segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Mais Amor, por Favor!


Eu pensava que ser lido em minhas ideias era direito inalienável. Eu pensava que numa discussão de ideias, por mais polêmicas que elas fossem, estaria garantida toda a minha integridade, física, moral e intelectual. Mas, confesso... é uma batalha hercúlea e perigosa na qual perdem-se os bons modos e o respeito mútuo. Entretanto, mesmo ante tanto perigo, desejo informar à todos estou me aperfeiçoando no quesito "ouvir mais", mas, penso que jamais me calarei ante qualquer tipo de ameaça ou agressão. Acho muito natural que pensemos bem diferentes, mas, podemos conversar usando a diplomacia inerente à todos os seres humanos que, numa analise rasa, é raça toda irmã! Assim sendo, informo que tenho o maior respeito por suas ideias, mesmo que elas me sejam inconcebíveis!

Wanderley Lucena

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O "G" da Discórdia

Eu fico a me perguntar o que nos leva a condenar o que não conhecemos. A Maçonaria sequer é religião, mas, organização secreta – e qual o problema de ser secreta? – e sofre ataques oriundos, principalmente, de pastores evangélicos. Quero aqui deixar claro que não sou maçom e que a minha defesa não é para com a organização Maçonaria. Quero mesmo é discutir a insanidade que leva indivíduos que deveriam se ocupar de fazer o bem o evitar a segregação, haja vista, se dizerem os representantes do Cristo entre nós, a jogar pedras contra quem eles discordam ou sequer conhecem.

Um pastor de uma igreja da cidade do Gama, cidade satélite de Brasília, ocupou boa parte de seu dia a fazer longo texto, publicado em redes sócias logo em seguida e que tinha esse teor. Um desocupado, blogueiro, fotografou a tal igreja e, por causa de uma letra “G” grudada na logomarca, acusou-a de associação com a Maçonaria. O “G” para a maçonaria,p elo que sei, é mero símbolo que se percebe nas lojas maçônicas mundo à fora.  Seria uma besteira não fora o post do pastor. A acusação do blogueiro é boba, mas, o post do pastor não o é. Estava cheio justificativas e medos de que sua igreja pudesse ser confundida ou associada à maçonaria. Informava aos fiéis pagadores de pesados dízimos que a igreja era genuinamente cristã e que, jamais, estaria associada com outras crenças que não tivessem o Cristo como fundamento de sua fé. A Maçonaria não é crença, repito! Pelo pouco que sei, trata-se de um organização  secreta que visa princípios de liberdade, democracia, igualdade, fraternidade e aperfeiçoamento intelectual e a proteção mútua e privilegiada dos seus membros. Não seriam estes fundamentos tão cristãos quanto os de qualquer igreja cristã? A diferença é que eles não têm o dízimo por mandamento.

Devemos grande parte do que somos enquanto Estado e Democracia aos maçons. Os maçons estão presentes e por trás de todas as decisões mais importantes do Brasil e do mundo. Ao contrário de pastores e líderes evangélicos, não alardeiam suas ações com o intuito de fazer adeptos ou por causa de votos. O fazem por questões cívicas!

Confesso que me cansa todos os tipos de preconceitos – e, eu próprio, não estou livre deles, mas traço batalha hercúlea e diária contra eles. Preconceito é sinônimo de ignorância.  Portanto, não consigo compreender como alguém que fez curso superior de Teologia pode ser capaz de tão pouco alcance em sua visão intelectual-cristã. Preconceito é coisa para ignorantes e não para alguém que se sentou numa cadeira de uma academia e fez um curso superior, por mais, descrédito que o curso superior tenha.

A abordagem, nada cristã, estava carregada medos, iras infantis e bobas e, ainda, trazia uma ameaça: “as imagens de câmera da igreja captaram o blogueiro quando tirava as tais fotos do “G”. No texto se percebe, ainda, certo destempero e medo de que os fiéis pudessem abandonar a igreja e confundir a reputação do pastorao suspeitar ser ele Maçom. 

Eu vos informo e afirmo: mil vezes preferia eu ser um maçom a ser um pastor, mesmo que muito bem pago à custa dos dízimos depois de muita pregação e ameaça que leva os indivíduos ao fanatismo louco de quem pensa que Deus vai lhes mandar para o inferno por não pagarem o dízimo mesmo que em detrimento da alimentação e sustento de sua família. Quem precisa de dízimos é o pastor. Sem os dízimos ele perde o status, a troca de carro todo ano, o ganha-pão de sua família. Seria honesto não fora o discurso do ato pecaminoso ante o não pagamento do dízimo por parte do fiel.
Pior é perceber a empáfia de quem se sente superior. Deveria ser o oposto do que percebi naquela leitura cansativa. Jesus bem poderia ter sido um maçom, senão, poderia ter bebido e dançado com eles. Poderia ter participado como palestrante ilustre em qualquer loja maçônica em qualquer lugar do mundo. Acho que ele evitaria o mesmo caso fosse convidado para uma pregação na Igreja do Gama. Essa segregação de grupos humanos não combina em nada com os ensinamentos do Cristo. Ele dormiu uma noite na casa de Zaqueu, o cobrador de impostos. Tal figura, naquele tempo, era o mais indigno dos homens naquele contexto social. Teve por melhor amiga – ou amante, segundo algumas linhas de estudo e pesquisa cientifica – Maria Magdalena, a prostituta. Com ela andou para cima e para baixo e, orgulhosamente.

Portanto, tenho certeza que a defesa de tão proba igreja é a defesa do reino dos homens e não da verdadeira igreja de Cristo. Tenho certeza que, na tentativa zelosa de quem pretendeu a defesa da sua imaculada igreja, na verdade, a maculou e jogou na mesma cova das instituições humanas que só servem para disseminar preconceitos e segregação.

O respeito ao desconhecido é principio que nem precisa ser religioso, mas, da própria razão. Estejamos todos na paz do Grande Cosmos, com “G” de símbolo maçônico.

Wanderley Lucena



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Deus, um Ególatra!

Na minha idade, o mínimo que posso pedir a deus é: me deixe pensar por mim mesmo. Não quero me enquadrar dentro da multidão que pensa a mesma coisa do que fizeram de Ti.
Deus é um delírio! Já afirma, Richard Dawkins. E eu concordo. A repetição da ladainha enfadonha dos cristãos que elimina a razão e o bom senso. Concordar com as falácias bíblicas é eliminar a inteligência. É agredir-me!

Como que Deus salvou apenas um ladrão quando existiam os dois ao lado da cruz do Cristo? Eu de cá, logo percebo, o ladrão revoltado com toda uma vida de carências e ausências da família, do Estado e do próprio “amoroso” Deus. Devia ele está fora da sã consciência. Sim, porque, um indivíduo consciente nunca iria escolher o inferno em detrimento do céu e todo o ouro que dizem existir na cidade santa que levita pouco acima das alvas nuvens. Ademais, creio que o prazer desse Deus foi maior em mandar o ladrão para o inferno do que em salvar o outro que se comportou com a humildade necessária para agradar a esse deus ególatra. Ele quis apenas dizer á todos nós: ou vocês me escolhem ou mandarei vocês para o meu inferno!

O inferno, nos seus mínimos detalhes, foi criado por esse deusinho medroso, para aterrorizar as mentes que ousem pensar “fora da caixinha”. Esse deus se borra de medo de perder o tal trono de poder para o capeta.

Esse “deus maravilhoso” fez nascer Jesus depois de um cruzamento (ato sexual) entre Maria e o Espirito Santo. Ou seja, o espírito (nada santo), foi e se deitou e coabitou com Maria e nela deixou em seu útero, o esperma divino que fecundou o óvulo dela. Não se sabe ao certo se houve o consentimento de Maria, mas - já pensou se não houve? - se ele a possuiu sem que ela percebesse ou permitisse, fora hoje, chamaríamos esse ato de estupro.

Jesus nasceu de parto normal, por meio da vagina de Maria e envolto numa placenta que depois os cachorros comeram, provavelmente. José, homem bom e piedoso, escravo do amor que sentia pela angélica Maria, se viu corno e, envergonhado, quis esconder-se. Deus poderia ter escolhido qualquer outra maneira para por em prática seu plano divino para salvar a humanidade dele próprio – sim, porque Jesus veio nos salvar do inferno criado pelo próprio deus. Deus podia ter feito Jesus nascer de uma árvore, de um elefante, de um fruto, de uma baleia. Mas, preferiu ele o constrangimento à José ao possuir sua noiva, Maria, e, provavelmente, virgem. Porque o espirito, deus, ou seja quem for, considera impura a mulher já foi "tocada". Tanto que as viúvas não podiam casar-se.

