terça-feira, 11 de novembro de 2014

AMAR E SER AMADO

 

Li, certa vez, um post idiota numa página de facebook de um idiota: "Apaixone-se por alguém que te cuide, que te guie, que te dê apoio..." etc... Eu, porém, me apaixono por me apaixonar, apenas. Me apaixono e vivo. Não espero nada do outro que não o respeito e a lealdade. E, claro, a lealdade passa pela parceria. Isso implica algumas respostas ante as dificuldades enfrentadas por ambos os parceiros. Mas, não exigência "sine qua non" que o parceiro me responda exatamente como eu o deseje. Quero, muito mais, a minha independência que me leve a está ao lado e não nos ombros de ninguém. Não quero ser peso, nem meio peso.  Não quero levar pesos que, bem poderiam, andar sozinhos ou ao meu lado, de mãos dados, rumo ao objetivo de uma vida melhor. Mas, ouvi desse mesmo idiota, d'outra feita: "eu me apaixono por quem se apaixona por mim". E então, calei-me. Não havia mais o que se discutir. Afirmo que, tal idiota, jamais se apaixonou, muito menos, amou! Quiças, jamais amará. E... mais importante que ser amado é... AMAR!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

EQUÍVOCOS

Eu gritei enquanto tu gritavas.
Bocas cerradas depois de tudo dito
Dito tudo o que bem podia não precisava
Palavras doces e fraternas ficaram mudas
Amargas lançadas como navalhas
Cortaram e machucaram
Cicatrizes que, certo, não se apagarão
Negamos o óbvio amor
Por medo de expor-se à fragilidade
Ou se por mera vaidade de quem, egoísta, quer ouvir
Vaidade de quem não quer falar
Eu esperava apenas a palavra bendita de quem pede que se fique
Ocorre que tu esperaste o mesmo
Eu me fui e tu te foste
Levamos o enorme fardo da dor e da mágoa que, de tão grande, parece não nos caber
Eu, de cima, com orgulho, digo-te o que não queria ouvir-te: jamais te dirigirei palavra novamente
E se soubera que o tanto que vivemos terminaria no vale do ressentimento
Melhor me seria, nada termos começado, sequer, conhecido
Mas, agora, sozinho, digo-me: valeu muito!
Comigo levo-te eternamente. Sentirei saudades!
E me dói que não mais aqui me estejas
Falso desprezo que nada mais é que artimanha para que me continues vivo e latente em mim.
O coração sombrio vai cheio de amor que, mesmo machucado, sabe
Outros me virão
Te virão
Diferentes
Não nos substituirão
Fomos únicos
Sempre seremos
E entendemos que o aquilo se nos havia dentro em nós
De tão grande dava medo de entrega
Diamante precioso que, sem o devido reconhecimento, bem poderia ser confundido
Viraria mera bijuteria a ser jogada na prateleira mal cuidada
Levo-te como me eras e não o sabias
Preciosidade deveras
De tamanho que reconhecer não puderas.


Wanderley Lucena



sábado, 1 de novembro de 2014

AGREGAR É MELHOR


Mas, é bem chato mesmo conviver com quem discordamos. A postura da simples eliminação é precária e cômoda. Já eliminei algumas pessoas de minha vida. Nunca me arrependi de tal atitude. Quando elimino alguém é porque amadureci a ideia e percebi, com as atitudes do outro, que não vale à pena tê-lo em meu convívio. E quando o faço, geralmente, é para sempre. Entretanto, gosto de quem argumenta com inteligência e me mostra que posso está enganado a respeito do que se discute. E gosto muito de uma boa discussão com indivíduos adultos, respeitadores e, principalmente, TOLERANTES. Foi a intolerância que criou alguns mequetrefes ao longo da história da humanidade, inclusive, o maior deles, Hitler. Mas temos vários mais contemporâneos como os ditadores da Coreia do Norte, o apartheid na África do Sul, etc... etc...  O importante é que, mesmo que eu discorde totalmente do outro, ele tenha a total liberdade para expressar-se. Eu pegaria em armas para que você pudesse expressar o que pensa. Reflita sobre isso e elimine o menos possível. Agregue o máximo possível. Ouça mais. Fale menos. A lição vale para todos, inclusive, para mim. Eso ya lo sé!

Wanderley Lucena

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

DE LUTO FECHADO


















Hoje não ligo a TV, não vejo jornais, não falo, não escuto. Não abro as cortinas, não ligo o rádio. Meu café da manhã veio morno e sem graça. O sol esturricante na moleira logo cedo a espantar os animais silvestres do jardim. Acordei tarde de um sono profundo. Sonhei. Tive pesadelos. Estou de luto fechado. Enterraram-se as minhas esperanças. Não conseguimos atravessar o pântano formado pela indecência da política brasileira. E os "intelectuais" desta republiqueta de bananas, e de merda, a quererem me convencer que a educação melhorou 200%. Aonde? Não percebi. Vejo um massa invalidada pela preguiça da ignorância. Uma massa dependente das "bolsas" vergonhosas ofertadas por esse governo reles e maldito que está acima das instituições e da lei. E os "intelectuais" a quererem me convencer que eles saíram da linha da pobreza. Estou envergonhado de termos 16 milhões de brasileiros a receberem as tais "bolsas". Bolsas estas que são pagas com o meu dinheiro, com o dinheiro dos que insistem em trabalhar. Revolta ainda mais saber que, mais da metade dos meus impostos vão para o bolso desses salafrários que se apoderaram do Estado brasileiro. Os homens bons e de bem, os homens sérios, não querem saber de política, com ela não se envolvem. Político bem sucedido será o que menos caráter tiver. O vereador será eleito deputado estadual se, no seu pleito, roubar o suficiente para a sustentar a sua campanha ao novo cargo comprando votos com cestas básicas ou em espécie mesmo. Afirmo que, a melhor saída à quem pode, é o embarque internacional de qualquer aeroporto deste país. 

