segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Saudades de Brahma

A paisagem com a ponte do outro lado do rio; o passarinho que leva no bico o inseto para alimentar os filhotes no ninho que não sei em qual árvore fica; o estridular do gafanhoto; o canto da cigarra; a abelha a recolher o pólen das flores e que vai virar mel; as maçãs sobre a minha mesa e que poderiam virar natureza morta na tela do pintor; o Fred Mercury na tela e no ouvido a cantar Under Pressure, mas pra ficar ainda melhor, com o bom e velho camaleão David Bowie - aumenta o som porque essa é pra ouvir no volume máximo porque a vizinhança merece também e porque a vida não é pra ser gozada ao meio tom muito menos em baixo volume; a sopa rica e que leva, alem da cenoura e das batatas, só pra lembrar o meu Brasil, a boa e velha macaxeira. Nova York está, imensa, na minha parede; a cafeteira vermelha, linda e que não faz café bom; e eu; a saudade bate e o coração acelera como quem desce num escorregador; e o Pink Floyd canta com Pearl Jeam, Confortably; o cheiro da sopa; o Buda com flor nas mãos e que encanta a sala.

A saudade só não é maior que o prazer de sentir tudo por meio de todos os meus sete sentidos. A saudade não é triste. São saudades de Brahma, o meu shitsu tão lindo e querido que está em melhores mãos que as minhas, nas de Dona Davina, minha velha mãe. A saudade é a certeza de que vivi. As coisas estão em ordem e a vida flui como o riacho caudaloso por entre as pedras no Jardim do Gulbenkian. E o sol que faz traz calor que obriga a moças a fazerem topless em total liberdade e sem serem incomodadas. Apreciar o vinho vermelho púrpura, seco e encorpado e que desce como veludo depois de me inchar ao extremo as glândulas palatais. Não há mesmo nada a reclamar. Se fosse reclamar seria de algumas desventuras que estão no passado. E se está no passado já passou. Planos e planos. Todos eles cheios de vida e de lugares novos. A abelha na flor, o canto da cigarra, o passarinho... 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Pássaros e Morcegos

Numa dessas crises de culpa que todos temos procurei uma amiga lisboeta que me indicasse um bom psicólogo para me servir por terapeuta. Crise culpa sim senhor! Quem não sente culpa de alguma coisa que fez ou deixou de fazer nessa vida não sabe o que é viver e aconselho a procurar, não um psicólogo por terapeuta, mas um psiquiatra por médico. De já lhe adianto que aquela sua velha desconfiança de ser um psicopata tem grandes chances de ser lhe ser diagnosticada. Mas, as minhas culpas, eu ao menos acho, convivo com elas como se me fossem velhos chocalhos enferrujados que insistem em me tirar o sono algumas vezes. Eu ando a falar comigo mesmo - isso é falar sozinho? Não é. É falar comigo mesmo! Falo com minhas culpas, pode? Comecei a achar que devia procurar um psicólogo. E foi o que fiz. Psicólogo pra mim - perdoe-me você psicólogo que me venha a ler, pois sei que você vai discordar de mim e você pode ter razão sim - é aquele profissional que você paga para falar à ele tudo o que você não tem coragem de falar à mais ninguém. Você conta aquela sua confidência bem cabeluda pra ele e fica sempre à torcer pra que ele não se assuste o suficiente pra lhe indicar ao psiquiatra. Você sempre vai contar e torcer pra ele seja aquele profissional sério e que por ética profissional jamais contaria o que você contou à ele a nenhum outro cristão da face da terra. Pois bem... minha amiga me indicou na mesma hora um psicólogo amigo dela, profissional seríssimo e dos melhores de Lisboa.

- Ele é espiritualista e médium, viu? Mas, ó! É seríssimo! Podes ir de olho fechado. Depois me conta! - disse-me ela.

Já faz muito tempo que respeito muito os espíritas. Todo espírita é um espiritualista, ao menos para mim. E sei as diferenças de ambos. Mas, cheguei ao seu consultório depois de trocarmos mil mensagens via whatssap já que, apesar de está em frente ao local, não conseguia achar. Enfim, ele me apareceu à porta, se apresentou e pediu para esperar um pouco na sala enquanto ele terminava um atendimento. Um som new age de fundo e uma TV na parede que emitia imagem de paisagens tipo céu. Pensei que ele ia me prescrever algum floral de Bach e que ia me impor umas três sessões de terapia por semana. Conversamos mais duas horas e lhe contei metade de minhas culpas e algumas maldades e bondades ao longo da vida. Bondades sim! Já fiz algumas. É uma maneira de me equilibrar e de compensação pelas maldades. Não! Não fiz tantas maldades assim, mas já as fiz talvez tanto quanto você. Talvez um pouco menos, talvez um pouco mais. Nas suas muitas intervenções durante a conversa parecia me querer aceitar que nada havia de errado comigo. E concluiu a me dizer eu não precisava de psicólogo ou de psiquiatra. Tudo o que eu lhe trazia era a experiencia de vida de quem está vivo. 

- Mas, não é possível - Pensei eu com muito alívio.

Perguntei-lhe quanto me custaria as duas horas e tanto de seu tempo a me ouvir e ele me disse que nada cobraria.

- Como assim? Não vai me cobrar nada? - Perguntei meio atônito - O senhor trabalha por piedade?

Ele me explicou que eu não era seu cliente e que seria anti-ético cobrar. Que não trabalha por piedade e que costuma cobrar de seus clientes sim. E eu voltei pra casa muito leve e quase a aceitar que aquele moço estava mesmo era a cumprir uma missão mediúnica que consistia daquilo ali mesmo. De receber pessoas e aplicar-lhes injeções de bom ânimo. Continuo a falar sozinho e ouço minha voz como se a de um amigo ao meu lado. Agora acho que entendo os amigos imaginários das crianças. Não preciso de especialistas que me convençam que o normal é ser outra cousa ou fazer diferente. Escutar-me é dá asas ao que tenho em mim. E saem de dentro de mim pássaros e morcegos.

sábado, 4 de agosto de 2018

Tempo Infernal

O suor desce pelo rosto apesar de eu estar em casa e já ter tomado uns dez banhos gelados. Não é a andropausa, é o calor do tempo mesmo. Eu nunca imaginei que pudesse ser essa Lisboa tão quente. Hoje fez 43 graus e em alguns outros lugares do país chegou a 50, informou o jornal local.  O povo todo foi pra praia, pra o rios, para as piscinas ou, como no meu caso, para debaixo do chuveiro de água fria. Eu arrendei um apartamento sem ar condicionado por achar que tal luxo é uma agressão ao planeta e ao meu meu bolso. Mas, se arrependimento matasse... Já tomei galões de água gelada e agora são exatamente 19h 20min e o sol está à pino e a ferver as moleiras e por as mãos sobre o teclado para escrever é como levá-las a um forno. É difícil escrever e o ventilador está ligado a jogar ar na minha cara. Eu sempre fui calorento e por ser nordestino achava que seria fácil enfrentar o calor ao qual os portugueses me avisaram e achava ser pura frescura deles que de quase tudo reclamam e não sabem o que é quentura como a do nordeste do Brasil, pensava eu engadamente. Mas, eles tinham total razão. O Presidente da República, figura simplória e desapegada, bonachona e quase um Santa Claus de simpatia, foi filmado a dar entrevistas enquanto tomava banho, nu da cintura para cima, todo sorrisos, numa praia de água doce, num rio qualquer no interior do país. E eu só me lembrei do Rio Corda onde cresci a me jogar em suas águas cristalinas em corredeiras geladas e a pescar piaba-larga, piaba-dura, ou piau cabeça-gorda. Aqui fico recluso, sem coragem de botar a cara na rua e morrer esturricado. O país começou a incendiar-se e o aparato do Estado luta contra as chamas dia e noite. Mas, não estou a reclamar. Não, de jeito nenhum. Estou apenas a relatar-vos nessa crônica a própria vida e um pouco do meu dia que tinha tudo pra não render sequer uma linha. E nem estou a tirar leite de pedras, confesso! A noite, já sei, será tão abafada e quente quanto a de ontem. Mas, logo chegará o inverno e as temperaturas cairão até abaixo de zero e meus pés pedirão meias grossas e terei de ligar o pequeno aquecedor que me salva tanto quanto este ventilador. E  chegue logo o verão. Viver as tão temidas e alardeadas mudanças climáticas aqui é privilégio danado de bom. Com sol, com chuva, com frio ou com neve, sempre valerá porque o que importa é a temperatura que está dentro de mim. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Intensidade

