quinta-feira, 25 de abril de 2019

Não é Não e Ponto

Você, assim como eu, muito provavelmente, tem aquela enorme dificuldade de dizer não à quem lhe procura pedindo aquele favor, muitas vezes dinheiro que você não tem. Você vai ao banco e com raiva, saca a quantia,  já do seu limite de cheque especial, na quase certeza de que está a fazer o que não devia. Que tal empréstimo vai lhe tirar o sono ante a possibilidade de, quase certa, de que nunca lhe será pago. Você já sabe, de antemão, que terá que, repetidas vezes, se aborrecer em cobrar a qual quantia emprestada. Começa também já a sofrer a angústia ante o aborrecimento vindouro e a certeza de que a amizade, depois disso, vai às favas. Depois que você emprestou a quantia passa a dormir mal e se odeia por ter feito o que não queria. Pois é! Eu passei por essas situações diversas vezes até que desenvolvi uma técnica de atender ao favor, porém, não da forma solicitada.

Quem vem lhe pedir tal favor, em geral, já pensou no discurso, criou todo um enredo de lamúrias e queixas para lhe tocar o coração que ele já sabe, é bom.  Ele, muito provavelmente, já está devedor na praça e está a lhe pedir dinheiro para pagar parte da outra dívida e com a outra parte, divertir-se um pouco porque ninguém é de ferro, não é verdade? Ele sempre diz que é para comprar comida ou para outro fim nobre e você desconfia que esteja a mentir mas prefere acreditar que seu anjo da guarda a lhe buzinar o ouvido quer fazer-lhe pessoa má e egoísta. 

Eu passei a usar da seguinte estratégia. Digo que sim. Isso mesmo, digo que sim. Mas... nunca atendo de imediato. Sempre digo que tenho algo urgente a fazer. Que não tenho o dinheiro no bolso, ali disponível. Que preciso ir ao banco etc e tal. Meia hora são mais do que suficientes para que eu arrume uma estratégia que anula a investida e não saio de todo por mau. Eu volto à ele e lhe informo que verifiquei meu saldo e que está no negativo, mas que mesmo assim tenho como ajudá-lo porque é meu amigo e coisa e tal. Digo que vou fazer a compra no cartão de crédito e vou fazer parcelado para que facilite o pagamento dele. Ocorre que neste momento você terá a certeza de que era mentira o motivo alegado para o pedido. Ele vai lhe informar que já mais precisa e que outra pessoa já lhe fez o tal favor ou outra mentira qualquer lhe será contada. 

Experimente a estratégia e se cuide!


















domingo, 21 de abril de 2019

Originalidade

Quem se preocupa em agradar aos outros, quase e sempre, incorre em um erro que é o fingimento. Quem quer agradar cria capa que não lhe é original. O fingimento é carga pesada que requer vigilância constante e capa que inevitavelmente cairá logo mais adiante. Quem quer agradar tem qualquer problema de auto estima que o impede de se valorizar e de aceitar-se capaz de atrair por si só, sendo quem é verdadeiramente. E quando se é verdadeiro não se está mais preocupado em atrair ninguém porque já se chegou a algumas conclusões óbvias do "eu me basto". E é nesse nível que se percebe que o poder da atração lhe é inerente não importando de se se é feio ou bonito. Auto confiança é poder que transpira na pele e brilha nos olhos. E já não mais se leva o peso da capa do fingimento nem se passa pela vergonha de se ser desmascarado. Ser original é qualidade preciosa. A falsidade é defeito grave que não justifica nem ante a covardia de quem acha-se tão inferior ao outro que tenha que fingir ser o que não é. 

Há quem finja ser rico e há quem finja ser honesto. Há fingimento de todos os tipos a depender do momento e do que se considere necessidade de vestir a capa. Desmascarada fica rota e não remendo que a conserte. Quem se decepcionou ante a falsidade de quem um dia confiou não volta a confiar jamais. É perda irreparável e traição imperdoável. 

Há que se olhar ante o espelho e se ter orgulho do que se ver. Se não se gosta do que se ver há que exercitar a mudança que levará á auto-valorização. E nada tem a ver a aparência física. Pode-se ser feio e se ser atraente. Pode-se ser bonito e nada atrair. O poder da atração passa pela por se ser verdadeiro e autentico ao máximo e sempre.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Tesão

Tesão é carne, é pele, é força bruta, é posse de momento. É importante e faz a população crescer. É imprescindível à perpetuação da raça humana. Ocorre que a gente amadurece e essa força brutal flui para o cérebro. E nessa fluidez ela muda de intensidade e ganha novas nuances. Há que se adaptar ante ao fato de que o desejo e a força passam a ser mais racionais e a entrega já não é abrupta como antes. Os significados e valores dados a tudo, muda. Não sei qual das duas fases é melhor ou pior, mas sei que em ambas sempre valerá muito à pena todo o desfrute de cada gota sorvida ou derramada. 














domingo, 7 de abril de 2019

Cegueira Feliz

Assim que terminei de subir a velha ladeira, já a dobrar no beco de casinhas rebocadas e mal pintadas, de janelas tortas, lá no fim dele, ela me acenou e caminhei rápido já que lá embaixo, olhares furtivos e curiosos me miravam a buscar motivos para a boa fofoca.

