quarta-feira, 9 de junho de 2021

Uma Grito de Indignação


- Amor, eu fui a cada porto quando tinha, no máximo, 6 anos. Desci desde o Sujapé até à Barra, nadando. Fiz esse percurso também de "avuadeira", como dizia minha mãe. Digo-lhe mais, não fosse a nascente do rio, longe e intocada, ele já estaria totalmente condenado. Não temos mais matas ciliares nem ripárias*. O povo da nossa cidade cerca e constrói até dentro d ́água. Isso mata a vegetação e, em consequência, temos a erosão que espalha e muda o seu curso natural. Isso muda tudo, até a temperatura da água; muda o bioma e afeta a fauna e a flora. 

 

- Pois é, Lu. Eu me lembro de que ali no Sítio Maranata, não sei se você lembra, a Igreja Cristã Evangélica de Barra do Corda, na qual cresci e onde recebi parte da minha educação humanitária, decidiu fazer uma espécie de balneário evangélico naquele local. Na beira do rio, havia uma mata que talvez fosse a mata mais fechada de toda a circunvizinhança. Muitos cipós que subiam e desciam pelas árvores; aguapés e árvores centenárias. Era mesmo uma mata muito fechada, porém linda e exuberante. Então, Juntou-se todo mundo da igreja num mutirão com tarefas predefinidas pelo sexo. Ou seja, os homens derrubariam tudo e as mulheres fariam a "boia". Eu era um pré-adolescente, mas também estava lá a ajudar. Nós derrubamos toda aquela mata e deixamos apenas alguns poucos arbustos. Ficou uma cena deserta e um vazio enorme que ia muito para além da paisagem devastada,ia para dentro de mim. Eu era ainda um menino impúbere** que nunca tinha ouvido falar em educação ambiental. Não tinha, tampouco, a percepção de que ali estávamos a cometer um crime contra a natureza. Vi aquilo tudo ser destruído, vir por terra, ser queimado etc. ... e eu não pensava se aquilo estava certo, mas sentia um enorme desconforto que se misturava com um dó imenso. 

E continuei: 

- Mas, depois, passei a me incomodar com as margens do rio, nos fundos das casas, todas virando degraus de cimento. Minha mãe era lavadeira de roupa e também mandou fazer os tais degraus no pedaço de rio dela, pois aquilo facilitou muito o seu trabalho. Os nossos degraus, a meu ver, eram os mais feios, mas a gente tem a tendência de achar que a galinha do vizinho é sempre a mais gorda, não é verdade? Hoje, entretanto, já com consciência ambientalista formada, percebo o mal gosto e o egoísmo de quem se apropria do rio que é de todos. Acho que falta eficácia às leis que visam à proteção das matas ciliares, assim como às normas para o usufruto particular do rio. 

E disse mais:

- Nós não temos um vereador, em Barra do Corda, que proponha uma lei específica e atual, que possa contribuir para a preservação do meio ambiente municipal, com suas águas, as matas e os animais. Em“compensação”, acabamos de dar um título de cidadão honorário a quem sequer jamais ouviu falar de Barra do Corda. Eu não consigo conceber, nem entender, muito menos aceitar, que consigamos, tão rapidamente, criar uma lei boba e burra, aprovada por unanimidade, concedendo o título de cidadania honorária a um indivíduo que, além de estar longe de ser unanimidade para o bem, sendo até odiado por grande parte da população brasileira, nada fez em benefício da cidade que pudesse justificar ahomenagem. Registro que, para este escriba, não passa de um genocida. Por outro lado, as demandas sociais, muito mais próximas, necessárias e importantes, da população cordense, permanecem esquecidas. Eles se sentiram orgulhosos de oferecer o tal título. Os lacaios se recusam a perceber o óbvio e ainda enchem os peitos de orgulho servil. O que sinto? Sinto Vergonha!

Em tempo: Achei tão pertinente o comentário de uma migo,que leu de antemão a presente crônica, que decidi incluí-lo neste meu texto de repúdio: 

- "Reis e presidentes costumam receber o tal título , geralmente acompanhado da chave da cidade. Vale lembrar que, em Brasília, Pelé foi “barrado no baile”, deixando de receber a honraria por ter se negado a reconhecer a paternidade de uma filha. Interessante também é citar o fato de que o maior corrupto do planeta, o Lularápio, recebeu o referido título da cidade de Paris, em 2019. Vai entender uma coisa dessa!"

 

Wan Lucena

 

*Impúbere: diz-se do menor, com menos de 16 anos, que ainda não atingiu a puberdade.

