sexta-feira, 30 de março de 2018

Deus é Sabiá

Do meio do quarteirão donde estão laranjeiras, limoeiros, figueira e algumas outras espécies não identificadas desde minha janela ouço todas as madrugadas, muito antes do sol enviar o primeiro raio, um doido de um sabiá a cantar sem parar. Sim, um sabiá me acorda todas as madrugadas, lá pelas quatro da madrugada e canta sem parar até que se faz acompanhar por um banco de pardais e por pombos. E assim amanhece o dia. Eu não sei se é coisa de Deus que insiste em me abençoar com coisas lindas como essas quando eu nem sou crédulo em tais deuses sagrados, senão, no inominável, inqualificável e indenominável. Ante o grande mistério que é a vida e o Cosmos e tudo o mais, me rendo e aceito minha impotência e respeito o que não conheço. Respeito ainda a tentativa humana de conexão em direção à divindade e tudo o que já se produziu em termos artísticos em louvor à que chamam Deus. Mas nem é disso que quero falar. Quero falar é do sabiá. E o sabiá também é Deus. Veja só! La vem Deus de novo no meu texto.

Em total escuridão ele canta sem parar, a se esgoelar, em notas perfeitas e por horas à fio. Os pardais tentam imitar o seu solo de burros que são. Os velhos pombos com seus peitos estugados em marquises por eles todas cagadas, seguem os desafinados pardais e estragam o solo do sabiá que cala, talvez puto da vida ou vaidoso por entender a vã tentativa dos demais em imitar-lhe. E o pior, com o sol já claro, as gaivotas imensas soltam gritos desesperados que parecem de mal agouro, mas que aceito como sendo mais uma manifestação da natureza divina da qual também estão dotados.

Eu fico na minha cama, em êxtase, tento acompanhar cada nota, solfejo, assobio. O sono me vem e tento não dormir só pra ficar a ouvir o danado. Durmo e acordo com os pardais desesperados e pelos pombos a bufar em seus peitos inchados e em dança de acasalamento e a pisotear a própria bosta e, por fim, as gaivotas parecem ecoar em megafones seus gritos. O sol já brilha e o sabiá já não canta mais. Cedeu o palco para as demais criaturas que tentam uma imitação horrorosa. Nunca o vi. Talvez nunca o verei. Mas, quem já viu Deus?

E aqui é puro concreto com um ou outro ponto verde de frutífera onde resolveram morar todas essas criaturas divinas e um Deus que chama Sabiá. Tomara um dia o veja, mesmo que de longe. Mas, como sou sortudo, quem sabe um dia desses, o danado pousará na minha janela. E aí vou lhes dizer: Deus existe!

Lingua

- Passa cá tu!
- Vem cá tu!
- Vai lá tu!
- E páh!
- Ora pois!

São exemplos de expressões do cotidiano de Lisboa que me soam como um congo desafinado aos ouvidos. O “e páh” está sempre no final de toda e qualquer frase de uma narrativa mais empolgada.
Apesar de tudo, ouço o português com suas mesóclises, próclises e ênclises. Na segunda pessoa do singular e com o verbo devidamente flexionado à pessoa e a obedecer o tempo verbal.

Não sei de onde arrumam um “I’ e um “E”, que bem podiam ser maiúsculos, para quase tudo. Doutor vira “Dotoire”, senhor vira “senhore”. Os verbos seguem na mesma e fazer vira “fazeire”, botar vira “botaire”. Exemplos? Eu vou ali “botaire” o arroz no fogo; Vem cá tu “botaire” o arroz no fogo; vai lá tu a “botaire” o arroz no fogo.

Por vezes, danam a falar rápido comigo e apenas gesticulo com a cabeça como se estivesse a entender alguma coisa quando, para mim, está a falar a horrenda língua dos anjos propagada com orgulho pelo povo das assembleias. E pra piorar, grande parte dos portugueses estão sem dentes. E quando digo sem dentes digo todos os dentes. O tratamento por aqui é caríssimo e os produtos de higiene bucal também. Quando se fala sem dentes e apenas com lábios a coisa piora para mim e me pergunto se estou a ficar meio surdo já que nada que saia de suas bocas-sacola consigo entender.

Ao meu ouvido me soa aberto e bem pronunciado é mesmo o português do Brasil. Acho mesmo linda a sonoridade de nossa língua brasileira. E sei que posso ser tido por preconceituoso, mas me dispo dele e, nem assim, concluo coisa diferente. E no Rio, certa vez, muitos anos atrás, conheci uma colombiana que morava em Chicago e que já havia morado em vários países mundo à fora e que ali estava a estudar o português.
- Mas, não o português de Portugal. O português do Brasil ao qual considero a língua mais linda que já ouvi – disse-me ela.

Não serei eu que dela irá descordar!

domingo, 18 de março de 2018

Velha Elegãncia

Desde a janela, minha vizinha, uma velha e linda senhora, toda empetecada com suas pérolas - se falsas não sei - cabelos cinza metalizados que, desconfio, seja peruca, em seu blazer engomado e ombreiras altas, labios vermelhos carmim, joga janela abaixo, faça chuva ou faça sol, carnes de sobra que caem sobre o imenso terraço donde estão gatos gordos - já engordados por ela, com certeza - e sedentos dos suculentos pedaços. Os gatos não podem ser dela e ela nem sabe de quem são, eu tampouco. Os gatos moram dentro do quarteirão mistério donde vivem mil gentes das quais gostaria de ouvir-lhes as estórias. São janelas mil donde, em cada uma vive, como eu, alguma alma com estórias ricas como a da minha vizinha que desde a sua janela elogiou minhas flores em meu balcão, mas fez questão de saber o que eu achava das delas. Quem se aproveita dos nacos de carne são as gaivotas que descem doidas desde não de onde - mas o Tejo tá ali embaixo, nem tão longe assim - e avançam contra os gordos gatos e os pombos cagadeiros que infestam esta cidade.  Os gatos enjoados fazem pose de desdém e as gaivotas enormes pegam sua iguaria nos bicos e levantam-se rumo ao céu infinito. Eu asso um pernil enquanto ou "Iansã cadê Ogum" ou o bom e velho e elegantíssimo Luiz Gonzaga enquanto tomo um bom Madeira e vos escrevo em tentativa desesperada de fazer-vos lembrar de mim. 
As gaivotas levantam vôos e os gatos ficam preguiçosos sobre a lage. Queria alcançar o imenso limoeiro e dele colher limões com os quais faria uma caipirinha só pra lembrar ainda mais de vocês. Fico com os gatos na laje e com o Madeira em taça linda pousada sobre o balcão. E o danado do Luiz canta "vem cá cintura fina, cintura de pilão" e eu me perco todo em tanta felicidade e saudade. Os gatos estão sobre a laje lá embaixo a olhar para a velha senhora elegante cá em cima. E eu vos escrevo a pedir: não se esqueçam de mim! Mais um pouquinho do Madeira que tanto bem me faz! E desde já posso lhes dizer: fiz tanto que já acho que fiz muito mais do que podia fazer. 
O sol brilha intenso e traz uma luz que parece nunca ter vista e os gatos, gordos e indolentes, olha arriba, para a janela da velha senhora tão elegante - e não estou a repetir-me, estou tentando ser poético - Ela lá não mais está!


segunda-feira, 12 de março de 2018

Isso tudo é Gente

Isso é gente! GENTE!!!!! Gente bem diferente e às quais vemos todos dias ao botarmos o pé na rua e à quem olhamos com desdém como se pudéssemos de dizer, de cima para baixo, o quanto o outro é ou está ridículo. Eu não nego que algumas figuras me assustem, mas daí a rir delas sem fazer a reflexão primária de que é na diferença que está a beleza das coisas e que, pior, nunca lhe paguei uma conta para dar-lhe pitaco... é de presunção descabida. Ademais, muitas delas estão é à frente de mentalidades retrógradas e conservadoras em sua tentativa inútil de tentar impedir a evolução humana. Que se dane o que eu penso do meu semelhante. Ele que ele vá viver a vida e ser feliz do jeito e maneira que lhe convenha. E o que for crime que seja submetido às leis. Mas, qual o crime dessas criaturas? A feiura? A beleza está nos olhos de quem ver!

domingo, 11 de março de 2018

A Minha Rua

A minha rua não é o que se poderia dizer ser uma ruazinha sem graça.

