.

Já faz muito tempo que respeito muito os espíritas. Todo espírita é um espiritualista, ao menos para mim. E sei as diferenças de ambos. Mas, cheguei ao seu consultório depois de trocarmos mil mensagens via whatssap já que, apesar de está em frente ao local, não conseguia achar. Enfim, ele me apareceu à porta, se apresentou e pediu para esperar um pouco na sala enquanto ele terminava um atendimento. Um som new age de fundo e uma TV na parede que emitia imagem de paisagens tipo céu. Pensei que ele ia me prescrever algum floral de Bach e que ia me impor umas três sessões de terapia por semana. Conversamos mais duas horas e lhe contei metade de minhas culpas e algumas maldades e bondades ao longo da vida. Bondades sim! Já fiz algumas. É uma maneira de me equilibrar e de compensação pelas maldades. Não! Não fiz tantas maldades assim, mas já as fiz talvez tanto quanto você. Talvez um pouco menos, talvez um pouco mais. Nas suas muitas intervenções durante a conversa parecia me querer aceitar que nada havia de errado comigo. E concluiu a me dizer eu não precisava de psicólogo ou de psiquiatra. Tudo o que eu lhe trazia era a experiencia de vida de quem está vivo. 

- Mas, não é possível - Pensei eu com muito alívio.

Perguntei-lhe quanto me custaria as duas horas e tanto de seu tempo a me ouvir e ele me disse que nada cobraria.

- Como assim? Não vai me cobrar nada? - Perguntei meio atônito - O senhor trabalha por piedade?

Ele me explicou que eu não era seu cliente e que seria anti-ético cobrar. Que não trabalha por piedade e que costuma cobrar de seus clientes sim. E eu voltei pra casa muito leve e quase a aceitar que aquele moço estava mesmo era a cumprir uma missão mediúnica que consistia daquilo ali mesmo. De receber pessoas e aplicar-lhes injeções de bom ânimo. Continuo a falar sozinho e ouço minha voz como se a de um amigo ao meu lado. Agora acho que entendo os amigos imaginários das crianças. Não preciso de especialistas que me convençam que o normal é ser outra cousa ou fazer diferente. Escutar-me é dá asas ao que tenho em mim. E saem de dentro de mim pássaros e morcegos.

sábado, 4 de agosto de 2018

Tempo Infernal

O suor desce pelo rosto apesar de eu estar em casa e já ter tomado uns dez banhos gelados. Não é a andropausa, é o calor do tempo mesmo. Eu nunca imaginei que pudesse ser essa Lisboa tão quente. Hoje fez 43 graus e em alguns outros lugares do país chegou a 50, informou o jornal local.  O povo todo foi pra praia, pra o rios, para as piscinas ou, como no meu caso, para debaixo do chuveiro de água fria. Eu arrendei um apartamento sem ar condicionado por achar que tal luxo é uma agressão ao planeta e ao meu meu bolso. Mas, se arrependimento matasse... Já tomei galões de água gelada e agora são exatamente 19h 20min e o sol está à pino e a ferver as moleiras e por as mãos sobre o teclado para escrever é como levá-las a um forno. É difícil escrever e o ventilador está ligado a jogar ar na minha cara. Eu sempre fui calorento e por ser nordestino achava que seria fácil enfrentar o calor ao qual os portugueses me avisaram e achava ser pura frescura deles que de quase tudo reclamam e não sabem o que é quentura como a do nordeste do Brasil, pensava eu engadamente. Mas, eles tinham total razão. O Presidente da República, figura simplória e desapegada, bonachona e quase um Santa Claus de simpatia, foi filmado a dar entrevistas enquanto tomava banho, nu da cintura para cima, todo sorrisos, numa praia de água doce, num rio qualquer no interior do país. E eu só me lembrei do Rio Corda onde cresci a me jogar em suas águas cristalinas em corredeiras geladas e a pescar piaba-larga, piaba-dura, ou piau cabeça-gorda. Aqui fico recluso, sem coragem de botar a cara na rua e morrer esturricado. O país começou a incendiar-se e o aparato do Estado luta contra as chamas dia e noite. Mas, não estou a reclamar. Não, de jeito nenhum. Estou apenas a relatar-vos nessa crônica a própria vida e um pouco do meu dia que tinha tudo pra não render sequer uma linha. E nem estou a tirar leite de pedras, confesso! A noite, já sei, será tão abafada e quente quanto a de ontem. Mas, logo chegará o inverno e as temperaturas cairão até abaixo de zero e meus pés pedirão meias grossas e terei de ligar o pequeno aquecedor que me salva tanto quanto este ventilador. E  chegue logo o verão. Viver as tão temidas e alardeadas mudanças climáticas aqui é privilégio danado de bom. Com sol, com chuva, com frio ou com neve, sempre valerá porque o que importa é a temperatura que está dentro de mim. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Intensidade