** Ripárias: vegetação existente ao longo das margens de um curso de água.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Um Dodô em Portugal


Como quase todos sabem: vim da roça, sim senhor. Venho da terra das palmeiras do babaçu, cujas folhas cobriam nossas casas e com as quais se confeccionavam cofos, cestos artesanais, que serviam para levar e trazer quase tudo. Eu venho da terra da Lagoa da União, coberta de mururus, que nos dava água fria e que enchia os potes de todas as casas. Nem sei como ninguém morreu, já que a única filtragem ou tratamento daquela água abençoada pelos deuses era passar a água por um pano. No pano ficavam gravetos, girinos e outras impurezas.

Quando nasci já tinha ido quase todo mundo embora e ficou apenas a família de meu avô, o velho Oliveira e os filhos. Alguns casados, outros solteiros, mas todo mundo que era filho do velho Oliveira morava ali, no Centro Velho dos Oliveira, também chamado de Centro dos Protestantes, visto que todo mundo se dizia evangélico. 

A minha mãe é prima legítima de meu pai e isso talvez explique muita coisa dos nossos temperamentos e personalidades excêntricas, para não dizer esquisitas mesmo.

- Mas... alto lá! há tanta gente por aí muito mais esquisita do que nós e que nem filhos de primos são, fala a verdade.

Minha mãe, ainda mocinha, conheceu meu pai num desses encontros de família que acontecia uma vez na vida e outra na morte. O encontro virou culto evangélico, eu acho. Certo é que o tal encontro juntou uma outra parte da família, a dos Lucena, da qual descende minha mãe e que morava na cidade de Pedreiras.

A história desse romance dos dois não sei ao certo, portanto não lhes posso contar. Ela, todavia, era da cidade e ele do interior, da roça. Ambas as famílias eram pobres, pobres de "marré deci". Não sei se as origens diferentes causaram toda a desarmonia em que sempre viveram. Certo é que cá estamos nós todos.  

Ali por perto, num lugarejo bem bonitinho chamado Barreiros, e também pela região da Lagoa do Chico, moravam outros parentes de outro galho da nossa árvore genealógica: os Dodô. Conquanto não tenhamos tido muito intercâmbio com eles, sabíamos que eram parentes próximos e que em nossas veias, por hereditariedade genômica, corria uma ancestralidade consanguínea compartilhada.

Por agora, por estes dias, surpreendo-me com o relato de um parente próximo, muito próximo, a contar de maneira superficial, um pouco da saga dos Dodô.

Os Dodô migraram dos sertões do Ceará, da região de Icó, muito provavelmente, quando da "diáspora regional", derivada de grande seca, a qual os levara para a região do Maranhão, onde nasci e passei meus primeiros anos de vida; de onde guardo muitas, boas e lúdicas, lembranças.

Dodô, na verdade, é um apelido dado aos membros das famílias, Barros, Oliveira e Pinheiro. Meu avô por parte de pai era Oliveira Barros, de sobrenome. Meu pai carrega, por sobrenome, Barros de Oliveira; e minha mãe, Lucena de Oliveira. Eu e meus irmãos somos Lucena de Oliveira, mas há quem aponte erro nos registros de sobrenome que, na verdade, deveria ser Oliveira Barros.

A família dos Dodô, mais conhecida, predomina sobre o povoado do Ipiranga, entretanto estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo a fora, sem sequer se darem conta da história do sangue que lhes corre nas veias. Eu também não vou negar a minha ignorância sobre o assunto.

Daqui, desde Lisboa, no entanto, reconheço-me como um Dodô e  mando o meu abraço a todos da família, aos que se encontram do outro lado do oceano ou algures nesse mundão de meu deus a fora. 

Eu venho das terras morenas do Babaçu, cobertas do dourado dos cachos de arroz. Venho das águas frias da Lagoa da União. Venho do Centro Velho dos Oliveira.

Eu vim de lá! Eu vim de lá!

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Zumbis, Autômatos e Demónios

 


A minha preocupação com o aumento da população de “zumbis” já não é de hoje. Não estou sozinho, graças aos céus! A minha preocupação é a mesma daqueles que veem as massas a zanzar, quase mudas, grudadas numa tela de celular, sem se preocuparem com mais nada que não seja ver vídeos, vazios de conteúdos e que, na maioria das vezes, colocam o alvo da filmagem em situação vexatória ou constrangedora.