O Zé faz o café alegremente na pastelaria e Maria João passa roupas por todo o dia na lavanderia. O Felipe é peluqueiro, mas informa em letras garrafais "Apenas para Homens". Já a Sara é cigana que ler mãos ou vende panos de prato. O Chong é chinês e dono da loja de 1 e 99 que leva o nome de "Fura-olho". No mercadinho está a simpática paquistanesa esposa do Billal que cuida das cebolas e das batatas que compro pra o almoço. Tem a Felipa que é dona do Hair Studio, esse só para mulheres e onde não tem manicura. o Abhoil é o indiano de turbante laranja a quase bater no teto e que é dono do Restaurante que emite o cheiro de curry pela rua toda e cuja chaminé está abaixo da minha janela e faz meu estômago roncar e faz os meus budas da minha sala revirarem os olhos de saudade. O rapaz empacotado no terno azul de chama Pedro e trabalha no Banco BPI donde os clientes são, quase todos, de cabeça branca e usam bengalas ou andajás. Tem a loja que vende apetrechos de não sei o quê e donde nunca vi um cliente a comprar o que quer que seja. A Luzía é a dona do ateliê de costuras e faz as barras das minhas calças. O Francisco é o dono da Funerária Boa Hora e tem um "visu" apropriado ao ramo: cabelo preto pintado e engomado, grudado no casco da cabeça em linhas de pente grosso, sobrancelhas longas e que mais parecem tanajuras e um bigode que parece a minha escova de engraxar sapatos. O Simão é Chef e dono do Restaurante açoriano ao pé do mercado municipal. A barriga não nega a fartura e a gulodice e o bigode é de um leão marinho, mas a comida é boa e levou o estabelecimento a ser tido como dos melhores na cidade. Antonio é o padeiro que diz fazer o único pão de verdade daqui e que os demais estabelecimentos, inclusive o Pingo Doce que vende o mais saboroso Carcaça da Aldeia que já comi, não fazem pão de verdade. Seu Pedreira é figura mal humorada e suja que é dono da oficina que deveria consertar os móveis, mas, que, na verdade, emporcalha a cena com os velhos moveis espalhadas calçada à fora e abriga cachorros pulguentos e ratos que de tão grande podem ser confundidos com a anta do Brasil - exagero meu. Aparecida é a moça sem vaidades que cuida da papelaria e que agradece á quem não a fizer levantar-se de sua velha cadeira a lhe atrapalhar a partida de futebol donde o Benfica tem de ganhar todas. o Padre se chama Gonçalo e vive a fugir dos fregueses que lhe cobram não bater o sino da igreja às seis da manhã a acordar quem não lhe é crente. Safira e Aburkarl é casal de árabes não sei de qual país, mas que são donos da Loja da Sorte, a casa lotérica daqui. Abner é judeu e dono de vários apartamentos e vive de alugar ou vender suas propriedades em negócios nos quais nunca leva prejuízo. Itamar é desdentado e rapaz velho e solteiro, cliente 24 horas, que vive na Pastelaria do Zé a beber café, vinho barato e a fumar um cigarro do lado fora mesmo que debaixo de chuva. Zuza é velha cigana enrugada e vestida de preto breu dos pés cabeça ante o luto da viuvês orgulhosa do marido que morreu faz mais de quarenta anos - É a nossa cultura - informou-me ela no que pretendia ser altiva mas denotou-me, de verdade, a submissão ao machismo burro. 

E tem muitos mais aos quais poderia citar em apenas algumas palavras que formariam frase em texto de páginas que dariam um livro e que, com certeza, lhe cansariam.

Mas, a minha rua não é o que se poderia dizer ser uma ruazinha sem graça. 

domingo, 4 de março de 2018

Ler Devagar

“Ler Devagar” é o nome da livraria instalada no LX Factory de Lisboa. O LX Factory ja falei sobre ele e trata-se de velha fábrica desativada há séculos que virou lugar para a gente moderna e descolada da cidade e para centenas de milhares de turistas depois que uma turma idealizou e transformou o lugar num conglomerado que vai de restaurantes a lojas de tatoo. Tem tudo! Mas, a dita livraria está instalada num imenso ambiente onde deve ter sido uma casa de máquinas da antiga fábrica. As estantes foram instaladas de modo a preservar toda a velha estrutura da fábrica e basta subir as escadas para se sentir alguns séculos atrás. Nem o piso foi modernizado e se percebem as falhas no velho cimento. Junto e dentro, um café oferece drinques ou lanches que podem ir de saladas ao pequeno almoço. O acervo da livraria é vasto é riquíssimo.
A boa música brasileira tocava durante a minha visita. Era o bom e velho Caetano - apesar de seu esquerdismo cego e a defesa de gente condenada - que eu ouvia enquanto a chuva caía lá fora. Os periódicos estão à disposição nas mesas do café e a clientela está por toda parte a subir e descer a velha escada entre as estantes abarrotadas de livros. Ouvem-se linguas de todos os cantos do planeta e veem-se tipos identificáveis que vão desde os olhos puxados dos asiáticos à cor azulada dos indianos, das barbas dos árabes à loirice europeia. E Caetano canta agora em bom inglês. Mas, poderia cantar em bom espanhol como o sabe bem. Ou, quiçá em bom português brasileiro, a língua mais bonita e sonora do planeta.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Ore pela Síria?

“ORE PELA SÍRIA", diz mais um desses posts que servem para nada a não ser fazer a propaganda do falso altruísmo de quem os publica. Eles são muçulmanos e podem nem gostar de tais orações ao deus cristão a que eles consideram ser o diabo. Oração não enche panelas. Ao invés de orarmos pela Síria porque é chique, façamos uma sopa e distribuamos aos pobres do Brasil. Tem muita gente com fome aqui do nosso lado. Uma sopa funcionará muito mais que oração de quem quer que seja! Troquemos a oração pela ação.
Mas, se coloque no lugar de quem está a passar fome e ouve você dizer que vai orar por ela. Você consegue fazer esse exercício? Se colocar no lugar do outro? Eu nem sou ateu, sabe? Mas, de cá da minha falta de religião - mesmo não sendo ateu, repito - tenho feito coisas e agido em favor dos meus semelhantes. Não vou lhes dizer o que tenho feito porque não pegaria bem. Espero que você e todos os demais religiosos estejam a fazer alguma coisa ao invés de, simplesmente, pagar o dízimo com medo de perder a vaga no céu.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Materialidade Essencial