Dirijo-me à você que insiste em julgar os semelhantes e que acha que sou ateu! Acredito em Deus muito mais que você, talvez. Acredito tanto que sei que Ele não precisa que eu o defenda enquanto agrido os que considero pecadores pois Ele é Deus! Defender o Todo Poderoso é provar que Ele não poder algum. O meu Deus não se pode denominar, qualificar ou medir. É só amor! Eu não preciso cultua-lo porque Ele não é ególatra e só quer que eu viva toda a intensidade da minha humanidade da qual Ele mesmo me dotou! Não sou pecador porque se tal fora estaria decretada a falibilidade d'Ele em primeiro lugar e, depois, da sua maravilhosa criação. Não vivo a minha vida em ética por medo do inferno ou por fazer merecer o paraíso porque dessa capacidade Ele Próprio me dotou e eu amo exercitá-la enquanto escolho entre fazer o bem ou o mal. E quase sempre escolho o bem. Será que estamos a falar do mesmo Deus? Eu não me importo com as diferenças de todos nós porque já sou suficientemente maduro para saber que são elas que nos fazem, no todo, um único ser universal e que são essas nossas mesmas diferenças que nos faz tão lindos! Não preocupa o pos-mortem mas, tão somente, a vida! É nela que concentro toda a minha gratidão ante o Universo Deus e a vivo com a maior intensidade possível por saber que nisso somente que reside a vontade Dele em mim e que, muito provavelmente, só se vive uma vez. Amo-vos todos! Amai-vos, manda o vosso mestre!

domingo, 29 de julho de 2018

Lisboa em Francês

Lisboa anda afrancesada, diz a manchete do jornal de hoje. Eu também acho. Já faz algum tempo que ouço com certa frequência essa língua que me faz pensar em croissant e na Torre Eiffel. Há! Paris! Os portugueses se magoam com isso e com razão. Afinal a cultura portuguesa é riquíssima, oras pois pois! Lisboa tem essa luz toda que reluz nas calçadas brancas de pedra portuguesa e que, nem de longe, pode se confundir com uma rua parisiense. Eu que não sou daqui e tô muito mais preocupado com a cultura brasileira que se destrói por conta de outros fatores e esses bem antropofágicos, não reclamo e, pelo contrário, adoro comer num bistrô qualquer numa dessas ruazinhas de Lisboa. Os franceses cá estão a invadir a capital por causa de diversos fatores que vão desde o clima quente até o investimento e a satisfação pessoal de viver entre gente que ainda trás em si certa compaixão pelo próximo e cuida de manter algum cuidado por ele. Talvez pela tradição católica, não sei. Mas, são simpáticos sim os portugueses. E claro que há a exceção. Mas, reclamar que Lisboa está a virar Paris parece até pecado. Entretanto, sou pela manutenção das tradições nacionais seja de qual país for, desde que não se trate de diversão ás custas do sofrimento alheio ou dos animais. Aqui ainda se assistem touradas e no Campo Pequeno há uma arena belíssima que fica entupida de senhoras bem vestidas e maquiadas, aqui ou ali, acompanhadas de seus maridos empacotados e com coberturas que lembram o século XVIII. O sangue corre para o delírio deles enquanto o boi morre em espetáculo estúpido e de muitíssimo mal gosto. Mas, em Alfama, bairro boêmio agora esvaziado de portugueses que não conseguiam pagar seus alugueis ou se renderam à especulação imobiliária, as famosas procissões cantadas por Amália Rodrigues estão cada vez mais minguadas. O bairro, assim como tantos outros, estão tomados por estrangeiros - e eu sou um deles, só que na Ajuda, freguesia acima de Alcântara. É esperar que a cultura portuguesa ganhe esta guerra!

sexta-feira, 27 de julho de 2018

terça-feira, 24 de julho de 2018

Titanic Brasil

Já era meia noite quando cheguei à roda de samba lisboeta do Titanic, às margens do Tejo e ao lado do Cais do Sodré. A casa é um galpão armazém que como tantos outros da região foi transformado e adaptado e virou casa de diversão noturna que a ninguém incomoda por não ser área residencial. De fácil acesso e a poucos metros da zona mais boémia da cidade baixa donde se concentram as casas noturnas mais quentes e infernais de Lisboa. E não pense pejorativamente. É totalmente seguro e organizado e, só se você prestar muita atenção vai perceber que a boate é de strip-tease. A região do Cais do Sodré até chegar na Torre de Belém, sempre às margens do caudaloso Tejo, é hoje área de ricos restaurantes e cafés, museus, academias, escritórios e órgãos públicos. Um passeio lento e à pé ou, mais rápido e numa bicicleta alugada, é de puro prazer. Mas, é sobre a roda de samba do Titanic que desejo vos falar. O lugar não serve comida, mas apenas bebida. Lotado de gente brasileira ou de turistas brancos e pretos, a muvuca é linda e miscigenada. A mesa de samba está ao meio do salão e ao acesso e toque de todos os que ouvem o bom é riquíssimo samba do Brasil. Era domingo já madrugada de segunda e todos pareciam ter esquecido que a segunda-feira não era santa. O batuque dos atabaques e chocalhos ou o som harmônico do cavaquinho com o pandeiro chamavam para o “soltar a goela”.  Todos cantavam junto enquanto o microfone era ocupado pelo vocalista que, numa espécie de transe, levava o povo ao delírio. Lindo de ver! É pra dançar! É pra cantar! É pra viver!

terça-feira, 17 de julho de 2018

Triste-feia




Triste-feia é o nome da ruazinha. Não é uma ruazinha que se poderia chamar Alegre-linda, mas não é triste e nem feia. Tem certa graça a tristeza da ruazinha e é até bem bonitinha a feiura dela. Está em Alcântara, esta em Lisboa, está na Europa. Mesmo que fosse triste e feia eu moraria nela só pra fazer festa e botar a minha boca cheia de dentes a sorrir na janela enquanto o som, a todo volume, tocaria Gonzagão, Gonzaguinha, Fred Mercury e o escambal! A ruazinha não seria linda, mas feia não seria.

sábado, 7 de julho de 2018

Monsanto

Hoje fui de novo rumo ao Monsanto a fazer uma caminhada que sabia seria longa. Voltei para casa mais de três horas depois e depois de muito resistir a chamar um táxi. O joelho informou-me está quase no limite e a planta do pé direito queimava como se estivesse a pisar em brasas. Pensei que chegaria com bolhas, entretanto, tudo bem. O Monsanto é uma daquelas maravilhas da natureza que o lisboeta tem aos fundos de sua casa e, como quase todo mundo, não aproveita. E uma coisa que o português faz o tempo todo é reclamar da vida. Mas, eu não sou português e, mesmo que não fosse aqui, fosse em qualquer lugar, extrairia cada gota de prazer daquilo que me estivesse à disposição. A trilha é segura e conta com placas de sinalização que, num vexame geral de esgotamento, se pode pedir ajuda a uma ambulância de plantão já que os telefones estão informados. E pode ser em cima da montanha ou no precipício lá embaixo, eles irão te buscar. E costumam ser rápidos no atendimento.  As trilhas são de encantar ao mais duro dos homens. Podem ser asfaltadas ou trabalhadas em carrascos de granito ou outra pedra qualquer. Mas, também é seguro sair delas e adentrar na mata por meio das picadas que sempre acabam em outra trilha. As flores silvestres estão por toda parte ao longo das trilhas e os passarinhos são trilha sonora constante. Podem ser menores que a unha de um dedo mindinho ou de tamanho bem maior, mas as cores eclodem em explosão. Amarelas, roxhas, vermelhas, brancas. Não há como passar indiferente a uma flor branca que, em cacho, parece uma mandala branca. Linda demais! Não é raro ver as pombas, os melros, os pintasilgos, os beija-flores, e tantos outros que não sei denominar. Um deles, minusculo como o menor dos beija-flores, mas com um poder nos pulmões que não ficaria atrás de uma corneta, a cantar feito um doido, acima de mim, indo para lá e para cá. Pensei que poderia ser um drone a me espionar, veja só! Mas, se fosse um drone a me espionar a última coisa que faria seria emitir algum sinal, muito menos aquela melodia que que me impressionou tanto. Ademais, porque alguém iria querer me espionar, não é verdade?

Cheguei em casa com a sensação que o esgotamento estava ali na esquina. Um banho recuperador - um café, faz favor! - e uma vitamina funcionam melhor que qualquer reza de qualquer cristão. 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

E só!

Ante o grande mistério que é a vida, considero a possibilidade que o Cosmos seja, Ele todo, inteligencia infinita e, talvez, sejamos parte dele. Ante todas as grandes questões não respondidas: quem somos? de onde viemos? o que estamos a fazer aqui? para onde vamos? etc... considero-me incapaz de afirmar que não exista "algo" mais. Entretanto, jamais poderei conceituar o que seria esse "algo mais". Considero que qualquer tentativa de explica-lo é mera ficção especulativa. Não posso deixar de me sentir em mim todas as sensações e, ante toda a maravilha que é a odisseia humana e o Cosmos como um todo, rendo-me em atitude contemplativa. E só!