Dirijo-me à você que insiste em julgar os semelhantes e que acha que sou ateu! Acredito em Deus muito mais que você, talvez. Acredito tanto que sei que Ele não precisa que eu o defenda enquanto agrido os que considero pecadores pois Ele é Deus! Defender o Todo Poderoso é provar que Ele não poder algum. O meu Deus não se pode denominar, qualificar ou medir. É só amor! Eu não preciso cultua-lo porque Ele não é ególatra e só quer que eu viva toda a intensidade da minha humanidade da qual Ele mesmo me dotou! Não sou pecador porque se tal fora estaria decretada a falibilidade d'Ele em primeiro lugar e, depois, da sua maravilhosa criação. Não vivo a minha vida em ética por medo do inferno ou por fazer merecer o paraíso porque dessa capacidade Ele Próprio me dotou e eu amo exercitá-la enquanto escolho entre fazer o bem ou o mal. E quase sempre escolho o bem. Será que estamos a falar do mesmo Deus? Eu não me importo com as diferenças de todos nós porque já sou suficientemente maduro para saber que são elas que nos fazem, no todo, um único ser universal e que são essas nossas mesmas diferenças que nos faz tão lindos! Não preocupa o pos-mortem mas, tão somente, a vida! É nela que concentro toda a minha gratidão ante o Universo Deus e a vivo com a maior intensidade possível por saber que nisso somente que reside a vontade Dele em mim e que, muito provavelmente, só se vive uma vez. Amo-vos todos! Amai-vos, manda o vosso mestre!

domingo, 29 de julho de 2018

Lisboa em Francês

Lisboa anda afrancesada, diz a manchete do jornal de hoje. Eu também acho. Já faz algum tempo que ouço com certa frequência essa língua que me faz pensar em croissant e na Torre Eiffel. Há! Paris! Os portugueses se magoam com isso e com razão. Afinal a cultura portuguesa é riquíssima, oras pois pois! Lisboa tem essa luz toda que reluz nas calçadas brancas de pedra portuguesa e que, nem de longe, pode se confundir com uma rua parisiense. Eu que não sou daqui e tô muito mais preocupado com a cultura brasileira que se destrói por conta de outros fatores e esses bem antropofágicos, não reclamo e, pelo contrário, adoro comer num bistrô qualquer numa dessas ruazinhas de Lisboa. Os franceses cá estão a invadir a capital por causa de diversos fatores que vão desde o clima quente até o investimento e a satisfação pessoal de viver entre gente que ainda trás em si certa compaixão pelo próximo e cuida de manter algum cuidado por ele. Talvez pela tradição católica, não sei. Mas, são simpáticos sim os portugueses. E claro que há a exceção. Mas, reclamar que Lisboa está a virar Paris parece até pecado. Entretanto, sou pela manutenção das tradições nacionais seja de qual país for, desde que não se trate de diversão ás custas do sofrimento alheio ou dos animais. Aqui ainda se assistem touradas e no Campo Pequeno há uma arena belíssima que fica entupida de senhoras bem vestidas e maquiadas, aqui ou ali, acompanhadas de seus maridos empacotados e com coberturas que lembram o século XVIII. O sangue corre para o delírio deles enquanto o boi morre em espetáculo estúpido e de muitíssimo mal gosto. Mas, em Alfama, bairro boêmio agora esvaziado de portugueses que não conseguiam pagar seus alugueis ou se renderam à especulação imobiliária, as famosas procissões cantadas por Amália Rodrigues estão cada vez mais minguadas. O bairro, assim como tantos outros, estão tomados por estrangeiros - e eu sou um deles, só que na Ajuda, freguesia acima de Alcântara. É esperar que a cultura portuguesa ganhe esta guerra!

