quarta-feira, 28 de março de 2012

O EQUILÍBRIO DISTANTE


Malho todos os dias, há anos. Além de pegar pesado nos ferros, levantar muito peso, encaro a esteira de corrida e, por meia hora, botando os bofes pra fora, suo igual chaleira,  numa corrida acelerada que, apesar de tudo, não saio do lugar. Meus pulmões em busca de ar e meu coração a bombear, acelerado, sangue para todas as extremidades do meu corpo. Os músculos, em perfeita mecânica, obedecem o comando do cérebro e se esforçam em esticamentos dolorosos. 

Mas, o ambiente "academia" me lembra muito o de uma masmorra. Não que eu já tenha visto alguma. Não ao vivo e à cores. Mas as fotografias, a história e os filmes nos fazem ter uma noção das torturas ocorridas nos calabouços ao longo da história da humanidade. Muitas foram as máquinas inventadas conforme a criatividade maléfica de quem queria torturar. Mas as máquinas lembravam, em muito, as máquinas que vejo nas academias. E se for falar dos studios de pilates... aquilo é tortura pura. 

Mas sem a tal malhação, sem todo o suor, sem puxar tanto peso, perde-se qualidade de vida. O bucho já me teria impedido de ver a púbis e os pneus estariam parecendo uma boia atracada à cintura de quem se joga à piscina sem saber nadar. As taxas de triglicérides, colesterol, açucares, etc... etc... etc... já estariam na estratosfera. 

Graças a tanto esforço, cá estou... inteiro aos 46 anos. Uso o mesmo numero de calça e camisa dos meus 20 anos e a barriga continua sendo uma barriga e não um bucho. Levo minha vida sem grandes excessos. Controlo minhas farras ao limite do bom senso que permite minha idade - e nem entrei na terceira idade, todavia! Como o mais saudável possível - estou na onda dos produtos orgânicos. E como custa caro comprar na prateleira dos orgânicos - o dobro ou triplo das demais mercadorias.

E é graças a tanta tortura que mantenho um outro equilíbrio. O mental-espiritual ou espiritual-mental, como queira. Não sei... mas me sinto mais em paz depois de ter feito tanto esforço. Sinto que o esgotamento, o suar às bicas, me faz emergir das profundezas de algum estado de hibernação e me lança para o amanhã num otimismo e bom humor que... não sei se sem ele, o esgotamento, eu teria.

Mas como seria bom se quanto mais eu comesse eu emagrecesse; se quanto mais eu ficasse parado meus músculos se definissem; se enquanto eu dormisse todas as taxas de gorduras, colesterol, triglicerídios e etc... e tal... se equilibrassem. 

Certo é que "tudo que eu gosto é ilegal, imoral, ou engorda!" - uma merda mesmo! Tudo em nome da saúde e da beleza. 

Wanderley Lucena

quarta-feira, 21 de março de 2012

POR LA REVOLUCIÓN

 
A guerra, nada santa, agora é entre a Igreja Universal e a Mundial do Poder de Deus. Edir e Waldomiro e digladiam em rede nacional. A disputa é pelos fieis que debandam da Universal rumando para a Mundial. O Edir acusa o Waldomiro de ser ladrão e contrabandista de armas e de ter ficha policial. E é a mais pura verdade mesmo.

Ora veja! Logo o Edir. O Edir! O sujo falando do mal lavado. O Edir já foi processado inúmeras vezes e todos lembram dele atrás das grades com a Bíblia na mão a posar para as fotos enquanto seus fiéis oravam para que ele fosse solto. Ele foi mesmo solto. Mas não foi por causa das orações dos incautos fiéis e sim por causa dos advogados, pagos a peso de ouro, com o dinheiro dos dízimos e ofertas destes mesmos fiéis incautos. Mas a imagem que mais me agride, no entanto, é a PresidENTE recebendo o Edir no Palácio do Planalto. Me causa náseas!

Enquanto isso a igreja permanece orando passivamente. Esquecem que o que pedem e esperam de Deus, Ele já lhes deu: o discernimento, a capacidade de fazer justiça com a próprias mãos, justiça com os instrumentos  legais à disposição etc... Bando de cabrones covardes que não se indignam ao ver os humildes a serem explorados em sua ignorância. Jesus acoitou os que fizeram do templo mercado, esqueceram?

Eu vos digo: façam a revolução! Saiam de vossas igrejas e procurem os tribunais! Peguem em armas se preciso for! Mas não sejam covardes, nem esperem que Deus faça o que lhes é devido. Vós sois os instrumentos que Deus quer usar.

E vocês, ovelhas tosquiadas, se escondem covardemente a esperar que Ele mande um raio que venha a cair bem na cabeça do Edir e outro na cabeça do Waldomiro. Francamente! Acordem bando de covardes!

"Vós sois o sal da terra".

Wanderley Lucena

terça-feira, 20 de março de 2012

MINHA CARGA DE MANIAS

 
São tantas as manias que adquiri com o tempo. Mania de molhar os pés a todo instante; mania de ter o ventilador ligado em cima de mim por todo o dia e noite - aliás, se pudesse, baixaria a temperatura em cinco graus; mania de falar sozinho - e por vezes xingo e esbravejo, em alto e bom som; noutras faço uma oração; noutras pronuncio o nome de quem estou a pensar.

Mania de limpeza - não gosto de louça na pia, de ver pó no chão ou nos móveis; não suporto pentelhos espalhados no chão do meu banheiro; mania de tirar pelos das orelhas e do nariz também - e com idade eles, os pelos, só aumentam. Tenho mania de tomar café feito na hora - talvez porque o café engarrafado tem sabor velho ou por causa da minha gastrite; Mania de escrever - e postar neste blog. 

Muitos deveres me foram impostos pela vida. É claro que poderia simplesmente renegá-los, mas, se o fizesse, bem sei... minha vida seria menos saudável, menos organizada. Todos os dias sou obrigado a malhar - e isso significa pegar pesos e correr meia hora, botando os bofes pra fora, numa esteira mecânica que foi projetada pra me oferecer maior conforto e fazer da minha corrida mais macia e fácil, no entanto... Mas, as obrigações não são manias.

Sou obrigado a separar contas a pagar das que já foram pagas; recibos e notas; imposto de renda; manuais e apólices - haja pasta e gaveta pra guardar tanta coisa!  

Mas gosto cada vez mais das minhas manias. Estou cada vez mais tolerante comigo mesmo e com o próximo também. É verdade que a idade nos aguça a percepção, talvez pelas repetições de situações. De longe, sei se vale a pena ou não, perder meu tempo com determinado indivíduo. Adoro um bom colóquio. Gosto de conversar sem o ruído da discórdia agressiva. Gosto de discordância e acho que é ela quem nos acrescenta o que ainda não sabemos e pode nos fazer ver o assunto por outro ponto de vista. Acho difícil e irritante conversar com ignorantes, impacientes, pré-conceituosos e, ainda, quem pensa ser o dono da verdade e se põe a falar inflado, crendo está em posição superior. Se o colóquio não foi agradável... perdi meu tempo. Mas, se a conversa for em um bar charmoso - mais uma de minhas manias - com uma cerveja gelada, meu limite de tolerância pode, tranquilamente, pode ser expandido - ou não! 

Gosto das minhas manias e suporto minhas obrigações. Minhas manias me são leves, já as obrigações, embora, essenciais à sobrevivência, são um saco! É isso!

Wanderley Lucena

sábado, 17 de março de 2012

ESPANTA ENCOSTO


Uma peste! Um torcicolo me atormenta a três dias. Já tomei o Torsilax que sempre resolveu o problema, mas, que desta vez... não tem qualquer efeito. Massagens com Gelol, banhos quentes e compressas. Nada! Impede-me relaxar. E dormir é uma tormenta. Ouvi dizer que pode ser carência de vitamina D. Para mim é coisa da idade mesmo. Mas, a Vitamina D se encontra aonde? Eu que tomo o complemento vitamínico com alguma frequência penso está com tudo balanceado. É bem verdade que, apesar da complementação artificial de vitaminas, sinto que as coisas já não mais estão como dantes. Tudo insiste em cair.

Não encontro posição para sentar, para deitar, etc... Maldito torcicolo! Parece que tem uma estaca cravada bem no meio das minhas costas. Levantar da cama hoje cedo me fez lembrar do tempo em que carregava o cofo de milho nas costas desde a roça para casa. Me sinto entrevado. 

Pode ser um "encosto", haja vista, meu estado de evolução espiritual ainda está bem aquém e me deixar susceptível a tais forças.  Já acendi uma vela de sete dias, botei um incenso para queimar, chamei a faxineira para limpar a casa e joguei um sal grosso depois de uma oração daquelas de espantar até Curupira.

Wanderley Lucena


sábado, 3 de março de 2012

MIGUÉ, ONOFRE E ARMANI


- Ocê quer arco, quer tarco, ô quer cu mui - pergunta o Migué barbeiro lá pras corrutelas do Pernambuco.

