segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Riso por Disbunde

Prefiro o riso ao choro. Há quem prefira a emoção densa e dramática da tragédia. Eu gosto de uma boa tragédia. Porém, a refletir sobre o assunto considerei que o choro é para quem está em processo de cura. Quem chora de emoção ante suas lutas ou ante a luta de outrem está a observar o processo de sua própria cura ou do outro. Mas, que rir, rir porque está curado. O riso é êxtase pós luta. Quem está doente não rir. O que rir o faz de cara e peito abertos.

O sorriso descontrai e lança-se, expulso pelos musculos internos, de dentro para fora, para o universo. O choro é contraido. Quem chora chora pra dentro de si mesmo. O choro é acanhado e escondido. Quem chora não quer chorar. Quem chora quer mesmo é rir. O riso se escancara ante o sol cálido e se espalha por quem o assiste. O riso é virus do bem que se espalha. 

Que não se invalide o poder do processo da cura que vem pelo choro. As lágrimas lavam a alma e depois... pra cura ser completa... vem o sorriso. Bom mesmo é rir depois do processo. É rir por agradecimento. O riso é para quem está em paz e sem problemas. O problema que pode ser  uma doença, quiçá, a morte, leva ao choro. Uma reflexão, um livro, uma cena de filme ou de realidade pode levar ao choro. Nada há de errado em chorar. Mas, rir é que é disbunde. O riso é o estravasamento de boa emoção.

Mas, há tempo de sorrir e tempo de chorar, diz a bíblia que nem é tão sagrada assim. Mas, ela tem razão. Já sorri e já chorei. E chorei sozinho, às escondidas. E depois do choro vem a paz e a leveza. Mas. o rir é orgásmico. É bom andar por ai a mostrar os dentes a quem sequer conhece. Quem rir recebe riso por resposta. Quem chora recebe dó e pena. Definitivamente, fico como meu sorriso. Fico com o seu sorriso! Mas, levo a minha dor! 

Wanderley Lucena

sábado, 23 de janeiro de 2016

A Garçonete e a Privada

O pessoal do serviço do Roxy Bar, na Praia do Francês, em Alagoas, Brasil, por si só já seria material suficiente para estórias que renderiam um livro de muitas páginas. Cada garçon, assim como qualquer indivíduo, traz características muito peculiares. Eles consideram que o trabalho é excessivo e correm para lá e para cá como se o mundo estivesse a se acabar e eles tivessem que sobreviver em meio a uma chuva de pedras. Quem se sentar junto ao balcão, e não nas muitas mesas espalhadas pelo salão, perceberá o clima tenso e denso. A atmosfera não acompanha a boa música que toca quase inaudível apesar de tantas reclamações para que o volume suba um pouco mais. Ouvir Pink Floyd muito longe, abrir bem os ouvidos e mesmo assim não poder apreciar a música é exercício irritante e enfadonho. 

Tem a mocinha loira, de olhar furtivo,  mãe de três filhos, estudante de algum curso superior que não me lembro e que aparece do nada, correndo pelo salão como se estivesse ocupada a atender algum cliente. Ele aparece e desaparece por quase meia hora. Volta  aparecer e, de novo, some por mais meia hora. A observá-la, percebi que a funcionária que mais usava o banheiro de serviço era justo ela. E sabe porquê? Segundo me informaram, depois de fechar a porta, baixa a tampa do vaso e sentada ali tira uma soneca para recuperar o cansaço da correria ou da praia, da "maresia", dos namoros que a fazem perder a noite (ou ganhar - a depender de onde se olha). Acorda e sai correndo pelo salão e volta correndo para o mesmo banheiro a fazer a mesma coisa tentando disfarçar a sua atitude.

Mas, a mesma moça me informou não ser ela garçonete. Parece-me que é bióloga ou algo que o valha e que, portanto, goza de certo privilégio - ao menos em sua cabeça - já que é superior aos demais. Que por ser bióloga não precisa se preocupar em servir como os demais. Sempre notei certo ar de superioridade na moça. Agora estava respondido o porquê. Ela se considerava bióloga e não garçonete. Há grande equívoco no argumento da garçonete que dorme na privada. Ela pode não ser garçonete. Ela está garçonete. Que aproveitasse a oportunidade de trabalhar na nave intergaláctica que é o Roxy e que fosse feliz ao falar com tantos de tantas nacionalidades. Mas, na cabeça da gorçonete, o Brasil estava a perder uma bióloga e ela era obrigada a desenvolver atividades indignas. Resta saber se o dono do estabelecimento conhece a tal falácia da moça e se concorda com ela - coisa que duvido muito. 

Já percebi certo chamego, talvez só por parte dela, em direção a um italiano de olhos azuis como a cor do mar do Francês. Acho logo teremos novo rebento, talvez, com dupla nacionalidade. Mas, esse é apenas um pormenor. Nada contra quem pare seus filhos desde que os crie e crie bem. Mas, a moça é de poucas posses e se mantem com a ajuda do pai. Aqui vive de favor nas casas de amigos. Assim sendo, acho que seria melhor uma laqueadura. Well!

Mas, não é a música baixa que me chama a escrever e sim o serviço desta estação intergalática chamada Roxy Bar. Ontem fui lá como de costume e percebi certa calmaria. O clima estava até bom. Não houve nenhuma discussão ou barraco entre eles. Reclamei, claro. 

- Escuta! - interpelei a garçonete - cadê? Não vai ter um barraco hoje? Uma briga? Uma discussão? Nada? Tenho meus direitos como cliente e quero ver ao menos um barraco! Francamente! Vou reclamar com o dono! (rs)

Fui informado que houve reunião entre todos e o dono e que foram repreendidos. Eu, se fora dono, demitiria metade do pessoal a bem do estabelecimento. Como nada tenho com o estabelecimento que não seja o de consumir, religiosamente a minha cerveja enquanto tento um colóquio mesmo que com a moça que dorme sentada sob a privada, recolho-me à minha insignificância.

PS.: Antes de publicar essa crônica, fui, como de sempre, ao Roxy e não vi a garçonete bióloga que dormia escondida sentada sobre a privada. Disseram-me que um ropante de rebeldia, pegou suas poucas tralhas e ausentou-se com probabilidade de não mais voltar. O assento da privada está vazio. Alguém se habilita?


Wanderley Lucena


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Caminho Inverso

Ontem no Roxy Bar na Praia do Francês - uma espécie de estação intergalática onde se reunem os seres mais esquisitos - o clima ficou tenso entre os serviçais. O local é território quase que italiano. O idioma oficial deixa de ser o português. E na Itália existem diversos dialetos. Por vezes, nem os próprios italianos se entendem. Boa parte deles faz a mulherada babar com tamanha beleza. Outros são verdadeiros ogros. Quando são brutos não perdem em nada para os nativos locais. 

A cada dia chegam mais italianos e, dentre eles, faz uns dois meses, chegou Giuseppe. Trata-se de figura ágil e de voz firme e gestual exagerado, tipicamente italiano, que insiste em não aceitar a cultura da preguiça que está impregnada na nossa gente, infelizmente. Eu que sou brasileiro nato e me orgulho muito disso, sinto grande dificuldade  e vergonha ante a indisposição generalizada de nossa gente. 

O pessoal do Roxy considera o labor uma maldição. Desde o momento em que saem de suas casas a única coisa que desejam com sofreguidão é o momento em que põem suas mochilas nas costas e saem apressados para pegar o ônibus e voltarem a fazer nada em suas residências.

Giuseppe insiste em não calar-se ante o que considera pura falta de vontade dos colegas gorçõns como ele. Aos berros e com dificuldade de ser entendido, tenta fazer a engrenagem enferrujada do serviço andar. Eu ontem o avisei que sua luta era hercúlea e inglória e dela sairia perdedor. Que deveria relaxar e entregar-se à corrente. Está no nosso sangue essa indolência que não aceita melhorar e nem aprender nada. A garçonete oponente da vez á Guiseppe é moça com cara de Maria Bonita, musculosa e de sorriso fácil e farto. Corre daqui para lá e de lá para cá com boa vontade. Giuseppe conseguiu a antipatia geral e sofre boicote por todos os lados e forma constante. 

A moça Maria Bonita não se intimidou ante os berros de Giuseppe que lhe mandava fazer determinada coisa de tal modo e não da maneira que ela estava a fazer. A moça o enfrentou com punhos cerrados e o expulsou do recinto. Foi bate-boca duradouro e em alto e bom som. Confesso que fico bastante incomodado e constrangido ante tais cenas diárias. Achei que ia sair porrada. 

Vamos até quando Giuseppe aguentará. Até que ponto manterá a sanidade mental. Eu já estive em seu lugar e, apesar de concordar ipsi-litteri, com ele, informei-lhe que ele estava em nosso país e que não iria conseguir alterar essa ordem inversa de valores laborais brasileiros. Que, acima de tudo, ante o choque cultural, deveria abster-se e respeitar tais limitações que nos estão inseridas.