sexta-feira, 27 de julho de 2018

terça-feira, 24 de julho de 2018

Titanic Brasil

Já era meia noite quando cheguei à roda de samba lisboeta do Titanic, às margens do Tejo e ao lado do Cais do Sodré. A casa é um galpão armazém que como tantos outros da região foi transformado e adaptado e virou casa de diversão noturna que a ninguém incomoda por não ser área residencial. De fácil acesso e a poucos metros da zona mais boémia da cidade baixa donde se concentram as casas noturnas mais quentes e infernais de Lisboa. E não pense pejorativamente. É totalmente seguro e organizado e, só se você prestar muita atenção vai perceber que a boate é de strip-tease. A região do Cais do Sodré até chegar na Torre de Belém, sempre às margens do caudaloso Tejo, é hoje área de ricos restaurantes e cafés, museus, academias, escritórios e órgãos públicos. Um passeio lento e à pé ou, mais rápido e numa bicicleta alugada, é de puro prazer. Mas, é sobre a roda de samba do Titanic que desejo vos falar. O lugar não serve comida, mas apenas bebida. Lotado de gente brasileira ou de turistas brancos e pretos, a muvuca é linda e miscigenada. A mesa de samba está ao meio do salão e ao acesso e toque de todos os que ouvem o bom é riquíssimo samba do Brasil. Era domingo já madrugada de segunda e todos pareciam ter esquecido que a segunda-feira não era santa. O batuque dos atabaques e chocalhos ou o som harmônico do cavaquinho com o pandeiro chamavam para o “soltar a goela”.  Todos cantavam junto enquanto o microfone era ocupado pelo vocalista que, numa espécie de transe, levava o povo ao delírio. Lindo de ver! É pra dançar! É pra cantar! É pra viver!

terça-feira, 17 de julho de 2018

Triste-feia




Triste-feia é o nome da ruazinha. Não é uma ruazinha que se poderia chamar Alegre-linda, mas não é de todo triste ou feia. Tem certa graça a tristeza da ruazinha que me é até bem bonitinha a feiura dela. Está em Alcântara, esta em Lisboa, está na Europa. Mesmo que fosse triste e feia eu moraria nela só pra fazer festa e botar a minha boca cheia de dentes a sorrir na janela enquanto o som, a todo volume, tocaria Gonzagão, Gonzaguinha, Fred Mercury e o escambal! A ruazinha não seria linda, mas feia não seria.

sábado, 7 de julho de 2018

Monsanto

Hoje fui de novo rumo ao Monsanto a fazer uma caminhada que sabia seria longa. Voltei para casa mais de três horas depois e depois de muito resistir a chamar um táxi. O joelho informou-me está quase no limite e a planta do pé direito queimava como se estivesse a pisar em brasas. Pensei que chegaria com bolhas, entretanto, tudo bem. O Monsanto é uma daquelas maravilhas da natureza que o lisboeta tem aos fundos de sua casa e, como quase todo mundo, não aproveita. E uma coisa que o português faz o tempo todo é reclamar da vida. Mas, eu não sou português e, mesmo que não fosse aqui, fosse em qualquer lugar, extrairia cada gota de prazer daquilo que me estivesse à disposição. A trilha é segura e conta com placas de sinalização que, num vexame geral de esgotamento, se pode pedir ajuda a uma ambulância de plantão já que os telefones estão informados. E pode ser em cima da montanha ou no precipício lá embaixo, eles irão te buscar. E costumam ser rápidos no atendimento.  As trilhas são de encantar ao mais duro dos homens. Podem ser asfaltadas ou trabalhadas em carrascos de granito ou outra pedra qualquer. Mas, também é seguro sair delas e adentrar na mata por meio das picadas que sempre acabam em outra trilha. As flores silvestres estão por toda parte ao longo das trilhas e os passarinhos são trilha sonora constante. Podem ser menores que a unha de um dedo mindinho ou de tamanho bem maior, mas as cores eclodem em explosão. Amarelas, roxhas, vermelhas, brancas. Não há como passar indiferente a uma flor branca que, em cacho, parece uma mandala branca. Linda demais! Não é raro ver as pombas, os melros, os pintasilgos, os beija-flores, e tantos outros que não sei denominar. Um deles, minusculo como o menor dos beija-flores, mas com um poder nos pulmões que não ficaria atrás de uma corneta, a cantar feito um doido, acima de mim, indo para lá e para cá. Pensei que poderia ser um drone a me espionar, veja só! Mas, se fosse um drone a me espionar a última coisa que faria seria emitir algum sinal, muito menos aquela melodia que que me impressionou tanto. Ademais, porque alguém iria querer me espionar, não é verdade?

Cheguei em casa com a sensação que o esgotamento estava ali na esquina. Um banho recuperador - um café, faz favor! - e uma vitamina funcionam melhor que qualquer reza de qualquer cristão. 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

E só!

Ante o grande mistério que é a vida, considero a possibilidade que o Cosmos seja, Ele todo, inteligencia infinita e, talvez, sejamos parte dele. Ante todas as grandes questões não respondidas: quem somos? de onde viemos? o que estamos a fazer aqui? para onde vamos? etc... considero-me incapaz de afirmar que não exista "algo" mais. Entretanto, jamais poderei conceituar o que seria esse "algo mais". Considero que qualquer tentativa de explica-lo é mera ficção especulativa. Não posso deixar de me sentir em mim todas as sensações e, ante toda a maravilha que é a odisseia humana e o Cosmos como um todo, rendo-me em atitude contemplativa. E só!