Tenho saudades de tecnologias que não existem mais. Eu tinha a minha sala de TV com um home theater e uma estante entupida de Cds e DVDs. Eu ia na loja e comprava o lançamento. Tudo começou a evaporar com o pen drive. Tudo que era de música e filme podia ser posto num negócio do tamanho de um dedo.
O que se quiser ouvir hoje tem de se recorrer a aplicativo que lançam o conteúdo para mini-caixas de som que produzem altura semelhante àquela, mas evapora a sensação de ter e conter. Cadê a essencial materialidade das coisas?
Estou a procurar uma caixinha dessas por aqui. São todas de tamanhos pequenos ou médios. Vou ter de procurar os malditos botões que ficam invisíveis aos ultrapassados como eu. Depois tem de saber usar o tal Bluetooth. Tá bem! Essa parte eu sei. Tento me adequar e viver toda a tecnologia que nos despejam todos os dias em novidades que nem nos filmes de robótica se previa.
Aqui tenho um aparelho telefônico sobre um móvel. Esses aparelhos que ainda ficam ligados por um fio como os de antigamente. Sou obrigado a tê-lo ante ao fato de que está incluso num pacote de serviços oferecido pela telefónica. O aparelho é tubular e ninguém desconfia que é um telefone.
Não sei se estou a reclamar. Mas, sinto que as coisas correm além do que eu possa acompanhar. Tem aparelho pra tudo. Até pra mexer o café tem um aparelho que substitui a colherinha. Para se limpar o ouvido, pra tirar calos dos pés, pra picar legumes, etcs mil. Francamente!
Não me perguntaram nada. Não me perguntaram se eu aceitava a mudança para tanta novidade tecnológica. Minha casa está cheia desses ítens que, à rigor, são bençãos - mas, eu tenho o direito à minha nostalgia ante ao abobalhamento geral das novas gerações que viraram verdadeiros zumbis de seus artefatos móveis. E eu luto todos os dias para não me render e ser arrastado por esse rio de modernidade que trás junto o esgoto.
Até a paquera, a tão boa paquera de antigamente, se acabou tudo. Hoje é no aplicativo de pegação.
Mas, que quer tomar banho de cuia de novo? Tomar café passado no saco? Acender fogão de lenha ou comer a galinha que você mesmo cevou?

Deixa eu ir ali me atualizar!

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

É

Em dia de chuva e a ouvir o trepidar dos pingos que caem biqueira abaixo e sob o edredom que me aquece nesse frio que mais parece o fim dos tempos. Se bem que o fim dos tempos é com fogo, né? Mas, o dia tá mais pra chocolate e foundie. Os dedos correm no controle remoto em busca de um bom filme cabeça. 

Com chuva ainda fina me fui em busca de um restaurante diferente que me surpreendesse com um menu simples e apetitoso que por aqui não é tão difícil assim de se achar. Ante o chuvisco preferi pegar um ônibus e descer duas paradas depois já em Santo Amaro, bairro vizinho e aos pés da Ponte 25 de Abril. 

Andei toda uma rua a ver cardápios e já a me aborrecer ante a desilusão das mesmices e da fina chuva que me molhava. Na última esquina desisti e entrei numa pastelaria restaurante e pedi um bife grelhado. Nada demais. Nada que mereça descrição. Tão sem graça quanto uma página rabiscada que foi jogada na calçada. Bife esbranquiçado, arroz mais ou menos e umas batatas empapadas em óleo. Uma taça de vinho ruim e um café sem graça. Ainda bem que a conta não saiu tão cara. Voltei pra casa, para o meu edredon e para o controle remoto.

Narcisismo

Publicam-se futilidades e esperam-se elogios mil por meio de curtidas idiotas. Ninguém gosta do contraditório. Quando o percebem partem para ataques infantis e grosseiros. Vivem dentro de bolhas ilusórias que não podem ser estouradas. Eu não vou curtir a sua publicação apenas porque você quer. Não vou deixar de comentar apenas porque você pode não gostar. Se publicas é porque queres a publicidade. Pensa nisso na próxima publicação, pode ser? E mais: ao invés de ficar numa discussão sem fim à qual você considera infrutífera - mas eu não - existe uma ferramenta mágica chamada "Bloqueio". A ferramenta está disponível para mim, inclusive! É que "Narciso acha feio o que não é espelho!"   

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Faça Nada



Vá ver um filme
Diminua o volume
Á meia luz
Fique na cama
Ligue o ar
Inspire
Expire
Repita
Bote um incenso pra queimar
Agarre-se na almofada
Feche os olhos e meta-se em si mesmo
Faça o diabo
Faça o anjo
Mas faça
Faça nada
Fazer nada é fazer muito
Fazer nada é para o sábado
Hahhhh!
Que preguiça!

Metáfora

O caminho que está à minha frente é longo e não sei se alcançarei o seu fim, embora, meu coração me diga a cada passo dado que sim. São muitas as intempéries ao longo do caminho e o cansaço não é boa companhia. Despenhadeiros podem ser lindos mas podem ser trágicos se, num escorregão, for lançado para dentro deles. As flores da primavera ou as flores do outono são conforto que entra pelas janelas e me vai para a alma. Já o inverno pode ser de temperatura baixa demais e o verão de temperatura alta demais. Melhor é não arriscar por essas épocas e curtir o edredom como os esquilos preferem as tocas.

A caminhada é solitária e é para dentro de mim mesmo. O caminho à minha frente é longo e apenas metafórico ao que, de verdade me importa, o meu caminho para dentro. Embora a caminhada seja solitária os encontros são essenciais. Eles podem ser breves e intensos na positividade ou não. As almas encontradas ao longo do caminho, se próximas da mesma vibração que a minha, saberão me passar sua energia e conhecimento e, se for o caso, serem receptoras da minha. Nessa troca apreendo o conhecimento que pode ser científico ou espiritual. 

Quem me prejulga desde suas crenças sedimentadas me acusa de ateísmo como se isso pudesse me levar à fogueira como levou as bruxas num passado não tão distante. E depois de afirmar não ser ateu, nem assim, deixo de ser. Eu até gostaria de ser. Mas, o que percebo não me permite. A acusação se dá ante ao fato de não acreditar conforme acredita e por não considerar inteligente acreditar por acreditar ou por medo de infernos ou castigos. Nesses encontros, em geral, saio com a sensação de que escapei da fogueira mais uma vez e só porque não nasci na idade média. Em todo o caso, mesmo com ranhuras e arranhões, propositados ou não, houve a troca. 

Nesse momento de minha caminhada estou sentado sobre a pedra a olhar o vale a ser transcorrido e vejo lá adiante a imensa montanha. Não sei o que me aguarda. Mas, sei que preciso continuar. O fim do caminho, ao menos por enquanto, é do outro lado da montanha. Para chegar lá me apego ao desconhecido e a ele peço proteção. E me faço acompanhar por minhas intuições em alertas que poderiam ser recados vindos de alguma galáxia distante dentro de mim. Muito obrigado!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O Gajo Folião

Estava eu na Pastelaria do Zé, aqui no bairro, a tomar um café. Adoro a Pastelaria do ZÉ. O bairro todo ama a pastelaria do Zé. O Zé é figura bonachona com um típico bigodinho português. O Zé deveria ser homenageado com um busto em bronze num pedestal de alguma praça daqui. Todo mundo ama o Zé. Basta vem as demais pastelarias da rua, com ambientes iguais ou melhores, vazias enquanto que a do Zé está entupida de gente. Por vezes, é difícil chegar ao balcão. O Zé trabalha sozinho e já tem seus 65 anos de idade. Esses dias atrás a conversar com ele que me informou que trabalha ali faz 35 anos, é o dono do estabelecimento e não sabe quando vai parar. Certo é que o Zé não perde o humor mesmo a passar 14 horas ou mais a servir à clientela que, nem sempre, tem o mesmo humor.