Quando se fala em zumbis, imediatamente nos vêm à mente as cenas de filmes terror ou séries de TV. Esses seres, entretanto, existem aos milhões e estão entre nós, muitas vezes dentro das nossas casas. Esqueça a aparência fantasmagórica e esquelética que lhe vem à mente e perceba que eles são até bem rechonchudos e corados. Não leem nada em papel e, espontaneamente, nunca leram um livro nem revistas, sequer aquelas cujas manchetes das capas costumam vir estampadas em letras garrafais e cores
explosivas. 

Não gostam de estudar e não se incomodam de viver à custa de míseras assistências sociais ofertadas por governos que lhes subsidiam a sobrevivência, cultivando uma relação bidependente, pois carecem de seus votos acríticos para manterem uma outra classe de gente, na qual se estratificaram os políticos e demais manipuladores.


Uma outra turma que considero tão preocupante quanto, mas muito mais perigosa, é a dos autômatos. Estes são como robôs programados para uma função ou pouco mais, com finalidades específicas, em geral danosa e causadora de destruição da reputação daqueles que ousem pensar e ir contra seus projetos de poder, ou seja, serão inimigos aqueles que se recusarem a ser seus robôs ou meros zumbis inúteis. Nesses autômatos lhes é injetada a “odialina”, uma substância venenosa com a qual destroem alvos predeterminados e pré-detectados. O ódio é arma mortal, como também é o combustível que move essas máquinas humanoides. Não são capazes de reflexão alguma, mas, hipnotizados, ouvem o discurso demagógico de um ou mais líderes e para eles trabalham cegamente, em bandos ou solitários.
 

Acima dessas camadas está um grande grupo: sociopatas, espertalhões oportunistas, mamadores viciados nas tetas do Estado, além de arrecadadores de dízimos e ofertas. Gente incapaz de qualquer sentimento de empatia, incapaz de sentir a dor do próximo, por não ser capaz de se colocar no lugar de ninguém. Pensam apenas em si próprios e na perpetuação da sua genética. São verdadeiros demônios!

Estão conscientes de que um zumbi pode também ser um autômato. Eles chegaram aos cargos máximos das nações e se acham ungidos por seu deus. São supremacistas e/ou adotam outra postura tão imbecil quanto essa. Não têm sentimentos humanitários verdadeiros nem valores éticos, usam e abusam de mentiras para manipular seu exército de idiotas-zumbis e de autômatos reprogramados. Se o zumbi for daqueles mais desprovidos, anencefálicos, e não for capaz de qualquer missão, ao menos não lhes fará
oposição.


Ainda existem humanos, sim! Estes, todavia, estão acossados, assustados e contra o muro. Muitos são os que se cansaram e desistiram da luta. Não querem se envolver, alegam. Dizem ser o desgaste grande por demais, em discussão que leva a lugar nenhum! 

Preferem se disfarçar entre os zumbis e os autômatos robóticos, para garantirem a sobrevivência por meio do “melhor não se envolver”. Nesse contexto, os sociopatas nadam de braçadas e ditam as leis, os costumes e os modelos de adequação social, buscando aniquilar aquilo que não lhes convenha ou que ameace seus projetos de poder, riqueza e perpetuação. O que nos resta é rezar, dizem. Enquanto isso, como sempre e para todo o sempre, deus dorme.


Em qual categoria o amigo leitor se insere? Pergunto-lhe eu. Não consegue se enquadrar? Está na dúvida? Tem um espelho em sua casa? Olhe-se nele e, como quem olha não a si próprio, mas a alguém que não se conhece, faça sua autocrítica. Pergunte àquele que vir no espelho e espere que sua  consciência lhe responda. É possível deixar de ser zumbi ou autômato? Sim! O elixir da salvação é absorvido por meio da leitura, que vai muito além dos posts anônimos ou das fake news publicadas nas redes sociais.


É possível deixar de ser sociopata? Não. É doença mental das mais graves e para a qual não há cura. O ideal seria a “lobotomia” ou a completa neutralização desses demônios, pensantes, porém sem alma ou coração. Maldade minha? Ou uma utopia de todos nós que persistimos em ser muito humanos mesmo?

- “Para que o mal prospere, basta o silêncio dos bons!”.

-  “Eu sou a voz do clama no deserto”.
     Eu não me calarei!

 

Notas explicativas:

- Zumbis: mortos-vivos incapazes de qualquer manifestação inteligente e que zanzam pelo mundo, depois de saírem de suas covas.

- Autômatos: criaturas robôs ou simbióticos, comandadas e incapazes de crítica ou de autocrítica.