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Tradição é Tradição

Ontem à noite fui ver o festival de Santo Amaro. A Paróquia do referido santo fica pertinho daqui de casa e se enfeitou toda e as ruas próximas estão todas cheias de bandeiras coloridas e de longe se ouve, quando à noite, a música portuguesa e o cheiro das sardinhas assadas inunda o ar. A paróquia de Santo Amaro, já lhes contei, é das construções religiosas mais antigas da cidade de Lisboa, e data de 1.549. A construção está revestida de ricos azulejos portugueses coloridos e a arquitetura é em formato circular. Já esteve abandonada por longo período e no momento está aberta ao público embora ainda necessite de cuidados de restauração. As escadarias não são para os fracos. Mas, pode-se chegar até ela sem encarar as escadarias, bastando para tanto que se vá por ruas paralelas em subida bem menos íngreme. Por cerca de 15 dias ocorre o festival que conta com palco para a apresentação de artistas locais ou não. Quem deu as caras por lá foi a moradora recente e ilustre, a Madonna. Mas, ficou dentre todos e não subiu ao palco por questão de juízo. As barracas de comida podem ser só um quiosque que vende churros ao forno de lenha gigante e que está montado num food truck e que faz pães artesanais e cujas filas para comprar não são pequenas. Num desses quiosques que vendia um pão braco e sem graça recheado de um bife ou um pedaço gordo de barriga de porco. Nada de molhos. Apenas o pão e a barriga  assada. De inicio não identifiquei o que era aqueles pedaços de couro quase transparente e que assavam sobre a grelha enquanto o moço jogava sal grosso. Sal grosso é o único tempero e nada mais. De início achei que fossem Lulas. Tive de perguntar pra matar a minha curiosidade do que se tratava a iguaria que era esperada com ansia em longa fila. A multidão se aglomerava ante a imensa grelha a esperar que o seu pão fosse aberto por uma faca tipo peixeira e dentro dele fosse colocado o generoso naco de barriga ainda a esfumaçar e a soltar gordura em abundância. Talvez já comido uma porção de chouriços (linguiças) não me atrevi a pedir o indefectível sanduiche. A cerveja custava 1 Euro e tomei dois copos. No palco uma dupla cantava algum "vira" e peguei a rua estreita que dava na Aliança Operária e fui pra minha casa certo de que a cerveja me ajudaria a pegar no sono rapidamente. Deixei Santo Amaro no seu alto e a prometer-lhe que no domingo participarei da sua romaria que tradição da comunidade do bairro. E tradição é tradição.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Cosmos que Tudo Habita

Boicotamos ao Cosmos Universo Deus que habita para dentro e para fora de nós todas as vezes que mentimo-nos com promessas que fazemos e não cumprimos. Boicotamos o Cosmos todas as vezes que agimos com desleixo em relação aos nossos compromissos quotidianos, corriqueiros e sem importância. Boicotamos o Universo todas as vezes que botamos goela ou pulmão abaixo aquilo que nos intoxica. Boicotamos o Universo todas as vezes que tratamos o nosso próximo de maneira diferente daquela à qual gostaríamos de sermos tratados. Boicotamos ao Cosmos todas as vezes que relaxamos com nossa higiene e aparência pessoal, bem como, com o nosso meio ambiente donde estivermos inseridos. Boicotamos o Deus que nos habita todas as vezes que agimos com preguiça e mal humor em relação à tudo, mesmo que ao bife que amassamos às porradas e que comeremos em seguida e que irá carregado de tudo o que lhe impusemos até chegar à mesa.

Toda a energia que emanamos em relação à nós mesmos, aos demais seres, ao Cosmos ou meio ambiente nos retornará em dobro ou sabe-se lá quantas vezes mais. Daí a importância de nos mantermos vigilantes em relação ao amos com o qual nos tratamos, e ao Cosmos Superior que nos habita à todos e à tudo. Mais respeito, por favor! Cuide-se! Cuide! Cuidado!