Jesus, esperto que era, já aos doze anos, puto da vida com o destino à ele traçado, decidiu vagar pelas areias quentes do deserto, tamanha era a sua insatisfação com os planos divinos. Deus queria consertar a sua “cagada própria” e jogou sobre os ombros humanos de Jesus a missão hercúlea de morrer pela humanidade. E fez isso com a tranquilidade das mentes cauterizadas pela falta de ética e amor ao próximo. Deus precisava contar ainda com a crendice humana que a muitos cega ao ponto de acreditar que, o simples desconfiar dessa mentira, pode levar esse deus à ira e ao decreto da eternidade no inferno,  onde há choro e ranger de dentes e onde o fogo nunca se apaga.

Deus precisava de um instrumento que fosse tido como infalível e que servisse como verdade absoluta e incontestável. Mas, não foi ele próprio que jogou a Bíblia com setenta e sete livros, desde os céus nos pés de um incauto ser humano e lhe disse: "Eis a minha palavra. Ela é santa e incontestável, a verdade absoluta. Quem contra ela se manifestar, queimará eternamente no inferno".
A primeira bíblia, a tal Septuaginta, traduzida já dos originais livros judaicos, foi reformada por dois cabras machos: Jonh Calvino e Lutero. Eles foram contra a verdade absoluta reinante e jogaram onze livros no lixo. Temos hoje, duas verdades reinantes absolutas. Duas “palavras de Deus”, a católica e a protestante.

Quer dizer que a palavra de Deus, por ele inspirada, foi "reformada"?  Sério? Então, a verdade não era tão verdadeira? E, hoje? Se fossemos fazer uma nova reforma que levasse em consideração a razão completa, sem medo das ameaças de um deus de crença, o que o sobraria? Eu ficaria com os dois mandamentos de Jesus: Amar à Deus sobre todas as coisas e ao próximo como à si mesmo. E nesse caso, entenda-se Deus como a Natureza, o Cosmos, o grande Mistério e tudo o que há sem respostas ante o universo. Ficaria também com  “As bem Aventuranças”. E só!

E afinal... não foi Deus quem nos fez maravilhosamente humanos? Não foi o mesmo Deus que nos deu a capacidade de pensamento e crítica? Não foi ele que nos capacitou com a razão que nos levou à ciência e nos fez concluir por dedução de experimentos que levaram em consideração todas as fases da lógica e, portanto, que o homem deriva da própria natureza, por meio da evolução dos nossos ancestrais até o homo sapiens? Não foi a mesma capacidade maravilhosa de pensamento e crítica que nos levou a por em palavras o que já não mais acreditamos ser a “verdade”?.

Acho que a bíblia tem razão em uma coisa: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. E lhes digo e afirmo: a verdade não está nela própria. A verdade está para dentro de cada um, assim, como está para fora, para o infinito Cosmos.

Wanderley Lucena



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Meu Maranhão

"...por isso eu vou (na) casa dela ai, ai... falar do amor pra ela ai, ai... tá me esperando na janela ai, ai... não se vou me segurar...". Essa musica me emociona demais. Essa musica é muito linda, sabe? Ela lembra a minha terra, sabe? A beleza daqueles tempos idos e que não voltam mais. A beleza do nordeste, a beleza do meu Maranhão.

E que orgulho de ser brasileiro quando eu percebo que a gente é capaz de uma coisa tão grandiosa foi essa que a gente fez aqui em 2016. Olimpíadas e Paraolimpíadas muito bem realizadas. Parabéns À todos nós brasileiros! E bem sei que a conta, a fatura de tudo isso ainda nem chegou! Vamos trabalhar muito para pagarmos por esse festa!

Wanderley Lucena

domingo, 18 de setembro de 2016

Eu e minhas rugas todas

... e você acha que eu usarei, algum dia, botox na minha cara, rapaz? Eu tenho muito orgulho das rugas todas na minha cara. Elas me representam a minha própria vida. Eu me percebo por completo quando estou frente ao espelho. Ao apagá-las, bem sei, apagarei junto parte de maior de mim. Minhas rugas são atitude política contra a banalidade da vaidade. Ademais, nunca gostei do efeito “meio-defunto-que-ressuscitou” do pós-operado. E mais: sempre me parecem pessoas de baixa inteligência. E bem sei que meu comentário pode machucar alguém ou parecer preconceituoso. Mas, presta atenção! Fico minhas rugas todas! E com muito orgulho!

                                                                                                        Wanderley Lucena

Escrita Solidão Descrita

Eu quis escrever-te bonito. Eu quis escrever-te como um dia te quis.
Escrevo! E já não mais para ti. Mas, para mim mesmo. E gostei de escrever-me.
Eu mudei? Não sei. Você que mudou? Não sei.
Só sei que me vou. E você também deveria ir. Não vou atras de ninguém, Você também não deveria. Vou atras de mim mesmo.
Quisera eu dar-te um conselho: viaja! Vais para terras longínquas. Para terras áridas. Para terras desconhecidas e que só viste por fotos ou em documentários.
Que tua inquietude seja tão grande quanto a minha. A tua alma tão aventureira, igualmete. Que tu tenhas asas e que possas voar. Que a paisagem te seja insólita e que a solidão te bata como à mim. E que ela te faça feliz como à mim.
Voltes para casa depois de alguns anos e reencontres os amigos e familiares. Abraça-os e chora. Mata a saudade e, em pouco tempo perceberás que já tens que ir-te de novo. Novo plano já terás traçado pelo teu desejo e a tua viagem será para ainda mais longe. A solidão já estará a te chamar. Vai!
Eu quis escrever-te. Não consegui. Escrevo para mim mesmo.
E agora tu vens me dizer que gostas de ler-me e que, inclusive, gostas. Mas, logo agora que tenho que ir-me? Logo agora que escrevo feio? Logo agora que já não mais te escrevo?

Wanderley Lucena

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Deleite e Desgosto

Sentei-me num dos confortáveis sofás da Feira do Livro de Brasília e comecei a ler Quincas Borba, de Machado de Assis. Veio-me certa culpa e vergonha por não ter lido o livro que é obrigatório, ainda no primeiro grau de estudos. Eu nunca pude me dar ao luxo essencial da leitura, mesmo que dos grandes nomes, mesmo que o desejasse. Eu sempre fui desejoso da boa leitura e me encantava a cultura. Mas, o acesso era escasso. Primeiro na roça, depois... já na cidade, que de tão pequena, muitos sequer ouviram falar dela, minha vida sempre foi de muito trabalho. E a escola era uma obrigação à qual eu bem sabia, precisava dela para sair da penúria. Sempre tive medo das provas e dos professores, embora, tenha ficado de recuperação uma única vez, na sétima série, em matemática, matéria que sempre odiei e tive pavor. Até hoje pago caro por tal carência.

Mas, ali sentado naquele sofá cinza, senti-me confortável e comecei a deleitar-me com a leitura quando uma criança demoníaca começou a correr e gritar em notas que uma cantora lírica não alcançaria. Feira é feira – pensei. Que podia eu esperar? Os pais sequer eu soube quem era no meio de tanta gente. A criança endiabrada corria por todos os cantos e, por mais que tentasse, ela não desaparecia de meus olhos e seus gritos e entravam juízo á dentro como se navalha fossem. Fechei o livro e fiquei ali a observar a cena.

A feira estava sem grandes atrativos e o sol intenso que batia pelas imensas janelas do Centro de Convenções fazia do local um forno apesar do ar condicionado. Os corredores de stands eram todos iguais, bem como, os próprios stands. Não encontrei café que não o de garrafa e para comer, alguns salgados sem graça. Mas, tudo bem, era apenas uma feira – pensei eu mais uma vez.


É que por ser feira literária eu esperava as cores massala. Esperava homens e mulheres com cara de eruditos e ambientes aconchegantes que remetessem à alguma biblioteca. Mas, além estar em país tropical, nosso gosto moderno por aqui não é muito elaborado. Na cena chamou-me a atenção um stand já quando de saída. Alguns cordéis, uns cestos de papelão e uma frase escrita: Por favor, mexa! – O cesto estava cheio de livros de pouca atratividade para mim. Mas, ali ao lado, um imenso e luxuoso book sobre uma mesa donde se podia ler em letras imensas – Lula, 500 anos de História. Retirei-me da feira decepcionado, embora, com dois exemplares de um sebo. Acompanhar-me-ão por algum tempo, além de Machado de Assis, um José Saramago.