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Tradição é Tradição

Ontem à noite fui ver o festival de Santo Amaro. A Paróquia do referido santo fica pertinho daqui de casa e se enfeitou toda e as ruas próximas estão todas cheias de bandeiras coloridas e de longe se ouve, quando à noite, a música portuguesa e o cheiro das sardinhas assadas inunda o ar. A paróquia de Santo Amaro, já lhes contei, é das construções religiosas mais antigas da cidade de Lisboa, e data de 1.549. A construção está revestida de ricos azulejos portugueses coloridos e a arquitetura é em formato circular. Já esteve abandonada por longo período e no momento está aberta ao público embora ainda necessite de cuidados de restauração. As escadarias não são para os fracos. Mas, pode-se chegar até ela sem encarar as escadarias, bastando para tanto que se vá por ruas paralelas em subida bem menos íngreme. Por cerca de 15 dias ocorre o festival que conta com palco para a apresentação de artistas locais ou não. Quem deu as caras por lá foi a moradora recente e ilustre, a Madonna. Mas, ficou dentre todos e não subiu ao palco por questão de juízo. As barracas de comida podem ser só um quiosque que vende churros ao forno de lenha gigante e que está montado num food truck e que faz pães artesanais e cujas filas para comprar não são pequenas. Num desses quiosques que vendia um pão braco e sem graça recheado de um bife ou um pedaço gordo de barriga de porco. Nada de molhos. Apenas o pão e a barriga  assada. De inicio não identifiquei o que era aqueles pedaços de couro quase transparente e que assavam sobre a grelha enquanto o moço jogava sal grosso. Sal grosso é o único tempero e nada mais. De início achei que fossem Lulas. Tive de perguntar pra matar a minha curiosidade do que se tratava a iguaria que era esperada com ansia em longa fila. A multidão se aglomerava ante a imensa grelha a esperar que o seu pão fosse aberto por uma faca tipo peixeira e dentro dele fosse colocado o generoso naco de barriga ainda a esfumaçar e a soltar gordura em abundância. Talvez já comido uma porção de chouriços (linguiças) não me atrevi a pedir o indefectível sanduiche. A cerveja custava 1 Euro e tomei dois copos. No palco uma dupla cantava algum "vira" e peguei a rua estreita que dava na Aliança Operária e fui pra minha casa certo de que a cerveja me ajudaria a pegar no sono rapidamente. Deixei Santo Amaro no seu alto e a prometer-lhe que no domingo participarei da sua romaria que tradição da comunidade do bairro. E tradição é tradição.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Cosmos que Tudo Habita

Boicotamos ao Cosmos Universo Deus que habita para dentro e para fora de nós todas as vezes que mentimo-nos com promessas que fazemos e não cumprimos. Boicotamos o Cosmos todas as vezes que agimos com desleixo em relação aos nossos compromissos quotidianos, corriqueiros e sem importância. Boicotamos o Universo todas as vezes que botamos goela ou pulmão abaixo aquilo que nos intoxica. Boicotamos o Universo todas as vezes que tratamos o nosso próximo de maneira diferente daquela à qual gostaríamos de sermos tratados. Boicotamos ao Cosmos todas as vezes que relaxamos com nossa higiene e aparência pessoal, bem como, com o nosso meio ambiente donde estivermos inseridos. Boicotamos o Deus que nos habita todas as vezes que agimos com preguiça e mal humor em relação à tudo, mesmo que ao bife que amassamos às porradas e que comeremos em seguida e que irá carregado de tudo o que lhe impusemos até chegar à mesa.

Toda a energia que emanamos em relação à nós mesmos, aos demais seres, ao Cosmos ou meio ambiente nos retornará em dobro ou sabe-se lá quantas vezes mais. Daí a importância de nos mantermos vigilantes em relação ao amos com o qual nos tratamos, e ao Cosmos Superior que nos habita à todos e à tudo. Mais respeito, por favor! Cuide-se! Cuide! Cuidado!

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A Poesia da minha Janela

A roupa foi posta no varal e dança conforme o comando do vento que a levanta como se fosse uma bandeira e a deita novamente em movimentos suaves. Os pombos são um problema já que podem cagar tudo desde a varanda acima. O melhor é não deixar a roupa dormir no varal. De dia eles só querem comer as migalhas jogadas apartamento abaixo pelas velhas senhoras que se divertem com a cena. Mas, também tem os gatos. E esses não cagam sobre a roupa no varal. São umas dezenas e ficam sobre as lajes e muros. As mesmas velhas senhoras lhes jogam de um tudo. Pedaços imensos de carne ou ração industrializada. Quem lhes rouba bons nacos são as imensas gaivotas que veem a cena desde não sei de onde, desde o céu infinito e descem em vôo rasante e pousam suave e avançam sobre as carnes sem se importarem com os felinos. E os felinos, já acostumados, não se importam e sequer lhes olham. Os gatos devem ser todos castrados porque não os ouço a gritar quando de acasalamentos. E que alívio! Nada pior que gato no cío. Ouço gente no cío no apartamento acima, mas isso não me incomoda e faz parte da vida e de quem vive em sociedade. Não é sempre e não dura mais que meia hora e tudo se acalma e volto a dormir. A sinfonia de pássaros é durante todo o dia. Eles se aproveitam das migalhas e das muitas árvores que compõem o interior do quarteirão e para onde meu apartamento está voltado. E sinto certa inveja de quem tem a visão da rua e da ponte 25 de Abril, do Tejo, de Belém e de Alcântara. Inveja branca, diga-se! Mas, os frutos das árvores colorem o verde. O amarelo do limão siciliano é o que mais veja. Mas, tem o laranja da laranja e do pêssego. Tem o verde dos figos e tem flores de cores variadas. Não é algo que não se possa dizer ser sem graça. E tem muita poesia a olhar desde a minha janela!

terça-feira, 22 de maio de 2018

Deus é Melro

Fui ali no mercado comprar umas coisas e percebi o canto daquele passarinho preto daqui e canta tão parecido com o nosso sabiá ai do Brasil. No Largo da Igreja da Ajuda eles estavam aos bandos e a cantar feito doidos nas antenas acima dos telhados, nos fios de telefonia, nos braços dos postes de iluminação pública, nos balcões e varandas dos apartamentos, nos galhos das árvores, na torre e até no Galo de Barcelos que a enfeita. Uma sinfonia de Melros. 

Eu precisava saber que pássaro era esse. E de hoje não passaria. Qual o nome desse danado que canta, inclusive, madrugada à dentro e que ainda ontem me acordou às 4 horas. E eu não me incomodo, de maneira alguma, de ser acordado pelo danado que dorme em alguma árvore aqui perto da minha janela. Eu já voltava pra casa e quase me dirigi ao velhinho de bengala pra lhe perguntar qual o nome do passarinho, mas desisti ante o temor do incômodo. 

- Perguntarei ao Zé - o Zé é o dono da pastelaria que tudo sabe de todos. E se tudo sabe de todos iria me dizer o nome do sabiá português.

Parei na sua pastelaria e pedi o cafezinho e já fui perguntando. E o Zé não me decepcionou.

- É o Melro. Tem o Melro e tem a Melra. O Melro tem bico alaranjado e a Melra tem bico castanho.

E pronto! Voltei pra casa com minha curiosidade saciada. Se Deus não é o sabiá que pensei, agora sei, ele é Melro. Ou Melra!

Abaixo o endereço no YouTube para quem quiser ouvir o canto do Melro, o pássaro que me canta de dia e de noite. 



quinta-feira, 17 de maio de 2018

O Zé

O Zé, o da pastelaria daqui pertinho de casa e onde vou todos os dias a tomar um café e a comprar um ou outro pastel de nata, o famoso pastelzinho de Belém, vez em quando, daria pra escrever um livro sobre ele. A pastelaria é exatamente igual à qualquer outra. O espaço é pequeno e conta com apenas três mesas e o balcão de atendimento donde, por trás, está o Zé com o seu bigodinho português típico, sempre vestido de calças sociais e camisas riscadas mangas longas dobradas até metade dos braços, geralmente em tons azuis. Vez por outra saca dos bolsos o pacote de euros que quase não lhe cabe nas mãos e arranca alguma nota para o troco e fico a pensar: isso aqui fosse o Brasil... e  o Zé nunca mostraria esse horror de dinheiro. 

Ontem perguntei ao Zé se ela sabia quem era a minha estranha vizinha a qual jamais tinha visto e que mora um piso abaixo do meu e que me abordou na portaria para contar-me segredos de liquidificador. Estava a abrir o escaninho enquanto ela contava os mesmo segredos á outra vizinha que aproveitou para ir-se enquanto ela se aproximou do meu ouvido e me disse coisas que não entendi porque tão baixo me falava. Mas, pedi que repetisse e ela veio me contar que o seu vizinho de porta estava a traficar drogas e que eu tomasse cuidado. Nunca vi qualquer movimentação estranha aqui e, ante o nível dos moradores, desconfiei daquilo que me contava e logo pensei tratar-se de alguma doida despeitada e com problemas com o vizinho e que queria minha ajuda para difamar a reputação do moço que jamais vi. Eu a informei ser policial aposentado e ela me disse ser seu marido Chefe, com C maiúsculo, da PSP, a polícia civil daqui. Procurei sair em disparada logo que a portaria se abriu e ela se dirigiu a outro morador para continuar sua lamúria. Em sendo seu marido policial desconfiei ainda mais daquilo que me contava já que o marido poderia resolver o problema facilmente.