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A Poesia da minha Janela

A roupa foi posta no varal e dança conforme o comando do vento que a levanta como se fosse uma bandeira e a deita novamente em movimentos suaves. Os pombos são um problema já que podem cagar tudo desde a varanda acima. O melhor é não deixar a roupa dormir no varal. De dia eles só querem comer as migalhas jogadas apartamento abaixo pelas velhas senhoras que se divertem com a cena. Mas, também tem os gatos. E esses não cagam sobre a roupa no varal. São umas dezenas e ficam sobre as lajes e muros. As mesmas velhas senhoras lhes jogam de um tudo. Pedaços imensos de carne ou ração industrializada. Quem lhes rouba bons nacos são as imensas gaivotas que veem a cena desde não sei de onde, desde o céu infinito e descem em vôo rasante e pousam suave e avançam sobre as carnes sem se importarem com os felinos. E os felinos, já acostumados, não se importam e sequer lhes olham. Os gatos devem ser todos castrados porque não os ouço a gritar quando de acasalamentos. E que alívio! Nada pior que gato no cío. Ouço gente no cío no apartamento acima, mas isso não me incomoda e faz parte da vida e de quem vive em sociedade. Não é sempre e não dura mais que meia hora e tudo se acalma e volto a dormir. A sinfonia de pássaros é durante todo o dia. Eles se aproveitam das migalhas e das muitas árvores que compõem o interior do quarteirão e para onde meu apartamento está voltado. E sinto certa inveja de quem tem a visão da rua e da ponte 25 de Abril, do Tejo, de Belém e de Alcântara. Inveja branca, diga-se! Mas, os frutos das árvores colorem o verde. O amarelo do limão siciliano é o que mais veja. Mas, tem o laranja da laranja e do pêssego. Tem o verde dos figos e tem flores de cores variadas. Não é algo que não se possa dizer ser sem graça. E tem muita poesia a olhar desde a minha janela!

terça-feira, 22 de maio de 2018

Deus é Melro

Fui ali no mercado comprar umas coisas e percebi o canto daquele passarinho preto daqui e canta tão parecido com o nosso sabiá ai do Brasil. No Largo da Igreja da Ajuda eles estavam aos bandos e a cantar feito doidos nas antenas acima dos telhados, nos fios de telefonia, nos braços dos postes de iluminação pública, nos balcões e varandas dos apartamentos, nos galhos das árvores, na torre e até no Galo de Barcelos que a enfeita. Uma sinfonia de Melros. 

Eu precisava saber que pássaro era esse. E de hoje não passaria. Qual o nome desse danado que canta, inclusive, madrugada à dentro e que ainda ontem me acordou às 4 horas. E eu não me incomodo, de maneira alguma, de ser acordado pelo danado que dorme em alguma árvore aqui perto da minha janela. Eu já voltava pra casa e quase me dirigi ao velhinho de bengala pra lhe perguntar qual o nome do passarinho, mas desisti ante o temor do incômodo. 

- Perguntarei ao Zé - o Zé é o dono da pastelaria que tudo sabe de todos. E se tudo sabe de todos iria me dizer o nome do sabiá português.

Parei na sua pastelaria e pedi o cafezinho e já fui perguntando. E o Zé não me decepcionou.

- É o Melro. Tem o Melro e tem a Melra. O Melro tem bico alaranjado e a Melra tem bico castanho.

E pronto! Voltei pra casa com minha curiosidade saciada. Se Deus não é o sabiá que pensei, agora sei, ele é Melro. Ou Melra!

Abaixo o endereço no YouTube para quem quiser ouvir o canto do Melro, o pássaro que me canta de dia e de noite. 



quinta-feira, 17 de maio de 2018

O Zé

O Zé, o da pastelaria daqui pertinho de casa e onde vou todos os dias a tomar um café e a comprar um ou outro pastel de nata, o famoso pastelzinho de Belém, vez em quando, daria pra escrever um livro sobre ele. A pastelaria é exatamente igual à qualquer outra. O espaço é pequeno e conta com apenas três mesas e o balcão de atendimento donde, por trás, está o Zé com o seu bigodinho português típico, sempre vestido de calças sociais e camisas riscadas mangas longas dobradas até metade dos braços, geralmente em tons azuis. Vez por outra saca dos bolsos o pacote de euros que quase não lhe cabe nas mãos e arranca alguma nota para o troco e fico a pensar: isso aqui fosse o Brasil... e  o Zé nunca mostraria esse horror de dinheiro. 

Ontem perguntei ao Zé se ela sabia quem era a minha estranha vizinha a qual jamais tinha visto e que mora um piso abaixo do meu e que me abordou na portaria para contar-me segredos de liquidificador. Estava a abrir o escaninho enquanto ela contava os mesmo segredos á outra vizinha que aproveitou para ir-se enquanto ela se aproximou do meu ouvido e me disse coisas que não entendi porque tão baixo me falava. Mas, pedi que repetisse e ela veio me contar que o seu vizinho de porta estava a traficar drogas e que eu tomasse cuidado. Nunca vi qualquer movimentação estranha aqui e, ante o nível dos moradores, desconfiei daquilo que me contava e logo pensei tratar-se de alguma doida despeitada e com problemas com o vizinho e que queria minha ajuda para difamar a reputação do moço que jamais vi. Eu a informei ser policial aposentado e ela me disse ser seu marido Chefe, com C maiúsculo, da PSP, a polícia civil daqui. Procurei sair em disparada logo que a portaria se abriu e ela se dirigiu a outro morador para continuar sua lamúria. Em sendo seu marido policial desconfiei ainda mais daquilo que me contava já que o marido poderia resolver o problema facilmente.