Mas, talvez o problema não esteja na feira e sim em mim mesmo. 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Dona Davina

Quem a ver pegando o ônibus numa alegria que beira à doidice não imagina o passado de lutas. Ela sobe os degraus na estação por volta do meio dia, três vezes por semana. Cerca de meia hora depois desce no clube onde faz a natação.  Motoristas e cobradores já a conhecem e lhe são gentis ante toda a graça e risadaria que ela provoca com suas tiradas de quem está feliz.

A natação começa lá pelas 15h. Ela chega duas horas antes só pra ficar a jogar conversa fora e matar todo mundo de rir. Começa já ao descer do ônibus com qualquer um que esteja na parada e queira ajudar a velha senhora a descer os degraus. Alguns passos e já está na recepção do clube a cumprimentar à todos que a conhecem ou não. Por ali fica a fazer graça até a hora do compromisso de nadar. Se joga na piscina com seu maiô preto e, igual uma pata de asa quebrada, atende aos comandos da instrutora que, vez por outra, lhe grita o nome e ouve-se o riso largo a ecoar na piscina do ginásio coberto.


Ela não quer saber de tristezas. Não se entrega à idade e se vai em passos firmes a viver a vida que pensou jamais teria. Ela nunca escondeu a origem humilde de mulher da roça, lavadeira e zeladora de escola. Veio para a capital depois de aposentada e vive com uma das filhas que lhe proporciona nivel de vida de classe média alta.

Até um sorriso novo pôs na cara. Naqueles tempos idos quando arrancar todos os dentes de uma só vez era a garantia de não sentir dores futuras ela, ainda adolescente, pôs uma "chapa" no lugar dos dentes. Mas, os dentes inferiores ela perdeu com o mesmo argumento e jamais pôs a dentadura. De tanto mastigar encima das gengivas percebia-se o osso do maxilar exposto. Pois, além de uma peça fixa pôs implantes e quando já não mais sabia o que era mastigar voltou a sentir o sumo da cenoura mastigada, enfim.

As muitas rugas que lhe marcam o rosto contam as muitas estórias da mulher nordestina que suou muito para educar os filhos e mostrar-lhes o valor da honestidade.

Wanderley Lucena

terça-feira, 28 de junho de 2016

Vida de Paxá

Eu que nunca gostei de ser servido, confesso: tenho desejos de acordar todos os dias e encontrar a mesa posta por um funcionário que me fosse uma espécie de mordomo e uma empregada ou duas a auxiliá-lo. Queria que ele, o funcionário, me fosse invisível. A casa estaria sempre impecável e a cama eu não teria de arrumar. Ele saberia que gosto de café fresco a cada duas horas e que a falta desse hábito me deixa inquieto e, quanto mais o tempo passa, mais nervoso vou ficando. Ele me admiraria e me serviria com o respeito dos que não possuem a inveja e que quer o mal de quem servem.

Há uma culpa instalada lá no fundo e que me grita a informar que a servilidade é uma escravidão branca ou disfarçada. O escravo trabalhava servilmente pelo prato de ração e para estar vivo. A modernidade impõe salário a quem serve. E sei que todos somos servos-escravos em algum momento ou o tempo todo. Talvez seja a minha moral cristã que me impede. Talvez sejam minhas condições financeiras que não me permitem mesmo. Não sei. Só sei que não gosto nem um pouco de ser servido.

Ter empregados impõe a presença pesada e, por vezes, nefasta de alguém em sua casa o tempo todo a perceber suas intimidades. Eu, daqui de minha solidão, penso que prefiro assim como está. Um ser, mesmo que um desses mordomos que servem sem abrir a boca e mãos pra trás o tempo todo, vêem, pensam, sentem muito além dos cheiros e odores que, nem sempre são agradáveis. Mas, pior, podem sentir ódio e inveja. 

Vivo e faço o que quero. Ando como quero no meu espaço – até pelado. E adoro isso tudo! Fico comigo mesmo e a me servir. Só quando não mais o possa me imporei um ou dois enfermeiros. Minha intimidade e privacidade não a quero dividir nem com quem me esteja invisível e com a mesa posta.

A vida que desejei seria a de um verdadeiro paxá, um rei rei incorrigível e mimado. Fico com a independência que meus músculos me dão. Gosto mesmo de por a mão na massa, de subir escadas e de me exercitar. A vontade de ficar na cama eu, por vezes, me largo em minha preguiça e me levanto só quando o corpo enjoou da cama. Fazer meu café; descer com meu cachorro pra que se alivie de suas necessidades fisiológicas; fazer a cama... é rotina de todos os dias. Depois vem um bom banho quente nesses dias gelados de Brasília. Depois acessar a internet e ver as notícias do dia. Amo tudo isso!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tio Esaú


- E tio Esaú, mãe? A Senhora tem notícias dele?

- Ô Maninho! Parece que as coisas lá não estão boas não. É tanto sofrimento há tanto tempo. Ele não anda mais. Rasteja pelo chão quando quer ir de um canto ao outro. E agora, fiquei sabendo, que já nem rastejando chega a lugar nenhum.

- Pois é, minha mãe. Eu estava falando com um primo de lá. Disse que todos já estão torcendo para que ele se vá de vez. Tá sofrendo muito, dando muito trabalho. Tia Eulina cuida dele dia e noite, parece que tá raquítica de tanto lidar com ele.

Era pouco mais de meio dia quando vi as lágrimas rolaram pela pele enrugada do rosto de minha mãe. O seu irmão mais velho, centenário, já com uma perna amputada há tempos por causa de uma trombose, estava prestes a partir dessa para uma melhor.

Naquele exato momento eu tive a sensação de que ele morria. Cheguei em casa por volta das 15h e vi que meu primo me chamava ao telefone.

- Diga à titia que Tio Esaú acabou de falecer!

Eu chorei! Liguei antes para minha irmã que, zelosa e cuidadora, se dirigiu à ela e lhe deu a notícia.

- Eu já esperava. Foi melhor assim! – respondeu ela com as lágrimas fartas a lhe caírem mais uma vez.

Liguei mais tarde para saber como ela estava e minha irmã me pediu, falando baixinho, que não mais tocasse no assunto e que ela estava bem. Ela estava confortada e conformada.

O que nos faz querer aproveitar cada minuto da vida é a certeza de que vamos morrer. Estou certo de que a morte, por mais que não pareça aceitável, nada mais é que mais um momento da própria vida. E eu acredito mesmo que, não fora a morte, a vida seria verdadeiro inferno.

Wanderley Lucena



quarta-feira, 22 de junho de 2016

Milagres



Meu Deus! Quem me ler desde tão longe? Me pergunto. A tecnologia virtual permite milagres todos os dias. Sou curioso por saber quem me ler e o que pensa a respeito do que escrevo. Vejo o registro em minha página de blog e percebo registros internacionais, inclusive. É mesmo incrível e maravilhoso. No facebook ou em outra rede social qualquer, quase todos os dias, acho e sou achado por gente com quem convivei há anos ou que conheci ainda agora.


É um milagre!

Êxtase

...e a vida segue sem um roteiro rígido. O que tenho são desejos e planos que mudam a todo instante. Meus desejos permanecem intensos. Desejos de viagens; de morar numa vila medieval na Europa; de tomar expresso e ler jornal sem pressa; de conhecer pessoas inteligentes e felizes; de viver o modesto com o conforto de poder pagar o que compro sem grandes aperreios. Mas, a vida impõe o seu ritmo e retarda algumas datas nas quais eu deveria ter estado no embarque internacional rumando para o velho continente. Entretanto, mesmo que com certo retardo, sempre realizo meus desejos. E sei que os realizo sempre porque o universo sempre conspirará em favor do que desejamos intensamente realizar. É que o tempo do universo não obedece aos meus desejos. Só isso! Então, “tudo é uma questão de mante a mente quieta, a espinha ereta e um coração tranquilo”. Até agora o Universo me tem sido por demais generoso. Até agora, mesmo que com limitações, fiz tudo o que desejei e planejei. 