O Zé sabe da vida de todo mundo. São milhares de moradores no bairro e ele parece saber detalhes de todos. 

- É uma de óculos, cabelos chanel, faladeira? Não se dar com a Fátima.

A Fátima é outra vizinha que mora no apartamento ao lado da portaria e que abre a porta toda vez que percebe o barulho do portão só pra saber quem entra e quem sai. Cão de guarda melhor não há.

- Ela nunca foi casada e o tal chefe da PSP é seu amante e a mantém. Esteve ela internada em casa de repouso tempos atrás. Mora no primeiro piso no apartamento de frente pra rua. Não é?

Assustei-me com tantos detalhes sobre a vida da moça e fui-me embora certo de que doido aqui tem aos montes e que sou um deles. O Zé poderia ser a Maria Fofoqueira, mas ninguém o considera. Todos estão ali sempre ávidos por suas novidades e, basta ficar ali, quietinho no balcão a tomar o café e já se ouve aquele cliente a comentar os detalhes da vida do outro que acabou de pagar a conta e se foi. E quando me vou posso imaginar, com sorriso na cara, o que de mim falam. O bom é que já não mais me importa o que mim pensam ou falam, mas sim falra deles aqui no meu blog. 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Europa é isso aí!

Pensa-se que por ser Europa já não mais se veriam determinadas velhas profissões. Mas, na Praça da Figueira em Lisboa, o velhinho engraxate tem fila a lhe esperar e a placa na ruela perto da casa, em letras desleixadas e coloridas, pendurada sob o telhado baixo de casa humilde, informa em bom português: “amolam-se facas e tesouras”. As senhoras de costura estão aqui e ali a remendar, arrematar e até a fazer roupas, bem como, os altivos e, geralmente, esguios alfaiates. Estes se recusam a fazer as bainhas das minhas calças e trabalham apenas com roupa masculina. O barbeiro de bigode mustache enche de goma a cabeleira farta de um português sem dentes. Nas cidades medievais as artesãs de tapetes são cartão postal e os ferreiros fazem de armaduras de cavaleiros a chocalhos pra botar no pescoço da vaca. As doceiras fazem suas casas as guloseimas que estavam restritas aos conventos. O velho senhor que se veste de marrom todos os dias e que conserta cadeiras velhas e passa verniz na madeira a combinar com a cor da sua roupa. E não é tão difícil encontrar as velhas senhoras e suas agulhas, sentadas a beira das portas, a tricotar ou a crochetar. E tem as ciganas a abordar todo mundo e a vender suas bugingangas chinesas compradas lá Martin Moniz e que juram ser coisa de primeira. E na Praça da Figueira, muçulmanos e evangélicos, todos com cara de árabe, vendem as ervas que curam e aliviam, mas que não ão indicadas a menores de idade. E vendem coentro a dizer que é marijuana ou plástico marrom como se haxixe. É a Europa!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A Praça

Fui à Praça Martim Moniz comprar óculos que trazem as cores da bandeira francesa por estampa no lugar das lentes, pedido de um amigo brasileiro. A dita praça é linda e tem fonte luminosa e jatos que são erguidos em jatos rumo ao céu azul de Lisboa dessa época do ano. Entretanto, apesar de espremida entre Alfama, Mouraria, Rossio e mais famosos e charmosos bairros, é terra pedaço chinês. E chinês que se preze exerce a atividade de chingue-lingue. A atividade não é percebida se não se descerem aos porões dos edifícios ao redor da praça. Eu já tinha percebido a intensa movimentação de carroças cheias de caixas e carregadas pelos empregados morenos indianos que concorrem com os chineses nessa atividade. São vários subsolos de um edifício ao qual os corredores são tomados por mercadorias falsificadas e gente feia. O entra e sai de carrinhos com mercadorias lembram os catadores de recicláveis do Brasil. A cena lembra Bangladesh. Pra quem for fresco não é lugar indicado. O impulso é de segurar a carteira e fechar as narinas. Mas, apesar das aparências, não se conhece má fama do local e o que parece ser um formigueiro, na verdade, obedece certa ordem e a feira subterrânea é legal e seus comerciantes têm alvará de funcionamento. Se o produto é chinês, a praça é portuguesa e está ao pé do majestoso e imponente Castelo de São Jorge. E não se pode esquecer que em Alfama e Mouraria nasceu o fado e, num edifício comum de uma rua estreita ali perto, uma placa indica “Aqui nasceu Amália Rodrigues”, a grande dama do fado português. Mas, pra quem comeu buchada de bode e sarapatel numa feira qualquer de cidade nordestina isso aqui é shopping. E sou nordestino sim! E com muito orgulho!

sábado, 12 de maio de 2018

Há que Viver

Para mim é pouco difícil afirmar com total segurança sobre a qualidade de vida das cidades portuguesas que não conheço. De igual modo me fica difícil afirmar sobre a qualidade de vida de qualquer cidade em que estive por alguns dias ou horas a fazer turismo, atividade que em muito fica distante de se viver por algum tempo na localidade e, só assim, perceber todas as nuances do local. Mas, posso lhe informar que Portugal inteiro é maravilhoso e não sei lhe dizer qual cidade não lhe indicaria. Eu estive recentemente em Caldas da Rainha, cerca de 1 hora e meia de carro de Lisboa, e fiquei muito impressionado com o baixo custo de vida da cidade. É linda e fiquei tentado a experimentar viver ali. Tem comboios, ou seja, trens, que chegam e saem a todo instante rumo a todos os lugares do país e a estação fica bem no centro da cidade, assim como, a rodoviária. Em termos rodoviários os interurbanos são ótima opção. São seguros, limpos e confortáveis. Entretanto, preciso de mais pulsação. Lisboa e Porto me são mais cosmopolitas, modernas e oferecem muito mais, inclusive, aeroporto internacional para uma viagem de emergência. Essas duas cidades estão na moda e ficaram muito caras, é verdade. Mas, eu já me instalei aqui em Lisboa e já a sinto como minha. Não quero deixar de experimentar temporadas em outros lugares, cidades e até países. Mas, nesse momento, estou aqui e pretendo ficar por mais algum tempo.

Não conheço Aveiro, a Veneza portuguesa, mas dizem ser ótima. Aqui pertinho, às margens do oceano e ao sul de Lisboa, já nos limites da Reserva da Arrábida e entre Almada e Setúbal, há apenas 20 minutos de Lisboa, a bela Sezimbra é medieval e tem até castelo. É linda e aprazível. De preços, por ser praia, é igual a Lisboa. Mas, os brasileiros endinheirados gostam de Cascais e da região do Algarve. São muitas as prais e a juventude do surf é quem dita as regras. Bem mais ao norte me encantou Guimarães. Cercada de montanhas muito me lembrou a nossa Ouro Preto. O casario é lindo e tem até castelo medieval. Briga com Braga pelo título de ser ali donde surgiu Portugal.  Muita história, relíquias estão nos museus ou a céu aberto já que a andar se percebem as riquezas do passado dessa gente lusitana. Está bem próximo de Braga, outro orgulho português e que, assim como Lisboa e Porto, tá virando moda e os preços a subir. São lindas como todas as demais. Pode pesar contra para aqueles que não gostarem de frio já que, quanto mais ao norte, mais intensa a queda da temperatura.

Eu acho que, pra quem nunca experimentou viver em outro país e, se puder, o ideal é um estágio. Viver aqui por três meses com a passagem de volta na mão que pode nem ser usada. O processo de visto para reformados pode independer disso já que você pedirá, já aqui, o título de Residente não Habitual. Significa dizer que você não perderá seu visto português de residencia por se ausentar do país a maior parte do tempo desde que more aqui por, pelo menos, 3 meses ao ano. 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Deus não é Sabiá