Mas, hoje fui cumprir a minha obrigação de tomar ali o meu café diário. Estavam ali uns dez clientes e o Zé a me tirar um café quando entra um folião de carnaval de Lisboa, coberto dos pés à cabeça com lençois de hospitais sujos de sangue e gosma amarela - não sei se falsas - e uma máscara que era a mistura de macaco com black bloks, deixando a todos meio de cabelo em pé até que nos caisse a ficha: é carnaval.

O folião desenvolto e com intimidade de quem conhecia muito bem o ambiente e o Zé, mas sem dizer uma palavra, adentrou para o balcão do Zé e isso denotava ainda mais a intimidade.

O Zé apenas perguntava repetidamente:

- Quem será o gajo? Quem será o gajo?

O gajo continuava mudo, mas apontou o dedo coberto por uma luvas em forma de garras à máquina de café. O Zé, eu e todo mundo entendeu que o gajo folião queria um café. O Zé passou a tirar o café enquanto eu, o Zé e todo e todo mundo - suponho - pensávamos:

- O gajo vai ter tirar a máscara enquanto toma esse café.

Imagino que a curiosidade de todos era igual à minha e até à sua que ler esta cronica. Mas, o gajo não era tão bobo e levou a xícara até a altura da boca e a desceu. Du-nos a costa com xícara na mão enquanto andava rumo ao banheiro. O fdp se trancou no banheiro, acreditem! Saiu da pastelaria depois de pegar a conta. Sim, saiu sem dizer palavra!  

O Bem que me Faço

O bem que faço - se é que o faço - não o faço a esperar recompensa divina num paraíso por vir. O bem que faço - se é que o faço - o faço por piedade inerente à todos os indivíduos. O bem que faço - se é que o faço - o faço porque o posso e sem nenhum interesse em qualquer retorno, sequer gratidão de quem foi alvo da minha ação. O bem que faço - se é que o faço - não o faço por ordem de qualquer livro sagrado ou ser divino. O bem que faço - se é que o faço - não o faço a esperar que me seja retornado em dobro ou mil vezes. O bem que faço - se é que o faço - faço por mim mesmo. Porque esse ato é pura gratidão à vida que tanto me tem dado. O bem que faço - se é que o faço - o faço porque a sensação de dividir o pão com quem passa fome é algo inebriante e que me invade alma e me traz lágrimas aos olhos. É tal ato viciante tanto quanto as substâncias químicas tóxicas proibidas. Experimente você também esse agir sem interesse e você verá que o filósofo tinha toda a razão ao afirmar: não existe ato mais egoísta que o fazer o bem ao próximo.

Muito que Bem!

O bem que faço - se é que o faço - não o faço a esperar recompensa divina num paraíso por vir. O bem que faço - se é que o faço - o faço por piedade inerente à todos os indivíduos. O bem que faço - se é que o faço - o faço porque o posso e sem nenhum interesse em qualquer retorno, sequer gratidão de quem foi alvo da minha ação. O bem que faço - se é que o faço - não o faço por ordem de qualquer livro sagrado ou ser divino. O bem que faço - se é que o faço - não o faço a esperar que me seja retornado em dobro ou mil vezes. O bem que faço - se é que o faço - faço por mim mesmo. Porque esse ato é pura gratidão à vida que tanto me tem dado. O bem que faço - se é que o faço - o faço porque a sensação de dividir o pão com quem passa fome é algo inebriante e que me invade alma e me traz lágrimas aos olhos. É tal ato viciante tanto quanto as substâncias químicas tóxicas proibidas. Experimente você também esse agir sem interesse e você verá que o filósofo tinha toda a razão ao afirmar: não existe ato mais egoísta que o fazer o bem ao próximo.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Um Portugal Inteiro e Muito Mais

Fazia tempos que nada publicava no meu blog. Estava com saudades dessa atividade tão prazeiroza.  Migrei para Portugal e radiquei-me em Lisboa. Meu computador deixei no Brasil e só agora um amigo o trouxe. Publicar no blog por meio de Ifone era impraticável e me exigia paciência que não tenho. Já se vão mais de seis meses aqui e meu visto de residencia já está na mão. Não intento voltar ao Brasil a não ser para pegar um sol e rever amigos e parentes. Essa é a intenção!

Lisboa é a cidade que busquei para viver. Não sei se será para toda a vida, pois a andar por este pequeno país me deparo com cada cidade linda que fico a me imaginar a morar um pouco em cada uma delas. Mas, é aqui que sou feliz e daqui que extraio energia para o meu dia. Meus dias têm sido de descobertas e prazer. Experimentar os sabores e sentir os cheiros é o meu cotidiano. As folhas e flores podem oferecer odores que são de lavanda, jasmim, laranjeira, oliveira, cravo, canela, etc... A mesa portuguesa é de fartura que beira à falta de educação. Mas, por ser cidade cosmopolita, Lisboa oferece culinária do mundo. Já comi em restaurante nepalês, indiano, morçambicano, zimbabuiano e muito mais.

Sinto-me em total segurança neste país e, mesmo na madrugada, ando com meu telemóvel na mão a digitar, venho á pé para a minha casa, despreocupado porque só por um infortúnio serei assaltado. As calçadas são em pedra portuguesa branca, limpas e sem degraus. A mesma calçada do centro da cidade é a mesmo de todos os demais bairros. Os ônibus têm arcondicionado e se respeitam os lugares reservados a idosos ou passageiros especiais. As filas são obedecidas e as faixas de pedestres são, de verdade, obedecidas pelos condutores.

Sim, já fui á rede pública de saúde para fazer exames de rotina e o padrão é igual à particular do Brasil. Os exames são marcados com antecedência e se recebe em casa a comunicação do dia e horário dos mesmos.

Come-se muito bem e a preços semelhantes aos brasileiros. A diferença básica é que o produto que chega à mesa é de qualidade e, até a banana ou a manga que vem daí, não está recheada de agrotóxicos. Os serviços básicos do Estado funcionam engrenados e têm pessoal preparado e treinado para o serviço prestado.

Tem a vantagem de se está na Europa e portanto muito mais fácil conhecer os demais paises daqui já que fica baratinho. E tem um Portugal inteiro para ver e descobrir. E nesse caso você pode fazer tudo de comboio, ou seja, de trem.

Daí você arruma as malas e decide vir correndo no próximo voo para cá. A decisão é sua e cada caso é um caso. Existem diversos vistos de permanência. O meu é o Visto denominado D7 e é especial e específico para aposentados não só do Brasil. Todo o meu processo começou no Brasil, na Embaixada portuguesa. Existem outros vistos como o Gold que basta que você tenha 500 mil Euros no bolso e você compra. Tem o de empreendedor que você precisa de 5 mil Euros para tirar. Tem o visto para estudantes, o de trabalho e vários outros. 

A minha vida é ótima aqui. Se a sua também será? Não tenho como responder a isso.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Babilônia Lusitana

Foi à pé que sai logo cedo das proximidades do Parque Gulbenkian e sai sem destino certo a explorar um pouco mais a velha cidade moura de Lisboa. Passei pelo El Corte Inglês e comprei um par de óculos que me fez ficar menos feio e, de saída, dei de cara com a exuberância do Marquês de Pombal. Eu já conhecia o parque mas não o havia explorado como se deve. É nas laterais que se escondem recantos mais interessantes e mágicos. Ouvi pássaros a cantar, inclusive, a nossa avuaçã. Mas, um passarinho minúsculo, uma espécie de rouxinol, cantava num assobio melodioso, mágico, verdadeiro feitiço.