Meu nome é Wanderley Lucena, tenho 51 anos e, sinto-me um adolescente que pula o muro pra encontrar com a amada que namora escondido. Coração batendo acelerado ante o proibido e a ânsia de encontrar o objeto do desejo. Sinto-me o rebelde que sempre me imaginei. Gosto do que me fiz ou do a vida me fez! Sou um deslumbrado pela vida e não perco meu tempo com desgostos. Quando a crise chega a única coisa que quero é que ela termine e que volte ao meu êxtase de felicidade. "Não importa como você começa alguma coisa, mas sim como termina". 

Wanderley Lucena

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Coisas de Mãe

- Mãe, tem almoço ai?
- Claro! Tem almoço sim. Porque?
- Eu vou almoçar ai então, tá certo?
- Ta certo. Só que eu vou para a natação. Você tem as chaves. Eu vou deixar tudo pronto.
- Então tá!
Cheguei em casa e tinha arroz na panela e dois ovos sobre a pia. Morri de rir.

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- Mãe, estou indo ai. Estou muito gripado. Você tem alho, limão e mel ai?
- Claro! Aqui sempre sempre tem alho limão e mel.
- Que bom! Vou passar na farmácia e comprar resfenol pra tomar  junto com um chá que vou fazer ai.
- Não precisa comprar nada! Resfenol tem aqui. Nunca falta resfenol nessa casa. Aqui tem tudo.
- Ótimo! Chego daqui à pouco.
- Estou saindo pra natação. Você tem as chaves. Deixo tudo aqui pra você fazer o chá e, inclusive, o resfenol.
Cheguei em casa e sobre a pia estavam o alho, o limão, o mel e uma caixa de vitamina "C" efervescente. Fui até a farmácia e comprei o resfenol.
Só mesmo a minha mãe!

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- Mãe, estou chegando daqui à pouco por ai. A senhora vai pra natação?
- Não, estou em casa e te espero.
- Tem almoço ai?
- Claro!
Cheguei em casa e quando abri a porta pensei ter errado de apartamento. Três senhoras, todas de cabeça branca igual algodão, mais a filha de uma delas e seu respectivo marido. Eram três irmãs -  Delta, Belinha e outra que não lembro o nome - todas quase da mesma idade de minha mãe e primas dela. As primas, velhas amigas de outrora, faziam visita para matar as saudades.
Botei a cara pra dentro e ficou o silêncio. Senti-me estrela de cinema impacto da chegada. Elas me olhavam admiradas.  A sala minuscula parecia uma cela de cadeia entupida de detentos. 
- Davina! Esse é teu filho? Meu Deus! Que homão! - Exclamou uma mais afoita.
Foi uma festa! Faziam mais barulho que araras chumbadas. O almoço constava de um “rubacão”, arroz cozinhado junto com o feijão bem soltinho e, de acompanhamento um frango assado que compraram pelas redondezas e, mais nada. Minha mãe nunca gostou de comer saladas.

Eu fui embora depois de algumas horas de conversa ante a sala apertada e a pensar: Minha mãe! Só você mesmo! Custava ter avisado que a casa tava cheia de gente? Se tivesse avisado não seria minha mãe.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

As Orelhas de Clarice

A fazer orelhas na Clarice, a Lispector. Ocorre que o único marcador de livros, aquela papeleta à qual marcamos a página para voltar à leitura posteriormente e que era facilmente encontrada em qualquer livraria e que, inclusive, era brinde distribuído até à quem nada comprasse e que, agora, já não mais se ver, virou produto escasso mesmo à quem queira comprar. Quero crer que a crise leva à esse extremo.  E quem sofre as consequências, ao menos nesse momento, é a Clarice. Sou obrigado a dobrar os cantos superiores das páginas, ou "fazer orelhas". É livro de tamanho robusto e de leitura despretensiosa e sem pressa para acabar. Levo-o debaixo do braço para tudo que é lugar, para cima e para baixo, no metrô, no ônibus, à pé, de bicicleta. Faça chuva ou faça sol. E confesso que sinto certo receio de esquecê-la numa mesa de um café qualquer, na cesta da bicicleta. E já a esqueci algumas vezes, porém, volto correndo, desesperado para achá-la onde a esqueci. Até agora ela sempre ficou ali, me esperando o retorno. Mas, por ser ela uma dama, sinto-me culpado com meu desleixo. Peço desculpas e prometo: farei um marcador, mesmo que por minhas próprias mãos só para não lhe fazer mais orelhas, Clarice! Mas, mesmo sem fazer as tais dobras a ação do tempo e o manuseio, por mais que fosse cuidadoso, é implacável. O que era bonito, viçoso e vistoso, começa a ficar opaco e amarronzado. Mas, já está guardado numa gaveta especial de minha memória todas as nossas viagens. 

E a Clarice vai ficando velha, assim como eu. Mas, sempre que lhe folheio as páginas sinto certo “frisson”. É que ouso me achar parecido com ela. Sinto minha pele perder o viço e enrugar-se como papel molhado depois que seca. Mas, percebo que a expressão fica mais fácil e que quem ler páginas velha, amarrotadas e enrugadas, geralmente é quem já percebeu que "livro não se julga pela capa". E o livro se sente renovado como um cachorro de rua todo acabrunhado e que depois de adotado, alimentado e limpo mostra toda a sua alegria e pujança. Eu me conheço já um pouco mais e ao ler a Lispector eu também já a conheço. Tornamo-nos íntimos.


Wanderley Lucena

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Quinze Minutos

Busca frenética dentro da pequena bolsa tiracolo. A chave está lá no fundo. Apenas o tato para encontrar a chave que está junto com óculos, carteiras, fio dental, outra chave, agenda, etc... Encontra a chave, finalmente.  Apertado pra ir ao banheiro. Enfia na fechadura. Abre porta. Fecha porta. O shitsu a abanar o rabo e a esperar o carinho. Carinho feito. Caminha dois metros até a cama. Senta na cama. Desata sapatos. Tira meias. Tira sapatos. Tira roupa toda. Vai em direção ao banheiro. Ufa! Que alívio. Pelado como está, vai para a cozinha. Chaleira a coletar água da torneira. Acende a boca do fogão. Põe chaleira no fogo. Abre torneira. Põe sabão na esponja. Lava toda a louça que nem era muita mas que estava ali desde o almoço. Abre armário. Papel coador de café e suporte para sustentá-lo são postos sobre a pia. Fecha armário. Abre geladeira e apanha o depósito de café. Fecha a geladeira. Abre o depósito com o café. Três colheres são postas no coador. Deixa tudo preparado. A água que não ferve. Vai para a sala com pano na mão e tira a poeira aparente da TV e do móvel que a sustenta. Faz a mesma coisa com o computador e com a mesa sob ele. Volta para a frente do fogão. Coador posto no suporte sobre a garrafa térmica. A água fervente é derramada sobre o café e volta para o fogo para manter a temperatura enquanto o coador escorre a primeira leva. Abre armário. Pega os pães. fecha armário. Põe sobre o balcão. Abre geladeira. Pega a manteiga que também vai para o balcão. Fecha geladeira. Chaleira novamente é derramada sobre o coador. Café pronto. Tampa a garrafa. Pega o copo. Pega o adoçante. Três gotas apenas no copo. Copo vai enchendo de café até pouco acima da metade. Liga a TV e assiste filme brasileiro na Seção da Tarde. Vai para o balcão. Pega o pão e corta com a faca de serra. Uma generosa quantidade de manteiga nas fatias do pão. Saboreia o café fresco. Saboreia o pão. Saboreia a manteiga. Come outro pão. Toma bastante café. Vai para o computador e decide escrever... escrever... escrever isto. Tudo em quinze minutos.


Wanderley Lucena

terça-feira, 17 de maio de 2016

O Monstro

E eu aqui a refletir que minhas preocupações na vida, ou a maior parte delas, sempre foram relacionadas a contas a pagar. Mas, sempre me alimentei com a regularidade de, ao menos, três refeições ao dia. O café da manhã era tomado na certeza de que o almoço estaria na mesa e, em seguida, logo mais à noite, um jantar ou ceia que podia ser só um pão com manteiga e café. Mas, algum alimento estaria à mesa. E essa certeza trazia conforto e tempo para poder preocupar-me com outras coisas, inclusive, com as contas às quais, se fiz, as fiz porque as podia.

A fome  é monstro que não morre ante a saciedade da barriga cheia. O monstro dorme enquanto a digestão é feita. Mas, ele sempre virá com boca enorme e dentes afiados logo depois dela. E a certeza de que o monstro virá de maneira feroz e que não outra arma que usar senão alimentá-lo, é apavorante! É mesmo triste e terrível a incerteza da saciedade ante a fome que virá. O monstro que nos matará, com certeza, se não lhe fizermos a oferenda do pão todas as vezes que ele nos ameaçar com sua bocarra.