Ele me desperta e eu o ouço a pensar se estaria doido esse sabiá pra cantar de noite e madrugada à dentro.  Eu ouvi muito sabiá a cantar no agreste maranhense e no cerrado do planalto central. Sei muito bem reconhecer o canto de um Sabiá. Eu ouço o mesmo canto, nas mesmas notas de canto assobiado em melodia que parece anunciar alguma explosão de felicidade ante á vida, tal qual sabiá. Entretanto, nuca ouvi contar que sabiá canta de noite, madrugada à dentro. Comecei a desconfiar não ser sabiá o passarinho que tanto canta. Tem alguma nota diferente ao canto desse sabiá, porém, quase imperceptível ao ouvido mais desatento. Eu ouço o canto dele para todos os lados e por todo o dia. Eu acordo com ele a cantar aqui abaixo da minha janela, escondido em algum limoeiro, laranjeira ou pessegueiro plantados nos fundos dos quintais dos apartamentos do térreo e que me colorem o quarteirão do que poderia ser pura monotonia monocromática. Lá pelas 4 da matina ouço o seu cantar melodioso e que me faz viajar rumo á minha infância rica de lembranças e de tanta escassez e de tanto suor e lágrimas de quem trabalhava na lavoura para plantar a semente que precisava ser colhida em grãos, raízes e frutos.  Ele canta até enjoar e pára até que o sol raia. Com os primeiros raios de sol volta a cantar feito doido de novo e é abafado pelos pardais que piam frenéticos desesperados e terminam de me acordar. Eu no deleite, insiste em permanecer na cama quando ouço gritos de algum outro pássaro que canta em gritos que parece, em muito, com os sons dos saguis nas florestas brasileiras. Entretanto, o que eu queria ver e ansiava por isso, era aquele sabiá. Semana passada fui ao Pingo Doce, o mercado do bairro, e quando voltava com as sacolas na mão, a subir uma dessas ladeiras daqui, no meio de uma florada de um pessegueiro, ouvi o canto do dando. Parei e finquei o pé disposto a ficar ali até que o visse no meio da florada que, por si só, já é alguma coisa que me lembra o exagero das cerejeiras em flor do jardim imperial japonês. E sei que vão achar a comparação demais, mas se pudessem ver o que lhes descrevo... há! Se pudessem! O sol estava intenso e me fez apertar as pálpebras em busca criteriosa, desde a direita para esquerda, como se um scanner fosse, naquela florada em busca do tal sabiá. Vi um passarinho preto pouco maior que um sabiá a encher o peito e soltar a melodia. Não era uma sabiá! Não é um sabiá! Não sei o nome desse sabiá preto português. Mas, vou buscar achar agora alguém que o saiba e lhes contarei o nome desse danado. Certo é que o passarinho preto é para mim aqui o meu sabiá que transporta em lembranças à minha infância ou às paisagens brasileiras. Mas, agora que já sei não ser sabiá aquele passarinho preto, fico também curioso com os passarinhos que nunca vi e que cantam como se fossem saguis. E aquele sabiá que pensava podia ser algum deus, agora é sabido, nem é sabiá.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Salada de Gente

De longe se ver o “Skina Brasil”, uma pastelaria de brasileiros - como não poderia deixar de ser - que vende pão de queijo e vaca atolada e que tem por proprietário o mineiro e fumante inveterado Jairo que é irmão da Cida que á dona do Salão de Beleza ao lado e que faz sobrancelha e arranca pelos e pentelhos à base da cera que ela mesma faz. A vaca atolada é boa e o pão de queijo é uma viagem ao Brasil das Gerais. 

Já mais à frente a velha senhora com cara triste e de doença faz arremates, remendos e bainhas nas calças, camisas e vestidos da vizinhança. Do outro lado rua a loja se enfeita de flores de plástico desde a telha até o chão. A senhorinha magra e maquiada com exageros de boneca de feira veste vestido rodado com motivos florais - como não poderia deixar de ser - gigantes e com mangas que parecem mais balões gigantes e calça sapatos vermelhos acolchoados e baixos pra ficar mais confortáveis.

Na rua as ciganas viúvas, para lá e para cá, vestidas de preto até à alma, cobertas por chales e lenços às cabeças, saias que arrastam ao chão e blusas com mangas que cobrem até à metade das mãos e pernas cobertas por meias que se enfiam em qualquer sapato. Tudo, mas tudinho, preto luto fechado e que em muito me lembram as aves de mau agouro de algum filme de Hitchcoch. Creio que essas senhoras dessa cultura - e aqui existem às multidões - torcem pra se tornarem viúvas e vestirem-se desse luto ao qual somente a morte lhes tirará e que levam com orgulho e para fazer inveja ás demais. 

Os sinos da igreja dobram e a cena das carolas portuguesas é de romaria nesse país que se orgulha de ser o mais católico da Europa. Descrever cada uma delas seria exercício que levaria alguns dias. Já na frente da igreja está o Mercado Municipal da Ajuda que não é tão grande, mas que tem gente aos montes e feirantes a gritar: “olha a banana!”. E a banana que consumimos aqui é sempre a mesma. Não tem variedade. A não ser que se busque como quem procura alguma joia perdida. A banana importada da América Central chega aos navios e é distribuída para todo o país.

O velho e histórico “elétrico” - e é só o bondinho que aqui tem aos montes e aos quais os turistas e lisboetas amam - pára e sobem e descem devagar todas as gentes. Mulheres com meninos barulhentos e idosos com bengalas. Ouvem-se vários idiomas e se percebe que a Babilônia é aqui. É primavera e os casais enamorados adoram está sob a luz intensa dessa cidade e na segurança que se goza por aqui. Os asiáticos e suas lojas de eletrônicos chineses vulgares e falsificados. A escola primária com os miúdos no recreio a fazer muito barulho e a atrapalhar a missa das carolas sem que elas reclamem. 

Tudo tão misturado e tudo tão diversificado quanto uma salada colorida em tigela grande e transparente sobre rica mesa. No geral, ouvem-se sorrisos e gritos. Parece que se está a gozar felicidade. Os murmúrios da dor não posso e nem quero ouvi-los.Bastam-me os meus!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O Pessegueiro

Aquele pequeno arbusto antes ressequido agora estava todo florido que mais parecia um bonsai lá perto do mercado Pingo Doce. Eu que nunca poderia imaginar que aqueles velhos gravetos fincados na terra e que me pareciam mortos poderia ser uma pequena árvore e agora todo em flor.  E que florada! Muito menos que poderia ser uma frutífera a dar frutos. Passou já um mês desse ocorrido e os frutos verdes já se percebem. Já estou a imaginar os frutos maduros amarelo ouro, amarelo Brasil. Agora saio em direção ao mercado para comprar o pão e a pensar no "pesgueiro". Ele não é uma árvore frondosa como a mangueira. Não, nem de longe. Plantado frente ao velho prédio donde uma senhora viu-me a fotografá-lo já em flor e me informou:

- É mesmo lindo o "pisgueiro", não é?
- Pesqueiro? - Perguntei eu
- Sim, um "pisgueiro" - repetiu
Que estranho? Pesqueiro? Pensei eu.
- Pesqueiro de "peixe" - insisti eu certo de que meus ouvidos me traiam ante o sotaque português tão difícil para mim muitas vezes.
- Não! De pêssego. É um pé de pêssego. 

Até que enfim! Agora eu sabia o nome dessa árvore que aqui enfeita ruas em alamedas que muito lembram os jardins imperiais japoneses e suas famosas sakuras, ou seja, as belíssimas cerejeiras.
São árvores de médio porte que, assim como como ipês brasileiros, apresentam floradas fartas e sem qualquer folha a interferir na florada. 

A velha senhora desde sua janela acima do varal de roupas estendidas travou comigo breve e agradável diálogo donde lhe mostrei em fotos os nossos ipês aos quais ela jamais ouvira falar.  Voltei para casa com os pães do Pingo Doce e uma vontade danada de ter um pessegueiro em frente à minha casa.


terça-feira, 1 de maio de 2018

Vítimas Divinas

Se Deus criou com suas próprias o inferno e jogou lá Lúcifer para que esse recebesse ali as almas condenadas por Ele próprio - e o E maiúsculo serve apenas para que o leitor aceite que estou a falar d'ele com E minúsculo.  Diante de tal constatação, compreende a lógica que Satanás, ex-Lúcifer, é mero gerente do inferno que continua a ser propriedade divina. 

Há quem vá dizer que estou endemoninhado. Mas, basta que se use a lógica para aceitar o que afirmo. Esquece por um momento tudo o que te fizeram crer e pensa como se jamais tivesses ouvido falar do tal deus cristão e me entenderás. Não é exercício assim tão difícil de fazê-lo. Antes de jogar-me pedras - exercício favorito dos cristãos, principalmente dos evangélicos, diga-se, a gente mais hipócrita do planeta -peço que te desnudes da tua crença e que penses. Apenas penses e reflitas sobre o que digo. Não é possível, ante a lógica, conclusão discordante da minha. Satanás foi condenado à gerencia do inferno criado pelo deus cristão. Satanás, o lindo e majestoso, nada mais é do que uma vítima dos desígnios divinos, assim como Judas, eu e você.

Satanás foi condenado a receber as almas que o deus cristão amoroso lhe envia aos montes e todos os dias. Assim, como Judas foi condenado por seus planos divinos a beijar o Cristo sem o qual e tal beijo não seria o Messias, o enviado. Era profecia que um dos seus discípulos teria que traí-lo. Assim sendo, qualquer advogado de porta de cadeia provaria ser, tanto Lúcifer - o anjo de Luz - quanto Judas, meras vítimas do deus satánico dos cristãos.

domingo, 29 de abril de 2018

Plenitude e Felicidade

A ouvir Os Tribalistas e a fazer o almoço enquanto tomo um vinho alentejano, 15% de volume. Coisa boa é viver certa rotina de bem viver. Não é extravagância de modo algum. Tampouco é mera exposição de virtual da hipocrisia que impera e boia na futilidade dos dias atuais. Trata-se de um estado que compartilho com vocês e que tem a intenção de trazer-lhes a esperança no futuro tão sonhado da digna e merecida estabilidade e que está disponível a qualquer um que decida manter foco e disciplina para atingir um objetivo. Estou onde sempre desejei e quis. Aos que me aconselham manter o anonimato para que a inveja alheia não me atinja eu lhes informo não preocupar com tais sentimentos mesquinhos de quem perdeu a esperança ante a ignorância de acreditar-se impotente para a luta que levaria à tão desejada estabilidade. A minha intenção é informar à todos que a mudança é possível e que para tanto, o segredo, passa por sentir-se grato ante ao que já se conquistou e fazer tudo o que se dirigir ao próximo sem o interesse de qualquer retorno, mesmo que a gratidão.