Já estive em seu lugar, meu caro Giuseppe. Desisti! Farei o caminho inverso ao seu e me vou para o velho continente onde resta alguma displina. 


Wanderley Lucena

Alforria

Falta tão pouco para o meu grito de independência que minha ansiedade é maior do que aquela que senti meses antes de aposentar-me. Dia 10 de fevereiro será o dia de minha alforria. E estava a pensar: vai que morro antes? Decido que não morrerei antes de colocar em prática o meu outro projeto. Mas e se a morte me chegar? Eu a enfrentarei com minha faca peixeira muito bem amolada. A ranger os dentes a porei para correr de minha presença. Respeite-me! Vá se embora! Apareça-me em momento no qual eu esteja menos ocupado! Nem que a vaca tussa a senhora me levará tão cedo. Ela que fique, sentada ao relento, a esperar-me enquanto arrumo minhas coisas, as minhas duas malas. 

- A senhora quer falar comigo? Bem... deixe-me ver em minha agenda quando terei disponibilidade para atendê-la. Volte-me daqui a uns 30 anos. Há! E por favor, faça o seu trabalho sem alardes. Chegue-me na calada da noite e, sem me informar, faça o que tem de ser feito. E, por favor, deixe-me em paz! Vá infernizar a vida de outrens. Tenho muito o que fazer. 

Quero pisar em areias brancas e acariciar, em água salgada de mar, meus pés cansados de tanto dançar. Quero embriagar-me muitas vezes e gritar de felicidade ante a tudo e a todos. Quero deitar-me embaixo das estrelas e sentir o coração palpitar ante o Cosmos. Jogar pedras na lua e nas árvores frutíferas pelo caminho. Quero carnavais em blocos de gente feliz. Quero sabores passados e novos sabores. Quero cozinhar e ver TV. Quero orgásmos em noites frias de inverno, em noites quentes de verão e em todas as estações. A morte que se dane!

Wanderley Lucena

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Desejos de Literatura

Tenho desejos de escrever. Já tive desejos de publicar livros. Já tive desejos de ser ouvido. Já tive desejos de ser lido. Agora, já não sei mais. Lendo a Clarice, a Lispector, me identifiquei com ela no quesito "literatura". Clarice escrevia para quem a lia e tinha profundo respeito pelo seu leitor, porém, ela o fazia pelo simples ato de escrever para si mesma. Escrever é ato orgásmico. Talvez um parto derivado de alguns minutos ou de meses ou até anos, a depender do que se escreve. Há textos que se nos vêm e os parimos de imediato. Outros ficam gestando em nossas cabeças por tempos incontáveis até que são paridos. Há os que levam anos sendo paridos. São de parto difíceis e, por vezes, natimorto. Daí, jogamos na lata de lixo o que parimos com tanta sofreguidão.

Se Clarice não queria nem se considerava literata, embora, com tantas bons partos, imagina eu. Sou um neófito nessa arte de parir. Sou, creio eu, na verdade, um engodo. Mas insisto em desejar. E assim me ocorre de escrever em blog o que um dia, queira Deus, publicarei em livro. A depender das críticas, claro! Vou me dirigir, antes de tudo, a quem me avalie com imparcialidade e verdade antes desse passo tão importante e ao qual não quero frustrar-me.

Ontem ganhei de presente um livro de um hóspede a quem considerei apenas um "qualquer". A comentar-lhe sobre minha escrita ele me presenteou com o livro de sua autoria: "Na Terra das Mulheres sem Bunda". O material é primoroso e eu folheei curioso. Vou ler o livro pela capa. Vamos ver o restará depois da leitura. Jamais o imaginei escritor ante a figura bonacha e tatuada dos pés à cabeça. O título do livro tão surpreendente quanto ele próprio. Parece coisa boa. Vou ler sim.

E por falar em literatos, ofereci de cortesia, quatro noites à FLIMAR - Feira de Literatura de Marechal Deodoro em Alagoas - Brasil. Afinal, cabe ao empresariado certa quota de responsabilidade social no fomento á cultura, creio eu. Veio-me um escritor que o reconheci da Globo News. Interessante é que o moço-escritor, quando da entrevista, me convenceu. Mas, já aqui, não gostei nem um pouco do que se apresentou. Era soberbo e desdenhava de quase tudo. Insuportável que era, deu-me, igualmente, um de seus livros. Abri-o e folheei por mera educação sabedor de que o jogaria na lixeira em seguida. E foi o que fiz. Aliás, tomei o cuidado de queimar o tal livro que até que se apresentava com boa capa e com boa formatação. Mas, não sou obrigado a reconhecer que figura tão desagradável, de repente, poderia escrever e, inclusive, escrever bem. Fico com o meu desdém e com o benefício da dúvida.

Mas, o ato de escrever-parir, é como todos os demais partos. Conheci mulheres horrorosas que pariram filhos lindos. Conheci cafagestes que pariram homens de bem e muito éticos. É a mesma coisa. Vamos ver que filhos serei eu capaz de parir. 

O parto é ato solitário e ante o computador que começa com o desejo bem anterior - ao menos no meu caso. Entretanto, alguns diálogos de watssap com amigos inteligentes já me viraram textos - confesso! A cada parto, naturamente, os demais vão ficando mais fáceis. É assim com tudo na vida, creio!

Já tive tantos desejos. Continuo a desejar tanto. Talvez sejam os desejos dos grávidos! Apenas desejo desejar sempre!


Wanderley Lucena


sábado, 16 de janeiro de 2016

Roxy do Francês

Aqui tem um lugar chamado Roxy. Isso mesmo! O Roxy bar, na Praia do Francês é uma espécie de estação espacial intergalática. Tenho certeza que a lanterna-flash-apaga-memória de MIB - Homens de Preto - seria usada repetidas vezes ao ponto de acabar a bateria do artefato. Os mesmos MIB's teriam muito trabalho para recolher grande quantidade de seres intergaláticos que frequentam o lugar.

São seres complexos, muito deles, completamente loucos. Tem os "cheirados", o pessoal da "erva", os do Daime, os do Ê e por ai vai. Há! E tem os chatos, como eu, que insistem em nada usar! Será? Dizem alguns que não sou tão chato assim. Há quem goste.

Há toda uma diversidade de excentricidades naquele espaço. Seres de diversos planetas e dimensões se encantram ali para uns goles.  Excentricidade  é a palavra que melhor que melhor define o Roxy Bar. 

Existem seres tão diversos que, desconfio com grande chances de certezas, que são verdadeiros ET's tentando disfarçar-se em humanos. Prostitutas e traficantes e mafiosos; loucos e drogados; falantes e tímidos que mal abrem a boca; tem intelectuais e equivocados - esses  não são os mais chamativos, mas, alguns deles podem se enquadrar, num outro sentido, no contexto dos ET's disfarçados. 

Os evangélicos, por pura hipocrisia, evitam o lugar. Mas, vez ou outra vejo uns aqui e ali a comer uma pizza e morrer de inveja da liberdade dos demais. Muitas moças recatadas com suas saias jeans compridas abaixo dos joelhos e a usar tenis com meias brancas a aparecer e seus costes de cabelhos abaixo dos ombros, conforme manda a bíblia - dizem elas. Elas passam cabisbaixas pela frente do lugar, loucas para ousarem entrar e serem prostitutas como as que ali estão a se divertir e valorizar a liberdade da humanidade que nos é innerente.

Tem os finos e os bregas. A moça feia e bêbada e a santa com cara de Amélia. Tem anjos e demônios. Tem a senhora louca, drogada e barraqueira. Tem mulheres lindas e poderosas e até as puritans que, nem sempre, são evangélicas. Tem amigos e inimigos.

Enfim, a atmosfera é densa desde o serviço até a clientela. Mas, vale à pena sempre. Eu passo todas as noites por lá. Tomo a minha cerveja depois de ficar horas a esperar que algum garçon perceba que não estou invisivel ou que sou apenas uma pilastra imóvel.

Tem frequentadores assíduos e esporádicos. Tem os lindos e os que não podem ser considerados apenas feios de tão horrorosos. Tem mães e pais de famílias; tem empresários e desempregados a pedir que se lhe paguem alguma cerveja. Tem solitários e grupos inteiros. Tem aqueles que aparecem todas as noites ou aquele ao qual se ver uma única vez.

Tem a moça feia que pensa ser bonita e que se veste vulgarmente e a mostrar o corpo despudoramente quase e sempre com o mesmo figurino - um short surrado e horrendo enfiado no "rego" e um sutiã de tricõ na cor branca. Essa fica a jogar o cabelo para lá e para cá enquanca saca fotos selfie a fazer biquinhos e por os dedos, sensualmente nos lábios. Ela sorri para a câmera e tenta mostrar as protuberancias de bunda e peito. É cena constrangedora que atribuo a uma doida de pedra. Mas, doidos de pedra são os tipos mais comuns no lugar. Seria eu um deles? 