E concluo com uma triste questão que me é como um enorme chute na boca do meu estômago: Quantos milhares de pessoas no brasil... quantos milhões de pessoas no planeta... nesse exato momento, estão sem saber se comerão, e o que comerão, na próxima refeição e a que custo?  E pior: quantos estão nesse momento exato, buscando e não encontrando, apenas um pão que lhes amenize a dor de um estômago vazio? Deus tenha misericórdia de cada um de nós e que nunca nos deixe faltar comida na mesa!


Wanderley Lucena

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Amor Condicional

Hoje me senti exalando algum tipo de sentimento, talvez amor, no meio da multidão. Parece que todos podiam perceber o meu sentimento como se sentissem um bom perfume ao qual se precisa cheirar pelo máximo de tempo possível. E percebi pessoas me olhando fixamente como se fora eu algum tipo de pessoa importante. Parece que havia algum magnetismo em mim ou neles. Ao mesmo tempo que me olhavam eu também os olhava. 

Eu me arrumei como sempre e não estava com nenhuma melancia na cabeça. Eu vestia uma bermuda e uma polo acompanhados de um tênis qualquer. Tinha também os óculos espelhados que trazem algum charme, não vou negar. Mas, senti que o que fazia as pessoas  me olharem de alguma maneira que chegou a convencer de certo incômodo. Mas pensei: hoje amo a todos indistintamente e na mesma medida que eles também. Ledo engano!

Já no metrô pedi licença à uma moça feia para sentar ao seu lado. Ela olhou-me fixamente com olhar de doida que me incomodou. Sentei-me ao seu lado e percebi seu braço roçando o meu. Senti como se um mandacaru estivesse a me fazer algum carinho e a me seduzir. Recolhi meu braço de supetão e me diminui o suficiente para que se formasse um muro entre eu e ela. Ela se mexia e respirava alto. Eu grudei meu olhar num cartaz do outro lado do vagão e que tinha alguma coisa escrita mas que não a li. Levantei-me, aliviado, para descer na próxima estação. Susto ao perceber que ela se levantou junto. Pensei: joguei pedra na cruz? Fui para uma porta diferente da que ela sairia e desci sem olhar para os lados. Não a vi mais.

Amor é sentimento que, por causa de nossa humanidade, não se distribui a quem não o desejamos. É uma limitação minha e de muitos. Quem perde tal limitação ganha a santidade. E como eu queria ter essa predisposição para a santidade! Mas, não a tenho. Acho também que no reator da atração termina-se por atrair todos os tipos, inclusive, os inconvenientes. Voltei para casa meio frustrado de saber que meu amor é condicional.

Wanderley Lucena

Escadas Rolantes

A larga e alta escada de granito estava ladeada por duas outras, só que rolantes. As rolantes, tanto a que descia quanto a que subia, estavam lotadas de gente de todas as idades. Solitário subia pela larga a escada de granito aquele senhorzinho fidalgo, magro e ligeiro. Chegou ao ápice antes daqueles que ficaram parados na rolante a subir confortavelmente enquanto liam seus celulares, fugidos à tudo ao derredor.

Nas escadas rolantes os semblantes eram preguiçosos e alguns indivíduos “cheinhos” ou gordos mórbidos. Havia qualquer coisa de mal humor em quase todos. Havia, ainda, qualquer desalinho de quem saiu de casa sem se dar ao trabalho de uma toalete bem elaborada e digna dos mais preciosistas. As roupas eram desalinhadas e até sujas. Ficavam ali paradas na escada que subia automaticamente e, algumas delas, de tão distraídas, tropeçavam ao fim dela.

O Senhorzinho subiu, rapidamente as dezenas de degraus e chegou ao topo antes de qualquer outro que estavam nas rolantes. Aquele sexagenário estava com toda a vitalidade da vida estampada em sua cara alegre e altiva. Os músculos lhe respondiam ao anseio da vida e dos que não se rendem às facilidades e confortos que em nada contribuem para a boa saúde, mas, servem para engordar os indivíduos e a trazer tantas doenças derivadas do ostracismo. Ele subiu mais um vão de escadas e desapareceu em meio à paisagem. Se foi e me deixou a cena bem vivida.

Eu que já era adepto de subir escadas por saber o bem que faz, desde essa cena, só piso numa escada rolante se com muita pressa e, mesmo assim, a escada rola enquanto eu a subo degrau por degrau e com as minhas próprias pernas. 

Na vida quem muito anda chega ao longe, diz o ditado. E eu que tanto quero fazer o "caminho" mesmo que o de Santiado de Compostela, já estou a treinar-me. E não se esqueça que, como diz a frase postada num dado momento desse camminho: "Camiñante, el camino de hace al andar".


Wanderley Lucena

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Imagem e Reflexo

Faço-me de rogado e rejeito elogios que, acredito, sejam verdadeiros e oriundos de pessoas que me querem bem. Ouço e ruborizo. É inevitável o exercício da modéstia. Mas, ali no fundo de mim, está - justo ela - a falsa modéstia. E pareço querer convencer-me que me tornei quem eu sempre quis ser: uma pessoa interessante.

Ao longo de minha vida tive os que me bajulavam por está eu em posição de oferecer-lhes algo em troca, mesmo que fora o simples fato de gostar-lhes ao ponto de tratar-lhes como íntimos ou de não exigir-lhes com a mesma veemência que aos demais os deveres que lhes eram inerentes. Não que eu tenha sido poderoso ou rico. Mas, exerci algumas chefias e posições de destaque e tive subalternos, chefiados e empregados. A bajulação equivocada era evidente. Equivocada por saber eu ser apenas um engodo.

Hoje percebo as manifestações de apreço e carinho e ante ao fato de já não ocupar qualquer cadeira de destaque ou poder, imagino que são tais manifestações pura gratuidade. E fico a me perguntar se sou o que me informam. Faz bem ao ego e aos dentes. O bom é que os elogios  vêm de quem considerei e considero figura inteligentes, por vezes, até importantes socialmente, e que seriam incapazes de bajulações interesseiras ou mentirosas. Pois bem! Eu sempre lhes aviso: não alimentem o monstro! 

Lembro dos tempos idos quando tanto quis ser amigo ou próximo de algumas pessoas e a minha simples aproximação à roda era rejeitada e rechaçada. Agora cuido-me de manter o número de amigos na mesma quantidade, haja vista, não dar conta de atender a todos que me querem. Como diria alguém: tá podendo, heim! Eu vejo pessoas a se movimentar em minha direção e a querer minha atenção e eu, embora, lhes seja gentil, sei que não será alguém que fará parte do meu rol de amigos. E não é por ser pedante, mas, pelo simples fato de que amizade requer tempo e atenção. Tempo eu até tenho, mas, em alguns casos, falta-me a atenção. 

Em casa, me olho no espelho e não vejo o vêem. O espelho mente? Eu e minha auto-estima baixa não me permitem ver e reconhecer na imagem refletida do espelho a minha real estatura? Eu eu enganado a meu respeito? Estariam eles enganados a meu respeito? Tenho medo do dia em ache que me reconheça verdadeiramente ante o espelho. Que tal dia nunca chegue. Acho idiota a soberba e intragável que "se acha" demais. Não quero me achar. Acho mesmo que não o que procurar ou a ser achado. Eu sou o que não vejo. Vejo o que não sou. Sabe-se lá!

E sei que escrever sobre mim mesmo pode ser antagônico ao argumento que utilizo, mas, se o faço é por pura inquietude. Está latente em mim a felicidade de ser querido e a rejeição ao fato de ser querido.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Desfrute e Deleite

Vivo a me assustar com trupicos e tropeções. Qualquer valeta me faz pisar em falso e me desequilibro. Por enquanto chega a ser divertido. Rio com a insegurança de minhas pernas ante os degraus da escada. É mesmo inevitável a distração ante a cena do quotidiano de cidade agitada na qual vivo. Ademais, tem o celular e o maldito watssap que me faz ficar a teclar ou a ler mensagens, mesmo que me deslocando à pé. E quando o sol está aberto, à pino, fica ainda mais complicado. A tela, praticamente, desaparece e fico a insistir em ver o que me chegou. Sem que perceba a calçada se acaba e há um degrau. Um poste me aparece de repente e bem no meio da cara. Um susto e me recomponho. 