Agora o R.E.M. canta Everybody Hurts e a vontade chorar, talvez pelo 15% de volume, me chega ao peito e na minha memória as velhas lembranças do passado de pobreza e tristeza. Da solidão do quarto iluminado com lamparinas e das redes estendidas sob o teto de palha de côco babaçu e das paredes humildes de taipa ante céu estrelado favorecido pela carência de eletricidade. Ao quarto ao lado meus pais dormiam em colchão de palha de junco depois de árduo dia de trabalho na roça.  A minha memória me leva para o menino carente que aceitava aquela situação de pobreza e que assustado ante o futuro contava com a sorte que não tinha muita certeza se lhe sorriria. Mas, ela escancarou-lhe os dentes e arregalou-lhe os olhos e, não se sabe porque, o escolheu para agraciar.

Cá estou eu pleno de felicidade e com a 25 de Abril à minha janela. E a sorte pode lhe sorrir igualmente se continuar a manter a esperança e tiver a disciplina para trilhar o caminho. E nunca é tarde porque o tempo pertence á Ele, o Cosmos. Mesmo que já próximo ao fim é possível encontrar a plenitude. E esqueça a religião e suas mentiras. Acredite em si mesmo e olhe para as estrelas e se perceba parte disso tudo. Somos parte do Cosmos e a ele sempre pertenceremos. A ingratidão é atitude que atinge o Cosmos e nos faz penar para que, na dor, possamos aprender a valorizar a saúde, o dia e as pequenas coisas da vida.

Quem sofre tem acreditar, acreditar e acreditar. A esperança nunca pode morrer e jamais morrerá. E quem atingiu a estabilidade e a plenitude da felicidade tem obrigações para com toda a humanidade e não se pode apenas a ficar a olhar desgraça desde o balcão da janela. É preciso descer até quem sofre e agir. Eu tenho feito um pouco e tenho procurado alguns dos meus irmãos. 

Não me olhe desde onde se encontra a achar que minha grama é mais verde que a sua quando o que precisas é simplesmente cuidá-la com capricho e regá-la com disciplina. Não queiras a minha grama verde quando tu tens a obrigação de cuidar da tua. E como agora me diz Almir Sater " Cada ser em sí carrega o dom de ser capaz e ser feliz!". Mais um trago? Pra mim sim!




sexta-feira, 20 de abril de 2018

Penumbra

Quem dera a tua amargura fizesse mal apenas à ti. Mas, ela atinge a tantos mais. Atinge a tua família, os teus amigos, o teu meio ambiente. Quem quer viver na amargura que o viva sem atingir à ninguém - como se isso fosse possível. Quem vive a amargura perde, não só a esperança e a felicidade, mas desvia o caráter e abre mão de valores humanos essenciais, como por exemplo, a ética. Quem está doente que se cure. Não se tem o direito de atingir, de maneira egoísta e equivocada, aos demais. Abrir mão da felicidade e viver na penumbra da depressão, pode sim, ser uma escolha e não uma dessas doenças da alma. E quem opta por tal situação o faz por pura maldade. E há cura para tanto. A cura passa pela dor das perdas. Há que perder o conforto da posição egoísta e perder, muitas vezes, a própria saude para, como a fênix, ressurgir das cinzas. Quem estiver a fazer companhia a tais seres corre risco de infectar-se. São péssimas companhias e não pensarão duas vezes antes de lançarem dardos inflamados e contaminados, pelas suas costas ou não. Eu, quando identifico um desses seres, bloqueio!

domingo, 15 de abril de 2018

Feliz Solidão

Foi de bike que sai disposto a chegar em Cascais desde Lisboa onde vivo. É uma boa distância, mas a paisagem linda e com o oceano à esquerda o tempo todo e a 180º. À minha direita  muitas freguesias e bairros, serras e penhascos, hotéis e hospitais, casas majestosas de não sei quantos séculos e que poderiam ser palacetes e até pequenos castelos. Tinham os fortes a proteger a costa não sei de quem; os faróis a piscar eternamente a sua lanterna em direção ao mar e a guiar os navios e barcos de pescadores; e também jardins bem cuidados com mirantes que acolhem casais de namorados, idosos a fumar um charuto ou transeuntes com seus cachorros. Lá longe onde a vista acaba vi uma construção que mais parecia um castelo erigido sobre alguma ilhota e que a moça de um café me disse ser apenas mais um forte. Mas, o barquinho de algum pescador no infinito azul era só mais um ponto que não chegava ao de uma gaivota. 

Passei por sobre pontes e viadutos e por baixo deles também passei. Ultrapassei pedestres em caminhadas lentas e contemplativas  ou a fazer a sua corrida de rotina para manutenção da vida e, porque não, do corpo. A orla abriga belos restaurantes pendurados em penhascos e cafés charmosos que servem cervejas mil e algumas chávenas - xícara aqui é chávena - de bom café. A ciclovia é um tapete. Tinha umas nuvens que indicavam chuva, porém isso aqui pode ser só donde se está e já ali na frente o sol bate à pino. Mas, elas caíram aqui ou ali, mas nada que fizesse sair da ciclovia e procurar abrigo. 

Vi o senhor solitário em sua casa acastelada sobre o penhasco do outro lado via. A imensa casa de três andares e torres castelhanas, toda em pedra irregular, quiçá uma das mais antigas construções dali. O velho senhor vestido de imponente feltro azul militar e com seu chapéu à la francesa e sua bengala, sentado na escadaria da velha casa enquanto pegava algum sol e olhava as ondas a quebrar na praia lá abaixo. O jardim e janelas mal cuidados denotavam a solidão do pobre rico senhor. Preparei a minha câmera-fone para sacar a foto de tão poética cena quando vi o cãozinho de médio porte a subir ligeiro as escadas em direção ao dono e vindo do imenso jardim, para um carinho. O danado me viu lá do outro lado a sacar a foto e, a latir,  correu para o portão e danou a ladrar sem parar fazendo com que seu velho dono percebesse a minha invasão de privacidade. E de lá ele fez-me aceno que eu correspondi em total reverência, quase a pedir perdão. Eis a solidão que aguarda tantos de nós. E a solidão pode ser ótima companhia quando se está em paz e se tem um cão fiel a guardar-nos. Deixei a cena com uma vontade imensa de entrar além do portão e ouvir as muitas estórias que deve ter o velho senhor a contar enquanto pudera eu admirar o interior de sua casa secular. 

As ondas batiam com violência nos penhascos que seguravam a ciclovia e molhava os transeuntes e eu não deixei de receber um banho do mar que quis lamber-me um pouco e experimentar um pouco do gosto da minha felicidade. Cheguei até o famoso Cassino de Estoril, já em Cascais e lembrei que ali Ian Fleming pariu o agente mais famoso de sua Majestade and Britain Queem, o James Bond, o 007. Dobrei minha bike e atravessei o túnel que dava para estação e peguei o primeiro trem de volta para casa. O vagão estava lotado de outras bicicletas que, espero, tenham sido seus proprietários tão felizes quanto este.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Janela de Felicidade

Não há infelicidade ou marasmo, mal humor ou olho atravessado que não faleça ante um porre de vinho do Porto e um Luiz Gonzaga a zabumbar numa caixa de som e a expulsar os demônios. Hoje é quarta feira e estou borracho do vinho do Porto que aqui custa apenas uma bagatela. Ouço boa música do Brasil, meu lindo! Saudades me batem no coração e no juízo. Saudades da seca que esturrica o Maranhão e faz poeira levantar nos pés pobres calçados de alpargatas da minha gente tão sofrida.  Não esqueci as minhas origens e a minha gente que para trás "ficou".

Ouço vossas lamúrias esperançadas em terços e ladainhas de quem espera em Deus a grande transformação social ou pessoal. Os outros que, adversos às ladainhas católicas, fazem orações ao novo Deus protestante que, sem qualquer distância, é o mesmo Deus que está crucificado e pendurado, inerte, nas igrejas católicas e repartições públicas. Todos adoramos o mesmo Deus, mesmo que de mim discordes e não queiras. Se o teu deus discorda do meu, desconfia - Deus não pode ser para discordâncias. O meu não discorda do teu. O Diabo é uma fantasia e não tem importância. O que importa é que estejas feliz mesmo que a arrastar as sandálias por estradas ou caminhos poeirentos do meu lindo e querido Maranhão. O que importa não é o que nos separa, mas o que nos une. E nos une o sangue. O sangue que em minhas veias corre é o mesmo sangue que está nas tuas. Eu não me importo se pensas diferente, só quero que sejas tão feliz quanto eu.