Wanderley Lucena

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A CULPA DOS RENEGADOS

Acho que reduzir a maioridade penal é impor culpa à vítima. Os meninos infratores, maus que só o capeta, na verdade, são vítimas da ausência estatal que não lhes deu a assistência a que tinham direito. Veja as escolas mau aparelhadas, com farinha seca por merenda, professores mau pagos e semi-analfabetos. Veja a família constituída por esses mesmos renegados que, na verdade, apenas procriam e soltam seus filhos ao mundo para multiplicarem-se no terreno árido da escassez do mínimo básico à dignidade humana. Eu poderia escrever um livro de alegações que levariam qualquer pessoa menos esclarecida a concluir que só existe um culpado. Ele se chama ESTADO. Sim, o governo brasileiro que desvia tubos de dinheiro de impostos que pagamos para os bolsos, largos e profundos, da corrupção. Aos que defendem a redução da maioridade penal, muitos deles cristãos-pastores-deputados, informo que "o buraco é mais embaixo". Ademais, estaríamos mandando as crianças, já vitimadas pela ausência governamental, a fazer um curso superior, um doutorado, nas escolas de crime que são as prisões brasileiras. Quem tem que ir para a cadeia é cúpula de corruptos que manda e desmanda no nosso país.

domingo, 17 de agosto de 2014

DITOS E FEITOS


Hoje dormi até tarde. Fazia tanto tempo que não tinha tal privilégio. Senti remorso. Seria a hora de relaxar? Há tanto por fazer.

Tanto já foi feito. A instabilidade já parece coisa do passado. Entretanto, a ânsia pela matéria e a esperança de que ela me proporcione dias melhores me fez sair para terras desconhecidas e insólitas.

É verdade que a maldade dos homens nos impulsiona e nos faz lançar em abismos. Mas, quem se joga ao abismo, nem sempre, o faz por medo da luta. Muitas vezes conta com o acaso providencial do Cosmos que pode nos acolher logo abaixo sem que nos machuquemos, ou que, mesmo machucados, sejamos salvos por obra de milagre.

Eu acredito na providência milagrosa e no destino. Pensava eu que meu lugar de paz seria numa terra nova e, de preferência, numa paradisíaca praia. De onde saí eu trouxe algumas marcas de agressões de homens vis. Mas, neste lugar, sofri piores.

É certo que me vou de novo daqui a pouco. É certo que vou mais desapegado da matéria. Mas, levo comigo o que consegui arrecadar com meu suor. Levarei muito. Mas vou mais leve.


Wanderley Lucena 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

ALGO QUE O VALHA


A minha inquietude não é apenas de ir-me desde aqui. Ela é desejosa de desprendimento e desapego. Sei que me vou para não mais voltar. As sandálias baterei quando entrar no veículo que me levará. Levarei minhas rugas, minhas marcas valorosas. Não levo mágoa, não levo dor, não levo rancor. Levo a cara limpa e a certeza da lição aprendida.

Eu sinto mesmo ter nascido no ocidente e que minha covardia me impeça de transformar-me em um indu, num faqui, num budista ou algo que o valha. Mas, não quero mesmo exteriorizar a minha identidade espiritual. Não quero, sequer, ser apontado como "homem bom" ou "honesto". Quero apenas levar no meu âmago a certeza de que fiz o que me foi possível.

O "Caminho de Santiago de Compostela" é desejo que pretendo realizar tão logo a minha missão aqui seja concluída. Uma incursão para dentro de mim mesmo e que volte para o externo na forma mais óbvia de bondade e amor. Quero encontrar uma causa humanitária e me dedicar a ela.

Claro que tudo muda a todo instante e nada está decretado. Falo de vontades, de desejos. É desejo oposto, por exemplo, morar uma temporada em Madrid. Uma reflexão sobre os contrastes da educação e da moral em relação ao nosso país. Quero verificar "in locu" se é tudo a mesma coisa. Que a qualidade de vida e os valores estão tão perdidos quanto aqui.

A busca pela riqueza me trouxe mais instabilidade. Muitas foram as agressões vis oriundas de homens reles que jamais teria com eles qualquer contato. E não que me sinta superior a eles. Apenas me percebo diferente e sem qualquer afinidade com tais indivíduos. E os chamo de reles com conhecimento de causa e sem qualquer medo de está errado em meu juízo.

É isso! Que me venga un nuevo câmbio!

Wanderley Lucena



quarta-feira, 5 de março de 2014

Quarta-feira de cinzas!

A Quarta-feira é de cinzas, acabou o carnaval. Ficou o lixo nas ruas, praias, parques e jardins. O cheiro do mijo descarregado pelos foliões apertados e meninas brejeiras e sem juízos, muitas delas, ainda não sabem que daqui a pouco a barriga já será grande e, mais uma bolsa família será paga com meu dinheiro. E a PresidENTA garantirá a sua reeleição.

O dia aqui amanheceu turvo, o sol tímido - talvez de preguiça ou por ser a quarta-feira de cinzas, ou seja, o sol desinchou o céu cinza mesmo. Eu me sinto esgotado. E pior, acho que estou com labirintite ou qualquer outra coisa que me faz cambalear como se tivesse tomado uma garrafa de vodka vagabunda. Mas, não posso entregar os pontos. Estou a sair já para fazer as compras e levar a roupa para a lavanderia. A vida continua e o tempo urge... mesmo numa quarta-feira de cinzas - ao menos para mim, o tempo não para!