E sei que é porque se me chega a velhice. Não é apenas descuido ou desatenção. Não é acidente puro e simples. Até porque sinto o peso quando vou tomar banho. Há um medo de cair e de me machucar. Antigamente não existia isso.

Se por enquanto é divertido perceber-me às portas da velhice, sei que chegará o dia e a hora em que a amaldiçoarei. Sei que me quebrarei um osso a qualquer hora. Se for apenas um dedo, vá lá. Mas e se for a cara? Sim, porque já quase acertei em cheio alguns postes fincados no meio das calçadas. Eu sei da minha imprudência. Mas, quem resiste à tentação? Como deixar para ler em casa a mensagem no telefone quando você já a espera com alguma ânsia? 

Pois bem, os dias sobre a terra, segundo consta, são para desfrute e deleite. Não vou antecipar a dor. Que valha apenas o dia de hoje. O amanhã ainda virá e eu espero que ele me seja tão bom quanto este dia que estar a ser muito bem vivido. As dores de hoje eu já as esqueci. Os dissabores não os levarei em conta. Que venha a alegria de viver e que a dor seja apenas a certeza de que se estar vivo.

Wanderley Lucena



sábado, 16 de abril de 2016

O Parque

Já estava a chegar na academia depois de curtir preguiça até quase meio dia quando decidi mudar o programa. O parque imenso e cheio de gente estava logo ali à minha frente. Arranquei a camisa com certo puder, mas, seguro de que devia aproveitar o momento e me expor. O sol brilha para todos, é o clichê, não é? Muita gente expirando saúde e alegria. Pic nic's, aniversários, fotógrafos profissionais com noivas ou debutantes em poses de gosto suspeito, um palhaço a animar a festa e a atentar que passava pela pista de cooper, cães de estimação, crianças a correr, marombeiros, etc...


Depois de uma hora eu cheguei em casa e fui banhar-me quando o telefone tocou. Um grande a migo a me convidar para o almoço. Ótimo! Pensei eu. Socorro é cozinheira de mão cheia e a companhia do casal é verdadeiro deleite. Mas, vesti-me e fui à pé, afinal, a casa deles fica a cerca 800 metros da minha. Fui, de novo, pelo mesmo parque. A respiração meio ofegante e as pernas a informarem que já não sou mais nenhum jovem. Eu que aos 20 anos ouvia o pessoal da minha idade a reclamar das pernas e pensava como seria quando eu tivesse a idade deles. E agora, cá estava eu com a idade imaginada, morto de cansado e sentir as pernas que já não me sustentam tão bem como antigamente. 

Mas, uma cena inusitada quase me tira do chão ao ver num semáforo, correndo por entre os carros parados e a distribuir sacos fechados de balas e doces que eram deixados por sobre o retrovisor dos carros, ninguém mais ninguém menos que um Homem Aranha. Sim, havia um Homem Aranha a vender balas no semáforo. E a fantasia era de primeira qualidade. Cobria-lhe tudo, inclusive os olhos. O Homem Aranha estava ali, em carne e osso. Corri a fotografar a cena e logo um pai pediu para tirar fotos com ele e seu filhinho. Fiquei á pensar: é a crise! Depois: que povo danado esse nosso povo brasileiro.

Eufórico e já suado cheguei à imponente portaria do condomínio de meu amigo e ali estava uma senhorinha que, com certeza, era a faxineira e a substituir o porteiro que deveria estar no almoço. Eu nunca gravei o numero do apartamento do meu porque é só chegar e falar para os porteiros que é para o Augusto e eles já informam o número do apartamento. Mas, a senhorinha humilde sequer sabia quem era Augusto. Eu sabia que podia ser no terceiro ou segundo andar. Pedi licença para ir até o apartamento sem ser anunciado já que eu, a mentir, sabia qual o apartamento. Subi pelo elevador e apertei o segundo andar. A porta era exatamente igual e apertei a campainha e ouvi uma voz feminina gritar lá de dentro:

- Pode entrar. A porta está aberta!

Eu abri a porta e vi alguma coisa diferente nos móveis a partir do corredor. Mas, havia um grande sofá marrom que era igual ao da casa de meus amigos e enchi o peito de alto-confiança e emburaquei casa à dentro. Uma senhora de cabelo vermelho, num corte channel, veio ao meu encontro e eu, idiota que só, pensei:

- Deve ser alguma parenta da dona da casa, minha amiga, a dona da  casa que deve estar em outro aposento.

Eu perguntei pela Socorro, minha amiga e fui informado pela senhora que não conhecia tal pessoa. Fiquei verde e tremi. Eu pedi mil desculpas pela invasão certo da gafe cometida. Mas, agora sabia, o apartamento de meus amigos era no piso à cima, o terceiro andar.

Mas, para concluir tenho que voltar ao assunto anterior, ou seja, a idade e o corpo. O corpo não é mais o mesmo; os músculos podem não mais corresponder como ao 20, mas, a cabeça vai muito bem, obrigado. O raciocínio está atento como jamais esteve. É privilégio chegar aqui. Mas, aos 70? Como estarei? Que venham os anos! E que venham muitas outras situações. 

Wanderley lucena

sábado, 9 de abril de 2016

Sábado

É sábado em minha casa e em minh’alma. É folga para quem trabalha, mas é, também, véspera de domingo. É o último dia da semana e, geralmente, é de pura preguiça, de tomar cerveja com amigos, de caminhada no parque, de churrasco, de piscina. Sábado tem noite que pode ser curtida sem hora de voltar pra casa ante ao fato de que se pode dormir no domingo até a hora que se bem quiser já que é dia de folga.

A noite de sábado é de bebedeira, de sexo, de boate, de caça, de aventura. O sábado é intenso e para fora de si, enquanto que o domingo é dia de missa, de culto, de interiorizar-se. E eu até gosto de umas viagens para dentro de mim, mas, com todo o respeito aos religiosos domingueiros, prefiro fazer isso debaixo de uma árvore ou às margens de caudaloso riacho, ou a andar pelo parque, ou a ouvir uma música enquanto dirijo o meu carro.

Sábado é o dia de quem quiser, é o seu dia, é meu dia e pode até ser o dia do capeta. O sábado é meu, todinho meu, só meu. Eu quero morrer num sábado. Quero morrer depois de um êxtase, de um transe. Quero morrer nas vésperas de um domingo. Quero morrer depois de voltar de uma festa ou durante ela. Prefiro a primeira opção só pra não estragar a festa dos demais. Quero que a festa continue sem mim. Quero morrer depois de jogar-me em minha cama numa madrugada de estrelas e farto de alegria e que seja numa noite de sábado pra domingo. Quem quiser ir ao meu velório que o faça depois da festa e que vá com as olheiras da noite bem vivida e com o hálito do álcool e da esbórnia.

E olha que hoje eu já nem preciso mais tanto assim do sábado, pois, sou um desocupado e tenho o ócio por produção graças à aposentadoria merecida. Mas, no sábado todos vivem, mesmo que inconscientemente, a mesma intenção de propriedade desse dia e só querem se divertir.

Pode até ser o dia de fazer a faxina em casa, mas, ela será feita ao som do U2 e com o volume máximo a estourar as caixas de som e anunciar ao resto da vizinhança que sábado é o meu dia e que é de alegria intensa. A faxina será acompanhada de uma cerveja e a vassoura será a parceira numa dança pagã que antecede a muitos outros atos. Pode ser a visita de um amigo ou da namorada, mas, há a expectativa da noite que começará cedo e terminará com os raios do sol de domingo. Será festa e dança. Noites de encontros enamorados de apaixonados ou de encontros rápidos e furtivos de quem jamais se verá novamente. Encontros elaborados e programados ou intuitivos e repentinos em becos escuros e derivados da atração dos corpos. E a faxina será feliz ante a perspectiva de uma noite intensa de sábado.

Domingo é de descanso do que se fez no sábado. O domingo é o “dia do senhor”. Dia de ficar na desagradável expectativa da segunda-feira. E a segunda-feira é o pior dia da semana. De tão desagradável ele começa já no domingo. Se eu pudesse pararia o tempo ou pularia todas as segundas-feiras e iria direto para a terça-feira. 

Sábado é o dia melhor de todos. E o bom é que ele acontece a cada sete dias. Não é como o aniversário, o réveillon, o feriado prolongado... esses ocorrem uma vez no mês ou ano. Sábado tem 30 horas já que só acaba com o sol de domingo. O domingo fica para o senhor e todas as suas ladainhas, rituais e obrigações enfadonhas. Se o domingo é do senhor, o sábado é todo meu! O sábado é nosso! Vamos para a festa!