A felicidade é algo que se deve lançar pela janela, por peitos fartos e sorrisos largos mesmo que banguelas. A felicidade não é para ser contida. E que a semente lançada caia em terras férteis e úmidas. Viva Luiz Gonzaga! Viva o Brasil e o meu Maranhão! Viva a vida!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Moinhos e Cata-ventos

Até Caldas da Rainha são cerca de uma hora e meia de viagem e que eu fiz de ónibus. A temperatura estava baixa e nuvens negras e pesadas indicavam que os céus cairiam sobre nossas cabeças à qualquer momento. E caíram torrencialmente. E foi lindo ver a chuva cair em fios largos que desciam pelo vidro da janela. O ónibus seguia suave pelo tapete que é o asfalto por aqui. Pouco mais adiante o sol ja brilhava intenso e iluminava a paisagem dos montes no horizonte. Moinhos seculares que guardam e moem os grãos ou modernos cata-ventos colossais a girar e gerar energia limpa e a fazer desse país auto suficiente em energia. A música ambiente é boa e a internet é livre dentro do autocarro que me leva rápido. Passo por aldeias seculares e vejo velhos castelos imponentes nos altos de colinas a tocar os céus com suas torres. Vinhedos e olivais e muitas outras plantações que não identifico em linheiras uniformes e cores variadas e que produzem frutas mil que comprarei no mercado do meu bairro. Portugal é muito mais!

Caldas da Raínha


Depois de pouco mais de uma hora em ónibus confortável e de chuva torrencial, com sol a brilhar intenso, estava em Caldas da Rainha. Como todas as demais cidades do país, é muito bem cuidada e limpa. A sensação de segurança se reflete e se pode andar tranquilamente pelas ruas seculares, entrar em becos, subir e descer escadarias ou andar pelos parques da cidade sem a sensação de que se vai ser assaltado na esquina ali na frente.


Com cerca de 30 mil habitantes e pertencente ao distrito de Leiria a história da cidade está intimamente ligada às suas fontes termais da qual se serviu a Rainha Leonor para se curar de sua úlcera ao banhar-se em suas aguas sulfurosas e de odor intenso.

A abundância de argila na região fez prosperar fábricas de cerâmica que a impulsionou a ser das principais representantes de tal arte no país. A cidade atraiu artistas que fizeram florescer ali um pujante centro artístico. A cerâmica hoje é tradicional e converteu a velha cidade em um dos principais centros produtores dessa arte.

Na tradicional e secular Feira da Fruta, compramos 20 peras e 10 maçãs a 1,50€. Aliás, a velha feira funciona numa bela praça, todos os dias do ano. No final de cada a feira se desfaz e praça fica intacta e pronta para namorados ou um passeio com o cachorro. Nem sinal das barracas. Encontram-se todos os produtos agrícolas produzidos na região e quem os vende é quem os produz. Uvas suculentas ou em passas, figos, peras, maçãs, nonias, framboesas, mirtilos, cerejas, nesperas, melões, sálvias, cebolas, batatas, tomilhos. Todos os tipos de temperos em pó ou não. Folhagens, raízes, frutos e flores. Tudo a preços de cair o queixo de tão barato. 

Teve céu limpo e azul com sol brilhante a chuva torrencial que me fez comprar um “chapéu de chuva”. E isso aqui é só um guarda chuva. 

Voltei no final do dia para Lisboa com um desejo danado de, num dia qualquer, botar o pé aqui de novo pea nunca mais sair.

domingo, 1 de abril de 2018

Mesa

Daqui para lá e sobre a minha mesa. Um guardanapo sujo de catarro, três pen drives, o computador notebook que agora escrevo, dois suportes plásticos para pratos quentes - o almoço sai já - um vinho Pegões Reserva safra 2013, uma taça meio cheia, dois celulares, uma maquina de café, uma caixa com três pasteis de Belém, uma fruteira com três laranjas, três bananas, uma maçã e uma caixa de Magnesium OK, um chip da vivo - não sei porque não criei coragem pra jogar essa porcaria no lixo - um mouse e uma agenda com capa de couro que guardam lembranças de viagens passadas.  tu do isso sobre a minha mesa. E nem está assim tão bagunçada!

sexta-feira, 30 de março de 2018

Deus é Sabiá

Do meio do quarteirão donde estão laranjeiras, limoeiros, figueira e algumas outras espécies não identificadas desde minha janela ouço todas as madrugadas, muito antes do sol enviar o primeiro raio, um doido de um sabiá a cantar sem parar. Sim, um sabiá me acorda todas as madrugadas, lá pelas quatro da madrugada e canta sem parar até que se faz acompanhar por um banco de pardais e por pombos. E assim amanhece o dia. Eu não sei se é coisa de Deus que insiste em me abençoar com coisas lindas como essas quando eu nem sou crédulo em tais deuses sagrados, senão, no inominável, inqualificável e indenominável. Ante o grande mistério que é a vida e o Cosmos e tudo o mais, me rendo e aceito minha impotência e respeito o que não conheço. Respeito ainda a tentativa humana de conexão em direção à divindade e tudo o que já se produziu em termos artísticos em louvor à que chamam Deus. Mas nem é disso que quero falar. Quero falar é do sabiá. E o sabiá também é Deus. Veja só! La vem Deus de novo no meu texto.

Em total escuridão ele canta sem parar, a se esgoelar, em notas perfeitas e por horas à fio. Os pardais tentam imitar o seu solo de burros que são. Os velhos pombos com seus peitos estugados em marquises por eles todas cagadas, seguem os desafinados pardais e estragam o solo do sabiá que cala, talvez puto da vida ou vaidoso por entender a vã tentativa dos demais em imitar-lhe. E o pior, com o sol já claro, as gaivotas imensas soltam gritos desesperados que parecem de mal agouro, mas que aceito como sendo mais uma manifestação da natureza divina da qual também estão dotados.

Eu fico na minha cama, em êxtase, tento acompanhar cada nota, solfejo, assobio. O sono me vem e tento não dormir só pra ficar a ouvir o danado. Durmo e acordo com os pardais desesperados e pelos pombos a bufar em seus peitos inchados e em dança de acasalamento e a pisotear a própria bosta e, por fim, as gaivotas parecem ecoar em megafones seus gritos. O sol já brilha e o sabiá já não canta mais. Cedeu o palco para as demais criaturas que tentam uma imitação horrorosa. Nunca o vi. Talvez nunca o verei. Mas, quem já viu Deus?

E aqui é puro concreto com um ou outro ponto verde de frutífera onde resolveram morar todas essas criaturas divinas e um Deus que chama Sabiá. Tomara um dia o veja, mesmo que de longe. Mas, como sou sortudo, quem sabe um dia desses, o danado pousará na minha janela. E aí vou lhes dizer: Deus existe!

Lingua

- Passa cá tu!
- Vem cá tu!
- Vai lá tu!
- E páh!
- Ora pois!

São exemplos de expressões do cotidiano de Lisboa que me soam como um congo desafinado aos ouvidos. O “e páh” está sempre no final de toda e qualquer frase de uma narrativa mais empolgada.
Apesar de tudo, ouço o português com suas mesóclises, próclises e ênclises. Na segunda pessoa do singular e com o verbo devidamente flexionado à pessoa e a obedecer o tempo verbal.

Não sei de onde arrumam um “I’ e um “E”, que bem podiam ser maiúsculos, para quase tudo. Doutor vira “Dotoire”, senhor vira “senhore”. Os verbos seguem na mesma e fazer vira “fazeire”, botar vira “botaire”. Exemplos? Eu vou ali “botaire” o arroz no fogo; Vem cá tu “botaire” o arroz no fogo; vai lá tu a “botaire” o arroz no fogo.

Por vezes, danam a falar rápido comigo e apenas gesticulo com a cabeça como se estivesse a entender alguma coisa quando, para mim, está a falar a horrenda língua dos anjos propagada com orgulho pelo povo das assembleias. E pra piorar, grande parte dos portugueses estão sem dentes. E quando digo sem dentes digo todos os dentes. O tratamento por aqui é caríssimo e os produtos de higiene bucal também. Quando se fala sem dentes e apenas com lábios a coisa piora para mim e me pergunto se estou a ficar meio surdo já que nada que saia de suas bocas-sacola consigo entender.

Ao meu ouvido me soa aberto e bem pronunciado é mesmo o português do Brasil. Acho mesmo linda a sonoridade de nossa língua brasileira. E sei que posso ser tido por preconceituoso, mas me dispo dele e, nem assim, concluo coisa diferente. E no Rio, certa vez, muitos anos atrás, conheci uma colombiana que morava em Chicago e que já havia morado em vários países mundo à fora e que ali estava a estudar o português.
- Mas, não o português de Portugal. O português do Brasil ao qual considero a língua mais linda que já ouvi – disse-me ela.