- Você vai quer com álcool, com talco ou quer que eu umedeça? - Pergunta o elegante barbeiro na Barbearia do Onofre, no Planalto Central.

- Óh o aio ai ó! hó o aio ai! - grita o vendedor de cordas de alho em frente à barbearia do Migué.

- Olha o alho! Quem vai querer comprar alho - é aveludada voz de Silvio Santos impostada do vendedor de alhos na Barbearia do Onofre.

- Me dexe bunito pra pudê pegá muié lá no Buraco Quente - diz o cliente de Migué ao informar que o trato é intencional e que vai se divertir com as mulheres da zona da corrutela.

- Capriche ai que hoje vou na Star Night - é o que diz ao barbeiro o cliente que vai à boate do Setor Comercial.

- Passa o redondo e a féria do dia - anuncia o assante de peixeira na mão a pontar para o velho relógio Seiko do Migué e para a gaveta onde estavam as moedas ganhadas por todo o dia de trabalho.

- Cadê meu relógio? - Se pegunta o barbeiro do Onofre ao perceber que o cliente com cara de deputado lhe surrupiara o Armani depois de furtar o caixa levando umas centenas de reais.

Wanderley Lucena


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CALOR, ANDROPAUSA E SÃO PEDRO

Ontem achei o dia, por demais, quente e abafado. Entretanto, hoje, parece ainda mais quente. É verdade que corre um vento fresco que, no entanto, não consegue me tirar a sensação de que estou dentro de uma cuscuzeira. Suei como uma chaleira ao fazer meus exercícios físicos do dia. O ar-condicionado, tampouco, dava conta de dissipar o calor na academia.  

A meteorologia informou, ainda, na data de ontem, que uma chuva torrencial iria cair sobre o centro oeste. Esperei a olhar o céu com constância ansiosa. Uma nuvem aqui, outra ali, mas, nada que pudesse parecer o dilúvio anunciado pela meteorologia. Até agora, nenhuma gota quis dignar-se a precipitar-se sobre o planalto central. 

Resta-me entrar para debaixo do chuveiro e tomar um banho frio atrás do outro. E mais: todos os ventiladores estão ligados e uma moleza, uma malemolência do cão, me fez passar a tarde inteira dentro do meu quarto. Penso que pode ser a tal da andropausa, a versão masculina da menopausa. Pode até ser, mas, ouço todo mundo a reclamar do calor infernal que faz por esses dias. 

Tomara que tenha um computador no céu e que São Pedro, num desses acasos que ocorrem a desocupados como eu, numa busca no google, passe pelo meu blog e leia esta crônica e, com a benevolência que lhe é inerente, abra as torneiras do céu e me conceda uma chuva daquelas de molhar os regos. Tomara que ela caia durante a noite e que os pingos sejam enormes e que me acordem do meu sono. Que o vento fresco e úmido entre pelas janelas e, com as cortinas a balançar, levem todo esse calor que me sufoca o corpo e o ambiente.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

ACABOU O CARNAVAL

Hoje fui malhar como de costume. Dei de cara com a academia fechada. É quarta-feira de cinzas e a ressaca institucionalizada manda que os afazeres e obrigações comecem depois do meio-dia. Eu havia me esquecido disso. Voltei para minha casa com a certeza de ser mesmo um privilégio nascer em país tão festeiro. Qualquer tropeção por aqui é motivo de baile. É festa demais. Parece que ninguém tem contas a pagar, filhos pra criar, esposa ciumenta, etc... A obrigação é travestir-se em fantasia e viver, em mundo de maravilhas, a  ilusão ser de rei, palhaço, Arlequim ou Colombina.

Os dentes podem está careados, pode ser que nem mais tenha dentes na boca, mas o sorriso, sempre aberto, é sincero. É o sorriso da satisfação, do êxtase. E quanta gente desdentada nas baterias das escolas de samba!  E são eles que a câmera faz questão de pegar em close. O puxador do samba leva cordões e pulseiras douradas - provavelmente aquilo é ouro - mas  o sorriso... uma imensa banguela a cuspir no repórter que, sem guarda-chuvas para proteger-se, mantinha a devida distancia com o braço estirado ao levar o microfone até o entrevistado.

Não importam as contas a pagar. Importa é brincar. E que coisa linda que vira o Brasil continental, todo colorido, todo sorrisos - banguelas ou não - a brincar o carnaval. E atrás do bloco "só não vai quem já morreu".

Pena que sempre chega a quarta-feira de cinzas e leva tudo. É esperar o próximo carnaval. Agora é realidade de novo e... meus Deus! Quantas contas a pagar! Quero que seja carnaval o ano todo. Tem jeito?

Wanderley Lucena

O DESPREZO

"Se sofri ou se chorei... o importante é que emoções eu vivi". É a letra de uma bela música do nosso cancioneiro brasileiro. Entretanto, já virei as costas a algumas pessoas e, confesso... nunca me arrependi de ter-lhes demonstrado o meu desprezo. Tem gente que me mandaria rezar, e eu sei que o que eles gostariam mesmo, era me dizer: "você precisa é evoluir espirititualmente". E cá fico a pensar: "tu também serias capaz da mesma atitude". Não que o desprezo deva virar atitude corriqueira, mas, em algumas situações é ele, o desprezo, a única forma de se ser ouvido. E não sou Jesus Cristo para ser sacrificado em total renúncia de minha auto-defesa. É claro que é atitude extremada; rachadura, geralmente, sem conserto. E ai... me desapego e esqueço. Se volto a lembrar-me, sinto logo o rancor e depois, o luto da perda de quem me morreu em vida. Mas um banho de sal grosso eu faço questão de tomar vez em quando.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A PREGUIÇA


Meu dia deveria começar às nove horas, como sempre. Entretanto, quando levantei e liguei a tv, a reapresentação do Bom dia Brasil, na Globonews, já tinha acabado. Passavam das dez horas. Tomei meu café numa preguiça monumental. Tomei um banho para tirar a inhaca e me preparei para a academia. Já descia as escadas quando me senti travado. Meu corpo pedia para ficar em casa, a fazer quase nada. Obedeci o comando da carne e cá estou, sentado a ver a horas passarem, se não na total inércia porque escrevo isto.

Mas é que por vezes me deixo levar pela preguiça. E tal atitude, no momento em que me encontro, aposentado, não me traz grandes prejuízos. Não tenho mais a obrigação de cumprir horários à risca como quem ainda está na ativa. E não foram poucas as vezes em que a obrigação me fez acordar na madrugada para cumprir o horário, para "bater ponto" no trabalho.  

O cheiro dos temperos que vêm da cozinha me chegam às narinas e me despertam o apetite. É sexta-feira de carnaval. Vou cair na folia. Queimarei as calorias nos blocos a dançar as "marchinhas".

Ceder, ao menos de vez em quando, ao desejo de fazer nada é privilégio que disponho.

Wanderley Lucena

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A DIARISTA

Minha diarista compareceu depois das 10 horas, quase 11 na verdade. Como sempre, se fez acompanhar de sua bebê que, agora, já está com seis meses. Quando estava com apenas um mês de nascida, o raparigueiro do pai trocou sua mãe por uma mulher de reputação bastante duvidosa. Depois de esfregar a amante na cara da esposa, inclusive, levando-a, orgulhosamente, à igreja da qual eram membros, espalhou à comunidade que trocou a esposa pela amante por ser ela frígida, ruim de cama, o que segundo me afirmou ela própria, trata-se de tremenda infâmia e calúnia. 

O "filho-da-mãe" se dizia "pastor evangélico". Eita profissão sem credibilidade essa! Qualquer um se intitula "pastor". Que me perdoem os verdadeiros pastores que, embora, sejam uma minoria quase extinta, ainda existem aqui ou acolá. Meu Deus! O dito cujus era ex-drogado, ex-presidiário e outros ex mais e etc... e tal... mesmo assim, como tantos outros, foi nomeado "pastor". Neste momento, conforme me contou ela, o endiabrado está, de novo, entregue ao crack, depois de a amante tê-lo largado à própria sorte, quiçá, por frigidez dele ou por ter dote pouco avantajado. Entretanto, em nossa conversa, não fiquei sabendo dos pormenores anatômicos de tão reles indivíduo. 

Ainda bem que minha diarista decidiu viver. Danou a tomar a sua cervejinha e se recusa a botar os pés naquela "igreja". A "pastora" da sua "igreja" insiste em fazer-lhe "visitinhas" diariamente nas quais sempre lhe informa que ela irá queimar no inferno e lá, assim como tantos outros condenados por terem sido "felizes", ela tomará banho eterno em tacho de azeite fervente. E as tais pragas vêm depois de ter, a pastora, confidenciado à minha diarista, que "deitou-se", "coabitou" - no sentido bíblico - com o ex-marido quando ele lhe fez uma visita descompromissada. Detalhe: ele já tem outra família e pertence à mesma igreja, inclusive, como a tal pastora, ocupa cargo de liderança. Mas a tal pastora alegou ser humana, pecadora, falível. Que caiu na tentação sim, mas, que somente Deus poderia julgá-la. No entanto, se acha a pastora, no direito de jogar minha diarista no inferno porque não quer mais saber daquela igreja. 