- Odialina: palavra criada especificamente para este texto, como metáfora alusiva ao ódio e aos soros que se nos aplicam nas veias.

- Sociopata: termo empregado para descrever pessoas que têm transtorno de personalidade antissocial e que, via de regra, quebram as regras ou tomam decisões impulsivas sem se sentirem culpadas, pois são
totalmente incapazes de sentir empatia.





quarta-feira, 19 de maio de 2021

Jamais por teus Olhos


Há quem não seja capaz de pensar por si só ou quem não seja capaz de olhar o mundo e tirar as próprias conclusões acerca de absolutamente tudo. O medo de errar e de ser cobrado, em tese, leva-os à busca por um líder, o qual pode lhes transportar por caminhos filosóficos ou por atalhos meramente
religiosos.

Pensar e refletir são atos que requerem certa coragem e equilíbrio. Antes de mais nada, é preciso a humildade de reconhecer que se pode estar equivocado sobre tudo o que, pretensamente, se sabe e, mesmo depois de muita análise, pode-se concluir errado. Não há problemas em nos percebermos equivocados nas conclusões. Problema há, todavia, quando a conclusão implica prejuízos materiais ou outros mais.

Quem não tem autonomia de pensamento não é dono de si próprio e há até quem se orgulhe em dizer-se parte de um rebanho de ovelhas ou de gado. Quem não se apropria das suas reflexões termina por ver a vida pelos olhos dos outros, em geral, espertalhões, que se aproveitam da ingenuidade e da ignorância alheias em benefício próprio. Muitos deles vivem nababescamente, no luxo de suas coberturas e de iates, enquanto ameaçam seus seguidores com um inferno imaginário e fantasioso post-mortem.

Aqui em Lisboa, onde vivo o momento, não sei por que razão ou motivo de saúde, existem muitos cegos. Vejo-os por todos os lugares, nas ruas, esquinas, cafés, mercados, lojas etc. Pegam ônibus, usam celular, internet e o escambau a quatro. A única ajuda que usam, com raríssimas exceções, é a boa e velha bengala quando ela bate no obstáculo do qual têm de se desviar.

Ainda ontem, vi um desses cegos a descer a ladeira da Rua da Aliança Operária, aqui onde moro, a andar muitíssimo rápido, parecia atrasado, eu diria que quase em desabalada carreira, dobrou a esquina e se foi pela rua cheia de obstáculos colocados pela prefeitura que está a revitalizar a área.

E vou ficar com um único exemplo, mas, apenas, para não os cansar. Eu teria uma dezena de exemplos a dar, mas se até os cegos andam a correr para lá e para cá, por que muitos dos amigos leitores precisariam de alguém a conduzi-los pela vida, quando enxergam e muito bem vocês próprios?

E fico a pensar naqueles que não têm a coragem de ousar uma única ação, por medo do que os outros poderiam pensar. Ainda dias atrás, por uma estratégia de marketing, para despertar a curiosidade dos caríssimos leitores, pedi-lhes que uma crônica minha não fosse lida e esperei que a minha recomendação fosse imediatamente desobedecida. Ocorre que alguns poucos leitores me perguntaram:
 
__ Se o senhor recomenda que eu não leia, então não lerei.

Ou algo como:

__ Mas o senhor poderia me dizer o porquê da proibição?

Penso que em casos extremos como esses, "o caldo entornou de vez" e é "caso perdido"! Seria por covardia ou preguiça que alguns se negam à ousadia de dar um simples passo por si mesmos? Medo de perder um céu no qual se acredita piamente, como se fosse uma criança de 5 anos que ainda acredita em duendes, Papai Noel, fadas madrinhas e mulas sem cabeça? Ou por que "deus tá vendo" a eles a desobedecer às instruções dadas nos sermões das suas igrejas? Não pensam esses indivíduos que aquele seu mestre que tanto lhes proíbe, quando não tem ninguém vendo, fazem exatamente aquilo que, sob ameaças, recomendam aos outros não fazerem?

Então, concluo esta crônica fazendo uma recomendação: ousem pecar ao menos uma vez! Façam-no, entretanto, convictos de que seria mesmo um pecado o que vão fazer. Ousem a desobediência e se entendam com o supremo e que, se quiser, venha ele próprio, em pessoa, reprimir ou castigar vocês.