O Zé sabe da vida de todo mundo. São milhares de moradores no bairro e ele parece saber detalhes de todos. 

- É uma de óculos, cabelos chanel, faladeira? Não se dar com a Fátima.

A Fátima é outra vizinha que mora no apartamento ao lado da portaria e que abre a porta toda vez que percebe o barulho do portão só pra saber quem entra e quem sai. Cão de guarda melhor não há.

- Ela nunca foi casada e o tal chefe da PSP é seu amante e a mantém. Esteve ela internada em casa de repouso tempos atrás. Mora no primeiro piso no apartamento de frente pra rua. Não é?

Assustei-me com tantos detalhes sobre a vida da moça e fui-me embora certo de que doido aqui tem aos montes e que sou um deles. O Zé poderia ser a Maria Fofoqueira, mas ninguém o considera. Todos estão ali sempre ávidos por suas novidades e, basta ficar ali, quietinho no balcão a tomar o café e já se ouve aquele cliente a comentar os detalhes da vida do outro que acabou de pagar a conta e se foi. E quando me vou posso imaginar, com sorriso na cara, o que de mim falam. O bom é que já não mais me importa o que mim pensam ou falam, mas sim falra deles aqui no meu blog. 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Europa é isso aí!

Pensa-se que por ser Europa já não mais se veriam determinadas velhas profissões. Mas, na Praça da Figueira em Lisboa, o velhinho engraxate tem fila a lhe esperar e a placa na ruela perto da casa, em letras desleixadas e coloridas, pendurada sob o telhado baixo de casa humilde, informa em bom português: “amolam-se facas e tesouras”. As senhoras de costura estão aqui e ali a remendar, arrematar e até a fazer roupas, bem como, os altivos e, geralmente, esguios alfaiates. Estes se recusam a fazer as bainhas das minhas calças e trabalham apenas com roupa masculina. O barbeiro de bigode mustache enche de goma a cabeleira farta de um português sem dentes. Nas cidades medievais as artesãs de tapetes são cartão postal e os ferreiros fazem de armaduras de cavaleiros a chocalhos pra botar no pescoço da vaca. As doceiras fazem suas casas as guloseimas que estavam restritas aos conventos. O velho senhor que se veste de marrom todos os dias e que conserta cadeiras velhas e passa verniz na madeira a combinar com a cor da sua roupa. E não é tão difícil encontrar as velhas senhoras e suas agulhas, sentadas a beira das portas, a tricotar ou a crochetar. E tem as ciganas a abordar todo mundo e a vender suas bugingangas chinesas compradas lá Martin Moniz e que juram ser coisa de primeira. E na Praça da Figueira, muçulmanos e evangélicos, todos com cara de árabe, vendem as ervas que curam e aliviam, mas que não ão indicadas a menores de idade. E vendem coentro a dizer que é marijuana ou plástico marrom como se haxixe. É a Europa!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A Praça

Fui à Praça Martim Moniz comprar óculos que trazem as cores da bandeira francesa por estampa no lugar das lentes, pedido de um amigo brasileiro. A dita praça é linda e tem fonte luminosa e jatos que são erguidos em jatos rumo ao céu azul de Lisboa dessa época do ano. Entretanto, apesar de espremida entre Alfama, Mouraria, Rossio e mais famosos e charmosos bairros, é terra pedaço chinês. E chinês que se preze exerce a atividade de chingue-lingue. A atividade não é percebida se não se descerem aos porões dos edifícios ao redor da praça. Eu já tinha percebido a intensa movimentação de carroças cheias de caixas e carregadas pelos empregados morenos indianos que concorrem com os chineses nessa atividade. São vários subsolos de um edifício ao qual os corredores são tomados por mercadorias falsificadas e gente feia. O entra e sai de carrinhos com mercadorias lembram os catadores de recicláveis do Brasil. A cena lembra Bangladesh. Pra quem for fresco não é lugar indicado. O impulso é de segurar a carteira e fechar as narinas. Mas, apesar das aparências, não se conhece má fama do local e o que parece ser um formigueiro, na verdade, obedece certa ordem e a feira subterrânea é legal e seus comerciantes têm alvará de funcionamento. Se o produto é chinês, a praça é portuguesa e está ao pé do majestoso e imponente Castelo de São Jorge. E não se pode esquecer que em Alfama e Mouraria nasceu o fado e, num edifício comum de uma rua estreita ali perto, uma placa indica “Aqui nasceu Amália Rodrigues”, a grande dama do fado português. Mas, pra quem comeu buchada de bode e sarapatel numa feira qualquer de cidade nordestina isso aqui é shopping. E sou nordestino sim! E com muito orgulho!