Wanderley Lucena

domingo, 2 de março de 2014

ADIÓS MUCHACHOS!

Tenho uma certeza: a de que se sobreviver a isto, me irei daqui para lugar distante. Vou-me para nunca mais voltar.

Tratarei de colocar em baú, muito bem fechado, todas as lembranças destes três anos de aprendizado e expiação. Eu que pensava já ter passado pelo pior... hoje sinto-me inserido em sociedade atrasada em pelo menos trinta anos em relação à Capital Federal. Sinto-me como se voltado ao Maranhão, estado federativo do qual migrei ainda muito jovem.

A escassez não é só tecnológico-educacional. Ela perpassa os limites da razão vai a uma ignorância profunda e arraigada até naqueles que têm "nível superior". O indivíduo aqui tem o orgulho de ser ignorante. Bate no peito e diz: "sou macho e não levo desaforo para casa". O imbecil, muitas vezes, sangra ou é sangrado e deixa esposa viúva e folhos órfãos.

Questões banais de vizinhança se tornam pendengas que se transformam em "barracos" dignos de favela. Toda a rua se alvoroça ante um bate-boca que pode ser ouvido em todo o lugarejo. Ademais, são dados à fofoca. E a fofoca mentirosa, do tipo "cabeluda". Adoram sentar-se nas portas, nas calçadas, esparramados nas calçadas estreitas, sob sol sol que esturrica a moleira e calor escaldante. Prestam-se a olhar quem passa e a comentar da vida uns dos outros. É verdade que a "sessão da tarde", ao menos para mim, é lixo puro, mas, para esse povo que, em sua grande maioria, é incapaz de uma crítica racional, a televisão deveria ser uma boa alternativa para que o indivíduo se "vidrasse" ante a tela e deixasse a calçada e a vida do outro.

É verdade que todos padecem de mau gosto e que suas formas já prejudicadas pela genética de origem desconhecida, pioram ante a mal alimentação. Aqui se come margarina como se fosse geleia. Os embutidos - os mais baratos - são verdadeiras iguarias que eles adoram. A "mortandela",  "chalchicha" e os queijos amarelos e sem marca vendem como se água.

A alimentação errada transforma as criaturas já desprovidas de beleza em verdadeiras aberrações. As mulheres não são apenas gordas. Elas são gordas e buchudas - mas, muito buchudas mesmo! Mas, não só isso. Elas se vestem de roupas esfuziantes, coloridíssimas, apertadíssimas, curtíssimas - horríveis! Mas, não só isso - devido ao calor, creio - adoram mostrar os buchos. Os umbigos explodem como uma azeitona gigante que elas adoram enfeitar com piercing vagabundo de strass que balançam como os pendulas dos sinos das igrejas de Ouro Preto.

Os homens são um capítulo à parte. Cheios de si, geralmente, soberbos, mentirosos e gananciosos. Seus egos estão presos em corpos carregados por pernas "de frango". São pernas de formas arredondadas e sem músculos. Cochas cheias e flácidas que sustentam bundas grandes, enormes, que sempre associei à preguiça. Eles são indolentes, de raciocínio lento. Entretanto, se percebem uma maneira se "se darem bem", de preferência "passando a perna" em alguém, são ágeis, acelerados e espertos. E ninguém vai convencê-los da desonestidade. São dados às trapaças que não respeita sequer a família. Irmão trapaceia irmão e filho engana a própria mãe e a rouba fácil em qualquer questão.

As drogas talvez estejam acabando com o que resta desses mentes cauterizadas pela falta de valores éticos. Aqui não tem quem não use maconha - e nada tenho contra, diga-se. Acho mesmo que mal maior faz o cigarro que por sua nicotina e alcatrão superlota nossos hospitais com as criaturas cancerosas. Mas, aqui o buraco é mais embaixo. Todos usam, além da maconha, cocaína. LSD, êxtase e outra mais pesadas. Muitas são as criaturas reles escravizadas por seus vícios.

Não me adequei a esta realidade e não quero me adequar a ela. Vou embora porque o posso. Vou porque quero e porque mereço lugar melhor do que este paraíso de paisagem linda carcomido e cheio dessa gente que, de humilde, nada tem.

Em breve, muito em breve, se vivo, direi a esta terra um "Adiós muchachos!".

Wanderley Lucena

domingo, 25 de agosto de 2013

À SOBERBA O CIÁTICO



O ciático continua a me incomodar. Depois de vinte dias andando enviesado, ele insiste em não curar-se.  É bem verdade que não tenho nenhuma tendência à hipocondria e não tomei medicação que não fosse apenas para aliviar a dor. Não fui a médicos, nem tomei a santa voltaren. Mas, me sinto vivo. A dor que me serve de alerta e me informa o quão frágil somos, também, me conscientiza de que preciso crescer em espírito e que o crescimento material pode ser mais devagar. Tenho ganas e necessito correr contra o tempo. A certeza de que sou capaz de produzir cada dia mais e melhor traz ebulição interior que faz ficar meio louco a quem ver. Diz que sou elétrico, que sou hiper ativo e agoniado. Eu me sinto em paz comigo mesmo. Sinto a onda gigantesca que vem em minha direção e, com a experiência já aprendi que, basta mergulhar e não se sente qualquer impacto ou violência.

O medo de decepcionar quem espera o salário no final do mês, por vezes, me faz perder um pouco o sono. Mas, certa vez li que a cama não foi feita para pensar e sim para dormir. Quando me deito procuro não pensar em nada que não seja agradável e, depois de um dia estafante, não tem sono que não venha. 