A lingua predominante é mesmo o bom e velho português do Brasil - alías, concordo ser o português brasileiro a lingua mais bonita do planeta - mas, por vezes senti-me numa adega italiana. Sim, há muitos italianos no local. O dono é italiano e isso atrai seus patrícios. Mas, ouve-se o francês, o alemão, o inglês e muitos outros idiomas. Mas, o idioma é o que menos importa. 

O serviço é sempre muito tenso e os garções vivem a brigar. É de atmosfera pesada e os serviçais perdem a oportunidade de se divertir ao não perceber e aceitar que o multiculturalismo lhes seria oportunidade para o enriquecimento intelectual e diversão. 

Mas, o pessoal do serviço, por si só, já merecia ser identificado pelo Homens de Preto como verdadeiros ET's.  Um dia me dedicarei a escrever sobre cada um deles que são figuras riquíssimas e podem virar ótimos personagens de uma ficção qualquer. Não quero nomear nenhum deles ante ao fato de que me tornei amigos de quase todos e não quero ser tido futriqueiro que se sente superior. Não! Não me sinto superior. Considero um deles. Sou só mais um excêntrico dentre os tantos frequentadores desse ambiente incrível que se chama Roxy Bar na Praia do Francês.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Mergulho de Paz

Já é sabido que levo apenas duas malas com minhas roupas e alguns poucos pertences. E sabe? Acho que levo muito. Estou certo de que estou a tirar uma tonelada de meus ombros que nem são tão fortes assim. Há! Mas, levo um outro tipo de bagagem e, bem sei, isso é puro clichê - você deve estar a pensar. Eu lhe contesto ante o que sinto no meu âmago. Sim, sinto-me muito leve apesar de tantos problemas ainda a resolver. 

Certa vez, na praia, ante as ondas bravias que derrubavam os banhistas em cenas contrangedoras, megulhei e fiquei submerso enquanto ouvia as ondas a bater, quebrando sobre mim.Toda a bravura do mar agitado eu percebia abaixo, submerso sob as águas. Ali havia a calma e as ondas não me atingiam. Basta que se mergulhe e a onda passa por sobre você sem que lhe atinja.

É assim que percebo o meu momento. É assim que me percebo. As ondas já me derrubaram tantas vezes que agora descobri certa técnica e as espero passar por sobre mim enquanto estou submerso ante a certeza que pode ser chamada de fé, de que tudo E sei, passará. Tudo sempre passa. Sempre passa! E sei que logo o mar estará calmo navamente. E porei minha cabeça para fora e verei o sol a brilhar cálido e o céu azul acima e no horizonte a contrastar com uma bela paisagem.

Levo comigo a Clarice, a Lispector... e o Pessoa, o Fernando, que ganhei faz tempo. São ótimas e preciosíssimas companhias! 

A minha bagagem é outra! É outra a minha bagagem!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Matando Leões

E, ainda, falando em fechar ciclos... impressionante a quantidades de leões que tenho de matar por dia neste momento que vivo. "Matar um leão por dia", diz o velho adágio popular. Não mato um leão por dia, mato vários. É bem verdade que minha cabeça, por vezes, parece não aguentar. O medo ante a fera me faz suar e tremer. Minha voz, por vezes, fica trêmula e sinto o desconforto de quem foi pego em situação desconfortável. E nestas terras as pessoas adoram ver os outros desconfortáveis e constrangidos. Eu tenho por filosofia constranger o mínimo que possa ao meu próximo. Mas parece que a recíproca é inversa.

Até agora tenho conseguido superar, com dificuldades e marcas físicas, inclusive, pelo corpo. Sim, aqui as pessoas, uma parte delas, pelo menos, são violentas e não dadas ao diálogo. Está instaurada a cultura ridícula do machismo e a ignorância impera. Um simples desentendimento e vem um "barraco" que pode terminar em violência física. Eu nunca fui dado à violência física. Mas, sou cidadão, um tanto quanto, esclarecido e luto, diariamente, contra a correnteza que leva a sociedade para o pior ante a falta de ética generalizada. Sei que entrar na fila de um banco na frente do demais, por exemplo, é ato de pura corrpção. E ante esses atos me posiciono contra. De inicio vai com educação mas o tom pode subir se o indíviduo não se render aos meus argumentos óbvios.

Mas existem as agressões gratuitas. Exemplo: fui acordado madrugada à dentro por indivíduo que buzinava em frente á minha casa. Quando fui atendê-lo, simplesmente, recebi um paralepípedo voador na minha cabeça que me fez desmaiar e deixou um buraco acima do olho. Não sei quem era o indivíduo nem a causa de tal agressão. Essa marca levo para sempre. É verdade que o médico fez ótimo trabalho e me deixou quase intacto e a cicatriz quase imperceptível. Não me ressinto contra a agressão nem com minha marca. Doe-me apenas saber que fui vítima algum louco e que eu poderia ter me protegido melhor, inclusive, não ter botado os pés nestas terras.

Parece que há algum motivo cármico. Espero que seja mesmo isso. Que estamos a recuperar dívidas de vidas passadas. Eu sou descrente dessas teorias espitituais que não se podem comprovar. Mas, a teoria parece lógica e me contenta. Que assim seja!

São os leões enormes e de jubas fartas que me têm atacado. Muitos ataques são sutis e disfaçados. Certas pessoas são dissimuladas e com um sorriso de Queen Elizabeth te roubam e se dão ao direito, inclusive, de te dar lições de moral. Oras! Mas, veja só. Eu me faço de desentendido e sinto a bocarra a atingir minhas carnes com dentes sedentos por explorarem a boa vontade de cidadão de bem, honesto e trabalhador.

Vou para donde não me vejam. Vou esconder-me dentre os arbustos e ficarei ali quieto na esperança de que os leões não mais sintam o cheiro da minha adrenalina e que passem por mim sem que me percebam. Esse mundo é perigoso! Matei todos os leões que se me apareceram até agora. Saio desta savana perigosa em busca de lugar mais protegido. Um zoológico talvez!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Em busca do Logus!

E cá estou eu com duas malas para arrumar tudo o que tenho. Terei que me desfazer de tantas coisas. Pratico, obssecadamente, o desapego. É o que me resta nesse momento de fechamento de um ciclo. Fecha-se um ciclo, sem dúvidas. Um novo ciclo que começa, sem dúvida! E lá vou eu em busca da minha casa ainda não encontrada. Sinto-me um hippie; um andarilho chique; um peregrino! 

Mas, por falar em peregrinar, um dos meus desejos - já quase um projeto - é fazer o Caminho de Santiago de Compostela. O Caminho me chama. E vou em busca da minha espiritualidade mal resolvida. Como você já sabe, sou agnóstico. Recuso-me a acreditar em deuses lendários por nós mesmos inventados, inclusive, o famigerado deus bíblico. Mas, sinto-me bem com a minha bagagem de fé. Parece que adquiri uma certa consciência que me permite pairar sobre tudo o que já foi criado e pensado. Estou certo que não mais me meterei no meio de um grupo de fieis sem qualquer noção crítica sobre o objeto adorado. Não me é mais possível, simplesmente, acreditar por acreditar.

Levo minhas duas malas com minhas roupas e nada mais de material. Entretanto, a minha energia está mais volumosa e saio melhor que cheguei. Estou satisfeito com a luta que não me foi inglória. Vou mais leve em tudo e por tudo! E para lá me vou! Vou-me sem pretensões algumas que não seja viver o dia o melhor que o possa! Expolorarei cada minuto e centímetro do espaço ao qual eu estiver inserido. E não perderei meu precioso tempo com nada nem ninguém que não o valha. 

Pode até ser que eu venha a buscar alguma corrente filosófica que satisfaça, de algum modo, a minha necessidade de encontrar os valores ditos "espirituais". Vamos ver! Mas, acorrentar-me a dogmas e crenças sem lógicas jamais!