Em seguida desci pela Avenida da liberdade e, lá pela metade, encantado com todos os monumentos, quebrei à direita e me fui rumo ao Príncipe Real. O bairro ferve com a gente bonita em ruas estreitas. Passei por baixo de um balcão que cobria uma rua e me vi num mirante que dava para o Castelo de São Jorge. Ali mesmo almocei no Lost In, um restaurante charmoso e cosmopolita. O prato me impressionou. Era alguma coisa vegetariana típica da Indonésia, se não me engano. Uma mistura chique de legumes com arroz selvagem e um ovo frito em cima. Dos deuses!

Continuei a caminhada e me vi no Chiado. Busquei uma imobiliária para alugar um apartamento. Fui informado que o bairro é por demais barulhento e, na minha meia idad, não é recomendável. Vou buscar um calma e num local mais tranquilo. Voltei pra casa de metrô entupido de gente.

Aqui está lotado de brasileiros de todas as demais gentes. Uma verdadeira Babilônia.

Wanderley Lucena

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A Florada do Ipê

Aqui da minha janela explode entre o verde das muitas árvores, um imenso ramalhete roxo que vai acima dos prédios vizinhos. É enorme o pé ipê-roxo. A seca característica dessa época no planalto central favorece as floradas dos ipês. E os moradores daqui, faz tempo, se emocionam todos os anos com essas maravilhas de Deus em nossas ruas, bairros e parques. Tem ipê amarelo - os meus preferidos - roxos, brancos e rosas. Tem deles que são gigantescos e tem outros baixinhos. E o bom é que a florada é longa, dura mais mês. Tudo começa com a florada dos roxos e rosas e depois vêm os amarelos. E por último os brancos - essa, ao menos para mim, menos bonita, mas de tirar o fôlego aos mais sensíveis. E grande parte deles foi plantada pelos moradores locais ou pelo próprio governo. 

Aqui é comum ouvir música na casa do vizinho ou músicos a ensaiar um chorinho, um samba e até a música clássica nos banquinhos debaixo das árvores nas pracinhas dos bairros. Aqui os beija-flores podem entrar pela sua janela todos os dias e por várias vezes. Aqui você acorda com revoada de pássaros e suas cantorias. Aqui durmo com um grilo a me ninar. Sério! Um grilo cantante todas as noites. E como é bom dormir com o som do grilo a cantar. Pode ser que voc~e nem goste, mas eu adoro. 

Aqui não só uma infinidade de ipês. Tem flamboyans e bougainvilles. Não temo não ver a florada de flamboyam. A árvore é linda e de copa aberta para os lados. Quando da florada, assim como os ipês, voce não ver folhas, apenas flores. E o Flamboyam é de vermelho carmim intenso. Não tem como passar perto de um e não se emocionar. As bougainvilles são de várias cores. São menos nobres e têm até espinhos. Mas são generosas na florada tanto quanto os ipês e os bougainvilles. 

A palavra "ipê" tem sua origem no Tupi, a lingua indígena. Significa árvore cascuda. São pra mais de dez espécies de ipês. Conheço ao menos quatro e posso vê-las, quando da florada, todos os dias numa caminhada por aqui. 

Adoro tudo isso!

Wanderley Lucena

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O ENÍGMA DE EPÍCURO - 341 a.C.

Ou Deus quer fazer alguma coisa a respeito do mal e não pode, ou Ele pode e não faz. Desse modo, ou Ele é impotente, portanto não há nada com o que devamos nos preocupar, ou Ele é perverso e, portanto não é realmente Deus.

A Mendiga Rica

Faz frio aqui. Faz muito frio aqui. A temperatura estava a 9º e tinha um vento que parecia adentrar a pele e chegar nos ossos. Olhei desde minha janela e vi lá embaixo uma senhora gorda, muito gorda, com ares e jeito de pedinte, de morador de rua, de mendigo. Eis a oportunidade de fazer aquela caridade e ganhar mais um tijolo de ouro pra fazer meu barraco no céu. Eu só preciso de um quartinho pequeno com um banheiro decente e uma mini cozinha pra fazer meu café. E Deus já sabe disso pois já falei pra ele. Dai, como não vou querer aquela mansão que o Edir Macedo promete, fico mais livre pra cometer alguns pecados. E adoro pecar, confesso! 

Fui ao meu armário e peguei aquela blusa de frio chique e de marca, já pouco desgastada e à qual eu procurava alguém que soubesse valorizá-la para, então, fazer uma doação. Nunca achei tal pessoa. Mas, decidi correr e descer as escadas todas e oferecer à aquela senhora gorda e de peitos enormes e caídos até a parte inferior da barriga e cobertos por uma uma camiseta surrada e uma pulôver desgastado e abotoado por um só botão. 

- A senhora aceita esse meu casaco? Tá limpinho e cheiroso e pode ser que lhe aqueça nesse dia frio.

- Oi? Quê? Não preciso disso não! Dê para alguém que precise - Foi a resposta seca e tosca.

Fui comentar com o vizinho que me informou ser ela velha conhecida de todos por aqui. Que é filha de senhora, funcionária pública e aposentada com gorda aposentadoria e aquele é só mesmo o seu jeito. Não é moradora de rua e vive muito bem. A mãe tem um apartamento muito bom aqui pertinho e que a moça sempre foi confundida como moradora de rua. 

Estou minha blusa de frio aqui. Melhor que eu permaneça mais um pouco de tempo com ela. Aliás, eu a usei para me proteger. Estou usando ela agora. Está linda com essa cara de blusa velha. E o melhor: me traz á memória a lembrança da juventude. 

Vou levá-la comigo. É minha e por ela tenho um especial carinho, um certo apego. E de agora em diante vou proceder como já procedia para o descarte de algumas peças íntimas como as minhas cuecas surradas. Lavo-as muito bem e as deixo bem cheirosas. Secas e passadas coloco numa sacola de papel de uma loja qualquer e as deixo ali ao lado lixeira. 

Caridade demais pode até incomodar. Caridade demais é desequilíbrio, diz o princípio do equilíbrio budista. 

Wanderley Lucena

sábado, 24 de junho de 2017

O Breu e o LED

- Apague todas as luzes, menos aquele abajur acolá no canto. Fechei todas as cortinas e deixe apenas uma fresta para eu saber se é dia ou noite. Ligue a TV e nos faça um café cremoso com leite puro e com bastante nata.

Nunca a claridade me incomodou tanto. Talvez eu tenha algum grau de fotofobia, não sei. Talvez seja só a ponta do imenso iceberg de excentricidade, não sei. Tenho me percebido cada dia mais excêntrico. Talvez seja coisa da idade. Há grau de TOC em mim. Sim, o Transtorno Obsessivo Compulsivo. E até que gosto. É uma mania de ver as coisas devidamente organizadas, ao menos visualmente.

Mas, é a luz que tanto tem me incomodado nesses últimos tempos. As lâmpadas não são mais amareladas. É de uma claridade tão branca que explode na cara da gente com se fosse um incômodo flash de máquina fotográfica. Explode nas paredes e nas minhas pupilas. Sei que são as mais econômicas as tais lâmpadas de led, mas foi-se a poesia da palidez ambiental. A luz do poste é agora de led. E de novo é explosiva. Tragam as lâmpadas de mercúrio de volta! Que a imagem tremulada e amarelada que deixa claro que é noite e que por ser noite não se pode iluminar como se fosse dia. Até sob chuva a luz de led é agressiva.

- Então, apaga tudo. Eu conheço o ambiente e sei achar tudo tateando na escuridão.