Wanderley Lucena

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Reencontro

Graças à tecnologia virtual das redes sociais, um amigo ao qual não via fazia mais de 30 anos, manteve contato. Ocorre que não era qualquer amigo, mas, um amigo por demais especial. Quando nos conhecemos no ano de 1984 quando éramos alunos em um curso de regime internato e durou sete meses. 

Foi com surpresa que recebi seu convite de "adicionar" em uma dessas redes sociais. Era o meu velho e bom amigo de outrora que mantinha aquele contato depois de tantos anos. E agora, morando na mesma cidade, marcamos um papo, um "matar a saudade" em um bar charmoso aqui pertinho.

Cheguei antes do horário e fiquei a esperar. Será ele teria dificuldades em me reconhecer depois de tantos anos? Ele chegou e abriu-se em afetuoso abraço. Não fora o cabelo platinado pelo tempo eu diria que ele nada mudara. Não haviam rugas em seu rosto moreno e a expressão era a mesma. Nem a barriga típica das pessoas de nossa idade. O mesmo sorriso, os mesmo gestos. Mas, como não poderia deixar de ser, havia a sobriedade que é a grande vantagem das pessoas amadurecidas. A fala era mansa e o tom ameno das pessoas educadas. E meu amigo sempre foi pessoa admirável nesse quesito. O papo durou cerca de três horas e elas se passaram como se três minutos. 

Ele me contou as suas estórias e eu as minhas. As lembranças que ele tinha de mim, de nós e dele, muitas delas se me haviam me apagado na memória. Mas, consegui reviver e até me lembrar de algumas delas. As lembranças todas eram como o cheiro da murta depois que a chuva cai na terra árida. Já sentiu o cheiro da murta? É frutinha verde, cítrica e sabor indescritível que dar lá pra o sertão, na beira dos caminhos da roça no Maranhão. O cheiro é tão bom que bem podia ser acondicionado em frasco de perfume francês. 

Nosso reencontro foi um reviver, um abrir de baú velho cheio de recordações. Encontrar um amigo ao qual você queria fora também teu irmão é como encontro cósmico ao qual não se pode mensurar. E tenho meu irmão de sangue a quem tanto gosto e quero bem. Mas, o meu amigo ali na minha frente era mais que amigo, era companheiro de estação planetária, estação chamada "terra". Um encontro de almas irmãs. Ficou combinado, de novo, a qualquer momento, nos encontraremos e continuar emos a conversa tão agradável e que não foi suficiente. "Gracias a la vida que me ha dado tanto!".

Wanderley Lucena

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Odores de humanidade

Depois de sentir um mal odor típico da flatulência e dentro do metrô eu fiquei a me perguntar do porquê sermos tão fedidos. O corpo humano precisava de tantos orifícios? Eu sei é aceito a sabedoria da natureza e não reclamar por reclamar, simplesmente. Faço a minha reflexão com certa análise espiritual-filosófica. E seu que é pura ousadia de minha parte, pois, filósofo não o sou. Mas, a mãe natureza precisava no colocar em corpo tão orgânico? Porque o corpo humano precisa produzir tantos gases? Tem o mal hálito, o suor nas axilas, o chulé,  a cera do ouvido, as secreções das partes íntimas, a saliva, a flatulência, o excremento e até o próprio sangue. Meu Deus!

Inventamos o perfume para disfarçar tanto fedor e mesmo assim, por vezes, nem os mais fortes dão conta do recado. Mesmo aqueles que belos fedem tanto quanto qualquer mendigo que não toma banho, basta que fique um ou dois dias em total relaxamento da assepsia corporal. Devemos ser espitritos, creio. Como podemos, enquanto espíritos, seres energéticos, fedor tanto?

Como pode o nosso interior ser tão podre e não conter-se em si é termos de espécie tantas nojeiras que vão desde um simples flato à uma diarréia? Uma boca cheia de cáries e sem escovação pode bem ser comparada a um ânus. Seria mesmo um privilégio a nossa humanidade fétida e em putrefação?

Quem se habilita às respostas? Eu de cá me ponho, mesmo assim, agradecido ante o sol cálido em minha fronte ou de sentir água corrente e fria em menus pés quando os ponho num caldaloso regaço. Ademais, bem sei, existem muitos bons odores na natureza que podem ir desde uma flor à relva molhada ou seca. Mas, a natureza sequer se faz alguma assepsia como nós humanos somos obrigados diariamente e por diversas vezes.

Mas, vale a minha humanidade ainda que fétida. Mas, se pudesse escolher, pediria vir com cheirinho de alguma flor Silvestre que bem poderia ser a lavanda.

Wanderley Lucena

Educação e Estilo

Desde que aqui cheguei chama-me a atenção a quantidade de leitores nos vagões do metrô de Brasilia. Faz-me lembrar a boa impressão que tive no metrô de Buenos Aires quando por lá estive faz alguns anos.  Naquele momento pensei com meus botões no quanto nós estávamos distantes deles, os argentinos. Belíssimos que são e com uma cara de quem entende o mundo de tanto que se educam los hermanos. Mas, já faz algum tempo que lá estive e as coisas podem ter mudado depois da passagem de uma bruxa má chamada Cristina que lhes roubou muito, assim como cá, uma outra bruxa tudo nos roubou, inclusive, a nossa dignidade.

A minha reflexão é pensar que apesar da carência educacional oferecida pelo governo da bruxa má, insistimos em nossa busca pela educação. Vejo as ordas de alunos com suas mochilas pesadas e seus uniformes pobres e surrados a se dirigirem para suas escolas em busca da salvação. Nos vagões vejo muitos a lerem seus livros e que prazer que isso me dá. E agora sei que se não os via era porque não tínhamos o metrô e de ônibus é impossível ler ante os solavancos que faltam nos jogar janela à fora.

Já não sinto mais invejas de "mis queridos hermanos argentinos". Já não nos falta mais nem a beleza. Esse quesito também tem me chamado a atenção positivamente. Somos um povo bonito. E melhor é que somos mesclados. Temos brancos, negros, morenos, índios, galegos, sararás, etc... e já alcançamos bom nível de equilíbrio estético. É lindo ver que sabemos equilibrar as cores e que temos certa elegância no vestir.

Vale lembrar que nem tudo são flores. É triste ver o egoísmo do jovem que se senta no banco reservado e faz de conta que não percebe o idoso a quem deveria dar o lugar. Assim como, perceber que ninguém obedece a ordem de entrada e saída dos vagões e se atropelam uns aos outros ou ver que sentam-se no chão do vagão e se encostam nas portas que abrem e fecham freneticamente. Além do risco que corre quem pratica tal falta de educação, há a questão que impedem a mobilidade de quem deseja entrar ou sair do vagão.

Esta semana, já numa parada de ônibus, um garoto de uns 13 anos, vestindo uniforme de um Centro Educacional, estava sentado sobre o encosto da cadeira e com os pés sobre o assento. Teclava displicente no seu celular. Não resisti e o abordei e cobrei que respeitasse quem iria sentar-se logo após ele. O rapazote, mal saído dos cueiros, resolveu discordar. Chamei-o de mal educado e que deveria recolher-se e ouvir e aprender com os mais velhos. Ele não quis saber e disse que sua educação era cabida a seus pais e somente à eles. Discordei de forma veemente com o incauto e lhe informei que educação é recebida a todo momento e vem de onde menos se espera e que o seu Centro Educacional onde estudava era também responsável por sua educação. Mas, rendi-me ante a surdez daquele menino e conclui que se eu tentasse convencer a um poste de concreto poderia ter mais sucesso. Recolhi-me.

Mas, estamos melhores, creio eu.  

Wanderley Lucena 

A Efusiva

E ela me mandou um agradecimento todo simpático por meio do watssap. Agradecia pela forma como a descrevera em uma de minhas postagens/crônicas. Dizia ela que a havia captado na essência e que nem era merecedora de ser uma das minhas personagens. Eu fiquei a pensar no quanto fazemos a ideia errada da imagem, da nossa auto-imagem. Uns a exageram para mais e outros para menos. Não sei se ela fazia o bom e velho exercício da humildade ou se estava mesmo equivocada quanto à sua estatura de personalidade. Adoro ouvi-la. Efusiva e espirituosa como poucas que conheci. É já uma senhora cinquentona com cara de trinta e que já começa a se incomodar com tal fato. Eu a entendo pois, também, estou eu no mesmo barco.