Wanderley Lucena

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Achaques de Inquietação

- Não se inquiete com minha inquietação.
- Como queiras. Mas, se havia alguma mensagem submilinar em suas palavras, por favor,  traduza-as  com claridade para mim. Prefiro palavras bem ditas e benditas. Estou fechando um ciclo. O coração que não me para. Cabeça zonza de tanto pensar.
- Por que a gente é assim?
- Viverei de minha aposentadoria apenas. "Vou-me para Pasárgada!"
- Ontem conversava justo sobre isso.
- Donde repousará meu coração.
- A cabeça não pára. Desafia o destino e o tempo. Erra sozinho. Me culpo!
- Para comigo não tens qualquer dívida.
- E o projeto Tejo? Desistiu?
- Jamais! Se vivo aqui com dificuldades, viverei por lá com as mesmas dificuldades. Mas, me contentarei com o que tenho. Não quero mais. Viverei modestamente, mas, com dignidade e em paz. Valorizarei coisas menores.Viver o agora já é boa coisa. Mas, a culpa também me bate, como a você. Mas, sabe? Sinto-me orgulhoso do meu fracasso.. É o fracasso de quem se lançou! Vivi!
- "Viver o agora já é uma boa coisa". Acrescento: neste século.
- Lanço-me mais uma vez. Muitas mudanças.
- Ia dizer que soa auto-ajuda folhetim. Osho. Tenho preguiça com "literatura" (?) auto ajuda.
- Eu a pratico.
- Seus textos fogem disso. Que fique claro! Têm uma cidez que gosto.
- Mas, fico me perguntando se a tal síndrome de Polyana não me seria uma mentira. Se não suporto nem o Paulo Coelho!
-Engraçado você não perceber isso. Ou percebe?
- Acidez? Acho que não. Acho que sim.
- Acidez + humor.
- Sei que preciso melhorar a minha escrita... e muito.
- Isso que digo.
- Mas, sou feliz na maior parte do tempo. Até a minha dor e decepção me faz parte, me completa. Olho-me com candura, confesso!
- Mas não estou a fazer ode à amargura. Não!
- Acho que sempre fui irresponsável comigo mesmo. Tentarei cuidar melhor de mim. Sinto necessidade desejosa de me contentar. Saio daqui com duas malas, apenas.
- Não tem como não amar dialogar com vosmicê!
- Só você mesmo!

Wanderley Lucena






domingo, 10 de janeiro de 2016

Chuva é Alento

A chuva é alento ante a seca que até ontem esturricava a paisagem nordestina de Alagoas. É verdade que já havia uns três dias que o tempo estava emormaçado e o sol estava tímido. Mas, o calor abafado lembrava uma panela de pressão. Quase não se sentia sinal dos ventos que ajuda a refrescar essas terras áridas. Torci para que as nuvens pesassem e deixassem as gotas generosas da chuva se precipitarem sobre as plantas ávidas de água e sobre a areia quente como fogo e que queima os pés de quem ousar caminhar sobre elas.

Desde ontem estamos com tempo úmido. A chuva chegou e molha as imensas folhas da jibóia trepadeira, planta tropical que envolve a imensa árvore que vejo logo adiante de minha janela. Elas ficam como que reluzentes e lubrificadas. Há o barulho das gotas caindo sobre o teto e o jardim e isso por si só, já é música que embalaria qualquer alma atribulada em sono de paz momentânea.

É verdade que a chuva prejudica os negócios do turismo e ninguém saiu de seus apartamentos e casas a encarar o tempo que, por incrível que pareça, está frio, e se jogue nas águas mornas dos mares das Alagoas. Sim, mesmo com chuva e frio a temperatura do mar continua morna como se você tivesse entrada debaixo de edredon quentinho e ali ficasse até que seus pés já não estivessem doendo com o frio.

Os cachorros brincam nas areias molhadas e parecem sorrir de felicidade. Cachorros vira-latas de todas as cores e tamanhos fazem parte desta paisagem. Eles aceitam o carinho de qualquer um e te agradecem a aabanar o rabo e se deitarem aos seus pés pedindo um carinho em suas barrigas. São verdadeiramente livres as tais criaturinhas. Esses não se rendem ao frio nem ao calor. Eles se protegem debaixo das sombras quando o sol está à pino mas, basta um estalar de dedos e eles se arriscam e vêm receber o seu carinho.

Mas, a chuva bendita tem dia e hora para acabar. Assim sendo fico neste dia sombrio a ver as notícias tenebrosas da política brasileira nos jornais televisivos. Passo por todos os canais em busca de algo que me entretenha e quando o acho, relaxo e me rendo sob o som da chuva em meu telhado. Um prazer inenarrável!

Permanece-me a inquietude latente de quem parece está no lugar errado, todavia. Ainda prefiriria está em Paris! Mas, confesso, me contentaria com Lisboa ou qualquer outro lugar no velho continente! Amo tudo isto!

Wanderley Lucena




domingo, 3 de janeiro de 2016

Chance Zero

O ano começa com todos os problemas do velho ano, o ano que se acabou. Parece que nos falta - ou que me falta - um ingrediente importante do ano de 2015 ou do início dele, a esperança. Àqueles ainda continuam esperançosos no quesito Brasil eu sinto vos informar que vossa esperança é vã. Somos um país sem solução. Não temos educação que nos faça votar com consciência e ética. Cinquenta Reais vale um voto neste país. Por vezes. basta uma cesta básica com produtos de quinta categoria e se garante o cabresto que elege o corrupto ao posto de representante legislativo em qualquer casa representativa deste povo ignorante. 

Não temos educação e, muito menos família! Há toda uma geração que já está perdida. Essa geração já não recebeu os valores básicos que seriam transmitidos de pai para filho. Tal fenômeno ocorre porque a geração anterior à atual já estava em franco processo de deteriorização de seus valores. 

É de arrepiar perceber que esta geração sem qualquer valor está a presentar a terceira geração que já nasce no negativo. São verdadeiros zumbis; caixas sem conteúdo algum que vislumbram a sua sobrevivência no acaso e têm nas bolsas esmolas do governo a certeza de seu miserável sustento.

Claro que as tais malfadas bolsas são, na verdade, incentivo à preguiça irresponsável de quem não se sente na obrigação de qualquer esforço físico ou mental. Não há família que lhes instrua e obrigue a comparecer em escolas e que se eduquem para que pudéssemos ter um futuro melhor.

A educação por si só está sucateada e com um corpo de funcionários muito mal pago. Os professores recebem uma merreca e em muitos lugares, sequer são concursados e não têm eles qualquer nível que lhes garantisse o posto. Tais profissionais contam com a irresponsabilidade de governantes corruptos e sem ética. 

Há esperança? Não. Vejo um futuro tenebroso e dias sombrios de caos e desordem na república das bananas! A solução única aos que têm juízo é o embarque internacional para nunca mais voltar!

Wanderley Lucena

sábado, 26 de dezembro de 2015

Pimenta nos olhos!

O médico oftalmologista receitou-me dois tipos de colírios para que eu usasse por algum tempo. Um deles eu deveria usar sempre antes de dormir, no horário noturno. Eu sempre tomo uma cervejinha depois que encerro meu expediente. É algo assim como um ritual... coisa de velho. Saio de minha casa vou andando pela rua iluminada e a sentir a brisa que vem do mar. Cumprimento vários conhecidos até chegar no bar onde já me esperam e peço a minha cerveja junto ao balcão.

Volto para casa e, sempre muito à vontade, vou me preparando para dormir. Desleixadamente, com as luzes apagadas e somente com a iluminação da televisão já ligada, peguei o frasco do colirio e pinguei no olho. Foi como uma gota de limão. Uma ardência infernal e sai desesperado, corri para o banheiro onde joguei bastante água certo de que eu havia colocado qualquer coisa em olho, menos o colírio receitado.  Ao olhar no espelho vi minha pupila que parecia uma bola de gude, totalmente dilatada e o globo ocular vermelho como pimenta malagueta. Mantive o controle apesar da forte dor e fui ver o que, afinal, eu havia colocado em meu olho. 

Meses antes havia levado ao veterinário meu pequeno Shitsu, um lindo e carinhoso cãozinho que me acompanaha a alguns anos. Estava com um pequeno arranhã no olho por ter lecado uma unhada de um gato. Ele não suporta gatos e aqui tem ao montes, soltos, de todos os tamanhos e cores. Quando estão no cio minha vida vira um inferno. Encho a mão de pedras e saio noite à dentro a tentar acertar-lhes para que fujam e me deixem dormir. Mas, o veterinário lhe receitou três tipos de colírios e um deles era de cor ferrugem, quase pastoso, que deixava olho de meu cãozinho em cor de barro vermelho. Sim foi essa medicação que este maluco desleixado colocou no próprio olho. 

Ao acordar no outro dia e olhei curioso no espelho, cheio de esperança que não tivesse nada mais. Porém em meu olho só vi a bola de fogo vermelha no meu olho e a pupila dilatada, enorme, do tamanho de uma peteca. A vermelhidão foi desaparecendo devagar ao longo do dia, mas, continuava a arder e a pupila estava lá, fixa, sem quaquer sinal de retração. Passei a usar colirio de lágrimas artificiais e me recusei a procurar um oftalmologista. 

Por uns dez dias as pessoas me olhavam e me informavam que meu olho direito estava diferente do esquerdo. Eu, de palhaçada, lhes informava que havia sido abduzido e que, desde então, estava com a pupila naquele estado. Depois de uns dez dias, aliviei-me ao constatar que a pupila havia se retraido. Aqui estou a ver como sempre, inclusive, o que não se deve, muitas vezes.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Trovoadas Natalinas

Depois de muitos dias sem uma gota de água de chuva, hoje é natal, 25 de dezembro e chove e troveja como se os céus anunciassem a glória do Cosmos e me quisesse acordar durante o sono da madruga com seus estrondos assustadores de tremer as paredes e a dizer-me: estás vivo e sob um teto; tens comida em tua cozinha e nada te tem faltado. 