Sejam vocês mesmos e nunca meros autômatos comandados pelos “outros”. Eu direi mais: arregacem as mangas, tirem este medo que lhes impuseram e que só existe nas suas cabeças; honrem o saco - para quem é de saco - que carregam entre as pernas! “Seja homem” - como diria a maioria dos nossos avós. Tomem posse de si próprios e sejam vocês mesmos exclusivos responsáveis por suas ações e atitudes. Evitem, obviamente, cometer crimes, eis a minha única recomendação.

- Pensem! Reflitam! - Não dói, eu lhes garanto!

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Provérbios profanos


Se algumas palavras morrem ou desaparecem pelo não uso, os provérbios estão cada dia mais vivos. Provérbios ou ditados populares são frases de efeito e, em geral, curtas, que podem ser rimadas e que trazem em seu bojo lições e ensinamentos. 

 

- "Cavalo não sobe escada, mas desce". Dos ditados mais interessantes que já ouvi - e o ouvi uma única vez, mas já o repeti ao menos umas mil. Ressalte-se, não se faz necessário grandes malabarismos mentais para se concluir o porquê de cavalo não subir escadas, mas descê-las... afinal, tudo o que sofre a influência da gravidade descerá qualquer escada, só depende de um empurrão e; para melhor ilustrar a compreensão, pode-se usar aqueloutro adágio que diz: "ladeira abaixo, todo santo ajuda". 

 

- "Passarinho que come pedras sabe o cu que tem". O segundo mais interessante que já ouvi e pode ser considerado inapropriado às pessoas cultas e polidas, mas, como sou simples e popular, ouso driblar a inadequação linguística só para poder dizê-lo. Esse dito, tão popular quanto a lambada no Pará, até ao mais neófito, é de fácil conclusão. A relação causa-efeito daquilo que dizemos ou fazemos e suas consequências podem ser muito deletérias, aptas a fazer grande estrago. Assim sendo, em outras palavras: a pedra que entrar bico abaixo, logo, terá que sair pelo furico excretor, portanto, melhor que seja minúscula. 

 

-  "Quem não chora não mama". E quem nunca dançou a marchinha de carnaval que virou ditado popular? Tão óbvia que se nos vem, de imediato, a figura do filhinho a chorar pelo peito materno, sempre que lhe bate a fome. A máxima que se depreende do referido brocardo, entretanto, é para ser chorada e ouvida pelos adultos. Se quiser algo ou alguma coisa, peça. Se não o ouvirem, grite, mas sem escândalos, faça-me o favor! 

 

- "Águas passadas não movem moinhos". Este provérbio é para os que insistem em ficar a remoer lembranças, em geral aquelas bem traumáticas.  "O que passou passou!" Li certa vez em um poema: “deixemos as dores do passado, no passado.” 

 

- "Uma andorinha só não faz verão" - Há quem pense que ao se isolar sai a ganhar. Não se pode negar que "em boca fechada, não entra mosquito", e que "quem fala demais dá bom dia a jumento", mas, em caso de guerra – ou mesmo de fazer melhor a sua rua -, a melhor estratégia é sempre o de se agir em coletividade. As andorinhas quando vistas a voar no céu, em bandos, anunciam que o verão está a chegar. Se a andorinha está a voar sozinha, é só uma andorinha que nada anuncia. 

 

- "Quem não é visto não é lembrado". Muitos são os que preferiam que o chão se abrisse e que eles desaparecessem. Para quê? Jamais serem vistos? Não, não creio. Para fugirem, todavia, de suas próprias vergonhas ou falências pessoais. Bem, “bom mesmo é estar vivo!”... e neste apotegma incluo a internet e sua virtualidade. Quem bem sabe aparecer nos dias de hoje, pela virtualidade, pode até ficar milionário. Eu que não quero ser esquecido. Não mesmo! 

 

- "Falem mal, mas falem de mim". A frase virou provérbio muito popular a que muitos atribuem-na à Coco Channel, famosa estilista francesa, e que, também, virou uma canção do brasileiríssimo, Ataulfo Alves. Na verdade, porém, a expressão é atribuída originalmente ao célebre, polémico e muito à frente do seu tempo, escritor e pensador irlandês radicado em Londres, Oscar Wilde. Seu best seller é "O Retrato de Dorian Grey" – o qual indico por ser uma obra maravilhosa. Conhecido por seu sarcasmo, sua ironia e cinismo, foi preso e condenado a trabalhos forçados por causa das suas atividades homossexuais, na Inglaterra vitoriana. Registre-se, por oportuno, era ele quem afirmava que "só existe uma coisa pior que falarem mal da gente. É não falarem da gente". 

  

Então, que falem!