Foi-se minha diarista curtir o carnaval de Barreiras na Bahia.  

- Isto aqui é para você pagar o motel, no caso de o "folião" não ser tão cavalheiro ou se ele estiver desprovido - lhe informei depois de entregar-lhe uma boa gorjeta.

Agora... refletindo: se no inferno estão aqueles que foram felizes e no céu estarão pessoas como a pastora e o ex-marido de minha diarista, o Edir, o Rodocralho, o Estevan, o Malamáfia  etc.. o inferno termina por ser melhor opção. Você não acha?

Wanderley Lucena


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A CULPA DO IMPULSO

Raras vezes não me arrependi dos meus impulsos. Ou será que, sempre, agimos por impulso? Toda e qualquer ação seria resultado de algum impulso. Será? Somente quando nos marcam negativamente é que nos arrependemos e nos martirizamos em nossa consciência que nos acusa como se houvéssemos cometido pecado, quiçá, mortal. O tal passo que foi dado para trás é prejuízo do qual insistimos em cobrar-nos. Não nos perdoamos por termos nos causado o dano. E sabe... esse auto-martírio vira vício dos mais difíceis de se abandonar. A culpa também vira também impulso compulsivo. 

Wanderley Lucena

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O AMOR DE ONTEM

"Y el amor no nos refleja como ayer"- E o amor já não nos reflete como ontem. Mercedes Sosa. O amor muda com o tempo. Já não nos arremete como catapulta rumo ao infinito desconhecido fazendo com que nosso juízo, como pena no meio redemoinho, fique rodopiando sem parar. Ele, o amor, se manifesta, entretanto, de forma mais lânguida e menos pueril do que na juventude. Não sei qual das duas fases é melhor ou pior. Nesta altura da vida já entendi que o amor não é luta, não é labuta, não é disputa. O amor não tira a paz nem se enciuma. O amor é encaixe perfeito de peças-coração. Quebra-cabeça de apenas duas peças - ou mais. A busca da peça certa é, por vezes, tarefa hercúlea, verdadeira odisseia de Ulisses. Muitos se esforçam a vida toda por encontrá-la e jamais a encontram. Outros, sem muito esforço, se entrelaçam logo no inicio de suas vidas. Mas que sorte tem quem encontra a peça certa. Que sorte tem quem ama!  

Wanderley Lucena

UM ABACAXI POR ENFEITE

As argolas enormes, em plástico branco, nas orelhas do rapaz me fizeram lembrar o feioso índio Raoni. O buraco era tão grande que eu podia ver, por entre eles, o ônibus do outro lado rua. E o Raoni é mesmo muito feio. Mas o moço não o era. Ele era até bonito. É que em sua ânsia por fazer-se perceber, enfeitou-se demais. O rapaz tinha uma enorme tatoo que ia desde a cintura até o pescoço. A cor berrante da tatoo saltava aos olhos de quem queria e de quem não queria ver.

Ele fazia questão de mostrar corpanzil ao despir-se da cintura para cima em toda e qualquer hora, por mais inadequada que fosse a  ocasião. E, mais: um corte moicano que lhe dava a aparência de periquito australiano. O pior mesmo, o indefectível, era a cueca que fora, propositadamente, puxada para cima , rumo ao umbigo, enquanto a calça caia, desleixadamente, mas de propósito, bunda abaixo. O cós da dita cueca era por demais largo e a marca - diga-se - barata, estampada em vermelho urucum, pretendia provocar a lascívia de quem olhava. O rapaz rebolava freneticamente em dança sensual que deixaria qualquer loira do "tcham" boquiaberta. O pior é que, por mais que tentasse, não conseguia deixar de notar, muito negativamente, toda a pavonice daquele moço.

- Mas, a beleza está nos olhos de quem ver - pode me advertir você.

- Francamente! - lhe responderia eu.

Ouvi dizer, e concordo, que muita informação visual pode não ser uma boa a quem pretende a elegância. A elegância é equilíbrio discreto e harmônico. Mas os moços têm o direito de querer ser atraentes e de não passarem desapercebidos. E têm até o direito de errar. Entretanto, chega uma hora na vida em que não se pode mais errar. Ou que, pelo menos, não se deveria. É que a coisa fica ridícula. Aos homens maduros não fica bonito agirem como adolescentes ou crianças e virse-versa.

Todos podem, e devem, se enfeitar. A natureza toda é assim. Exemplo é o galo-de-campina e sua crista; o pavão e sua calda; a ave-do-paraíso e suas cores exuberantes; o leão e sua juba, etc... Embora o homem também goste dos enfeites, somos o único ramo do reino animal considerado "racional". E o que nos difere dos irracionais é, justamente, a nossa capacidade de domínio sobre os nossos instintos. É o "quero, mas não posso"; "posso, mas não devo"; "posso, mas não quero". É que tudo demais é "desequilíbrio". 

E a discrição é tão chique. A discrição nunca é sinônimo de desequilíbrio. Ser notado no meio da multidão, apenas e tão somente, por se ser quem se é. Não por causa do abacaxi que se leva à cabeça. A pavonice é considerada breguice pavorosa em várias situações, exceto, no carnaval. Mas, como diz um amigo meu: "quem paga a conta sou eu, portanto..."  E eu que não pago a conta tento conter-me em meus "instintos" de sinceridade e informar em leras garrafais "você está brega". Até porque a tal racionalidade me informa que sinceridade demais é breguice igual à de quem bota o abacaxi na cabeça e sai por ai dizendo ser galo-de-briga.

E, no fim, todos somos, em algum momento, bregas mesmo. Olha eu aqui escrevendo sobre isto... quer coisa mais brega?

Wanderley Lucena

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

NÃO VALE QUANTO PESA

Dinheiro é papel 
O prazer da compra é efêmero. 
O peso das tranqueiras se acumula na mala que insistimos em carregar com dificuldade e apego. 
Não perdeste teu dinheiro. Ele não foi jogado fora. 
Adquiriste o conhecimento - e esse não te pesará durante a tua viagem,
pelo contrário, quanto mais conhecimento, mais leve será a jornada.
E ainda ficaram todas as lembranças e as experiências trocadas com os outros seres.
O prazer da troca é superior ao da compra.
E há troca... mesmo quando do ato da compra.
Só precisamos está atentos e mantermos atitude positiva sempre.
Bom humor pode ser apenas uma questão de escolha.
Se a compra é mesmo mera satisfação ao ego
É preciosa a interação 
O lucro é a emoção.

Wanderley Lucena

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A ESTÓRIA DE UM MILAGRE


A estória que passo a contar-vos aconteceu comigo mesmo, há muitos anos, quando eu tinha apenas 19 anos. Alguns não acreditarão  que ela foi verídica e outros podem dizer que trata-se de mero acaso. Só contarei os fatos que me aconteceram e nada além disso. 

Eu estava morando no quartel, de "laranjeira". O termo era usado ao recruta que precisava de alojamento. Alguns por não terem família na cidade, outros por não terem condições de locomoção até seu lar. No meu caso era uma mistura das duas coisas. Eu tinha parentes que me deram hospedagem quando cheguei do nordeste "com uma mão na frente e outra atrás". Mas, tão logo passei no concurso da Polícia Militar do DF e me apresentei no quartel para o recrutamento, me inscrevi para ser um  ""laranjeira".

A vida era muito difícil. Os tempos eram outros. O recruta ganhava uma "merreca", metade de um salário mínimo à época. Eu ganhava a tal "merreca" e tirava a metade dela para mandar para meus familiares que passavam "maus pedaços" no Maranhão". A pequena quantia que me sobrava eu comprava de gêneros de primeiríssima necessidade: creme dental, sabonete, papel higiênico, biscoitos de água e sal, suco granulado, etc... 

Num determinado mês não pude comprar os tais gêneros. É que eu tive de pagar uma dívida e mandei o resto para os meus familiares. Estava consciente que deveria economizar ao máximo o que me restava dos gêneros. Mas, mesmo com toda a economia, na metade do mês, acabou-se o estoque. Nada me restava. Fiquei na penúria total. 

Olhei para o interior do pequeno armário de campana e percebi que me faltava o sabonete, o papel higiênico, tudo enfim... Fechei os olhos e passei, em silêncio, a fazer uma oração. Eu era rapaz novo, quase impúbere, mas muito dedicado á leitura das escrituras ditas sagradas. Crente de igreja evangélica, diga-se, tradicional. Acreditava em tudo o que me foi ensinado e nunca duvidei poder do Todo Poderoso, embora, até aquele momento, jamais tivesse percebido qualquer milagre em minha vida.