O dia amanheceu sob a mesma forte chuva e com o intenso barulho dos mesmos trovões. As gotas a cairem do telhado ou a baterem nas imensas folhas da Jibóia, trepadeira tropical enramada em frondosa árvore adiante minha janela. O som das gotas acalma e refrigera a alma e traz lembranças de um passado tão distante e que já não volta mais. As lembrança da infancia e das brincadeiras de menino com todos os querido primos de idades quase semelhantes.

Meu cãozinho não se animou a sair de casa, mesmo sob minha insistência, para fazer as suas necessidades matinais de costume. A grama encharcada e os arbustos úmidos a molharem minhas pernas. Faz frio aqui e isso é fenômeno raríssimo nestas terras ensolaradas. Não há viv'alma a passar na rua. A senhora que todos os dias, religiosamente, me acorda com seu carro de som nas alturas e descer para a praia a vender cd's pirateados, tampouco, deu as caras.

Eu estou deveras agradecido por tudo o que vivi até aqui. É lindo poder está inserido nessa paisagem. Comprei pães recheados para a minha ceia e meus dois amigos de verão me fizeram uma visita longa e prazeirosa. Conversamos sobre banalidades e saimos para tomar uma cerveja em bar que já estava a fechar as portas. Voltei para casa e tentei entregar-me ao prazer visual da televisão que passava uma película daquelas que me prendem. Porém, meus olhos já insistiam em fechar e entreguei-me a Morfeu.

Hoje tem prova de maratona e que passa em frente à minha casa. Um espetáculo de vida a passar ante minha cara. 

Enfim, um natal como tantos outros e de tantas gentes como eu. Espero, de verdade que seus corações assim como o meu, esteja em paz agradecida ante o Cosmos que nos envolve e sob a terra onde os meus pés se firmam e de onde tiramos tudo o que precisamos.

Um feliz natal a todos!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Uma Noite Feliz!

"Então é natal! A festa cristã". E você vai se reunir com sua familia e comer até encher a pança e beber até de madrugada e nem vai saber o porquê. Dizem que Jesus nasceu nesse dia. Se isso é verdade ou mentira não importa. É um dia alusivo ao seu nascimento e só por isso já vale. Mesmo que seja mito a sua estória não posso deixar de reconhecer o belo exemplo de amor dessa figura à quem chamamos Jesus. Quem dera eu conseguir seguir as suas pegadas, mesmo que de longe como o fez o nanico Zaqueu, o cobrador de impostos desprezado por todos e a quem Jesus disse: "desse desse árvore Zaqueu, pois, hoje mesmo pousarei em tua casa". E Zaqueu ficou inflamado e sem acreditar no amor que lhe inundara naquele momento. Desceu da árvore e, sabedor de sua indignidade, replicou: "Senhor, não digno que pouses em minha casa". Mas, Jesus foi para a casa dele que, já convertido ao amor divinal, informou: "se roubei alguma coisa de alguém, devolverei em dobro!". E Jesus declarou: "Hoje chegou salvação à esta casa".

Aquela noite foi natal na casa de Zaqueu. Foi a data do nascimento de um novo ser em Zaqueu e uma alegria sem tamanho inundou a sua casa. Ele recebia a Jesus em sua vida e em seu coração. Ali estava uma nova criatura, transformada pelo amor do Cristo. Não há como negar a energia transformadora do amor. O amor tudo pode. É logânimo e paciente. 

E para aqueles que, assim como eu, são dados à certa reclusão em tais festas eu vos informo que é possível não está só mesmo que solitário. Sinto as energias emanadas daqueles que me amam e que não podem está comigo hoje. Eu, da mesma maneira, penso neles e lhes sinto enorme saudade. Além do mais, ante o Cosmos infinito, agradeço por todas as lutas e por todas as vitórias. 

Tenho pão recheado de goiabada para a minha ceia. E pense na felicidade que sinto! Meu coração explode de felicidade e as lágrimas me vêm ao rosto. Obrigado a todos que me querem e eu vos desejo todo o amor! O mesmo amor que salvou Zaqueu inunde hoje as suas casas e seus corações.


Wanderley Lucena

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Pecados como Medalhas

Com satisfação vejo minhas rugas ante o espelho. Percebo-me envelhecendo! Minha barba já está branquiando e minhas cãs igualmente. Levo todas essas manifestações naturais como se marcas de pecados ora cometidos. E é um orgulho poder sentir-me pecador, quiçá, o maior deles. Sim, rebelei-me com ensinamentos mentirosos que me foram ensinados e assumi a mim mesmo como ser capaz de conduzir-me nessa jornada belíssima que é a vida.

Sentir-me pecador é declarar, em alto brado, a minha independência intelectual e a posse completa de mim mesmo. Não preciso que mais ninguém me diga o que é melhor para mim. 

Não nego minha existência condicionada à vontade da natureza e jamais a renegarei por covardia que me leve a ser o que a sociedade hipócrita dita. Jamais me renderei ao discurso tenebroso das religiões que me ameaçam com suas mentiras e me decretam o meu fim no inferno. 

Estou consciente que a morte chegará para todos, inclusive, para mim. Sei que levo até o momento fatídico essa energia que me faz sentir e pensar á qual chamamos espírito. E meu espírito será atraído para a positividade da luz mesmo que insistam em dizer que não. Assim como o meu coração late em meu peito sinto em minha mente a certeza que estou fazendo a coisa certa. E que se dane quem quiser pensar o contrário. Controlar-me jamais alguém conseguirá, a não ser que me venha com argumentos razoáveis, lógicos e sem extremismos ou fanatismos. E, nesse caso, terás apenas me me convencido, mas, continuarei livre, embora, convencido de tua verdade. 

Quem bem quiser viver, peque! Peque muito! Mas, se divirtui de valores éticos, nem traga danos ao seu corpo ou à sociedade. Pecar não significa rebeldia burra e que vai contra sí mesmo ou os outros. Pecar é conviver consigo mesmo e com os demais em plena harmonia. É ousar deixar de crer por crer e experimentar sensações que sempre te disseram ser proibidas.

E aos que insistem em achar que existe o retorno, a reconcialiação eu lhes afirmo, nunca!

Sim levo todos os meus pecados e sem qualquer culpa. Levo como se fossem meldalhas - a compiar Zélia Duncan.

Amém!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Bons Pecados

Apreciei o líquido que me descia garganta abaixo depois sentir minhas glândulas palatais inchadas pelo gosto ácido e ocre. Na taça permaneciam lágrimas a descer de cima para baixo quase imperceptíveis ao olho nu. Um cidadão em mesa ao lado deu uma baforada em um charuto que, com certeza, era cubano. Nunca fui apreciador das fumaças por pura falta de costume e por saber o risco que se corre. No pátio aberto os odores variavam desde o manjericão nas massas servidas, a maresia que vinha do mar logo adiante, a fumaça do charuto e de um jasminzeiro imenso que estava logo na entrada do restaurante.

A companhia não era das piores e eu estava feliz mais uma vez e a constatar que valia mesmo muito a pena tudo o que fiz de minha vida. Com todas as aventuras e desventuras... sinto-me orgulhoso de minha rebeldia e independência. Não quero que pensem que não sou consciente de que todos precisamos uns dos outros o tempo todo. Eu mesmo gosto muito de dividir sempre. Mas, confesso tenho uma dificuldade enorme em aceitar ajuda. E sei que chegará o dia em que não mais darei conta de minhas necessidades básicas. E ai... que Deus tenha misericordia e que possa pagar alguém a cuidar de mim.

Eu quero os sabores dos pecados todos. Quero os sabores dos verdes e dos maduros. Quero ver a montanha ao longe ou a minha pele a envelhecer nas minhas mão já manchadas pelo tempo a apenas alguns centimetros de meus olhos. Já não quero as garantias do futuro certo. É que se assim o fora me acabariam as aventuras. Quero ir-me sem saber para onde. Quero satisfazer a todos os meus desejos. Minha casa será a casa de todos os que eu quiser em minha companhia.

Que o gosto seja travoso, ácido, adocicado. Que venha sempre acompanhado de todos os demais sentidos. Cheiros bons. Toques leves e demorados. Uma boa paisagem de longe ou de perto. Que os ouvidos ouçam bons sons. E que os cheiros sejam do jasmim, de lavanda, de alfazema. E que a recordação vá longe e traga as sensacões da infancia vivida com tanta intensidade e que não mais voltará.