sábado, 12 de maio de 2018

Há que Viver

Para mim é pouco difícil afirmar com total segurança sobre a qualidade de vida das cidades portuguesas que não conheço. De igual modo me fica difícil afirmar sobre a qualidade de vida de qualquer cidade em que estive por alguns dias ou horas a fazer turismo, atividade que em muito fica distante de se viver por algum tempo na localidade e, só assim, perceber todas as nuances do local. Mas, posso lhe informar que Portugal inteiro é maravilhoso e não sei lhe dizer qual cidade não lhe indicaria. Eu estive recentemente em Caldas da Rainha, cerca de 1 hora e meia de carro de Lisboa, e fiquei muito impressionado com o baixo custo de vida da cidade. É linda e fiquei tentado a experimentar viver ali. Tem comboios, ou seja, trens, que chegam e saem a todo instante rumo a todos os lugares do país e a estação fica bem no centro da cidade, assim como, a rodoviária. Em termos rodoviários os interurbanos são ótima opção. São seguros, limpos e confortáveis. Entretanto, preciso de mais pulsação. Lisboa e Porto me são mais cosmopolitas, modernas e oferecem muito mais, inclusive, aeroporto internacional para uma viagem de emergência. Essas duas cidades estão na moda e ficaram muito caras, é verdade. Mas, eu já me instalei aqui em Lisboa e já a sinto como minha. Não quero deixar de experimentar temporadas em outros lugares, cidades e até países. Mas, nesse momento, estou aqui e pretendo ficar por mais algum tempo.

Não conheço Aveiro, a Veneza portuguesa, mas dizem ser ótima. Aqui pertinho, às margens do oceano e ao sul de Lisboa, já nos limites da Reserva da Arrábida e entre Almada e Setúbal, há apenas 20 minutos de Lisboa, a bela Sezimbra é medieval e tem até castelo. É linda e aprazível. De preços, por ser praia, é igual a Lisboa. Mas, os brasileiros endinheirados gostam de Cascais e da região do Algarve. São muitas as prais e a juventude do surf é quem dita as regras. Bem mais ao norte me encantou Guimarães. Cercada de montanhas muito me lembrou a nossa Ouro Preto. O casario é lindo e tem até castelo medieval. Briga com Braga pelo título de ser ali donde surgiu Portugal.  Muita história, relíquias estão nos museus ou a céu aberto já que a andar se percebem as riquezas do passado dessa gente lusitana. Está bem próximo de Braga, outro orgulho português e que, assim como Lisboa e Porto, tá virando moda e os preços a subir. São lindas como todas as demais. Pode pesar contra para aqueles que não gostarem de frio já que, quanto mais ao norte, mais intensa a queda da temperatura.

Eu acho que, pra quem nunca experimentou viver em outro país e, se puder, o ideal é um estágio. Viver aqui por três meses com a passagem de volta na mão que pode nem ser usada. O processo de visto para reformados pode independer disso já que você pedirá, já aqui, o título de Residente não Habitual. Significa dizer que você não perderá seu visto português de residencia por se ausentar do país a maior parte do tempo desde que more aqui por, pelo menos, 3 meses ao ano. 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Deus não é Sabiá