Não sei porque estou aqui. Se estou para apender ou para ensinar ou se as duas coisas. O meu aprendizado neste lugar parece superior aos da faculdade. Acho que já ensinei alguma coisa também. Há quem goste muito de mim e há quem me odeie. Não me preocupo nem com um nem com o outro. Minha preocupação maior é comigo mesmo. Procuro está de ouvidos bem abertos para tudo, inclusive, para as mensagens da intuição. Mas, não quero passar por cima de ninguém, nem, jamais abrirei mão de meus valores éticos. Nada de considerar-me melhor que o outro. Vigio o tempo todo para que a soberba - pecado capital - não me apodere.

Wanderley Lucena


sexta-feira, 21 de junho de 2013

AUSÊNCIA ESTATAL


Claro que não é possível tolerar o vandalismo e a violência que se percebe ante os protestos que ocorrem por todo o país. É chocante ver as cenas de destruição que atrapalham a belíssima imagem da mobilização espontânea do povo nas ruas em protesto aos exageros da falta de administração governamental. Entretanto, fico me perguntado se não dói igual ver a infância roubada pelo craque porque o menino não foi à escola e preferiu perambular pelas ruas, haja vista, a escola sucateada, sem graça e cor, que o governo disponibiliza através da rede pública de ensino. 

É terrível tolerar a pesada carga tributária deste país e que vai parar nos bolsos dessa corja de gravata instituída e legalizada pelo salvo-conduto do voto da legião analfabeta. É agressivo perceber tais ladrões de casaca se protegem atrás do grosso escudo das alianças políticas que perpassam todos os poderes instituídos. 

É uma covardia perceber o salário já sofrível do professor ser rebaixado ainda mais enquanto deputados aumentam os seus ao momento que o desejem e a seu bel-prazer. É dolorido perceber que nas filas intermináveis dos hospitais públicos o cidadão passa dias na fila e que muitos morrem enquanto esperam e que mães parem seus filhos nas calçadas de maternidades-pulgueiros por falta de vaga.

Saber que cargos públicos são usados como palanques para incitar o ódio e para a pregação pragmática e preconceituosa contra as minorias discriminadas ao longo do tempos.  Que o povo passa fome e que anda mal-trapilho e moribundo, vagando qual zumbi, verdadeiras carcaças sem conteúdo de qualquer aprendizado educacional. Que ONG's são verdeiros vampiros que sugam o dinheiro público em prol de seus presidentes.

A percepção de que os estados da Federação têm seus donos e que eles usam e abusam dos mesmos como se fossem seus feudos e os habitantes eleitores analfabetos políticos são suas propriedades, assim como se fossem meras cabeças de gado de suas fazendas me é tão agressivo e repugnante quanto o vandalismo ora visto,. O feudo é passado de pai para filho como se herança patrimonial. Alguns, além de passarem a herança aos descendentes, ainda, se apossam de outros estados. É o caso do Maranhão e a família Sarney. Neste momento Roseana manda e desmanda no seu curral enquanto o Sarney passou a mandar no Acre. Foi por aquele estado que foi eleito o Senador.  

Sim, é mesmo muito agressivo perceber que os vândalos estragam o movimento. Sim, é mesmo muito vergonhoso perceber que tais vândalos são, na verdade, vítimas da ausência estatal que deixa de formar cidadãos conscientes e educados e os transforma em criminosos que foram obrigados a viver à margem da sociedade, nos morros e favelas, onde se brutalizam e se cauterizam de sentimentos éticos básicos.

Só há um culpado por toda a violência: o Estado ou a ausência deste.

Wanderley Lucena

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

OLHA A FACA!


Há uma nuvem negra sobre este povo. Há retardo tecnológico e educacional. Aqui as pessoas jogam o seu lixo na esquina mesmo sabedores que isto é falta de educação e que cães e gatos arrastarão o lixo pela rua depois de rasgarem os sacos plásticos que os acondicionam. Aqui  a briga é para se continuar a jogar o lixo no mesmo lugar que se joga a vinte anos, dizem eles. Têm orgulho de não aceitar o novo e batem no peito, soberbamente, para afirmarem a masculinidade e resolverem suas pendengas na faca. Aqui se mata gente como se fosse galinha e a "honra" do marido corneado é lavada à sangue.

Mas, neste momento, há uma retração geral. Muitos estão abatidos, enfurnados em seus cafofos. Muitos deles endividados até a tampa. Desesperados, recolhem-se à escuridão de seus quartos, em suas alcovas humildes.  A grama secou porque não têm ânimo nem coragem para rega-la ou porque a empresa de água já lhes cortou o fornecimento. A cara é verdadeira carranca e o espírito abatido faz envergar a coluna e baixar a olhada que mira apenas o calçamento da rua.

A consciência coletiva é tacanha e de mal gosto. Idéias simples são rejeitadas em nome da tradição ignorante de que o "forasteiro" e suas idéias devem ser rejeitados. Aqui se olha com espanto à forasteiro que, educadamente, recolhe as fezes de seu velho e moribundo cãozinho. Os restos de construção ficam meses jogados pelos moradores adiante de suas residências, no meio da rua.

O carteiro não entrega cartas, mas, joga-as por cima dos muros, dentro dos lotes, sem se preocupar se chegarão ao seu destinatário ou se a chuva vai destruí-las. Os correios abrem apenas para três clientes por vez e a fila é formada do lado de fora, sob sol escaldante. Os caixas do banco param para o almoço, todos ao mesmo tempo, mesmo que a agência esteja lotada de clientes. O protocolo da prefeitura faz os registros em livros enormes e manuscritos - não há computadores - e a servidora informa que assim permanecerá, pois, do contrário ela perderá o emprego. O cartório de notas e oficios segue os mesmo moldes.