 

 



 

 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Uma Crónica de Morte

Considero que não poder ter ciência ou sequer a noção, mesmo que superficial, de como se vai fazer a tal passagem ou quando se dará o último suspiro; fechar os olhos para sempre; implica existir qualquer coisa injusta por parte da natureza ou, segundo os crentes, do próprio deus.


A gente consegue projetar o futuro e, mesmo com todas as agruras, quase sempre, atingimos alguns objetivos. Eu, quando ainda adolescente e sem quase nada na cabeça, tinha uma ideia fixa: livrar-me da pobreza e ter uma velhice digna, com o conforto mínimo para uma boa morte.


Sorte têm os que morrem enquanto dormem, penso eu. Aí me lembro a Tetê, uma amiga de Brasília, com quem, certa feita, curti o carnaval de Olinda, em Pernambuco, faz mais de 10 anos. Subimos e descemos ladeiras a dançar feito loucos, a rirmos e a nos abraçar enquanto tomávamos todas as canas. Quanta energia tinha e que pessoa de astral maravilhoso era ela.


Encontrei-a pela última vez no aeroporto de Recife, prestes a embarcar para
Brasília e ali nos despedimos já que ela embarcaria por outra empresa
aérea.
Já em Brasília, no dia posterior, lá pelo meio da tarde, recebera a
ligação de uma amiga em comum que me informou:
__ Lucena, a Tetê morreu!
__ Tetê? Que Tetê? Não conheço Tetê nenhuma, exceto a nossa amiga, da
qual me despedi ontem em Recife, depois de curtirmos muito loucamente o
carnaval de Olinda. - Respondi-lhe, enquanto o desespero da perda e uma
certa dor invadiam-me o ser.
__ Sim, ela mesma. - Respondeu-me a amiga em comum.
__ Ai, que dor! Como assim? – Perguntei-lhe.
__ Ela chegou de viagem completamente saudável e foi dormir depois de
jantar com o filho com quem morava. No dia seguinte, ele foi para a escola
sem tê-la visto pela casa. Voltou, então já eram 14h, e percebeu que o
almoço não estava pronto. Passou a chamá-la sem que ela lhe respondesse.
Abriu a porta do quarto e percebeu que ela estava deitada,
confortavelmente sob as cobertas; aí a chamou novamente sem obter
qualquer resposta. Ao puxar-lhe pelo pé, percebeu-a fria e dura. Estava
morta a nossa amiga, meu querido.

Ante o funesto relato, senti toda a dor humana de quem perde um
amigo, mas, de imediato, pensei:

- Que morte abençoada! Eu desejo morrer assim, dormindo. Sem dor, sem sofrimento, sem incomodar ninguém. Feliz de quem morre dormindo.


Então o caro leitor, em seu desconforto, pode indagar:

- Mas... por quê? Ou para quê? Poxa, uma crónica que só fala de morte?
 

E eu lhes respondo:

- A morte é só mais um momento da vida; o último átimo dessa nossa jornada, tão insegura e singela, que é a existência. A morte é tão natural quanto o nascimento. Ademais, para morrer basta estar vivo, já nos ensinavam os nossos avós. Mais ainda, a morte é a única certeza desta vida!


Não nos é possível prever como vamos morrer, porém a morte é tão certa quanto a popular expressão matemática: 2 + 2 é igual a 4. Aliás, não fosse a morte, a vida seria um inferno completo. Afirmo, pois, que a morte é uma bênção e que sem ela a vida não teria o valor imensurável que lhe damos.


Diante do exposto, no meu funeral... do meu funeral, contar-lhes-ei numa outra crônica.


Boa morte a todos!


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Contato Imediato de Terceiro Grau

 
E se, numa noite escura e silenciosa, na tranquilidade das cobertas, quase a dormir, o amigo leitor abrisse os olhos devagar e percebesse que ali, ao lado da cama, uma figura jamais vista, com cara e corpo humanoides, porém com aspecto de um extraterrestre, estivesse a observá-lo?
 
Não, eu nunca vivi uma experiência dessas. Ocorre que, por vezes, assim como todo leitor dado a fantasiar, fico a imaginar que em qualquer noite dessas daremos de cara com esses seres, dos quais recusamos acreditar na existência. 
 
Eu, precavido que sou, imagino que um contacto imediato do terceiro grau seja amigável e me apresto para não demonstrar surpresa, ou medo. Talvez eu me levante e até chame o ET* para a cozinha, prepare-lhe um café enquanto algumas perguntas eu lhe faça. 
 