Orei e pedi a Deus que operasse um milagre. Declarei em meu coração que, se ocorresse o milagre, jamais duvidaria da existência D'ele e que tal milagre me seria sinal de vitória ante as adversidades que me  viriam até que trouxesse toda a minha família para Brasília. Embora não estivessem a passar fome, meus familiares vivam verdadeira penúria. A casa era humilde e, sequer, tinha vaso sanitário e minha mãe comprava "fiado", o pacote de café, do mais barato, na vendinha da rua.

Mas, enquanto fazia a minha oração silenciosa, percebi uma atmosfera vibrante que me envolvia e fez tremer. Ouvi voz intuitiva dentro da minha cabeça e que me dizia: "Eu vou realizar um milagre". Não titubeei e, mentalmente, declarei que faria tudo o que Ele me mandasse. Ouvi as instruções que me recomendavam: "Não duvide em momento algum", "vá ao mercado e leve papel e caneta".

Foi o que fiz em seguida. Sai do quartel debaixo do sol de agosto quando, na capital federal, vivemos o ápice da seca. Eu suava, embora, sentisse sensação inversa. Era um frio que me fazia tremer. Nada falei a ninguém, em momento algum. Foi assim, "possuído", que entrei no mercado. Ouvi a "voz" que me recomendava anotar os preços de tudo o que eu necessitava. Anotei tudo e somei. Cinquenta cruzeiros. A quantia da soma era exata assim mesmo. Cinquenta cruzeiros: a moeda à época.

- E agora? Que faço? Ponho tudo no carrinho do mercado e me dirijo ao caixa? - Perguntei eu no meu íntimo e esperando que a resposta fosse positiva.

- Você foi sorteado numa promoção "X" - Imaginei que seria o que gerente iria dizer no exato momento do pagamento.

- Coitado! Deixe que eu pago - Talvez seria o que diria algum estranho, logo atrás de mim, na fila, esperando sua vez de ser atendido no caixa e ao perceber que eu estava sem dinheiro.

- Nada disso! Não coloque nada no carrinho! Volte para o quartel! - Em tom imperativo foram as ordens que recebi no meu íntimo. Surpreso, me lembrei: "Não duvide!" foi a instrução recebida ainda no quartel. E foi o que fiz: rumei para o quartel sentido a mesma sensação de frio debaixo do sol escaldante.

- Se ocorre como você imaginou, bastam dois anos para que você se convença que tudo foi mero acaso. O que você quer é milagre, é prova, portanto, é milagre que você terá. Até que você chegue no quartel, você estará com seu milagre - foi o que ouvi no meu íntimo.

- Agora... ao invés de você  ir para o alojamento, passando pelo campo de futebol... vá pelo caminho entre os eucaliptos - foi a ordem dada e imediatamente obedecida.

- Você verá um pequeno pé de eucalipto dentre os demais. Lá debaixo você encontrará uma nota de Cinquenta Cruzeiros - foi o que ouvi.

De longe, há cerca de cem metros, vi o pequeno pé de eucalipto.

- É aquele! - Pensei eu ao escolher um pequeno pé de eucalipto dentre os muitos outros.

Fui me aproximando e já bem mais perto, vi a nota de dinheiro que balançava com o vento, debaixo do pequeno pé de eucalipto, presa não sei como. Eu a peguei numa emoção que não consigo descrever. Agradeci enormemente a Deus e com o coração explodindo me fui para o alojamento na certeza de que existe uma força que não sei descrevê-la nem explicá-la, mas, que muitos a denominam "Deus". 

Toda a minha família se encontra na capital federal. Todos estudaram e estão com seus empregos e suas casas que dispõem de toda a tecnologia moderna das casas de classe "c" ou "b". Meus pais moram em casa que jamais sonharam e podem ter sua velhice digna com direito a plano de saúde e qualidade de vida.

É isso! Milagres acontecem! Eu posso afirmar isso! Não sei se o milagre acontece por fé de quem crer, se por decisão e escolha do "Ser supremo"... Mas, há algo inexplicável. Se está dentro de cada ser e cabe a este ser fazê-lo mover-se a seu favor; se está no cosmos e de lá move os elementos a favor do ser... não o sei. Mas, fui agraciado com este milagre e com vários outros. Não posso negá-los. Não posso negar: existe algo inexplicável.

Não posso negar que já não sou mais o jovem quase impúbere que viveu o milagre que acabei de relatar; não posso negar que mudei e que minha crença mudou; não posso negar que prefiro a razão à fé; não posso negar que "a fé move montanhas", todavia. Não posso negar que "Ele" de alguma forma, de forma milagrosa se manifestou e se manifesta. 

Que Ele seja sempre misericordioso para com todos nós! Que continue a ter compaixão deste que, apesar de crescido, continua crente n'Ele. Não sei o que me reserva o amanhã, mas, das poucas certezas que tenho: não posso negá-Lo.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O IMPACTO DO VAZIO


Passando os dedos nos títulos da minha estante
Buscava algo para entreter-me
Vi o livro que me presenteaste há tanto tempo
Folheei-o na busca de uma dedicatória
De um recado escondido
Algo que precisasse ser decifrado
Páginas dobradas marcavam o livro
"Cabe pois no vagão
toda a nossa viagem"
Do Carlos Drumond
Não sei se tu querias que eu lesse
Nem se tu que marcaras em páginas dobradas
Algum enigma a ser decifrado.
E apesar do tempo
Não consigo esquecer tudo.
Se pudesse voltar
Nada nos teria acontecido.
Mal não me fizeste
Mas não consigo querer perdoar-te
Por não me quereres
Se te perdoo, perco-te
Quero continuar magoado
Assim permaneces e, quiçá, eu permaneça.
Todavia, já não mais te quero
Queda-te afogado nas águas turvas do ressentimento
Na minha humanidade latente
No coração ferido
Na dor da lembrança eterna de quem não quis esquecer-te.
Todavia, não te dignaste
Nada havia que não as poesias do Drumond
Eu as trocaria todas por uma linha escrita por teu punho
Numa dedicatória calorosa
Que nem precisava ser de amor.
Preferiste o impacto do vazio
Da indiferença
Do quase desprezo
O "nada" de quem quer ser esquecido
De quem não quer causar dor
Que não quis deixar marcas
Deixaste  vazia a página branca
O papel, por si só,  merecia a tua dedicatória
Só pra não ficar vazio.
O trem segue levando os vagões
O meu não seguirá vazio
Vai comigo o Drumond.

Wanderley Lucena

sábado, 14 de janeiro de 2012

APENAS PALAVRAS


Palavras são palavras. Podem até ser verdadeiras, mas, são só palavras. Verdade falada que pode servir apenas na hora em que é dita. E como faz bem ouvir verdades descompromissadas sussurradas ao ouvido. Não levo muito a sério o que me dizem. Contudo, levo mais a sério a ações dos indivíduos. É que as palavras se perdem ao vento tão logo são ditas. E é verdade que as ações refletem o interior, o caráter, a consideração ao objeto ou para com o próximo.

É o seguinte: se me disseres que me amas eu acreditarei que me falas verdadeiramente, porém, estarei certo de que trata-se de verdade efêmera motivada pelas emoções do momento, de pele, de tesão. Tuas palavras podem ser apenas bajulação.

Entretanto, se protegeres com veemência dos comentários maldosos que te chegarem; se me acudires no momento da dor; se de teus olhos caírem lágrimas quando choro; se me preparares o café da manhã e me levares à cama; se me ofereceres a mão; se comigo dividires alegrias, dores e dissabores e etc.. e tal. Se não te tornares servil. Se não considerares que isto te sejas pesado e que o fazes com prazer e nunca irás cobrar-me por tua atitudes para comigo... acreditarei que me amas verdadeiramente.

São tantas condicionantes que implicam a atitude que as águas turvas da dissimulação não serão capazes de esconder a verdade. E se me disseres: "eu te amo" ou "eu te odeio", não te levarei a sério de qualquer forma. Mas, se tuas palavras são doces, mas se o teu sorriso é o do escárnio e a tua postura a do desdém... o desprezo do "dá de costas" e retirar-se. A verdade não se encontra nas tuas doces palavras mas no teu ato reprovável.

E saibas que, mesmo que me ames, és livre para te ires mim. Porque, como bem sabes, o amor não aprisiona.

Eu te amo!

Wanderley Lucena

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ACASO DIVINO

Realidade... real... será? 
Providência divina... providência... será? 
Não sei. 
A realidade não é palpável e a providência pode ser simplesmente um acaso. 
Mas sabe... vale a pena sempre. 
É com a alma cheia, explodindo de amor, que poderemos gritar: valeu muito a pena! 
Sempre valerá! 
Que Deus - ou o acaso - nos seja generoso
E, nos abençoe a todos com uma realidade branda, 
suave como o vento que nos acaricia a pele num dia de verão.

Wanderley Lucena

domingo, 8 de janeiro de 2012

O COMPLEMENTO ESSENCIAL

Eu, porém, vos digo: a expectativa é o que nos move rumo ao sucesso, ao amor e - porque não? - à derrota. Tudo depende da programação íntima de cada indivíduo. É lei: "seremos tudo aquilo que quisermos firmemente".