A praia está linda, porém, sofre do mesmo marasmo. Não há animação e os turistas não existem. As barracas estão sem música e os garçons irritados por faltarem-lhes a comissão do dia-a-dia. A moça do caixa foi demitida e está soltar fumaça pelos ouvidos.  As barracas-restaurantes são horríveis e de péssimo serviço. A higiene e a assepsia não existem. 

Eu não sei quanto tempo permanecerei nesse paraíso de paisagem e inferno de espíritos. Certo é que não ficarei aqui a não ser que o Cosmos me determine. Meu espírito me avisa: "é apenas um estágio". Minh'alma confirma em alegria. Quero mesmo ir-me de corpo e alma, de mala e cuia, levando na bagagem o conhecimento aqui adquirido. Esta terra ainda não me deu nada além disso: aprendizagem. Talvez seja isto que vim fazer aqui: aprender.

Wanderley Lucena


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

FELIZ ATÉ O TALO!


Já tive várias dúvidas que me atordoaram o juízo por boa parte da minha vida. Hoje tenho respostas que me parecem mais reais, mais verdadeiras do que aquelas às quais eu era obrigado a acreditar pela "fé". E é pela fé que a Xuxa ver duendes e eu posso acreditar em Saci Pererê, mula-sem-cabeça, fadas, anjos etc...

"A fé é plena convicção das coisas que não se vêem". Ouvi tal definição quando da minha cegueira religiosa e a repetia como papagaio, orgulhoso de minha ignorância. É possível ter plena convicção das coisas que não se vêem? Afirmo que não. 

A fé deveria vir de experiência real com a divindade, com o Cosmos, com Deus ou com aquele a quem sequer sabemos denominar. A fé não deveria ser apregoada por quem nunca teve tais experiências inexplicáveis e milagrosas. 

Precisei ler o texto de Spinoza no qual ele fala de um Deus que nos fez humanos e cheios de paixões, de vontades, desejos, falhas e livre arbítrio e, ao final, é o responsável por tudo e que nos estimula. Esse Deus quer que vivamos com toda a intensidade de nossa humanidade divina. Quer Ele que gozemos como se fôssemos morrer no próximo minuto. Um Deus que despreza nossa adoração em templos por nós mesmos construídos e que servem para alimentar o discurso castrador das religiões que, por séculos nos incutiram a culpa por sermos quem somos. Essa culpa só serve para nos afligir a alma e nos trazer doenças psicológicas e psiquiátricas e, em plano bem raso, para alimentar os imensos cofres de quem as lidera.

Pois bem! O templo de Deus está à tua frente. Ver a amplitude para cima e te sentirás em abóbada que ecoa o som da natureza e sentirás que Deus está ao teu redor. E se olhares, mesmo sem muita atenção, te perceberás parte desse cosmos e que dentro de ti existe universo tão grande quanto o que miras para fora. Se sentirás tão pequeno que terás vontade de te prostrares ante tal maravilha. Maravilha à qual só podemos, em êxtase, louvarmos. 

A vida é milagre que, mesmo depois de explicado pelas ciências, permanecerá misteriosa. O corpo, a matéria, já sabemos de onde veio e para onde vai. Mas, essa energia que faz essa caixa chamada corpo se movimentar, sentir, falar, etc... Que energia é esta? De onde veio? Para onde vai? Uma vez me pus a olhar um morto num velório e a pensar sobre isso. Para onde foi a energia que fazia  aquela caixa chamada corpo se movimentar?

Tentar explicar Deus é inútil. E renego e desprezo quem o pinta "assim e assado". Deus é inexplicável. As escrituras ditas "sagradas" o pintam com as características de um ser humano bem pior que eu mesmo. Trata-se de um mequetrefe. Uma criatura feia, mal humorada, rancorosa, medrosa, ciumenta, insegura, xenofóbica, genocida, assassina, vingativa (até a quarta geração), homofóbica, etc... Esse Deus não me serve e, afirmo categoricamente, não passa de uma criatura.

Conheço um Deus que não sei explicar porque jamais o vi. Já senti emoções, e sensações e intuições às quais obedeci e que, ao final, me levaram à satisfação daquele momento. Isso se fez de forma milagrosa e, totalmente, inexplicada.

Não posso negar que exista um mistério para dentro e para fora. E a esse mistério fantástico atribuo um Deus misericordioso que jamais faria um lago de fogo para queimar à sua própria criação. Acredito num Deus que me manda ser feliz até o talo!

Wanderley Lucena


terça-feira, 26 de junho de 2012

O DEFUNTO DA PRAIA DO FRANCÊS


A estória que passo a contar-vos é verídica e aconteceu na Praia do Francês, nas Alagoas. Mãe e filho vieram de Maceió a tomar banho de mar. A mãe descuidou-se e, horas depois, percebeu a ausência do filho. Procurou-o por demais e, aterrorizada, concluiu, certo como dois e dois são quatro, que o filho querido morrera afogado e que o corpo fora levado pelas águas do mar. Com muita sorte o corpo seria devolvido e ela poderia enterrá-lo com velório digno.

A mãe esperou por cerca de dois dias, porém, o corpo não apareceu em lugar nenhum. Ela voltou para Maceió, antes alardeando que daria polpuda recompensa a quem achasse e lhe devolvesse o corpo de seu filho amado.

Um velho pescador, pobre-pobre-de-marré-deci, visualizando na recompensa a possibilidade de matar sua fome, passou noites a fio, a andar pela praia, na esperança de achar o corpo que, bem, poderia ser devolvido pelo mar durante a madrugada.