Sempre considerei que nesse universo infinito, com bilhões de galáxias e de estrelas, seria mesmo muita presunção humana achar que somente aqui, neste planeta azul e lindo - Terra, poderia existir o sopro da vida. Em vida humana noutros planetas, com indivíduos iguaizinhos aos nossos daqui, não creio, mas, em vida diferente, e talvez inteligente, por que não? 
 
Ainda esta semana vi uma matéria sobre “OVNIs”**, em que o Pentágono, órgão máximo das Forças Armadas norte-americanas, por meio do seu porta-voz, informara serem autênticas algumas imagens, fotos e vídeos incríveis, vazados de suas investigações. Divulgadas pelo cineasta Jeremy Corbell, as imagens que foram capturadas por um “Destróier”*** da Marinha Americana mostram objetos voadores não identificados, com formas piramidais, os quais voavam muito perto da frota americana.
 
Existe uma determinada tribo que acredita que num belo dia, de surpresa, os céus se abrirão e todo o olho verá um homem Rei com uma coroa na cabeça e um exército alado a lhe fazer escolta; o qual levará daqui, por arrebatamento, desse planeta lindo, um "cadinho" de gente, para um paraíso de paz e de riquezas, enquanto todo o “resto” da população mundial arderá em chamas. 
 
Eu, com minha imaginação fértil, penso, cá com meus botões, que... bem... o tal evento até poderia vir a acontecer, mas não da forma “Disneylândica” que prevê o livro sagrado da tal tribo. Imaginemos, todavia, que num momento crucial - mais à frente - quando o planeta estivesse prestes a ser implodido, provavelmente por nossas armas atômicas - ou algo que o valha -, vindas de uma galáxia longínqua, naves espaciais alienígenas sobrevoariam o planeta Terra a recolher alguns escolhidos. 
 
Agora, imaginem se o critério de escolha, desses entes escolhidos, humanos superiores ou privilegiados, não for exatamente o religioso, tampouco coincidir com a religião da tribo, que aceitara e professava aquele ou aqueloutro “salvador”. Apenas pense nesta hipótese, que, para mim, é tão improvável quanto a descrita naquele mesmo livro. 
 
Certo é que, se, numa noite dessas, eu arregalar os olhos e avistar à minha frente um ET, perguntar-lhe-ei se a visita é amigável - dizem os “entendidos” que a probabilidade de contato amigável é quase nula - e se, caso a benevolente civilidade se confirmasse, talvez, em seguida, eu prestasse espontânea atenção nas instruções para a viagem: 
 
- A nossa nave está logo aqui acima e você não precisa nem fazer as malas, nem de documentos. Seremos teletransportados para a nave que nos levará para outro planeta a anos-luz daqui. Esta primeira viagem cósmica levará apenas alguns minutos. Naquele outro planeta, todos os demais escolhidos se encontrarão e farão uma transfusão coletiva, na qual todo o seu sangue terrestre será trocado por outro, que lhe imprimirá um novo DNA. Este processo lhes trará essência e consciência novas. Toda a natureza negativa, que em vocês habita, será neutralizada. Depois desse processo, todos embarcarão rumo ao destino final, muitos anos-luz à frente. Neste outro estágio, de perfeita harmonia e equilíbrio, os entes do seu universo serão todos eternos e estarão em completa comunhão com o macrocosmo superior.
 
Eu aceitaria tudo com tranquilidade. Antes da partida, entretanto, tal qual a esposa de Ló, perguntaria ao ET: 
 
- Posso, ao menos, tomar um último cafezinho, nesta subexistência carnal e humana?
Então, quando desse por mim, já estaria eu na “enfermaria”, com um tubo de líquido fosforescente a me entrar pelas veias. 
 
Wan Lucena

terça-feira, 13 de abril de 2021

Mil Faces

 

Eu admiro quem é apenas "um", 24 horas por dia, 365 dias por ano, a vida toda. Admiro quem pensa ser possível conseguir tal façanha. Eu confesso nem acreditar que de fato exista um único ser humano capaz de tal proeza. Seria o mesmo que afirmar jamais ter mentido na vida, nem que fosse por uma única vez. Eu não quero, entretanto, fazer aqui alguma apologia à falsidade, de maneira nenhuma. Aliás, tenho aversão aos falsos. 

Quero afirmar, contudo, que aquele que somos na intimidade, na solidão entre quatro paredes, e de porta trancada, nunca é o mesmo que se apresenta para almoçar à mesa com a família ou aquele que vai ao mercadinho comprar um maço de coentros a mando da esposa que precisa terminar o almoço. 