Criar expectativas em relação ao outro é normal. Daí a achar que ele nos trará felicidade para o resto da vida; que nunca nos decepcionará; que será nosso amor eterno... é pensar por demais infantil. Ocorre que o outro é complemento essencial. Não precisamos de possuir o outro para que possamos ser felizes. O outro nunca, nem de longe, deveria ser a razão de viver de quem quer que seja. Eu me recuso a ser a razão de viver de quem quer que seja. 

O foco da expectativa tem de ser você mesmo... e não confunda isso com egoismo. Egoísmo é concentrar no outro a sua expectativa e querer que ele corresponda a tudo o que você espera dele. Eu valorizo quem me valoriza. O foco deve ser você mesmo e seu poder de persuasão, de conquista, de tesão etc... No fim, "tudo valerá a pena de a alma não foi pequena".

E nem tudo depende do ponto de vista particular de quem olha. É que existem verdades que são universais e valem tanto aqui como na China. O outro é essencial em qualquer convivência e deve ser respeitado com os seus limites e vontades próprias, inclusive, o fato de não querer corresponder a expectativas de quem quer que seja. 

A vida prática deve ser reprogramada e assim, depois de percebermos que o outro é mesmo complementar à nossa existência... mesmo que ele se vá para longe e nunca mais nos mande notícias, permaneceremos com a certeza, no íntimo, de que somos felizes, muito felizes. E se o outro "se me foi é porque se me nunca pertenceu". Isso é Saint Exuperry? No lo sé.

Wanderley Lucena


sábado, 7 de janeiro de 2012

IRONIA MORTAL

Toda ironia traz em si uma carga que, na maioria das vezes, é negativa. A tentativa de se fazer entender nas entrelinhas é por demais desgastante. Geralmente quem fala por ironia quer mesmo ser desagradável. Quer ser compreendido, mas, não de imediato, porém, depois de algum tempo. Depois do ouvinte digerir o que lhe foi dito e interpretá-lo na exata medida ou superdimensionada aquilo que lhe foi dito. 

O problema é que, muitas vezes, o ouvinte mais relaxado não consegue entender que o que lhe é falado é pura ironia. O irônico tem de fazer novas invertidas, cada vez mais objetivas. E como aborrece a indiferença! As vezes nem é indiferença, é burrice mesmo. E se tem algo que aborrece profundamente ao irônico é a burrice, a lerdeza de raciocínio.

Quando o ironizado também é irônico as coisas ficam ainda piores. É muita energia gasta. O irônico ironizado vai se digladiar com seu oponente em luta sem fim e sem sentido. Sairá frustrado, provavelmente. Os dois sairão com a sensação de que poderiam de dito ainda mais. Que as ironias não foram irônicas o bastante. 

A ironia é a linguagem do desdém e do desprezo. A linguagem dos que, na sua empáfia, se consideram melhores. É a linguagem maldita da crítica covarde que não pode e não quer, ser dita com todas as letras. Tanto que, geralmente, o irônico dá de costas e se vai embora tão logo destila o seu veneno deixando o ironizado mudo, estupefacto, paralisado, ante o ataque desmedido e despropositado. 

E se falo de tal assunto é porque sou por demais irônico. É bem verdade que tenho me esforçado no sentido de ser menos agressivo nas minhas ironias. É verdade que tenho tido algum sucesso, mas me é trabalho quase hercúleo. E minha terapeuta me disse que a ironia é linguagem de pessoas inteligentes, acima da média - creia-me, ela me disse isso. E minha inteligência não está acima de média nenhuma. Aliás, minha memória está indo pro espaço e me sinto um ignorante ante qualquer assunto. Mas eu entendi o ponto de vista, diga-se, profissional dela.

Mas é certo que ironia faz mal. Faz mal a quem ouve e entende como à quem foi irônico. É veneno que permanece no corpo, no coração e na alma e fica empapuçando o indivíduo por horas, às vezes, dias. A ironia é mesmo uma m...! Haja terapia!

Wanderley Lucena

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

MENINOS OLEIROS


Sobe e desce ladeira com a canga de latas aos ombros
Latas descem vazias e voltam cheias
Águas do Rio Corda
Jogadas sobre o massapê
Depois de cortado no barranco
Agora barro amontoado
Molhado depois de muitas cangas de suor
Pernas infantis em corpos impúberes
Marcham forçadas por músculos cansados
Não podem se dá ao luxo da exaustão
De tão amassado vira liga pesada
 Barro liguento gruda nas pernas nele enterradas
Depois de muito pisar pode ser jogado da forma
Sol a pino quer derreter muleiras
Juízo trabalha a mil
Inconformada realidade
Futuro incerto 
Miséria quase certa
Revolta que arde no peito 
Não sai de lá
Conta com a sorte que insiste em lhe ser sisuda
Leva barro molhado no peito
Massa que viraria bela cerâmica
Mas os meninos são oleiros
Não são artesãos
Lança na forma e molda com as mãos rasgadas
Às centenas de milhares tijolos postos a secar
Quadrados sem graça vão virar parede 
Depois de secos são colocados em calheiras
Lenha que se acende queima o barro empilhado
Queimado fica pronto
Jogados um a um sobre carroceria de caminhão velho
Esfola dedos em carne viva
Merreca recebida vai direto para mãos maternas
Mãos que lavam de trouxa de madame
Rosto altivo de guerreira
Ensina que não se desiste da luta
Só a morte tira o sonho
Ela que se apresente muito depois 
Em novas terras
Somente depois de saborear o que lhes pertence
O conforto e a bonança
Pobreza é lembrança
O barro é cerâmica rica que enfeita casa de madame
Madame que se orgulha dos filhos de passado oleiro.

Wanderley Lucena


domingo, 1 de janeiro de 2012

A JOIA


Sentado na cadeira do jardim e vendo os fogos a explodir e a ouvir a contagem regressiva que anunciava a entrada no novo ano na confortável casa de um amigo aos arredores da cidade, ouvi a curiosa estória de um dos participantes da festa. 

Gabriel chegou sem a camiseta branca, bordada de azul celeste, que todos usavam. Justificou-se alegando falta de tempo. É acabara de chegar da cidade de Rondón, no interior do Pará, cidade na qual é o Juiz de Direito local.

Mas surpreendeu-me o otimismo do jovem juiz ao contar-nos de suas agruras, venturas e desventuras pelos rincóns deste país continental. Embora tenha de andar em carro blindado; de está ameaçado de morte por aqueles que pôs na cadeia e da perseguição de alguns poderosos políticos locais que o tem por "pedra no sapato" ao não permitir-lhes o enriquecimento ilícito às custas do mandato. O jovem juiz mantém, não só a ética rígida, mas o otimismo ante a esperança de que a sociedade pode ser melhor. Seu rosto se irradiou ao falar-nos de seus projetos sociais com os estudantes do município. 

Mas a estória que me contou e que passo a contar-vos, não se passou em Rondón, mas aqui mesmo na capital federal.  Gabriel enamorou-se de um belíssimo relógio que vira na vitrine de uma joalheria, diga-se, das mais caras. Não só a joalheria era das mais caras, mas o relógio... de tão caro, compraria, facilmente, uma casa confortável ou um carro que não fosse de modelo popular. Entrou na loja e comprou o bem que foi parcelado em seis vezes. Cada parcela ultrapassava o meu salário mensal - e nem acho que ganho mal.

O relógio impressionava. Cravado de pedras preciosas que iam desde diamantes, jades, ágatas e outras. Ele o usava, garboso, em ocasiões especiais. E era mesmo envaidecido que declarava o valor da joia. E foi assim que foi invejado por alguns pobres de espírito. Outros, invejavam não só o bem, mas o cargo que dava a Gabriel tal poder de compra.

Mas, ele tinha um amigo de muitos anos que, depois de saber da sua aquisição e aproveitando-se da morte de  ente querido, fez-lhe uma visita alegando confortá-lo naquele momento de dor. O amigo não compareceu sozinho. Fez-se acompanhar de um desconhecido que lhe foi apresentado naquele momento. A joia estava muito bem guardada, porém, em local ao qual o amigo já sabia. Depois de muito insistir para que saíssem a se divertir, Gabriel se deixou convencer e aceitou a sugestão. Entretanto, teria de tomar banho antes de saírem.

Já tinha se arrumado todo quando decidiu colocar a joia no pulso. O local estava vazio. Alguém havia furtado a joia e só podia ter sido um dos dois que ali se encontravam, quiçá, os dois de conluio - concluiu Gabriel. Depois de insistir que lhe devolvessem o bem e ante as insistentes negativas, decidiu que faria uma revista aos dois se não quisessem que o fato fosse comunicado à polícia. Ambos aceitaram passar pelo constrangimento e, surpreso, Gabriel não encontrou a joia com eles.

Se passaram alguns dias e Gabriel continuava encafifado com o desaparecimento da joia e, segundo suas conjecturas, não podia ter sido mais ninguém a não um dos dois ou os dois, de coluio, como já dissemos. A empregada da casa seria a primeira suspeita, conforme lhe informou o amigo ofendido ante a insistência de Gabriel em achar que ele estaria envolvido no sumiço da joia.