Dado momento da madrugada o velho pescador tropeçou em carne humana putrefata e deu pulos de alegria. Sua busca chegara ao fim. A sorte lhe sorria. Entretanto, o mar devolvera apenas a perna do defunto. O resto do corpo, com certeza, as feras marítimas já haviam devorado.

A perna putrefata, fedendo mais que carniça, foi colocada dentro de um saco de estopa e o velho pescador pegou o ônibus logo cedinho, rumo a Maceió onde entregaria á mãe do morto e receberia sua rica recompensa. O ônibus estava lotado e o povaréu logo começou a reclamar com o motorista que decidiu averiguar a situação. 

O saco com a perna logo foi identificado como a causa de tamanho desconforto às narinas dos passageiros. Todo mundo assustado ante a perna humana e o pescador de olhos arregalados, já quase sendo linchado. Depois de muito explicar e já chorando, o velho pescador convenceu todo mundo de que levava a perna do  defunto como ato humanitário e porque esperava matar a fome com a recompensa que receberia. Todo mundo ficou com dó do velho pescador e decidiram deixá-lo seguir viagem mesmo com a perna do morto dentro do saco.

O ônibus seguiu viagem levando o velho pescador, porém, o saco foi segurado pela janela, do lado de fora pelas ruas de Maceió até chegar na casa da mãe do morto. O pescador voltou para a praia com sua rica recompensa e matou sua fome por uma semana. Sobrou, ainda, para um litro de cachaça que o velho pescador tomou com os amigos  enquanto contava a dita estória sob a lua da Praia do Francês.

Wanderley Lucena


domingo, 10 de junho de 2012

FESTA NAS ALAGOAS

Aqui nas Alagoas as cidades se enfeitam para a Festa Junina como as demais, Brasil a fora, se enfeitam para o natal. Ao se passar por qualquer cidadezinha, por menor que seja, se vê  toda a parafernália que em nada fica atrás das luzes de natal. Balões coloridos, lanternas, fitas e bandeirolas são incontáveis. Os balões podem ser imensos ou pequeninos, porém, aos milhares. Enfeitam as rotatórias das avenidas e, mesmo nas BR's, o motorista que passa ligeiro não deixará de notar a atmosfera festiva. E, à noite, os enfeites estarão iluminados por luzes neon e toda a tecnologia moderna de iluminação. As ruas principais das pequeninas cidades ou nos grandes centros, ganham cordões de bandeirolas coloridas e o céu estará riscado pelos muito cordões de fitas multicolores a dançar ao vento.

Os funcionários do comércio são obrigados a se fantasiar de matutos. As moças pintam-se exageradamente nas maçãs dos rostos, fazem tranças nos cabelos e as amarram com as maria chiquinhas. Usam vestidos de chita e alpargatas nos pés e, por sobre a cabeça, presilhas, putinhas, atracas etc... Os rapazes colocam chapéus de palha e pintam um dente de preto para parecer banguela. É  bem verdade que muitos nem precisam de tal artifício já que, por estas bandas, falta a muitos, senão todos, ao menos um dente. E a porteira de São João se torna natural.  Para completar o visual dos rapazes, uma camisa xadrez toda remendada, uma calça marrom que leva uma corda como cinto, e sandálias alpargatas. Se fosse no centro-sul do país, se imitaria o jeito matuto e inocente de falar para completar o personagem. Aqui esse detalhe também é totalmente original.

Folguedos que podem ir desde um foguete a um tiro bem dado de espingarda podem ser ouvidos desde longe. Muitos são os que espraguejam a quem os solta depois de levar um susto de quase cair ao chão e o coração quase lhes sair pela boca.

Bandas de fama nacional e, este ano, ninguém menos que Elba Ramalho, se apresentam em praça pública depois que as muitas quadrilhas já se enfrentaram em passos de dança típica dessa época. Todos se envolvem e quem não vai dançar numa quadrilha se diverte a beber cachaça, a comer pamonha, cocadas e tantas outras guloseimas.

Marechal Deodoro é joia histórica tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e tem igrejas centenárias que lembram, em muito, as cidades históricas de Minas Gerais. Há todo o casario colonial em ruas com ladeiras ladrilhadas e de curvas sinuosas que passam rente às paredes de casinhas pintadas em cores fortes. Desde o carro é possível cumprimentar com um aperto de mão ao morador que se encontra nas janela. Aliás, aqui se você ficará um bom tempo a esperar que o motorista à sua frente coloque o papo em dia  com algum dos moradores ou enquanto compra, displicente, um refresco, uma jaca, uma melancia, um picolé, um cacho de bananas ou uma faca peixeira de algum dos muitos ambulantes que empesteiam, graciosos, as cidades.

Mas, Marechal, como aqui se chama a cidade de Marechal Deododo, está às margens da belíssima Lagoa de Manguaba. Águas calmas e mornas que são a fonte de renda dos muitos pescadores. Barquinhos se vão e que voltam carregados de cofos de peixes que serão vendidos no, recentemente, inaugurado Mercado do Peixe. Trata-se o Mercado do Peixe de bela construção colonial recuperada e preparada para receber as bancas dos feirantes. Entretanto, é por demais comum ver os pescadores a vender pelas ruas, em carrinhos de mão, toda a sua pescada fresquinha.

O Mercado Municipal, prédio também recuperado e em estilo colonial também não passará desapercebido. Não sei se por ser novinho, trata-se de ambiente limpíssimo. Ambos ficam de frente para o recém-inaugurado Calçadão da Lagoa de Manguaba. Quem não conhece não sabe o que tá perdendo. À noite é programa imperdível. 