Aquele pastor evangélico que prega a moral e os bons costumes não é o mesmo que se aproveita de determinadas situações para fazer justamente o contrário de tudo aquilo que costuma pregar, quando vai, de férias, para algum cafundó paradisíaco, onde ninguém o conheça. Tal e qual o padre que reza a missa investido de todas as paramentas ungidas de santidade, mas que eu, se pai o fosse, nunca permitiria a meu filho tornar-se seu "coroinha"; ainda que, sabemos nós, para todas as regras existem exceções.

Já o sábio Salomão, todavia, do alto de sua riqueza e vaidade, segundo a bíblia, já dizia: “olhei o mundo e tudo o que vi foi vaidade”. 

É nesta fogueira das vaidades, cotidianamente, que cada um põe a sua máscara e fantasia e sai pelas ruas a tentar convencer, ao máximo, que é mesmo aquilo que se apresenta.

 Eu me assumo, como em meus muitos papéis, e o faço por educação ou por obrigação mesmo. Por vezes, fica difícil manter a máscara e não dizer o que eu realmente gostaria, pois isto ou aquilo talvez choque a plateia pudica. Este é um dos momentos mais periclitantes da minha cena. O autocontrole é essencial a quem deseje que o reboco grosso da máscara, na cara, não se derreta. 

Daí, então, lembro-me de Fernando Pessoa, com seus muitos heterônimos, nos quais assumia personalidades tão distintas, sem que o identificassem e, por meio dos quais, dizia o que jamais diria em seu próprio nome. 

 Lembro também o caso daquele, ou daquela, no interior do Goiás, não sei ao certo, mas saiu em tudo que foi jornal, que fora casado por mais 40 anos com uma senhora, cujos filhos ajudara a criar e que, além de bom pai, também tinha sido um bom marido e, surpreendentemente, apenas depois de morto é que foram descobrir que era “ele” do sexo feminino. 

Vestir-se de pessoa educada e não fazer, à frente dos demais, aquilo que fazemos desleixadamente na nossa intimidade pode ser sinônimo de muito boa educação ou, simplesmente, de falsidade. Só depende da situação e do indivíduo. 

A autenticidade pode ficar em segundo plano, desde que a sociedade e sua cena sejam preservadas. Quem pouco se disfarça legitima-se por ser autêntico e isto incomoda muita gente. Quando a autenticidade, entretanto, for demasiada, aí vai ser considerado apenas um louco. Cite-se, por oportuno, se não me engano, o Erasmo de Roterdã, cerca de 500 anos atrás, em seu livro, O Elogio da Loucura, já satirizava que a loucura podia ser uma benção e nela se podia viver a verdadeira liberdade. Quem sou eu para discordar? 

Nesta mesma linha de raciocínio, lembro a Balada do Louco, tão bem interpretada por Ney Matogrosso, o mestre dos mil disfarces, o nosso camaleão tupiniquim, talvez o mais autêntico dos brasileiros: 

 Dizem que sou louco por pensar assim 

Se eu sou muito louco por eu ser feliz 

Mas louco é quem me diz 

E não é feliz, não é feliz 

Se eles são bonitos, sou Alain Delon 

Se eles são famosos, sou Napoleão 

Mas louco é quem me diz 

E não é feliz, não é feliz 

Eu juro que é melhor 

Não ser o normal 

Se eu posso pensar que Deus sou eu 

Existem os que muito bem se disfarçam, à luz da filosofia ou sob a sombra da hipocrisia, e assim se aproximam ou se afastam da sua essência. Permitam-me lhes afiançar que não importam a estratégia nem o disfarce utilizados, se educado ou apenas louco; o fato é que – ninguém - nunca conseguirá agradar a todo mundo. Repito, enfim, o que Sartre declarou: “o inferno são os outros”; e como se diz no marketing midiático: “falem mal, mas falem de mim”. 

No dia em que os outros nos esquecerem e de nós nada falarem é porque já teremos morrido; e se morre muitas vezes sem que, no entanto, se esteja sepultado. É a morte em vida! Esta é sempre a pior das opções, ao menos para mim. 

Busquemos o equilíbrio. Aristóteles já ensinava que "o equilíbrio está no meio". Veja-se a balança de pratos. Quem não usa as suas máscaras suicida-se, igualmente a quem – sempre - as use. 

Quem sou verdadeiramente? Talvez este “eu” que se assume ser vários! 

Wan Lucena