Ele me desperta e eu o ouço a pensar se estaria doido esse sabiá pra cantar de noite e madrugada à dentro.  Eu ouvi muito sabiá a cantar no agreste maranhense e no cerrado do planalto central. Sei muito bem reconhecer o canto de um Sabiá. Eu ouço o mesmo canto, nas mesmas notas de canto assobiado em melodia que parece anunciar alguma explosão de felicidade ante á vida, tal qual sabiá. Entretanto, nuca ouvi contar que sabiá canta de noite, madrugada à dentro. Comecei a desconfiar não ser sabiá o passarinho que tanto canta. Tem alguma nota diferente ao canto desse sabiá, porém, quase imperceptível ao ouvido mais desatento. Eu ouço o canto dele para todos os lados e por todo o dia. Eu acordo com ele a cantar aqui abaixo da minha janela, escondido em algum limoeiro, laranjeira ou pessegueiro plantados nos fundos dos quintais dos apartamentos do térreo e que me colorem o quarteirão do que poderia ser pura monotonia monocromática. Lá pelas 4 da matina ouço o seu cantar melodioso e que me faz viajar rumo á minha infância rica de lembranças e de tanta escassez e de tanto suor e lágrimas de quem trabalhava na lavoura para plantar a semente que precisava ser colhida em grãos, raízes e frutos.  Ele canta até enjoar e pára até que o sol raia. Com os primeiros raios de sol volta a cantar feito doido de novo e é abafado pelos pardais que piam frenéticos desesperados e terminam de me acordar. Eu no deleite, insiste em permanecer na cama quando ouço gritos de algum outro pássaro que canta em gritos que parece, em muito, com os sons dos saguis nas florestas brasileiras. Entretanto, o que eu queria ver e ansiava por isso, era aquele sabiá. Semana passada fui ao Pingo Doce, o mercado do bairro, e quando voltava com as sacolas na mão, a subir uma dessas ladeiras daqui, no meio de uma florada de um pessegueiro, ouvi o canto do dando. Parei e finquei o pé disposto a ficar ali até que o visse no meio da florada que, por si só, já é alguma coisa que me lembra o exagero das cerejeiras em flor do jardim imperial japonês. E sei que vão achar a comparação demais, mas se pudessem ver o que lhes descrevo... há! Se pudessem! O sol estava intenso e me fez apertar as pálpebras em busca criteriosa, desde a direita para esquerda, como se um scanner fosse, naquela florada em busca do tal sabiá. Vi um passarinho preto pouco maior que um sabiá a encher o peito e soltar a melodia. Não era uma sabiá! Não é um sabiá! Não sei o nome desse sabiá preto português. Mas, vou buscar achar agora alguém que o saiba e lhes contarei o nome desse danado. Certo é que o passarinho preto é para mim aqui o meu sabiá que transporta em lembranças à minha infância ou às paisagens brasileiras. Mas, agora que já sei não ser sabiá aquele passarinho preto, fico também curioso com os passarinhos que nunca vi e que cantam como se fossem saguis. E aquele sabiá que pensava podia ser algum deus, agora é sabido, nem é sabiá.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Salada de Gente

De longe se ver o “Skina Brasil”, uma pastelaria de brasileiros - como não poderia deixar de ser - que vende pão de queijo e vaca atolada e que tem por proprietário o mineiro e fumante inveterado Jairo que é irmão da Cida que á dona do Salão de Beleza ao lado e que faz sobrancelha e arranca pelos e pentelhos à base da cera que ela mesma faz. A vaca atolada é boa e o pão de queijo é uma viagem ao Brasil das Gerais. 

Já mais à frente a velha senhora com cara triste e de doença faz arremates, remendos e bainhas nas calças, camisas e vestidos da vizinhança. Do outro lado rua a loja se enfeita de flores de plástico desde a telha até o chão. A senhorinha magra e maquiada com exageros de boneca de feira veste vestido rodado com motivos florais - como não poderia deixar de ser - gigantes e com mangas que parecem mais balões gigantes e calça sapatos vermelhos acolchoados e baixos pra ficar mais confortáveis.

Na rua as ciganas viúvas, para lá e para cá, vestidas de preto até à alma, cobertas por chales e lenços às cabeças, saias que arrastam ao chão e blusas com mangas que cobrem até à metade das mãos e pernas cobertas por meias que se enfiam em qualquer sapato. Tudo, mas tudinho, preto luto fechado e que em muito me lembram as aves de mau agouro de algum filme de Hitchcoch. Creio que essas senhoras dessa cultura - e aqui existem às multidões - torcem pra se tornarem viúvas e vestirem-se desse luto ao qual somente a morte lhes tirará e que levam com orgulho e para fazer inveja ás demais. 

Os sinos da igreja dobram e a cena das carolas portuguesas é de romaria nesse país que se orgulha de ser o mais católico da Europa. Descrever cada uma delas seria exercício que levaria alguns dias. Já na frente da igreja está o Mercado Municipal da Ajuda que não é tão grande, mas que tem gente aos montes e feirantes a gritar: “olha a banana!”. E a banana que consumimos aqui é sempre a mesma. Não tem variedade. A não ser que se busque como quem procura alguma joia perdida. A banana importada da América Central chega aos navios e é distribuída para todo o país.

O velho e histórico “elétrico” - e é só o bondinho que aqui tem aos montes e aos quais os turistas e lisboetas amam - pára e sobem e descem devagar todas as gentes. Mulheres com meninos barulhentos e idosos com bengalas. Ouvem-se vários idiomas e se percebe que a Babilônia é aqui. É primavera e os casais enamorados adoram está sob a luz intensa dessa cidade e na segurança que se goza por aqui. Os asiáticos e suas lojas de eletrônicos chineses vulgares e falsificados. A escola primária com os miúdos no recreio a fazer muito barulho e a atrapalhar a missa das carolas sem que elas reclamem. 

Tudo tão misturado e tudo tão diversificado quanto uma salada colorida em tigela grande e transparente sobre rica mesa. No geral, ouvem-se sorrisos e gritos. Parece que se está a gozar felicidade. Os murmúrios da dor não posso e nem quero ouvi-los.Bastam-me os meus!