Talvez seja o meu espírito - se pensarmos em termos espirituais. Talvez a luz me incomode tanto por causa do meu estágio atrasado. Ou seria porque no meu estágio já não precisa mais de tanta luz. Não sei. Vou buscar um guru indiano que me ajude.

- Até lá, apague a luz, por favor!

Wanderley Lucena


sexta-feira, 23 de junho de 2017

A Lambança da Bela

E mais uma vez vejo uma moça bonita - mas, era outra moça bonita - com a boca toda espumada de creme dental enquanto fazia sua higiene bucal dentro do carro. Dessa vez, ao menos, o carro estava estacionado. Ela escovava os dentes em movimentos frenéticos enquanto era assistida por uma amiga no banco do passageiro. Eu não sei como que alguém consegue fazer a higiene pessoal, inclusive, a bucal, dentro de um carro e, até com ele em movimento. São coisas da modernidade, eu sei. As pessoas estão a correr o tempo todo e estão longe de suas casas e sem acesso ao seu banheiro pessoal para esses momentos de tanta intimidade. Mas, eu fico à pensar em outras necessidades físicas que nos vêm, muitas vezes, nas mesmas circunstâncias. A mim é muito complicado usar banheiros públicos. Os tais banheiros químicos para mim é uma verdadeira tortura. Alguém teria que inventar uma maneira menos nojenta de expelirmos nossos excrementos. Mas, se não tem outro jeito... fazer o quê?

Eu tenho andado com esses lenços úmidos dentro de minha bolsa. Já passei maus pedaços ao procurar um banheiro qualquer de rodoviária e até mesmo de estabelecimentos comerciais. O meu nojo começa com a trinca da porta. Sabe-se lá quantos milhões de clorofórmios fecais estão ali, de boca arreganha, brigando uns com os outros pela vez na fila para me atacar e me ter vítima de sua contaminação? E o vaso sanitário que, muitas vezes, nem tampa tem? E a pia com a gosma de quem acabou de usar? E odor que revolta o estômago? Eu só uso se perceber que a barragem que segura o Tietê vai mesmo se romper. 

Mas, a higiene bucal nem é algo que traga repulsa aos olhos menos sensíveis. Eu não me importo mesmo. Mas, o que me chama atença na prática é o quão estranho é ver a cena incomum.

Wanderley Lucena

sábado, 17 de junho de 2017

Oi?


- Então te dou o livre arbítrio para que possas ter duas opções de escolha, entendeste?
- Mais ou menos! Eu sou livre mas tenho apenas duas escolhas é isso?
- Isso! E agora eu te pergunto e tu es livre em tua escolha.
- Sério?
- Sério!
- E qual é a pergunta?
- Queres me amar e ir para o céu ou queimar no inferno, o lago de fogo ardente que queima noite e dia, onde há choro e ranger de entes para todo o sempre.
- Oi?
- Queres que eu desenhe?
- Uai, mas quem em sã consciência, pleno de suas faculdades mentais, iria escolher ir queimar no inferno?
- Oi? É o seguinte! Vamo parar com essa lenga-lenga e vai tratando logo de me amar. Ou me escolhe ou te ferro. Entendeu ou quer que desenhe?
- Desculpa ai, Deus! Sabe que é? É que eu então quero ir pro céu, sim. Pode deixar. Já tô até te amando, ó?
- Beleza, mas... ai vão as regras pra quem escolhe vir pra o céu?
- Oi? Mas, então não era só escolher?
- Claro que não, bobinho! Seguinte: tem que virar crente, ir à igreja religiosamente, pagar dízimo para o pastor, sem sexo até o casamento e...
-Parô!  Parô! Cumequié? Tem esse monte regra besta, é?
- Regra besta? Eu sou Deus, rapá! Se liga!
- Siguinte... onde é porta do inferno?
- Oi?

Wanderley Lucena


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Aceita?

- E qual o meu presente?
- O maior presente que poderia te dá é o tempo presente. Esse momento que vivemos nós dois aqui e agora. Não importa o passado e sua dor, nem o futuro e a dor de estômago que nos causa a ânsia ante a sua incerteza. Vamos ficar aqui no "agora",  O futuro pode nem chegar e o passado já foi. Vamos fazer desse presente que é seu mas que também é meu, algo inesquecível. O inesquecível é aquilo que estamos fazendo aqui e agora. Que seja verdadeiro mesmo que doa. Que seja todo amor e que vivamos com toda a intensidade do que possamos sentir. Esse é o meu presente! Aceita?

Wanderley Lucena

Julio Iglesias - Bacalao

De Orelha a Orelha


Sabe quando você tem a certeza de que fez a coisa certa é que isso lhe proporcionou a felicidade presente? Sabe aquela felicidade que parece que vai ser pra o resto da vida? Sabe quando tem a certeza de que você chegar do outro lado rindo de orelha a orelha? Sabe quando você se sente a pessoa mais abençoada do planeta? Aquele que nasceu a bunda arreganhada pra lua? Sabe aquela felicidade de quem acabou de ganhar na loteria? - não, não ganhei na loteria ainda - pois agora dobre... triplique que é melhor. Pois esse sou eu já faz um tempo!

Wanderley Lucena

sábado, 27 de maio de 2017

Coisas da Modernidade

O carro de último tipo e de marca poderosa parou no semáforo para dá passagem ao pedestre. Nenhum outro pedestre perceberia dentro do carro a madame a escovar os dentes e, ao mesmo tempo arrumar a sobrancelhas no retrovisor. Só eu mesmo! A boca estava cheia de pasta que espumava boca à fora. Eu não sei como ela iria terminar a higiene já que dentro daquele carro não devia ter uma pia com uma torneira e água corrente. Imagino que ia comer toda aquela baba e depois terminar a higiene com algum lenço úmido ou não. Mas, já tinha ouvido dizer que as mulheres são capazes de desenvolver várias atividades ao mesmo tempo, entretanto, aquilo me foi inusitado. De qualquer maneira, me fui com a sensação de que não veria nesta vida outra cena igual.


Entrei, em seguida no shopping de classe média alta e aguardei o luxuoso elevador panorâmico. Estava ali parado quando chegaram duas moças com cabelos limpíssimos, brilhantes e muito bem escovados em com aqueles penteados presos no na cabeça não sei como, mas com certeza, arrumados em algum salão de beleza bem caro. Os rostos brancos como a neve e lábios rosados por batom francês ou algo que o valha. Ostentavam óculos escuros e enormes - coisa de noviças á madames - e, nas hastes, uma tarja vermelha que informava: "Prada". Eram ricas aquelas duas moças em idade pouco acima da adolescência. E como eram bonitas as duas. Mas, pelas carícias entre ambas, percebi ser um casal de lésbicas - e pensei: quanta modernidade! - Mas, de dentro da bolsa preta e cara uma das moças sacou uma banana enorme, amarela e cheirosa. Parecia banana vendida em Paris. E as bananas de Paris custavam 1 Euro cada quando por lá estive. Em compensação é perfeita, sem qualquer mancha dessas pretinhas que vemos nas bananas de cá ou qualquer machucado, aliás, as bancas de frutas por lá verdadeiras boutiques. A moça descascou aquela banana perfeita, mas tão perfeita que parecia até artificial, e o perfume exalou dentro do elevador. A moça chique comia a banana como se tivesse sozinha, sentada na sua sala a assistir um programa qualquer de tv que ela gostasse. Comia devagar e, sem exageros, quase que provocava aos passageiros da cápsula panorâmica. Depois de comer metade da banana voltou a descascar um pouco mais e... ufa! o elevador se abriu e me fui. Acho que de tanto que me chamou a atenção posso ter dado bandeira e a moça pode até ter me percebido com os olhos na cena que ela produzia.