O maior suspeito de Gabriel era o rapaz amigo de seu amigo. Decidiu insistir com ele e o convidou para um jantar. Durante o jantar deixou claro que era o rapaz o maior suspeito e que, naquele momento exato, se o rapaz não quisesse continuar por suspeito, deveria se submeter a nova revista. Embora o constrangimento evidente, o rapaz se dirigiu ao banheiro do restaurante e tirou todas as peças para que não restasse dúvidas de que não estava de posse da joia. 

Mas, o rapaz informou que, enquanto Gabriel foi tomar banho, seu amigo de anos havia entrado ao seu quarto e que após isso, foi ao carro estacionado na frente da casa, alegando ter esquecido algo. Agora a desconfiança de Gabriel de deslocava totalmente para o velho amigo. Embora fosse difícil acreditar, não lhe restava alternativa. Mas o amigo era odontologista bem estabelecido - pensava. Será?

Foram várias as tentativas e argumentos que pressionavam o velho amigo a devolver a joia furtada. O amigo insistia em  negar e a jogar a culpa sobre a empregada. Mas, dado momento, depois de ouvir argumento poderoso, decidiu o velho amigo, assumir o furto. Entretanto, estabeleceu condição para a devolução da joia.  Uma quantia em dinheiro foi depositada a conta do dentista ladrão e a joia foi entregue ao seu proprietário que já se encontrava no estado do Pará e não pode enfiar a mão nos dentes do dentista.

Ao retornar à capital federal, compareceu a uma instituição de caridade das mais conceituadas e doou a joia foi rifada e serviu para alimentar, por longo tempo, as crianças soropositivas da casa filantropa. O velho amigo agora era só um ladrão no conceito de Gabriel e não recebeu a sua visita costumeira. A joia, segundo me esclareceu, lhe trouxera aflição e perdas, mas, a doação dela faria, finalmente, o bem. Gabriel voltou para casa feliz com a doação e livre do peso da negatividade da joia. 

Só não me falou o nome do dentista ladrão, embora eu o tenho perguntado. Minha curiosidade se explica: jamais me sentaria da cadeira do dentista ladrão.

Wanderley Lucena


sábado, 24 de dezembro de 2011

O CAFÉ DE BODOCONGÓ

Quando li o valor da conta quase não acreditei. Tive a sensação de que aquilo me estava sendo cobrado em libras, quiçá, em euro. Mas não! Eu ia pagar na nossa moeda, o Real. Mas aquilo estava irreal. Perguntei ao caixa se aquilo estava certo. Se era mesmo aquele o valor a ser cobrado. Sim, o valor era aquele mesmo. Me senti no primeiro mundo. Um café com chantily, um pão de queijo e uma água não podiam custar dezenove Reais. A não ser que fosse no Café de la Paix. E lá nem tem pão de queijo e sim um croissant dos deuses e não essa coisa ressecada que comemos aqui na terra das bananas. Se não saímos do terceiro mundo, eu fui assaltado com certeza e recibo. 

Uma semana depois deste fato, fui a outro café. Esse um pouco mais intimista, mais chique e até o nome era francês. Pedi de meu café com chantily, um porção de três churros minúsculos acompanhados de uma irrisória porção de doce de leite e uma água não gasosa. Novamente tive a mesma sensação. Paguei vinte e um Reais por aquilo. O chantily nem era tão bom, me veio separado numa pequena tigela, e o doce de leite  era só uma gota perdida no pequeno recipiente e nem era lá essas coisas no sabor.

Sou viciado em café e isso todo mundo já sabe. Mas um expresso, mesmo que colhido pelas monjas cegas, mancas e castas do mosteiro de Bodocongó, a meu ver, não poderia custar mais que três Reais, a preços de hoje. Mas o pior é uma água que foi engarrafada numa torneira qualquer me custar cinco ou seis Reais. Uma coca-cola que é formulada com trezentos milhões de compostos químicos, não custa o preço do expresso ou da água, então como se pode cobrar  cinco reais por uma garrafa minúscula do líquido vital e que corre abundantemente, aos rios, pelo nosso país continental? A mesma água pode ser tomada de graça no bebedouro do mesmo shopping. Água não devia ser vendida neste país. Na Europa, onde já se vive a escassez, garrafas de água são postas, gratuitamente, na mesa de quem pretende almoçar ou jantar.

A solução, no meu caso, é montar, eu próprio, minha cafeteria em local que faça fundos com um rio. Vou tomar meus expressos colhido pelas mesmas freiras a preço de custo e, ainda, ganhar dinheiro vendendo água a preço de ouro e, fartamente, oferecerei, de graça, água a quem o queira. Mas, certo é que algo está errado. E é meu salário! Apenas ele, insista em ficar terceiro-mundista.

Wanderley Lucena

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

SONHOS SONHADOS

Ontem á noite sonhei um sonho engraçado. Sonhei que sonhava um sonho. E nunca tinha imaginado que se pode sonhar que se está sonhando. No meu sonho sonhado me aparecia alguém que me dizia me está vindo em sonho para que eu avisasse a um parente seu que ele, o parente, iria morrer. Acordei atônito e me levantei, meio que em transe, e me fui lavar a cara. Voltei á minha alcova e, de novo, sonhei. Sonhei que estava ante o parente e que não tinha coragem de dizer-lhe que havia sonhado o sonho no qual algum parente seu lhe avisava de sua morte iminente. Nesse segundo sonho, me lembro, fiquei na dúvida se havia mesmo sonhado aquele sonho e se ele era digno de credibilidade. Sonhos são só sonhos. E sonhos que são sonhos de sonhos devem ter menos importância ainda. Quando acordei do segundo sonho, encafifado, fiquei a pensar em quantos sonhos dentro de sonhos eu havia sonhado. Não sei quem que me aparecia no sonho, nem a quem deveria avisar de alguma morte. Entretanto, nessa semana, pura coincidência, morreram Cesária Évora, Sérgio Brito, Joãozinho Trinta, Rodolfo Bottino e um mequetrefe chamado Kim Jong-il.

Wanderley Lucena

Promessa



Vontade de partir
de começar de novo
começar diferente.
Vou sair sem hora para voltar.
Preciso de mais espaço
de novos horizontes
de objetivos claros.
Talvez nem volte.
Volto pra te visitar.
Prometo!

Wanderley Lucena

CUIDADO COM O QUE PENSA


Por vezes...
leio pensamentos.
Cuidado com o que pensa na minha frente!
Será que lemos?

Wanderley Lucena

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CHUVA, LENÇÓIS E MARASMO.


O marasmo, o ócio, a inércia. Dia de chuva, de frio, de ficar debaixo dos lençóis, coberto dos pés à cabeça. Sem atender interfone, campaínha, telefone. Por mim não levantaria da cama hoje. Ficaria sentindo o cheiro do confort do edredom e o carinho do algodão em minha pele. Mas... meu café. Preciso de café. Tenho de levantar ou o vício vai me fazer mal humorado. Enquanto preparo o café ligo a tv. Tv a cabo. Centenas de canais e todos parecem repetir as mesmas programações. Nos jornais... notícias repetidas sem cessar.

Mas... mortes... muitas mortes. Quanta morte! Quanta perda! Isso é pura coincidência, um acaso. Mas chama a atenção. Jãozinho Trinta, Sérgio Brito, Cesária Évora. Mas a última, confesso, é para se comemorar. O mundo ficou melhor com a morte de Kim Jong Il, o pigmeu que era dono da Coréia do Norte. É bem verdade que no lugar dele pode surgir alguém ainda pior.  E na arte da maldade o ser humano é sempre capaz de superar-se. 

Mas... e a Cesária? Quem a substituirá? E o Sérgio Brito e sua maestria com a cultura? O Joãozinho Trinta, meu conterrâneo, e sua criatividade para fazer coisas grandiosas? Para esses não haverão substitutos. Uma ironia da vida. Os bons são insubstituíveis, já os maus...

Fica ao menos o legado dessas pessoas. Eu sempre ouvirei a Cesária na minha casa. A obra deixada pelo Sérgio será sempre lida e muitos se mirarão nele para tentarem criar um teatro cada vez mais significativo e criativo. O legado do Joãozinho vai ficar nas imagens e no ensinamento por ele passado aos seus muitos discípulos.

Que o natal e o ano novo cheguem com notícias melhores. E o ócio, a preguiça, o marasmo, a melancolia... hahhh!!! Servem pra escrever bobagens como esta.