Não serei eu que dela irá descordar!

domingo, 18 de março de 2018

Velha Elegãncia

Desde a janela, minha vizinha, uma velha e linda senhora, toda empetecada com suas pérolas - se falsas não sei - cabelos cinza metalizados que, desconfio, seja peruca, em seu blazer engomado e ombreiras altas, labios vermelhos carmim, joga janela abaixo, faça chuva ou faça sol, carnes de sobra que caem sobre o imenso terraço donde estão gatos gordos - já engordados por ela, com certeza - e sedentos dos suculentos pedaços. Os gatos não podem ser dela e ela nem sabe de quem são, eu tampouco. Os gatos moram dentro do quarteirão mistério donde vivem mil gentes das quais gostaria de ouvir-lhes as estórias. São janelas mil donde, em cada uma vive, como eu, alguma alma com estórias ricas como a da minha vizinha que desde a sua janela elogiou minhas flores em meu balcão, mas fez questão de saber o que eu achava das delas. Quem se aproveita dos nacos de carne são as gaivotas que descem doidas desde não de onde - mas o Tejo tá ali embaixo, nem tão longe assim - e avançam contra os gordos gatos e os pombos cagadeiros que infestam esta cidade.  Os gatos enjoados fazem pose de desdém e as gaivotas enormes pegam sua iguaria nos bicos e levantam-se rumo ao céu infinito. Eu asso um pernil enquanto ou "Iansã cadê Ogum" ou o bom e velho e elegantíssimo Luiz Gonzaga enquanto tomo um bom Madeira e vos escrevo em tentativa desesperada de fazer-vos lembrar de mim. 
As gaivotas levantam vôos e os gatos ficam preguiçosos sobre a lage. Queria alcançar o imenso limoeiro e dele colher limões com os quais faria uma caipirinha só pra lembrar ainda mais de vocês. Fico com os gatos na laje e com o Madeira em taça linda pousada sobre o balcão. E o danado do Luiz canta "vem cá cintura fina, cintura de pilão" e eu me perco todo em tanta felicidade e saudade. Os gatos estão sobre a laje lá embaixo a olhar para a velha senhora elegante cá em cima. E eu vos escrevo a pedir: não se esqueçam de mim! Mais um pouquinho do Madeira que tanto bem me faz! E desde já posso lhes dizer: fiz tanto que já acho que fiz muito mais do que podia fazer. 
O sol brilha intenso e traz uma luz que parece nunca ter vista e os gatos, gordos e indolentes, olha arriba, para a janela da velha senhora tão elegante - e não estou a repetir-me, estou tentando ser poético - Ela lá não mais está!


segunda-feira, 12 de março de 2018

Isso tudo é Gente

Isso é gente! GENTE!!!!! Gente bem diferente e às quais vemos todos dias ao botarmos o pé na rua e à quem olhamos com desdém como se pudéssemos de dizer, de cima para baixo, o quanto o outro é ou está ridículo. Eu não nego que algumas figuras me assustem, mas daí a rir delas sem fazer a reflexão primária de que é na diferença que está a beleza das coisas e que, pior, nunca lhe paguei uma conta para dar-lhe pitaco... é de presunção descabida. Ademais, muitas delas estão é à frente de mentalidades retrógradas e conservadoras em sua tentativa inútil de tentar impedir a evolução humana. Que se dane o que eu penso do meu semelhante. Ele que ele vá viver a vida e ser feliz do jeito e maneira que lhe convenha. E o que for crime que seja submetido às leis. Mas, qual o crime dessas criaturas? A feiura? A beleza está nos olhos de quem ver!

domingo, 11 de março de 2018

A Minha Rua

A minha rua não é o que se poderia dizer ser uma ruazinha sem graça.

O Zé faz o café alegremente na pastelaria e Maria João passa roupas por todo o dia na lavanderia. O Felipe é peluqueiro, mas informa em letras garrafais "Apenas para Homens". Já a Sara é cigana que ler mãos ou vende panos de prato. O Chong é chinês e dono da loja de 1 e 99 que leva o nome de "Fura-olho". No mercadinho está a simpática paquistanesa esposa do Billal que cuida das cebolas e das batatas que compro pra o almoço. Tem a Felipa que é dona do Hair Studio, esse só para mulheres e onde não tem manicura. o Abhoil é o indiano de turbante laranja a quase bater no teto e que é dono do Restaurante que emite o cheiro de curry pela rua toda e cuja chaminé está abaixo da minha janela e faz meu estômago roncar e faz os meus budas da minha sala revirarem os olhos de saudade. O rapaz empacotado no terno azul de chama Pedro e trabalha no Banco BPI donde os clientes são, quase todos, de cabeça branca e usam bengalas ou andajás. Tem a loja que vende apetrechos de não sei o quê e donde nunca vi um cliente a comprar o que quer que seja. A Luzía é a dona do ateliê de costuras e faz as barras das minhas calças. O Francisco é o dono da Funerária Boa Hora e tem um "visu" apropriado ao ramo: cabelo preto pintado e engomado, grudado no casco da cabeça em linhas de pente grosso, sobrancelhas longas e que mais parecem tanajuras e um bigode que parece a minha escova de engraxar sapatos. O Simão é Chef e dono do Restaurante açoriano ao pé do mercado municipal. A barriga não nega a fartura e a gulodice e o bigode é de um leão marinho, mas a comida é boa e levou o estabelecimento a ser tido como dos melhores na cidade. Antonio é o padeiro que diz fazer o único pão de verdade daqui e que os demais estabelecimentos, inclusive o Pingo Doce que vende o mais saboroso Carcaça da Aldeia que já comi, não fazem pão de verdade. Seu Pedreira é figura mal humorada e suja que é dono da oficina que deveria consertar os móveis, mas, que, na verdade, emporcalha a cena com os velhos moveis espalhadas calçada à fora e abriga cachorros pulguentos e ratos que de tão grande podem ser confundidos com a anta do Brasil - exagero meu. Aparecida é a moça sem vaidades que cuida da papelaria e que agradece á quem não a fizer levantar-se de sua velha cadeira a lhe atrapalhar a partida de futebol donde o Benfica tem de ganhar todas. o Padre se chama Gonçalo e vive a fugir dos fregueses que lhe cobram não bater o sino da igreja às seis da manhã a acordar quem não lhe é crente. Safira e Aburkarl é casal de árabes não sei de qual país, mas que são donos da Loja da Sorte, a casa lotérica daqui. Abner é judeu e dono de vários apartamentos e vive de alugar ou vender suas propriedades em negócios nos quais nunca leva prejuízo. Itamar é desdentado e rapaz velho e solteiro, cliente 24 horas, que vive na Pastelaria do Zé a beber café, vinho barato e a fumar um cigarro do lado fora mesmo que debaixo de chuva. Zuza é velha cigana enrugada e vestida de preto breu dos pés cabeça ante o luto da viuvês orgulhosa do marido que morreu faz mais de quarenta anos - É a nossa cultura - informou-me ela no que pretendia ser altiva mas denotou-me, de verdade, a submissão ao machismo burro. 

E tem muitos mais aos quais poderia citar em apenas algumas palavras que formariam frase em texto de páginas que dariam um livro e que, com certeza, lhe cansariam.

Mas, a minha rua não é o que se poderia dizer ser uma ruazinha sem graça. 

domingo, 4 de março de 2018

Ler Devagar

“Ler Devagar” é o nome da livraria instalada no LX Factory de Lisboa. O LX Factory ja falei sobre ele e trata-se de velha fábrica desativada há séculos que virou lugar para a gente moderna e descolada da cidade e para centenas de milhares de turistas depois que uma turma idealizou e transformou o lugar num conglomerado que vai de restaurantes a lojas de tatoo. Tem tudo! Mas, a dita livraria está instalada num imenso ambiente onde deve ter sido uma casa de máquinas da antiga fábrica. As estantes foram instaladas de modo a preservar toda a velha estrutura da fábrica e basta subir as escadas para se sentir alguns séculos atrás. Nem o piso foi modernizado e se percebem as falhas no velho cimento. Junto e dentro, um café oferece drinques ou lanches que podem ir de saladas ao pequeno almoço. O acervo da livraria é vasto é riquíssimo.
A boa música brasileira tocava durante a minha visita. Era o bom e velho Caetano - apesar de seu esquerdismo cego e a defesa de gente condenada - que eu ouvia enquanto a chuva caía lá fora. Os periódicos estão à disposição nas mesas do café e a clientela está por toda parte a subir e descer a velha escada entre as estantes abarrotadas de livros. Ouvem-se linguas de todos os cantos do planeta e veem-se tipos identificáveis que vão desde os olhos puxados dos asiáticos à cor azulada dos indianos, das barbas dos árabes à loirice europeia. E Caetano canta agora em bom inglês. Mas, poderia cantar em bom espanhol como o sabe bem. Ou, quiçá em bom português brasileiro, a língua mais bonita e sonora do planeta.