Mas aqui o tempo passa depressa enquanto se fica nas esquinas ou nas portas a jogar conversa fora. Muitas vezes, a fofoca rola solta e todos sabem os segredos de alcova todo mundo. Muitas vezes os tais segredos não passam de maldade de quem quer destruir a reputação alheia. Aqui todo mundo se conhece e mesmo se não se conhece, sempre se cumprimenta a quem passa. E assim é o nordeste, as Alagoas e Marechal.

Wanderley Lucena


sexta-feira, 25 de maio de 2012

CHUVA NAS ALAGOAS

Choveu nas Alagoas!!! É bem verdade que já caia uma chuvinha de manhã e outra no finzinho da tarde. Mas, era só chuvinha mesmo e aqui na beira-mar. Não era aquela chuva de cavalo beber em pé. Não eram daquelas chuvas que duram o mês inteiro como é o caso de Brasília. Em dezembro chove todo santo dia e o dia inteiro, e a noite inteira na capital federal. 

Aqui nas Alagoas os animais morriam de sede e a terra esturricava ante o sol infernal. Mas, hoje acordei ouvindo a trepidação das telhas e o aguaceiro caindo pelas bicas. E o melhor: ela não passava de jeito nenhum. Choveu muito. E parece que vai chover mais. Tomara que tenha chovido na mesma quantidade lá pelo interior do estado. É lá que a coisa tá feia e as rezes estão a morrer. Os urubus fazem a festa ante tanta carniça.

O tempo tá fechado neste momento e parece que vai continuar a chover. Queira Deus minha previsão se confirme. Deixo de ir à praia fazer a minha corrida de todo dia, mas, fico com um prazer danado de está trancado, sem poder sair de casa, por causa da chuva bendita.

Ouço os ben-te-vis na matinha próxima de casa e as rolinhas a catar pedrinhas na areia me informam que a vida late por essas bandas. Mas, tá bom mesmo é para praticar a preguiça. O sol está cândido, Intimidado pelas nuvens pesadas que o impedem de botar a cara para fora. Somos nós dois que não podemos sair de casa hoje. Nem eu nem o sol. Graças a Deus!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A MARIA-FARINHA


Estou quarando aqui na Praia do Francês. A rotina é correr na praia ouvindo o som das ondas e vendos as andorinhas a catarem pequenos moluscos. A areia recebe meus pés enquanto corro e parece me convidar a fincá-los nestas terra alagoanas. Entretanto fico a resistir, sorrateiro, imaginando que pode existir lugar melhor. E o som do mar, falando-me nas ondas, num chuá-chuá-chuá que no meu íntimo parece traduzir-se em su-ces-so, su-ces-so. Mas, ainda assim, fico a pensar inseguro - pode ser alguma sereia a querer encantar-me e levar-me para a profundezas do mar, intentando matar-me a seguir, enebriando-me com encantos e prazeres.

E tem também um caranguejinho branco que se chama Maria-farinha. Corre apressado e se esconde em sua toca. A Maria-farinha é branquinha e ligeira. E foi esse caranguejeirinho que inspirou Marisa Monte a compor a belíssima "Maria de Verdade":


Pousa-se toda Maria
no varal das 22 fadas, nuas, lourinhas
Fostes besouro Maria
e a aba do Pierrot descosturou na bainha

Farinhar bem, derramar a canção
Revirar trens, louco mover paixão
Nas direções, programado e emoldurado
Esperarei romântico

Sou a pessoa Maria 
Na água quente e boa gente tua, Maria
Voa quem voa, Maria
e alma sempre boa, sempre vou à Maria

Farinhar bem, derramar a canção
Revirar trens, louco mover paixão
Nas direções, programado e emoldurado
Esperarei romântico


Tou vitimado no profundo poço
na poça do mundo
do céu amor vai chover
mesmo que doa, Maria
tua pessoa, Maria

Farinhar bem, derramar a canção
Revirar trens, louco mover paixão
Nas direções, programado e emoldurado
Esperarei romântico.

E se você não ouviu a tal música não sabe o que está perdendo. Vá lá e ouça! Lembre-se mim! Mas, não chore! Apenas sorria e torça para que estejamos juntos, a correr pela praia, a ver a Maria-farinha, as andorinhas e ouvir as ondas do mar a nos sussurrar: su-ces-so! chuá-chuá-chuá!

Wanderley Lucena


sexta-feira, 27 de abril de 2012

SAMURAI, O BÍGAMO DE ITACARÉ.

Depois de passar toda a manhã na Praia de Itacarezinho, para meu deleite, quase deserta na baixa temporada, fui à orla de Itacaré, propriamente dita, atrás de um peixe fresco para me alimentar. Passava de carro, vagarosamente, quase em ritmo baiano, observando os muitos quiosques para escolher um que me apetecesse parar quando um rapaz baixinho, franzino, de chapéu de palha com abas grandes e esfarrapadas, acenava mostrando-me o cardápio. 

Parei o carro e ele me convenceu, simpático, a almoçar no seu quiosque. Sentei-me na cadeira de plástico em frente à praia da Concha. Poucos turistas e muita paz. Uma cerveja, porque ninguém é de ferro. A barraca estava vazia ante a falta de turismo da baixa temporada. Sobra tempo para que os garçons possam nos atender como se VIP's fôssemos. E o melhor... jogar conversa fora. 

- Qual o seu nome? - perguntei ao rapaz franzino que me fez entrar no quiosque.

- Jason - me respondeu.

- Deve ser algum apelido de novo - pensei logo.

Mas, o nome do rapaz era mesmo Jason e, ao contrário do personagem do filme de terror, este Jason era totalmente da paz. 