Não mais quero as gentes certas nem os equilibrados. Quero os que ousam e se rebelam. Os que pensam por si e não pelo que lhe rezaram. Que coloquem boa música e que encham a taça com bom vinho. Que tragam os cubanos para que possamos fumar e comemorar a vida! Com bons odores , com bons sabores, com toques de todas as músicas! Viva! 

Wanderley Lucena

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

DICOTOMIA

Vivo verdadeira dicotomia. Vivo em lugar lindo e paradisíaco ao qual qualquer indivíduo se sentiria afortunado em viver nele. Trata-se praia de águas mornas e límpidas. O azul turquesa e o verde esmeralda se compõem harmônicos em paisagem digna de Matisse. As piscinas naturais formam verdadeiros aquários nos quais vivem peixes coloridos, polvos, águas marinhas, moluscos e, até a vegetação dos planctons é riquíssima. 

A areia branca e fina é o solo no qual coloco os pés em caminhada diária rumo ao coqueiral e onde, por vezes, pude ver as tartarugas marinhas a desovarem em noite de lua. Até golfinhos cheguei a ver. No braço cheguei até os arrecifes e ali me emocionei ante a riquesa da vista e agradeci a Deus por não está ali sozinho e inclusive, á convite de nativos incríveis e amigos.

Agora, quando já me vou, percebo o ciclo de amigos que fiz e que a vida, generosamente, esfrega em minha cara. Sinto-me enganado sob diversos aspectos. Sempre tratei a maior parte das gentes daqui com olhar esnobe e arrogante ante a ignorância que impera em muitos. Porém, agora sei, são eles vitimados desde o momento em que nasceram. São os políticos que mantém essa gente ignorante por serem assim mais fáceis de manuseio.

Sei que se tenho melhor formação que eles, embora tenha vindo da extrema miséria, isso não me torna melhor que eles nem ninguém. Ao contrário, tenho o dever da tolerância. Preciso dizer que peço desculpas a todos! Espero que me perdoem por minha soberba!

Estou feliz por poder ir e saber que sentirei saudades deste lugar e que aqui deixarei amigos que falarão bem de mim. Levarei um coração repleto de boas lembranças. Certo é que muito aprendi e que levo toda a experiência que aqui ganhei.

E é agora quando já nem queria mais gostar que me apaixono por este lugar. Tenho que ir. Preciso achar meu lar, meu lugar no mundo. Não sei se está para onde me vou. Mas, que me apaixone logo de chegada e que encontre amigos como os que aqui deixarei.

Preciso de lugar onde possa sentir-me seguro e onde o Estado seja uma realidade.Estou envelhecendo e precisarei de assistência, de sistema de saúde que, realmente funcione.

Muito obrigado Praia do Francês.


Wanderley Lucena

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Cosmos

Nadar desde a orla da Prais do Francês até as piscinas naturais que se formam nos arrecifes cerca de 150 metros à frente não tem preço. A visão desde alí, tanto para mar aberto quanto para a propria praia, é visão paradisíaca. E o melhor é que fiz a travessia à nado. Claro que eu estava acompanhado de quem poderia salvar-me em caso de necessidade e cansaço. Mas, apesar de sentir o peito ofegante e o peso das aguas mornas e salgadas a levarem-me corrente contrária ao ponto que desejávamos, consegui sucesso em por os pés cuidadosamente ante a grande quantidade de ouriços ali presente. 

A vida marinha é abundante e até um polvo nós avistamos enquanto se escondia embaixo dos arrecifes. Peixes coloridos, algas, caranguejos, larvas e outros tipos que se pareciam minhocas e aos quais não sei nominar. 

O intenso azul turquesa do mar beijava no horizonte o azul celeste de um céu sem qualquer sinal de nuvens. A beleza de olhar desde ali as areias brancas banhadas pelas águas caudolosas e mornas de uma incrivelmente acolhedor. A praia estava lotada e os banhistas estavam às centenas a banharem-se. Brinquedos inflados e enormes levavam turistas que eram puxados por voadeiras ou jetskis a uma velocidade imensa. Parapentes e até helicópeteros marcavam o azul celeste com tons coloridos fortes. Ao sul um imenso e verde coqueiral trazia um ar bucólico e, até certo ponto, sevagem. Ao norte a paisagem seguia margeada por faixa branca de areia fina, mar cálido das piscinas naturais e o muro de arrecifes que chegava quase até Maceió. Donde estávamos era possível ver os prédios da capital ao longe.

Um grupo grande de esportistas de standup apareceu ao longe e me informaram que os tais vinham desde Maceió, quase 20 kms de distância de onde estávamos. E segundo me informaram, eles continuariam até Barra de São Miguel, quase cinco kms adiante de onde estávamos. Acho que eu não teria tanta coragem, sequer vigor físico para tanto. Mas, que bonito que é ver gente a viver com intensidade toda a humanidade que nos foi confiada.

Nadei de volta até a praia e ao sentir meus pés tocarem a areia senti uma alegria imensa de poder conviver com aqueles que até a piscina natural haviam me levado e pelo imenso privilégio que foi viver e perceber-me vivo ante tão imenso cosmos. 

Wanderley Lucena

domingo, 6 de dezembro de 2015

Resto de mim

Este blog é apenas uma faceta de mim. Engana-se que pensa que sou isso 24h. Aqui sou apenas 10 minutos do meu dia. E é o que mais gosto de mim. Cuido-o e alimento com carinho e disciplina. É verdade que a minha disciplina já não mais é militaresca, mas, mesmo com erros de grafia, ortografia ou digitação, imponho a ele a mesma estética e equilíbrio que gostaria por toda a vida. O meu trabalho aqui é diverso do resto de horas que as ocupo com coisas chatas ou não. Minhas obrigações diárias são exercício que, nem sempre me oferecem o prazer que tenho quando estou diante do meu computador a escrever o que sinto e, bem sei, muitas vezes, sequer serão lidos por quem quer que seja. 

O que resta de mim, sabe-se lá, nem precisa ser conhecido de ninguém. E há uma parte de mim, como há em todos os indivíduos, que sequer quero mostrar. Talvez porque precise mesmo esconder a sete chaves ou por saber que nenhum prazer traria a mim ou a quem lhes viesse a conhecer. Assim sendo, essa parte de mim eu lido com ela quando apago a luz. Quando estou na minha cama e de olhos fechados abro o baú das desilusões, das tristezas. O meu relicário de angústias é vasto. Disponho cada relíquia como se fossem medalhas. Sim sou meio masoquista. Ou totalmente masoquista, não sei... Mas, é desse baú de horrores que me sai grande parte de minha inspiração. É das reflexões que dali retiro que procuro fazer o meu dia seguinte melhor.

Sou assim, alegre e triste, feio e bonito, bom e mau, certo e errado. Mas, por vezes, afeito-me com cuidado na tentativa de ser agradável. Necessito que me suportem quando com a luz acesa. Se não me afeito e não mantenho o meu monstro muito bem preso, ninguém me suporta. E assim vou indo por essa estrada que não sei aonde vai acabar. Mas que se me finalize como se fosse uma comédia. Receio e tenho medo que o "le gran finale" seja uma tragédia.

E o que resta de mim? 

Wanderley Lucena

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pirilampos, Nambus e Juritis

Fazia tanto tempo que eu não via vagalumes! Quando menino, na roça, era lúdico ficar a ver as luzes a piscar entre os arbustos. Pois bem, aqui faltou energia numa noite dessas. Custou a retornar a eleticidade e que sem ter o que fazer, sai a caminhar pelo jardim e... surpresa! Lá estam eles, os pirilampos ou vagalumes. Quem não acha mágico que tais insetos tenham a capacidade de iluminarem-se e saírem a piscar suas luzinhas na escuridão? Quem não se encanta com o pisca-pisca dos tais bichinhos. Pois bem, magicamente, voltei a ser criança por um momento. Voltei ao Maranhão e ao pequenino vilarejo onde nasci. Lá não tinha eletricidade e as luzes eram as das lamparinas. Dormia-se muito cedo, quase com as galinhas. O que se fazia depois que a noite caia era ouvir estórias contadas pelos mais velhos enquanto debulhava-se a fava. E a fava era grão maior que o do feijão. Era de cor branca e tinha sabor delicioso quando feita com pedaços enormes de tocinhos que eram cozidos dentro da enorme panela. Mas, a fava podia ser comida até fria. E era tão deliciosa quanto comer ela quando acabava de sair da panela. Pra acompanhar vinha uma nambu, ou uma juriti, ou um um jacu. Podia ser assado, frito ou cozido. Era delicioso sentar no chão ao redor da enorme bacia de aluminio cheia de arroz e fava que comíamos com a mão mesmo e a fazer bolinhos que empurrávamos na boca e fechávamos os olhos ante o prazer da papilas a se abrirem ante o sabor que lhe era colocado.

Tomara falte energia quaquer dia e que eu possa sair pelo jardim e os encontre de novo a piscar. Tomara seja noite de natal!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Teismo Agnóstico

- Desde quando és ateu? - perguntou-me ele ante aos meus posts de facebook.