A casinha era das mais humildes daquele beco pobre e estava recuada e protegida por uma cerca de madeiras irregulares. Era caprichosa a humilde anfitriã. O teto do casebre era baixo e tinha sido improvisado com velhas telhas de amianto e, nas paredes constavam alguns remendos de  tábuas em compensado encardido. Mas estava limpinha e arrumada para receber visita.

Sentado em falso num tamborete de madeira fiquei a olhar porta á fora as flores aleatórias de onze-horas, de bem-me-queres e margaridas que nasciam sem vergonha no pequeno terreiro em frente. O chão estava ainda com as mascas da vassoura riscadas no chão.  Estava a fazer muito calor e ela vestia um vestidinho estampado em flores minusculas e calçava só umas havaianas velhas e zeladas caprichosamente. O cheiro do café era de pó barato e foi servido em copo americano mesmo.  E, de todo, não estava de sabor ruim. Ela não demonstrava qualquer acanhamento e parecia resignada e ereta como quem se recusava a ver a realidade. A velha máquina de costura servia para unir os milhares de pedaços de tecidos doados por alguma ONG e com os quais fazia tapetes coloridos com muito esmero e que fez questão de me presentear com um.

Era educada e falava em bom português. Era morena quase branca e cabelos meio encaracolados e num coque de evangélica que não era. Havia rigidez de valores em seu caráter e isso se percebia ante seus posicionamentos relacionados à vida. A vida a impunha aquela pobreza, talvez por algum castigo divino. E se a divindade castiga alguém, não sei e duvido. Mas, a vida lhe obrigara aquela realidade e ela parecia saber que era o momento zero de onde pior não poderia fica e que era apenas um momento. Não reclamava de nada a pobre mulher.

Quando voltei a casinha estava já de paredes de tijolo e toda rebocada, mas ainda sem pintura e isso deixava tudo marrom triste. No lugar da cerca agora um muro baixo que lhe dava até certo encanto e poesia. As flores pareciam multiplicadas e agora tinham também vasinhos em terracotas com crisântemos, rosas, marias-sem-vergonha e cravos. Ela continuava limpíssima e a usar a mesma sandalinha surrada, mas muito limpinha. E pegou o par que lhe levei e apertou forte nos peitos enquanto abria sorriso de orelha a orelha como se tivesse recebido uma barra de ouro. Estava mais magra, entretanto a pele e os olhos estavam mais brilhantes. A cara era de saúde e felicidade. Ela, como sempre, de nada me reclamou todas as vezes que lhe visitei e aceitava minha ajuda de bom grado e repetia feliz - amanhã vou comer carne. 

Hoje a casinha tem tom esverdeado triste e ela contraiu diabetes e ficou cega. Faz-lhe companhia o velho e fiel cão a quem chama de Moisés.

- E Moisés lá  é nome de cachorro? - perguntei eu em tom de brincadeira.

Alem do cão fiel, diz ela, faz-lhe companhia os anjos que a protegem e, segundo ela, não são poucos. A casa continua limpa e além das flores agora tem a chão coberto de pedrinhas brancas lavadas que combinam com seu sorriso largo, de orelha a orelha. Continua pobrezinha e a receber minha ajuda aqui e ali. De nada reclama, sequer da cegueira. E desde aqui fico ouvi-la dizer: Oba! Amanhã vai ter carne!


Anjos e Demónios

Todos trazemos em nossa essência duas poderosas forças, o bem e o mal. Como dois cães ferozes eles avançam em direção ao que lhes oferecemos. Não de todo impossível que ao se alimentar apenas um desses cães ele venha a matar por completo ao outro. Aqui e ali escuto alguns elogios à minha pessoa:

- Es um anjo para mim - diz uma

- Es um anjo para nós - dizem outros

E eu de cá a pensar quanto estão todos eles enganados em suas gentilezas que, bem sei, podem ser também apenas momentâneas. É que não sou nem um nem outro. Ou posso ser quaisquer dos dois. Tudo depende apenas do momento e do humor. A mesma mão que abençoa também amaldiçoa. A mesma mão que oferece ajuda é a mesma que pede a depender da fartura e generosidade ou da carência.

É ideal que alimentemos sempre mais ao cão da bondade. Mas, em alguns casos, alguns indivíduos alimentaram tanto ao cão da maldade que já não têm mais recuperação ante ao fato de terem alimentado por demais a sua maldade. e nós que somos do bem, por sentimento de sobrevivência, devemos afastar-nos de tais criaturas. Talvez possamos apenas assisti-los aqui e ali. Mas que tal assistência se dê por pura generosidade e sem envolvimentos maiores.

Anjos ou demônios a depender da situação. E se alguém lhe foi anjo, agradeça. Mas, não exija que lhe seja sempre anjo. No futuro pode ser que lhe atenda o demônio de quem lhe foi anjo. 

Não sou anjo, nem demônio. Sou igual a você. E você é igual à mim. Somos bons e maus. E somos falhos e erramos o tempo todo conosco mesmos e com os demais. Mas, somos assim porque o Universo assim nos fez e quis.