Saí do elevador a pensar que bom mesmo é está vivo para ver e viver toda essa modernidade e na espera da próxima cena inusitada que ela, com certeza me trará.

Cheguei em casa e encarei a cozinha. Um faxina que foi desde o chão ao teto e, depois disso tudo, encarar o fogão e fazer o almoço que bem podia ser um jantar já que passava da metade da tarde. Eis a terceira cena que a modernidade me oferecia e, pior, eu era e era o protagonista! 

Wanderley Lucena

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Canção da Despedida

Em Brasília o planalto central oferece o céu mais bonito do país. Nós aqui de Brasília não temos mar, mas temos esse céu. A frase virou clichê, mas, é a mais pura verdade. Mas na data de ontem, descendo a ladeira do Colorado, dei de cara com arco-iris do meu lado esquerdo, sobre a quela paisagem nativa estava o mais lindo espetáculo. Ele nem era aquele arco-iris enorme que pega do nascente ao poente. Era um arco-iris até pequeno. Começava ali e terminava acolá. Mas, a intensidade da cores e uma das pontas eu poderia ficar bem debaixo se fosse a andar só um pouquinho. Parei o carro junto com outros que apreciavam o espetáculo. E fiquei ali olhando aquilo, as sete cores e tudo o mais com a cidade lá embaixo. O imenso lago Paranoá com uma névoa estranha que lhe deixava com ares europeu. Todo o vale que ficara dourado ante a luz do quase fim de dia. E as longas avenidas de asfalto que reluziam com um brilho intenso. E Brasília, faz tempo, virou uma belíssima senhora. A cidade é sem igual. Linda! E agora estava emoldurada por esse espetáculo natural. Na minha despedida fico a me pensar da saudade que sentirei disso aqui. Mas, eu volto só pra te ver!

Descia a imensa ladeira e liguei o som que tocava Geraldo Azevedo em sua Canção da Despedida: "Já vou embora, mas sei que vou voltar, amor não chora...", Não chorei não porque sou macho e macho não chora - e claro que não falo sério. Mas, fiquei em uma espécie de êxtase. Gravei um pedacinho da música e enviei pelo watssap aos meus amigos queridos e dividi com eles a minha emoção. E que felicidade que pode vir a ser uma despedida. Vou na paz e minha cidade fica na paz. Ela me esperará! Eu voltarei, viu? Nem que seja só pra beijar teu solo vermelho. Eu vou pra minha aventura porque preciso e mereço. Mas, jamais te esquecerei minha Brasília!

Wanderley Lucena


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Adios! Adios! Adios!

Andar por essas ruas e sentir a despedida. Logo virão novas calçadas; novas janelas antigas pintadas de azul; um novo ar quase gelado; um mar que não me fará desejar ficar horas em suas águas como as águas que aqui ficarão; ver e ouvir noticias de uma nova cidade velha e, de vez em quando, ver e ouvir notícias desagradáveis desde a minha terra amada brasilis. 

Há! Só um oceano nos separará. Algumas horas de voo, apenas. Virei correndo te dá um abraço e matar a saudade. E pisarei nas areias das tuas praias e chorarei. Mas, é certo que já não poderei mais ficar. Terei de ir-me! 

                                                        Wanderley Lucena

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Dr. Google

Meu vício em café, de tirar os pelos das ventas, de dormir pelado, de falar sozinho ou com o passarinho lá naquela árvore e até com estranhos; de ir ao mesmo restaurante e sentar na mesma mesa e ser servido pelo mesmo garçon que já sabe até o que vou beber; de ir em igrejas que nem sei qual a denominação, com elas vazias, sentar num banco e fazer minha oração; de olhar as nuvens e esperar que minha imaginação me traga a figura de um dragão; de ouvir a água do riacho a bater suave nos seixos. São tantas as minhas manias que tenho me perguntado se não está na hora de procurar aquele temido especialista, o psiquiatra. 

Nem todas as manias são boas. Minha mania predileta é a de não perder meu tempo com amizades que não tragam prazer. Já eliminei algumas pessoas que não aceitaram bem a minha presença. Acontece que todos somos rejeitados em algum momento por alguém. E nada vejo demais nessa atitude. Eu, de verdade, agradeço quem manifesta que não me gosta. Poupam-me um tempo danado!

- Não seria você um borderline?

- Oi? Que diabos é um borderline? 

Seria alguma nomenclatura de computador, de intenet? No meu parco inglês: border = borda + line = linha = alguém que estaria à margem? Pelas bordas?

Quem me taxou de borderline sabia o que dizia e era esperto o suficiente para não decretar nada, mas, apenas levantar a suspeita e deixar que o processo conclusivo fosse todo meu. E foi o que fiz correndo. Em casa, corri para o Dr. Google e a definição era que borderline é certa síndrome com viés psiquiátrico. 

- Vixe! E agora? Era só o que me faltava! - Pensei eu.

O Dr. Google me ofereceu um teste e o resultado era de 50% para a positivo. Sim, pode ser que eu seja um borderline, portador de síndrome também conhecida por "transtorno de personalidade limítrofe". Caracteriza-se por mudanças súbitas de humor; medo de ser abandonado pelos amigos - e aqui eu tenho de rir um pouco (e não é por desdém) - comportamentos impulsivos, gastar dinheiro descontroladamente - tenho rir mais um pouco - comer compulsivamente; pensamentos negativos e suicidas - aqui me mijo de rir - etc...

E o Dr. Google, preocupado como ele só. me advertiu que deveria consultar um psiquiatra antes de tomar qualquer conclusão própria do seu diagnóstico nada confiável. Eu, como qualquer um que leia o artigo e faça o teste do Dr. Google, inexoravelmente, vai se achar com a tal síndrome. Quem não tem tem mudanças de humor repentinas? Quem nunca se viu à beira de perder um amigo por ato ou fato que o justifique? Quem nunca pisou no acelerador dos gastos e ficou apavorado a esperar a fatura do cartão de crédito? Quem nunca?

Eu, certa vez, andei tendo umas crises de labirintite. De início me assustei. Parecia que a calçada estava enviesada e cheia de ondulações ou era desenhada por Tim Burton para um dos seus filmes. O dr. Google, de imediato me diagnosticou com labirintite. Ufa! Labirintite é como está bêbado só que sem ter bebido qualquer dose de álcool. Mas, não era nada mais grave. Labirintite não é grave! De jeito nenhum!

- Que legal esse negócio de labirintite - passei a curtir aquela tonteira. Pouco tempo depois que passei a gostar dela, ela me deixou e nunca mais voltou. Sacanagem! Fiquei com saudades! Vontade de acordar pisando numa cama elástica!

Agora... se eu fosse mesmo um portador de borderline eu iria agir da mesma maneira. Mas, uma das principais características da tal síndrome é a tendência ao suicídio. Morrer? Eu? Só de velho! Então, vou deixar pra ver mais à frente um psiquiatra! Só quando estiver jogando pedra na lua!

E tenho dito!

Wanderley Lucena



sexta-feira, 14 de abril de 2017

Felino de Janela



Alguém esmurrava a porta do apartamento. Parecia que alguém, nervoso, queria arrombá-la. Assustado, abri a porta e ali estava uma moça jovem com cara de guerrilheira que nunca esteve no front. Com lágrimas nos olhos, descabelada, dedo em riste, gesticulando como uma doida me informava, aos berros, que seu gatuno estava sofrendo com as queimaduras oriundas das cinzas do meu cigarro.