- Desde nunca - respondi sem titubear - Sou agnóstio, apenas. Creio em um deus que não se define, que não se qualifica, que não se explica e nem precisa ser explicado - complementei.

- Pura cientologia - replicou ele a indicar o famoso movimento que arregimenta estrelas de Holywood, tais como, Madonna e Tom Cruise e que muita celeuma tem criado ante os olhos consevadores e incautos de quem pensa ser o dono da verdade.

- O deus bíblico é um monstro sem qualquer razoabilidade e, de acordo com as definições das tais escrituras ditas sagradas, é um ser bem pior que o pior dos seres humanos. Não quero saber de tal deus e, aliás, quero distância. Mas, será que sou um cientologista? - Perguntei-me.

Um deus ególatra, ciumento, medroso, violento, vingativo até a quarta geração, homicida, xonofóbico, sanguinário, racista, homofóbico, machista, injusto, inseguro e tresloucado. São algumas das características que encontro nesse deus que, afirmo, é mera criatura.

Um deus que mandará para o inferno 99% dos homens por ele criado - segundo consta - apenas por responderem à humanidade que ele mesmo implantou em tais seres... é inaiceitável e injusto. Se há algum culpado - e não o há - por uma criação mal fadada, esse culpado só pode ser quem criou.

Um Deus que, segundo consta no imaginário quase lúdico - pra não dizer infantil - mora numa cidade de ouro e que tal cidade levita em algum ponto do Cosmos; um deus que é branco e que tem as mesmas feições humanas; que tem uma espada na mão; que está rodeado de anjos (bem que podiam ser fadas e, algumas delas, madrinhas); etc... etc.. É tão ingênuo acreditar num deus assim quanto acreditar em Lord Ganesha, Brahma, Shiva, Vishu  ou em duendes a passear pelo meu jardim.

Deus, segundo consta, tudo sabe: presente, passado e futuro.. Portanto, sendo ele onisciente era sabedor do fracasso e falência de sua criação, porque não a abortou antes da produção? Para que criar algo ao qual só traria decepção e desgosto? - Mas, bem sei... nada há de errado com conosco que se possa atribuir a Deus.

O que ocorre é temos as duas naturezas, a boa e a ruim, instaladas em nosso âmago. E, a cada indivíduo, cabe a escolha de ser bom ou ruim. O culpado por toda a maldade somos nós mesmos e somos nós que daremos fim a nós mesmos. E bem sei que, grande parte de nosso caráter, sofre influência direta do meio ao qual estamos inseridos. Portanto, por vezes, nem ao próprio indivíduo se pode atribuir alguma culpa por ser ele quem é.

Explicar o Deus é mera perda de tempo e qualificá-lo, igualmente. Porém, é inegável, ao menos para mim, que há um grande mistério. Como explicar o universo? O firmamento? Se tudo foi fruto do bi-bang, como explicar o próprio big-bang? Quem apertou o botão? Antes de tudo já existia o mistério que produziu o big-bang.

Basta-me andar pela praia e sentir a areia ao meus pés; olhar o movimento das ondas; as folhas do coqueiro a balançar com o vento; obervar a lua em sua órbita e movimento; o sorriso de uma criança; obervar o corpo a respirar e o coração a bater; o meu cãozinho que abana o rabo e corre para me lamber cheio de afeto. Basta-me observar um pouco ao meu redor ou dentro de mim mesmo para perceber que não há resposta suficientemente lógica que possa explicar tal mistério.

Não sei como é Deus nem o que Ele quer de mim. Não quero qualquer resposta, todavia. Qualquer resposta seria tentativa inválida, produto de fé ou de mera especulação. Portanto, resta-me perceber que há mesmo um mistério por trás de tudo e, a esse mistério, chamo-o Deus. Um Deus que está para lá, para o Cosmos infinito, e para cá, para dentro de mim, igualmente, infinito. É esse Deus inesplicável e inqualificável, que late dentro de mim, é n'Ele que eu acredito. E isso me basta!

Crer num Deus que tem as mesmas características minhas ou de um ser humano qualquer, me é inconcebível e declaração máxima, um atestado, de que eu não seria capaz de raciocinar por meio de uma lógica que nem precisa ser matemática. Crendices? Prefiro crer em duendes em meu jardim!

Wanderley Lucena

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Banguelas de Marechal

A umildade do ambiente, por si só, já era demasiada. Porém, restavam os enfeites de mau gosto de alguma comemoração que de dizia respeito ao outubro rosa. No teto baixo, pregados mau e porcamente, faixas de papel crepom que se cruzavam de um lado ao outro da sala e laços desingonçados roçavam as cabeças e entrelaçavam nos pecoços dos menos baixos que por ali se encontravam. 

Fotos impressas em papel ofício foram coladas ao longo das paredes em alusão à alegria da festividade passada. Um ventildor ajudava a manter a temperatura um pouco mais amena. 

A maioria da clientela era de mulheres. Havia cerva de umas vinte e alguns homens. Quase todos buscavam arrancar algum dente que incomodava. Aqui ninguém gosta de recuperar dentes por meio de obturação. Pra obturar se vai estragar de novo? Para quê manter dente na boca que vai doer depois? Melhor é extrair logo. Quase todos que entravam á sala do consultório saíam com um tufo enorme de algodão na boca a conter o sangramento da extração. 

Crianças melequentas e remelentas disputavam as poucas cadeiras com os adultos, e gritavam, e choravam, e riam, e corriam sem parar. Havia cerca de vinte a serem atendidos antes de mim. Mulheres grávidas ou gordas, simplesmente, e faladeiras, passavam receitas de bolo em altura bem acima do que se estou eu acostumado. As crianças passaram a comer sacos de pipoca industrializada que, certa vez, experimentei e garanto, isopor tem bem mais sabor. A pipoca esparramou-se desleixadamente por todo o salão e um chiqueiro estaria bem mais limpo desde então. As mães em nada se incomodaram e contiuaram sua laquera horrorosa. Vez por outra o dentista mandava sair um ao qual não podia atender por não ter se dado ao trabalho de escovar os dentes antes do atendimento ou por ter enchido as panelas com tais pipocas de isopor.

Levantei da cadeira de plástico branco apenas para pegar água em filtro bem ao meu lado. Quando voltei-me para sentar-me quase sentei-me no colo de uma menina-capeta com um pirulito na boca a alimentar as cáries. Olhei-a com olhar fusilante. Elha me olhou de baixo para cima mas não se intimidou. Ficou ali, sentada, com bunda grudada na cadeira. Olhei para a mãe dela que não esboçou reação. Eu tirei do fundo do peito todo o ar que me restava e a mandei levantar-se da minha cadeira. Ela saiu correndo pela porta do posto com um cachorro a correr atrás dela. Voltou algum tempo depois e sentou-se no colo da desleixada mãe.

Um cachorro vadio insistia em ficar deitado de barriga para cima, displicentemente, a brincar com a dona e a lamber-lhe as enormes rachaduras dos pés ressecados. Ela aceitava a lambeção sem reclamar. Passei quase três horas no posto e o cachorro ficou ali o tempo todo sem que a dona com ele ralhasse. Era o cachorro a lamber-lhe os pés e ela a falar igual uma arara "chumbada". Ao menos três receitas de bolo eu acompanhei, mesmo que sem querer, enquanto as outras a ouviam atentas. Confesso que não me atreverei a experimentar fazer nenhuma das tais receitas ante as lembranças infernais que podem vir a torturar-me. 

Um rapaz entrou com a cara que mais parecia uma meia-lua. Não questionei os motivos de tantos ferimentos e machucaduras. Pensei ter sido um acidente de moto ou uma briga comum entre os vizinhos daqui. O braço direito estava devidamente imobilizado por um gesso que lhe descia do pescoço até a cintura como se fora um grande colete branco. Arranhões enormes que lhe marcavam desde a testa até o pesocço e o inchaço na região do maxilar. O lado afetado estava duas vezes maior que o outro.

A "mucissoca-soca-soca" era a trilha musical adequada para a cena e vinha de um telefone escondido no bolso da bermuda do pai das crianças de dentes careados. Eu não sabia que o som de celular podia ser tão alto. Entretanto, dado momento, percebi que a ele faltavam ao menos quatro dentes bem na frente do sorriso.

Uma criança começou a berrar dentro do consultório. Com os gritos, o irmãozinho que estava na sala de espera começou a chorar sozinho. O menininho de, no máximo cinco, anos chorava aos berros e batia desesperado na porta do dentista. Eu fui até ele e o abraçei enquanto via seu dentinhos todos careados, verdadeiras panelas, em sua boca. Sentei-o em minha cadeira e tentei distraí-lo. Cerca de dez minutos depois saiu a sua irmão com o tufo de algodão na boca e um dente a menos na boca. Dentro do consultório permaneceu sua mãe que, algum tempo depois, saiu, também com um tufo de algodão na boca e um dente a menos na boca.