Wanderley Lucena

sábado, 26 de novembro de 2011

PRAZER INENARRÁVEL

Quando cheguei ao Palácio de Versalhes já tinha passado do meio-dia. Eu não estava mesmo à fim de entrar no Palácio. Não só porque já o conhecia, mas porque meu grande interesse dessa vez eram os jardins. Ademais estava querendo me recolher um pouco. Estava interessado em andar sem pressa pelos famosos jardins aos quais eu não pude explorá-los como gostaria quando de outra feita. E foi o que fiz. Fui direto para os fundos do belíssimo Palácio e sai andando, sozinho, sem pressa, sem rumo, porém, dentro dos limites do gigantesco jardim. De tão grande, o Rei Sol caçava raposas nele. Os lagos artificiais lhe serviam de mar onde brincava de guerras em barcos de verdade. São imensos os lagos daquele jardim.

Encontrei muitas estátuas e cenas reproduzidas em  tamanho bem maior que o natural. Dragões imensos que saiam da água e Netuno a dominar cavalos que aparecem no espelho d'água como viessem de outro mundo. Medusas, Nefertites, Venus, Eros, cavalos, aves e todos os seres imagináveis. Todas as alamedas repletas de tais estátuas e cenas dramáticas me faziam sentir pequeno. 


No chão, as folhas amareladas, típicas do outono, eram levadas pelo vento ou serviam para amaciar o chão das muitas pessoas que, sobre ele, decidiram fazer seus pic-nics. O farfalhar das folhas, o uivo do vento ou o canto dos passarinhos eram os sons que me chegavam ao ouvido. O vento era gelado e parecia querer congelar minhas orelhas e nariz. Tudo me fazia ter a certeza de que me encontrava bem longe de minha casa, do Brasil e de nosso clima tropical. Me senti só. Fora isso que eu buscara e o resultado era o esperado. Entrei em contato comigo mesmo. E isso era muito bom.

Em uma tarde não se explora o jardim, haja vista, o seu tamanho. Aqui e acolá eu via algumas pessoas andando de bicicleta e quase não acreditei quando vi um quiosque que as alugava.  Montei a minha bike e sai rumo aos fundos do jardim. Lá pude encontrar pedaços de floresta, ainda virgem, pressuponho. Tive receio de perder-me mas continuei até que cheguei aos limites do jardim quando se encontra uma cerca e logo após ela, uma pista de asfalto.

Cruzei-o de uma ponta à outra, de canto a canto. Fui aos lugares mais recônditos e... quanta descoberta! Mas o melhor era que eu estava ali sozinho, quase que em retiro de algumas horas. Entrei em contato comigo mesmo e fiz reflexões. Ali tomei decisões que, provavelmente, serão para toda a vida.

Voltei ao palácio pela lateral e tive de encarar uma subida de algumas dezenas de degraus, com a bike no ombro. O tempo estava gelado e eu aproveitei o exercício para me aquecer. De novo estava no Palácio e desci pela alameda central até o grande lago onde devolvi a bicicleta.

Um prazer inenarrável!

Wanderley Lucena




quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O GARÇOM DA MOUFETARD

Saímos do Hotel Confort in, na Rue Muffetard, no Quartier Latin de Paris à busca de um restaurante para jantarmos. A dita rua está lotada de charmosos restaurantes e lojas de souveniers. Não andamos muito, na verdade. Bem próximo do dito hotel, entramos no Le Jardin d’Artemis. O restaurante seria só mais um como qualquer outro não fosse a aparência de Mortícia do único garçom no pequeno restaurante. O ambiente era pequeno mas muito confortável e acolhedor. 

Tinha muita coisa para se olhar no pequeno restaurante, desde fotos em preto e branco a enfeites que boiavam dentro de taças cheias de algum líquido não identificado que ficavam sobre as mesas. Mas a atenção de todos se concentrou no garçom. Ele tinha dentes desalinhados em boca protuberante e que naquela luz indireta não foi possível perceber se a cor preta no esmalte era mesmo pura cárie ou algum efeito de sombra da pouca luz. 


No topo do corpo esquelético, a pequena cabeça tinha cabelos em fio reto partidos ao meio e postados, propositadamente, por trás das orelhas e lhe desciam quase até a altura dos ombros.  As mãos magras mostravam, nos dedos ossudos, anéis de preço e gosto bastante duvidosos. O uniforme preto lhe caia de cima abaixo completava a figura que estaria perfeita em um desenho macabro de Tim Burton. Vez por outra ele saia repentinamente do restaurante e se postava do lado de fora como se tivesse percebido algo que não poderia deixar de ver.  Lembrou-me em muito a um flamingo em sua busca atenta por alimento.

O garçom trouxe os pedidos um a um. Entretanto... que suplício! O moço parecia ter o mal de Parkinson. Tremia o prato como se os mesmos fossem derramar a qualquer momento no colo de algum de nós. Deixei todo mundo estarrecido ao pedir um expresso a ele. O café foi servido com o suspense de um filme de Hitchcock. Aparei a xícara quando ela tremia como uma flâmula bem abaixo de meu nariz antes o líquido quente me causasse algum estrago na virilha.  Que suplício, meu Deus!

Antes disso, porém , o vinho desceu muito bem e foi ele que me fez sentir meio tonto ao levantar-me da mesa. Já na porta de saída do estabelecimento, procurei a maçaneta para abri-la. Passei a mão e tatiei  mas não encontrava a maldita. Vi que um casal sentado em uma mesa ao lado, e que presenciava a minha cena, já estava a morrer de rir. Vi que faziam gestos e me queriam informar a forma correta de abrir a porta, parece-me que empurrando-a para fora. Fui-me para a rua com os meus amigos que abriram a porta para mim e já se rirem aos montes. Ainda bem que tava todo mundo bem humorado. Mas a cena não me foi constrangedora, senão, engraçada.

Entretanto, a maior surpresa – e esta, muito agradável – foi mesmo o jantar. Cada prato era um primor.  Não só pela disposição do alimento no prato, mas, pelo sabor. Era verdadeira iguaria que poderia ser servida a qualquer crítico de gastronomia mais exigente. Retornamos a Paris e, parte de nós, decidiu voltar ao mesmo restaurante para repetir o desguste. Não foi só pelo garçom ou pelas minhas "mancadas" que aquele jantar foi inesquecível. O jantar foi inesquecível pelo sabor que a cada um dos convivas daquela mesa.

Não deixaria de indicar o Le Jardin de d'Artemis a quem quer que seja. Não por causa de seu garçom com cara de Mortiça. Diria apenas que ele é o lado exótico e uma das atrações do restaurante. Diria apenas que tomem cuidado com o vinho da casa. Se parece bom ao palato, entra na corrente sanguínea rapidamente e em altos teores.

Wanderley Lucena


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

THE BREAD IS OLD.

O Hotel se impunha e estava em frente à Praça da Independência em Florença, Itália. O primeiro café da manhã, no entanto, me decepcionou um pouco. Não foi porque fosse pobre. Estava até bem servido e havia alguma variedade e até salada de frutas frescas, coisa meio rara por aqui pela Europa. Quase tudo aqui vem em conserva, mas nem por isso deixa de ser gostoso. Aliás, algumas delas são mais saborosas que as bananas empretejadas que compramos nas feiras daí. Mas o que me deixava meio fulo era a cara do pão francês. Aqui ele se apresenta branco opaco e duro igual pedra, como se de uma semana estivesse ali naquela cesta.

Já no segundo dia, a moça que fazia o serviço, muito eficiente, corria de lá para cá a não deixar faltar nada aos hóspedes. Mas tinha ela cara de poucos amigos. Era sisuda e tinha ombros largos. O cabelo loiro preso por uma fita preta em laço e um avental igualmente preto sobre calça e blusas brancas me fez lembrar um carcereiro de Aushevitz. O pão estava ali novamente, sem graça, branquelo e nada convidativo. Resolvi me dirigir, a uma certa distancia, à carcereira que nos servia e da qual eu ainda não tinha ouvida a voz. Fui no meu deficiente inglês e tasquei: “the bread is old”.

A moça que já era sisuda virou em minha direção em movimento brusco. Senti o arranhar de um portão pesado e enferrujado de um castelo medieval a abrir-se. As sobrancelhas estavam cerradas e ela começou a falar em inglês de forte sotaque germânico. Não entendi quase nada do que ela me dizia. Mas entendi que era a sua responsabilidade colocar pães frescos à mesa todos os dias e que se não o fizesse, sua cabeça podia rolar, ou seja, poderia ser demitida. O que chamou mais a minha atenção foi o gesto feito com o polegar. A mão fechada e o polegar em riste que ele fez passar sobre sua garganta em tom ameaçador. Senti a minha própria cabeça a rolar. Recolhi-me enquanto minha irmã, em bom inglês, tratou de apaziguar a gafe. Disse minha irmã que o pão servido no Brasil é diferente e que estava havendo apenas um choque de culturas naquele ambiente.

Agora, sempre que vejo os pães pálidos nos hotéis daqui, corro para a bandeja de croissants que, sem dúvida, são quase e sempre iguais e não tem como eu não gostar.