Cigarro? Cinzas? Eu sequer fumo. Mas, fiquei curioso é quis divertir-me um pouco com a loucura da guerrilheira. Não a informei que não era dado aos vícios, sequer, do cigarro.  Fiz questão de não informá-la, diga-se!

- Moça, a senhorita já consultou um psiquiatra alguma vez?

A doida não se aguentou ao perceber que eu não conseguia segurar o riso e desceu a escada soluçando. Eu fui para a minha janela e olhei pra baixo. La estava o gato marrom, com o pelo a cair de tão velho, com olhos arregalados e fixos a olhar para cima, imóvel, como quem olha, hipnotizado, para a lua. Eu quase conseguia ler os pensamentos daquele gato maldito - como se gato pensasse (será que não pensam?) - a me dizer qualquer impropério por meio da telepatia felina. Acho que me xingava. Eu não deixei barato e, também por telepatia, lhe xinguei com palavrões que não ouso repetir. O gato, pra piorar me apresentou um parceiro que surgiu, todo malhado e esbugalhou os olhos na minha direção. Era um gato menor, mais jovem, malhado em branco e preto. 

Mas, o pior é que ainda ontem, quando mirava o gato maldito, vi uma mão na janela do mesmo apartamento da guerrilheira sem causa, a bater as cinzas do cigarro janela à baixo. Pera! Pera ai! A doida era fumante e, pior, jogava as cinzas e a bituca do cigarro no jardim do condomínio. Eu mereço! 

Agora fico a olhar para os gatos imóveis na janela abaixo. Sempre estão ali, imóveis no balcão da janela, esperando que eu apareça na minha janela para mirar-lhes. Acho que vou passar a ser fumante. Não, não vou jogar as cinzas no olho arregalado do felino, mas... na dona dele! Que vontade que dá!

Wanderley Lucena

 

domingo, 9 de abril de 2017

Universal Diner

O ambiente tem cortinas longas e pesadas de veludo que descem do teto ao chão. A cozinha em estilo americano fica aos olhos do cliente. A decoração vai de bichos de zebras a onças de pelúcia enormes que podem está numa prateleira ou dependurados no teto. Mas, há toda uma miscelânea que vai de antiguidades jamais vistas ao moderno piso em lajotas gigantes em preto e branco que mais parecem um tabuleiro de xadrez. As cores púrpura e o roxo predominam. A iluminação parece ter sido projetada nos mínimos detalhes. Um terraço na parte de trás trás uma atmosfera cosmopolita, haja vista a decoração que leva em conta pequenas luzes que enfeitam as pequenas árvores nos vasos.  Seria tudo parecido à tantos restaurantes da cidade? Não, de jeito nenhum. Universal Diner, na SCS 209 em Brasília tem uma atmosfera contagiante que a ninguém passa alheia. 

A clientela é diversificada e, talvez, seja a melhor parte. Ninguém se intimida com a pompa do lugar que imita os cabarés chiques de Paris ou Nova Yorque. E tem um DJ digno de todos os elogios. A música é espetacular e não espero apenas a música eletrônica. Você vai ouvir Kaoma, Amelinha, The Fivers, Roberto Carlos, Xuxa, Edith Piaf... É udo de bom. 

A gastronomia é refinada e leva a assinatura da renomada Chef brasiliense Mara Alkamin. Os pratos são dignos de qualquer bistrô chique de Paris. Verdadeiras pinturas que são postas no balcão á espera do garçon que os conduzirá aos afortunados clientes. E o serviço é muito bom. Todos trabalham felizes. Aliás, o Gerente, um maranhense com cara e jeito de buda ditoso, não se enquadra dentro do chatíssimo "politicamente correto". É performático, alegre e atencioso. É um verdadeiro artista que, de repente, dá um grito e se joga no pequeno espaço entre os clientes dançam frenéticos.

Eu já conhecia o lugar, mas era bem menor. Naquele tempo, há mais de dez anos, eu já o achava incrível. Mas, o que era bom ficou melhor. E olha que eu estava sozinho. E sou meio tímido, por incrível que pareça. Mas, ficar ali a olhar a cena, simplesmente é impossível. Não tem como não se envolver e cantar junto com todo mundo e não rebolar o esqueleto mesmo que junto ao balcão do bar.

Ouvem-se gritos de moças já embriagas e, não tem jeito, aqui ou ali um copo se estraçalha no chão. Muitos risos. Muita pegação. Muita paquera e, ali naquela mesa, desavergonhadamente, o rapaz com a mão saliente na perna daquela moça de mini saia quase a tocar-lhe a genitália. Rapazes se beijam ou andam de mãos dadas. E não pense que o ambiente é gay. Eu diria que é um ambiente mix. Eu diria que é tanta coisa pra se ver e fazer no espaço que em apenas uma visita fica impossível aproveitar toda a extensão do local.

Voltarei muitas vezes!

Wanderley Lucena

sábado, 1 de abril de 2017

Tempo por Presente!




A descoberta de viver o presente extraindo-lhe tudo o que ele gentilmente me oferece; bloquear as lembranças ruins que ficaram no passado; a certeza de que o futuro virá, fatalmente, e que poderei vivê-lo sempre no tempo presente... é de uma felicidade que não dou conta de te contar!


Wanderley Lucena

Somos Dois

Foi numa noite escura e preta como breu que sai de casa, sem eira nem beira, apenas porque eu queria sentir a escuridão. Botei o minha jaqueta de capuz e dobrei a esquina a caminhar com molejo exagerado, pendendo para um lado e para o outro. Eu conhecia bem aquelas quebradas. Não fora o meu receio ante a escuridão eu diria que tudo era igual. Passei a sentir os cheiros e ouvir o que acontecia ao redor.

Só não quero é ir muito longe! Quero morrer de velho. E nem sai de casa com algum trocado para agradar o ladrão caso me apareça. Documentos também, deixei-os em casa. Caso me morra, morrerei como indigente! A ideia não me agrada nenhum pouco. Tem esses tênis velhos e a jaqueta de capuz, a calça e a camiseta surradas. Espero me deixem a Calvin Klein pra me esconder as vergonhas.

Alguém tropeçou num balde ali? Ou seria só um gato a fugir e a esbarrar em alguma bacia? Tem vozes vindo dali. Seriam os drogados? Os moradores de rua? Perai! Tem alguém chamegando ali naquela calçada imunda dentre aqueles cobertores velhos e fedidos. Mas, e daí? Só porque estão em situação de rua?

- Boa noite! - falei ao bicho doido, rastafári, que passava com um cigarro no bico e as mãos dentro do bolso da jaqueta.

- Tem cigarro ai? - Se o cara estava a fumar um cigarro... pergunta idiota!

O doido parou e me ofereceu o cigarro que eu nem fumava. Na verdade, só queria interagir. Fiz-me de "mala" e perguntei: Tudo beleza, véi?

O cara encostou na parede, levantou o pé o grudou na parede, Odeio gente que põe o pé na parede dos outros. Mas, eu queria voltar para casa são e salvo. Fiz-me de igual e, também, levantei a perna e sapequei o pesão na parede. Tossi bastante e joguei o cigarro fora. Ficou evidente a minha inabilidade com o tabaco. Justifiquei e informei que eu não fumava nadinha e que só queria mesmo era manter algum contato com essa gente que vive na noite, na escuridão.

O rapaz sorriu bastante e me informou: Somos dois!


Wanderley Lucena