Depois de quase três horas de suplício, sem pedir licença, uma senhora sem qualquer uniforme ou identificação, desligou o ventilador e ficamos a escaldar. Eu, de imediato, perguntei à mal educada senhora se ela poderia religar o bendito ventilador. Ela, sem responder nada, com cara de entojo, voltoou a ligar o bendito. Em seguida, deu alguns gritos que quase estouravam meus ouvidos, com uma colega que se encontrava em sala fechada. Depois disso, montou numa bicicleta velha e empoeirada e se foi desaparecendo pela rua pobre.

Já saia para ir embora quando olhei, mais uma vez, a enorme foto mal emoldurada e pensa, pregada na parece suja que um dia já foi braca. O Prefeito local em sorriso colgate e cabelo aprtido ao meio olhava a cena. Eu tive vontade de dizer-lhe alguns impropérios mesmo que só para a foto. Mas, iam rir-me e dizer que estava louco. Mas, o prefeito ria na foto. Nada mais apropriado. E o sorriso era mesmo de deboche.

Eu levei um livro e aproveitei para ler alguns capítulos. Mas, a cena que ali se apresentava era por demais rica e não passei alheio à ela. Fui o último a ser atendido. Sai com medo de ter contraido algum virus ou bactéria. Porém, já que estou na chuva tenho de me molhar. Plano de saúde nesse lugar é pior que saúde pública. Tudo é dificil e desorganizado. A cena descrita, embora tenha acontecido num posto de saúde pública umilde, de uma comunidade humilde, de uma cidade humilde que se chama Marechal Deodoro, em Alagoas, Brasil, bem poderia ter acontecido no melhor hospital da capital e com personagens bem mais abastadas e que estiveram nas melhores escolas.

Mas, é certo que essa gente tem seu valor e ele não pequeno. São guerreiros e guerreiras que, mesmo sem saber, estão a buscar o que lhes resta das migalhas dos altos impostos que são pagos por todos nós. Essa gente umilde que, sequer sabe ler ou escrever e que não passa de massa manobrada e necessária aos políticos que para justificar a precária assistência precisam de muitas verbas federais ás quais deviam aos seus próprios bolsos.

Os desdentados de Marechal continuarão a se reproduzir e, sem educação, seus meninos remelentos contiuarão a frequentar o umilde posto de saúde.

Wanderley Lucena



sábado, 17 de outubro de 2015

Pavonices

Apressei o passo na rua de pouca luz. O flash explodiu e clareou a noite. Olhei para todas as direções e não sabia o que se passara, de onde viera o tal flash. Pensei ser uma lâmpada a estourar ou um problema na fiação elétrica. Porém, apenas o silêncio imperou.

No outro dia me chega um amigo e mostra minha foto, de costas, que já percorria o mundo virtual por meio do aplicativo, quase maldito, watssap. De início fiquei assustado. Sou eu tão importante ao ponto de ter um paparazzi a me seguir? Quem se daria ao trabalho de fotografar-me às tantas da noite em rua de pouco movimento e se daria ao trabalho de espalhar uma besteira dessas na internet? Seria mesmo muita falta do que fazer ou coisa de meninos. Sim, a segunda opção. Era apenas um menino quase hacker que me sacara a foto. Menos mal! Mas, fiquei com a sensação de ser alguma celebridade local.

E ontem, no bar "inferninho" desse lugar - diga-se: adoro os "inferninhos"! - quando fui ao caixa, fui então informado que a minha conta já havia sido paga. 

- Quê? Como? - Perguntei eu estupefacto ante a situação também inusitada. Jamis alguém me pagara a conta e, ademais, não percebia nos frequentadores presentes, ninguém que pudesse ser suspeito de tão boa ação. Insisti com o rapaz que estava no caixa e quis saber quem pagara a minha conta.

- Andreas - Foi a sua resposta depois de eu muito insistir.

Mas, Andreas é um italiano jove, jogador provicional de futebol em seu país. Nós nos cumprimentamos todas as vezes que nos vemos, mas, não sabia eu que gozava de tanto prestígio junto ao moço.

Voltei para casa sem ter entendido direito, mas, na primeira oportunidade, além de agradecer a Andreas, eu lhe serei mais atencioso e, também, retribuirei a gentileza.

Certo é que, por motivo de fofoca ou  não, cá estou a ser alguém para "alguéns". E quando pensamos que o viço já nos se esvai, de alguma maneira, totalmente nova, a natureza insiste a informar-nos que o pavão sempre será pavão, não importa onde esteja nem quantos dias já lhe imprimiu a vida.

Wanderley Lucena

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cotidiano

Sem mais nem menos voltei para casa já meio bêbado e, melhor, acompanhado de duas criaturas incríveis. Ela de Brasília e a passar alguns dias por aqui a aproveitar a praia. Ele nativo, porém, de tiradas inteligentes e marcantes. Falastrão, ousado, sem papas na lingua, chegando quase ao tosco, porém, de beleza igual ou superior à da moça à qual demonstrava todo o poder da testosterona. 

A conversa, ainda no bar, girava sobre temas banais, porém, agradabilíssima para todos que ali estávamos. Eu os convidei a tomar um Casal Garcia, vinho de muito boa qualidade, dizem, já que não sou nenhum somelier. Mas, a proposta foi aceita com efusividade e rumamos para minha humilde residência, a poucos metros do bar. 

A casa estava um pardieiro e eu ruborizei-me ao pedir-lhes desculpas. A cozinha tinha louça suja na pia e já vai pra uma semana que não chamo a empregada a fazer a faxina. Não me lembrei de colocar a música e a conversa foi aumentando de volume que eu, a todo instante, pedia para decermos a tom mais ameno, haja vista, a vizinhança implicante que cobra silêncio sepulcral como se isso aqui fosse lugar que não merece gente feliz. 

Já era madrugada quando abri o Casal Garcia. Com as glândulas palatais inchadas ante o sabor seco tenso do vinho, ríamos e gesticulávamos em conversas exaltadas que iam desde à crítica à cultura local até às viagens marcantes que fizéramos.

A noite tinha que acabar e ambos se foram, dessa vez, com ela sentada na garupa da bicicleta do moço. Não sei o que aconteceu até que ele a deixasse na porta de sua casa. Mas, espero que tenham aproveitado a vida, a noite, o minuto. Porque desta vida pode ser que não levemos nada, nem as lembranças. Mas, que em vida gozemos toda intensidade da humanidade divina que habita em cada um de nós!

Wanderley Lucena

domingo, 11 de outubro de 2015

Feliz Aniversário

O universo insiste em fazer-me surpresas. Aqui ou acolá encontro alguém, alguma coisa, tem brilho diferente e me atrai a curiá-lo. Os óculos fundo de garrafa, tipo nerd inveterado, contrasta com a idade. O jovenzinho magro esguio, de cabelo bem aparado, fala com desenvoltura e conhecimento e de quase todos os assuntos e o faz com segurança. Seus planos podem parecer mirabolantes. Quer ir-se para o exterior e ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Quer casar-se com sua amada e com ela ter filhos.

Os olhos verdes prendem a atenção de quem por ele é mirado. Fotos foram sacadas e a admiração ante a beleza ocular surpreendeu até mesmo o próprio dono. Há sinceridade no tom da voz e na postura. Falante, eloquente e dono da situação não fica desagradável quando se percebe a artimanha da manipulação ao tentar reter alguém que insiste em não querer ficar na roda.

A surpresa foi quando pediu-me um livro como presente de aniversário. Sério? Um livro? Sim, senhor! Um livro. Fui ao meu pequeno acervo, ao qual doarei em breve, e escolhi dois títulos. Um Nietzche e um José Saramago.

O Nietzsche está em linguagem para principiante. Já o José Saramago em O Evangelho segundo Jesus Cristo é pancada das boas e espero que o jovem consiga lê-lo bravamente e que sua reflexão seja para toda a vida.

Que a leitura lhe seja prazeirosa e que seus anos sejam longos! Que a terra lhe ofereça frutos e que sua mesa seja farta! Que seu caminho lhe seja suave e que o sol brilhe cálido em sua fronte - como diria o Druida.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A Pausa e o Silêncio

E você está ai?
Aonde?
Que silêncio!  
Sepulcral
Pausa dramática
Eu ouço o silêncio
Sepulcral
Morremos agora?
Ou só no próximo ato?
Molière diz que são três atos
Estamos no segundo?
Primeiro?
Terceiro
Não quero morrer agora
Tá tão gostoso!
Vou dormir
Aos braços de Morfeu e avante!
Vai
Valeu!
Vendo o quê?
Nada
Percebi!
Comporte-se!
Valeu, coroa!
Coroa é o...
Boa noite!

Wanderley Lucena