São tantas as estórias por ela contadas que eu gostaria de ter um gravador ou uma memória de elefante para contá-las todas neste blog. Ela fala alto e dar risadas abertas. Vez por outra é obrigada a se levantar da mesa e ir para a rua para empurrar a maldita nicotina no juízo e nas veias. Acho que jamais acharei alguém tão espirituosa quanto ela.

"Nunca gostei dela mesmo!", tascou ela em uma de suas tiradas enquanto se matava a puxar a fumaça nicotinada do cigarro e entupir os pulmões. Eu não sei exatamente a quem ela se referia por ter apontado com um gesto de cabeça discreto em direção à uma das senhoras da mesa.  Mas, parecia ser de uma parenta com quem teve alguma desafeição quanto esteve com problemas de saúde e não foi por ela assistida. Mas, ela nunca foi de perder tempo a declarar suas decepções. Sempre em alto astral e alegre, diria eu, quase doida. Adoro gente doida. Aquele doido do bem, sabe? Aquele que se desprendeu dos conceitos sociais ou que jamais se prendeu à eles.

Naquele mesmo dia enviou, via grupo de watssap, uma foto dela própria vestida em um belo modelo prateado de algum modelista francês e que, creio, deve ter comprado por lá mesmo, por Paris. O grupo, atencioso e gentil, comentou de sua beleza e elegância, mas, se pronunciou quanto ao vestido que bem podia ser usado no tapete vermelho do Oscar. Ela não se fez de rogada e exigiu os comentários a respeito do vestido. Pois bem, esse é o estilo dela. É autêntica e sagaz.

Ela é atabalhoada e fala feito papagaio. A sua ânsia para contar suas estórias é tanta que, por vezes, não adianta. Todos têm de calar-se, rendidos a ouvi-la. Enquanto conta suas estória tem crises de risos contaminantes e todos faltam morrer, junto com ela, ante a esteria. É mesmo uma dessas figuras às quais eu passaria horas, talvez dias, sem abusar de ouvir.

Ela é uma espécie de carro alegórico que se anuncia já lá esquina e que se senta à mesa e todos sabem que a atmosfera mudou. E mudou para melhor! Um prazer ouvir gente que nem ela! Mas, pare de fumar, viu?

Wanderley Lucena

terça-feira, 22 de março de 2016

Ócio por Dádiva

Ficar em casa e dormir de tarde. Fazer nada o dia inteiro, ao menos por enquanto. Sabe quanto a tua consciência não te acusa o ócio? Então, é nesse estágio que me encontro. Melhor que não ter patrão é não ter empregados. As responsabilidades diminuem e você acorda quando o teu corpo manda. É claro continuo a manter alguma disciplina e o me obrigo alguma produção mesmo que no ócio. Tem a academia que eu gosto e que fica a apenas cem metros de minha casa. Mantenho alguns horários que me são impostos pelo meu estado de alerta.

Fico na minha zona de conforto por algum tempo. Sei que logo minha inquietude me impulsionará pra algum outro lugar ou projeto. Estou livre como nunca estive. E nos novos projetos pretendo não mais ter empregados, patrões ou sócios. O máximo a que me permito é a parceria dos que se juntam por interesses do   coracão. Uma paixão, um amor... quiçás, quiçás, quiçás.Tenho meus amigos queridos e aos quais gosto de estar em suas companhias e quem recorro, muitas vezes, em busca de algum apoio, de ombro ou colo. Tem minha família - e família é família e ponto. 

Não há desgosto. Decepções existem. Há a certeza de que o momento é de passagem e que logo estarei em novas paragens e que uma nova aventura virá e que nela as emoções serão tão intensas quanto as que vivi nos últimos anos.

Estou na estação sem saber se pego o próximo trem. E essa sensação não é de todo ruim. É a eterna inquietude que atormenta a todos os seres - ou será que não? Eu acho que alguns estão dormentes ante à vida e que a ignorância pode ser uma dádiva. Mas, quem saiu dessa zona de conforto jamais retornará à ela. Estou certo que mais vale essa inquietude que não ousar ir além daquilo que ensinaram ser o limite. O meu limite quem o faz sou eu. E minhas limitações são muitas e podem ser, em sua grande maioria, de ordem material. Mas, a minha mente é livre. Livre sou, inclusive, para não ter os horários marcados. Livre para me permitir acordar ou dormir quando o queira. 

No meu ócio eu permanecerei até quando o queira meu corpo. Mesmo que eu venha a sair desse estágio, o farei com a convicção de quem o faz com plenitude e respeito à si mesmo. Já trabalhei por demais e à muitos dediquei-me. Agora estou a cuidar um pouco mais de mim mesmo e pretendo continuar na jornada para dentro de meu próprio ser. O mundo que existe para dentro mim é tão grande quanto o mundo de mim para fora. 

Wanderley Lucena

segunda-feira, 14 de março de 2016

O Metrô

E eu a andar de metro pela capital federal sempre na companhia da Clarice, a Lispector. Por vezes, a guardo um pouco na minha bolsa só pra ficar observando a cena. E se tem uma coisa que gosto é de observar a cena. Sou fanático por gente. Gosto de perceber as formas de cada um, desde a cabeça até os pés. Mas, não só isso. Gosto de ver os modos de cada um ou de um grupo. Eu gosto de ver TV, de cinema, de jornais e revistas e... Sabe porque? Por que gosto de gente. Sinto-me espectador de um BBB onde todos vivem numa redoma gigante - aos moldes de "O show de Truman". Eu de cá a criticar a tudo e a todos sem esquecer que, de lá, também sou parte do show é objeto de críticas tão severas quanto às minhas.

No metrô me incomoda a falta de educação dos que insistem em sentar-se no local reservado a idosos, deficientes e grávidas e se fazem de morto a partir do momento que se sentam. Os pedintes e vendedores. Os alunos adolescentes a rirem sem ter porquê é sempre em altura que o vagão inteiro pode ouvir. Os amassos dos casais apaixonados quase se "comendo" na frente de todo mundo e, pior, os evangélicos que decidem fazer sua pregação e a tentar salvar os que estão a ouvir-lhes.

Na estação, já fora do vagão, aproveitando-se da acústica do local, uma louca-evangélica, gritava em alto e bom som a sua pregação. Não a vi. Mas, subi as escadas da estação e, já no piso superior, ouvia os berros da louca que informava, segundo a própria Bíblia, ser loucura aquilo que dizia. Alguns aplausos e "améns" foram ouvidos. E eu fui embora deixando aquilo para trás e a pensar: se fora um macumbeiro a bater tambor de terecô podia? Será que a segurança não iria intervir?

Mas, que bom que é poder ter ouvidos para ouvir, boca para falar, dedos para teclar e poder escrever isto. Segue o show? Que siga o show!

quarta-feira, 2 de março de 2016

O Coelho e o Ovo

E a tal páscoa que todos comemoramos sem saber do que se trata? Jamais vi comemoração tão comercial quanto esta. Acabei de ouvir que o lucro sobre os produtos achocolatados que vão desde bonbons a ovos de páscoa chegam a mais de 400%. É muito lucro! Acho que de tanto lucro passa a ser qualquer outra coisa. E chocolate é viciante. Quanto mais você come, mais você quer comer. 

Ovos de páscoa? Sério? Ovos de coelho? Sério? E coelho bota ovo? É muito louco o que se percebe. Existe o feriado de páscoa. E o feriado é quase que mundial. Sim, todo o mundo comemora a páscoa sem saber do que se trata. É mesmo muito louco.

Louco mesmo é perceber que o significado para o cristãos é totalmente diferente para os judeus. Os cristãos usurparam o nome "páscoa" para comemorar a ressureição do Cristo. Já os judeus a comemoram a páscoa, ou o "pessach", para lebrar o dia da passagem do mar vermelho. Ou seja, nada tem a ver uma coisa com a outra. 

E para a maioria trata-se da páscoa, apenas a páscoa sem qualquer sentido. O governo decreta o feriado e o povo se esbalda a comer chocolate em formas de ovos botados por um coelho. Uma bobagem tão grande quanto a figura do Papai Noel que é figura quase santa nas denominações evangélico-cristães, mas que, na verdade tem sua origem na paganidade.

É mesmo interessante observar a insanidade dos que desfilam nas tropas da ignorância e se rendem hipnotizados aos apelos da mídia, do comércio, das igrejas e das crendices.

Wanderley Lucena