Wanderley Lucena

terça-feira, 15 de novembro de 2011

CRÔNICAS À QUATRO


Tudo começa porque ela não estava lá, mas eles estavam. Ela, a internet, não compareceu. Mas, eles sim. Estavam dentro de um trem, mas não um trem qualquer. Não um trem de mineiro. E sim, um trem Florenciano. Sem que, nem pra que, quem dirá por que, decidiram construir uma crônica a quatro. Eu, Madalene, adoro que me chamem Madá. Graça e grata por natureza. Gosto de viajar. Neste exato momento não estou muito criativa para escrever, mas contarei o que mais de cômico tem me acontecido: os meus Fiftys... Não compreendo o por que de eles chamarem tanta atenção, mas por onde quer que eu passe nessa viagem me custa alguns fiftys. Fiftys pra cá, fiftys pra lá. Todos sorriem, eu sorrio. Graças a Deus, o meu sorriso não custa caro e eu o compartilho até mesmo com aqueles que me cobram fiftys.


Madá Vertelo

Em Noronha – a ilha paradisíaca – há duas pedras, quase gêmeas, que por agora não me recordo de seus nomes.  Cercadas pela imensidão do mar esverdeado, são por certo muito díspares, moldadas lado a lado pelas mesmas intempéries, mas maravilhosamente desiguais. Bem poderiam ser chamadas amigas, como nós quatro que agora escrevemos. Aqui neste trem rumo a Veneza me chega  uma branda tristeza por deixar a linda Florença, mas uma terna alegria me toma, porque assim como as pedras do Atlântico somos moldados pelas agruras e venturas da vida. Tão belos e íntegros - Bem vinda Veneza!   

Carlos Roberto Vieira

Grata surpresa perceber o talento que têm meus amigos pra escrever tão belamente. Depois de lê-los acima, me sinto acanhado e pouco inspirado. Mas me ponho a pensar nos quatro seres que aqui se encontram. Somos tão diferentes e tão humanamente iguais.  Ante o risco da discórdia há sempre a ponderação madura que nos leva a, mesmo individualizados, necessitarmos do conjunto. Cada um tem a sua característica que lhe é própria e a cada um cabe o cuidado e sensibilidade de reparar o outro e dele cuidar. Cá estamos chegando a Veneza e já se vão quatorze dias de convivência e vivências. A bagagem aumentou não só por causa das bugigangas compradas ao longo da viagem mas também por causa troca de sentimentos. E esta bagagem é leve por vezes... pesada por vezes. Mas sabe o que importa? Viver!

Wanderley Lucena

Eu aqui exausta, quase dormindo, e meus amigos pedem para que eu participe neste escrito a “várias” mãos. Sobre o que falar? Eis a questão. Depois de tantas situações cômicas prefiro falar da última... O recepcionista do nosso hotel em Florença nos pergunta o que significa ”prego” no Brasil e meu irmão rapidamente com toda expressão dramática explica que essa palavra significa o mesmo que ”Jesus crucificado na cruz”. Os três companheiros de viagem espantados caem na gargalhada e essa é mais uma das perolas do meu irmão durante a viagem que iremos lembrar e rir por muito tempo... Assim como a situação do “the bread is old”, mas isso será outra crônica que provavelmente ele mesmo escreverá.


Jeanne Lucena

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CARTA FLORENTINA



Florença, Itália, 14 de novembro de 2011.


Querido amigo;


Chegamos a Florença muito cansados e já no início da madrugada. O hotel era confortável e ficava bem em frente a Praca da Independência. A praca por si só nao tem a menor graca. No entanto, se andares cerca de duzentos metros adentro da cidade, te depararás com imensas esculturas gregas em mármore branco que representam figuras humanas, entretanto, duas a três vezes maior que o natural. A imponência de tais estátuas e obras de arte a céu aberto me fez pensar sobre a capacidade de criação do homem. Uma grande quantidade de museus da cidade guardam acervos que podem ir de leonardo da Vinci a Michelângelo. As ruas estão sempre entupidas de turistas. O detalhe é que vi pouquíssimos carros a  transitar nas ruas antigas. É que a maioria dos turistas chegam de avião ou de trem.

Uma imensa construção octogonal no meio de uma praça me chamou a tenção e decidi entrar. Trata-se do Batistério. A construção, originalmente, era uma espécie de altar pagao usado pelos primitivos, não sei há quantos anos, entretanto, muito antes do cristianismo transformá-la em igreja.  O interior mostra a rusticidade da paredes e o piso, totalmente irregular, embora coberto por piso decorado, é totalmente irregular e a criatura deficiente visual pode perder as pernas.

A Ponte Vechia é de origem medieval e está construida por sobre o Rio Arno. A tal ponte, com o tempo, virou rua e suas laterais foram tomadas por construções de dois andares e pequenas lojas, quase todas de joalherias, vendem preciosidades.

Na Galeria da Academia, um dos muitos museus, está ninguem menos que o Davi de Michelângelo. Acredita? E fiquei ali por um bom tempo, em frente ao Davi, admirando aquela figura magistral no mármore branco. Fiquei imaginando se ela podia respirar de tão perfeito. Na figura "sarada" percebem-se detalhes como a latência aparente das veias a saltar dos músculos da criatura perfeita.

As folhas continuavam a cair das arvores por causa do outono. A cena era belíssima. O chão era tapete amarelado que soava aos pés com o farfalhar das folhas a informar a estação. O clima frio não chegava a doer, mas, obrigava que todos usem roupas mais pesadas e torna tudo mais elegante.

Comemos e bebemos muito bem. Com saciedade, a vontade de fazer a "sexta". Bate a fadiga e, junto com ela, a saudade do Brasil ja incomoda por demais. Nao vejo a hora de sentir o cheiro dos meus lencóis e de ter o meu cachorro a pular em meus bracos todo feliz por me ter de volta em casa.

Levo bugigangas mil. Presentes e lembranças. Um especial para ti.

Amanha estaremos em Veneza e, por fim, voltaremos ao Brasil.

Abraco.

Wanderley Lucena

sábado, 12 de novembro de 2011

CARTA ROMANA


Roma, 12 de novembro de 2011.

Caro Amigo;

É com saudade do Brasil que te escrevo desde esta cidade monumental que se Roma.  A cidade é um imenso sitio arqueológico a céu aberto. Não importa para que lado olhes, verás um monumento , uma igreja, uma ruína. E não penses ser algum deles discreto. De forma alguma!

Aqui se pisa em pedras que calçam a rua desde os tempos de  Calígula ou Julio Cézar.  Estive na Via Ápia e senti as bigas a transitarem conduzidas por romanos a se dirigirem para o Coliseo. A via Marguta é belíssima e foi endereço do Felinni. Rua tipicamente romana que sai desde a Piazza di Spagna. A praça está sempre abarrotada de gente e suas escada sobem em direção a uma igreja  de onde se pode ver o por do sol ao longo da Via Condotti.

O Vaticano é um absurdo. Não parece coisa de homens. Parece que estamos em outra dimensão.  Nunca tinha visto tanta arte. Desde a Basílica de São Pedro à Capela Sistina. Não há como descrever aquilo. Do teto ao chão é tudo arte. No horizontal ou no vertical. Pura arte sacra.

Todos os papas estão enterrados no subterrâneo da Basílica. Tive de Pará e reverenciar ao Papa João Paulo II. Homem de elevada espiritualidade que merece minha reverência. O túmulo de Pedro, o Apóstolo, o pai da Igreja Católica é emocionante igualmente.

Amanhã estaremos em Florênça e são novas emoções.

Um abraço.

Wanderle

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

CARTA LONDRINA


































Londres, 10 de novembro de 2011.

Caro Amigo;

Te  escrevo de um computador no aeroporto de Londres ao qual nem me atreeverei a escrever o nome, haja vista, a quantidade de consoantes no nome. Mas estou aqui porque chegamos atrasados para o embarque para Roma. Cinco minutos atrasados e ficamos presos aqui ate o meio dia quando embarcaremos em outro voo, depois de pagarmos uma "baba" de multa pelo atraso.

Mas Londres e gigantesca e belissima. Ontem subi na roda gigante que eles chamam de London Eye. Disem ser a maior do mundo, mas nao afirmo isso categoricamente por nao ter tempo de fazer pesquisa agora. Depois fomos ao museu da Madame Tussou. E isso nos valeu muita pena. As imagens em cera, todas em tamanho natural, exibidas ao longo de alguns andares, de tao perfeitas, podem ser, facilmente, confundidas com uma pessoa real. Uma descida a camara do horrores e imperdivel. La a madame espressou os horrores das guilhotinadas da Bastilha francesa, incluindo-se, a cabeca de Maria Antonieta. Impressionante!

Depois uma visita demorada e muito prazeirosda, com aprendizado historico, na Catedral de Westminster. Aquele onde secasam e se coroam os reis e principes da Granbretania. Reis, rainhas, cavaleiros, camareiros, ppoetas e cientistas, ao montes, estao ali enterrados em tumulos que deixam o espectador de boca aberta. 

Desculpe-me se te escrevo sem a devida pontuacao. Estou em computador que tem teclado diferente e alguns dos nossos pontos usados no portugues, sequer existem nele.   

Um abraco e ate a proxima.

Wanderley Lucena