- Nunca matei ninguém - me afirmou ele - mas, acho que foi a única coisa que não fiz nesta vida - complementou abrindo o sorriso.

Disse que sua estória daria para escrever um livro. Que era baiano de Trancoso e filho de arquiteta e engenheiro, portanto, tinha berço. Mas escolhera aquela vida de desapego. Já conhecera o Brasil quase todo e que já dormira na rua. Que magreza era fruto da fome mesmo. Renegou a vida confortável com os pais para viver pelo mundo, desapegadamente. Casado, a mulher estava grávida de nove meses. 

O pedido foi feito e passou a nos atender um outro garçom, tão franzino quanto Jason.

- Qual o seu nome - perguntei a ele certo de que iria ouvir como resposta um apelido.

- Samurai. Pode me chamar de Samurai - respondeu ele com voz empostada de locutor e gesto de quem estava no palco a se apresentar para platéia exigente.

- Mas estória mesmo quem tem pra contar é ele - informou-me Jason a apontar seu amigo Samurai.

Samurai era mesmo o apelido de Klebson. Sim, o nome de Samurai era Klebson. Era ele amigo de Jason e ambos chegaram quase que ao mesmo tempo em Itacaré. Os dois eram companheiros de aventuras e desventuras. Onde um vai, o outro vai atrás. 

- Ele é casado com duas mulheres. As duas vivem sob o mesmo teto - disse-me Jason a falar de Samurai.

Minha curiosidade aguçou-se e, com receio de está incomodando ou sendo invasivo, comecei a perguntar detalhes do triângulo amoroso a que estava submetido o sortudo - ou azarado - Samurai de Itacaré.

Estava ele casado há mais de dez anos e já com três filhos quando se envolveu com a melhor amiga da esposa que estava hospedada em sua casa. A até então amante, incomodada com a traição e que rolava já a algum tempo sob o teto e bigodes da amiga, a chamou para uma conversa e contou-lhe tudo. Disse que fora traída, ela própria, por seus sentimentos. Que estava apaixonada pelo marido dela e que iria embora dali a três dias no máximo.  A esposa de Samurai ficou estupefacta com a traição. A conversa, no entanto, rolou em nível cordial.

Samurai não sabia o que fazer. Estava ele apaixonado pela amante e amava a esposa da mesma forma. Mas nada podia fazer. A amante tinha mesmo de ir-se de sua casa. Seu coração estava despedaçado ante a perda. Mas, nada comentou com a esposa e ela não lhe procurou para qualquer conversa ou cobrança ante seu comportamento reprovável em nossa cultura.

Já de malas prontas, a amante estava para ir-se quando foi procurada pela esposa de Samurai que lhe confessou está muito incomodada. Incomodada não pela traição, mas, pelo fato de está perdendo uma amiga. 

Samurai quase não acreditou quando a esposa lhe informou que a amiga não mais iria embora e que ambas haviam entrado em acordo que seria bom para todos. Ambas morariam com ele, debaixo do mesmo teto, porém, em quartos separados. Ele teria de assistir ás duas igualmente. A paz voltou a reinar do grande coração de Samurai. 

Neste momento a segunda esposa e ex-amante de Samurai está grávida. Samurai é mesmo um guerreiro oriental. Quiçá, um felizardo que dispõe, em perfeita harmonia, de duas gueixas que lhe estão sempre prontas a servir. 

- Muitas outras estórias nós poderíamos lhe contar, mas o tempo não nos permite - me informou Jason e mandou que Samurai fosse atender a mesa em lado oposto ao meu.

Eu ficaria ali a tarde toda ouvindo as muitas estórias dessas duas criaturas tão ricas e desapegadas. Mas, só pensava em vir para a pousada e escrever esta crônica. E foi o que fiz! 

Wanderley Lucena





quinta-feira, 26 de abril de 2012

DEOBALDO, O GAZO


- Qual o seu nome? - Perguntei ao simpático e humilde vendedor de cocos na Praia da Engenhoca em Itacaré na Bahia. 

- Gazo - Respondeu ele me abrindo um sorriso prateado por causa da estrutura que lhe fora posta aos dentes depois que um jumento lhe acertou um coice certeiro que o fez perder metade do sorriso. Onde antes estavam os dentes da frente, tanto os de cima quanto os de baixo, cerca de dez no total, fora instalada a placa do metal semiprecioso.

Ocorre que não havia separação entre os dentes artificiais, mas, tão somente uma única placa que, nem de longe, o dentista tentou esculpir a aparência de algum dente. A aparência era mesmo do nordestino que batalha com a coragem e a força dos músculos. O sofrimento estava estampado em seu corpo coberto de roupas pobres, nas muitas rugas que lhe estavam marcadas na face e nas mão calejadas, grossas e ossudas que pareciam de pedra.

Logo mais ao lado uma senhora manca, morena, de sorriso farto e de fácil conversa. Era a vendedora de tapiocas e que, logo, me apresentou como sendo sua esposa. Era manca por ter tido paralisia infantil. O casal se tratava com gentileza e ela fazia questão de enaltecer as qualidades de seu marido, em alto e bom som. Era homem de muito valor, lutador, corajoso, não dado a mentiras, informou-me ela.

- Gazo? - perguntei eu, intrigado com o nome que, provavelmente era apenas um apelido.

- Sim Senhor! Gazo é o meu nome - afirmou ele abrindo o sorriso platinado, reluzindo ao sol.

- Seu nome não é esse. Deve ser apenas um apelido - declarei duvidoso e imaginando que o nome dele deveria ser um daqueles nomes estrambólicos que as mulheres mães nordestinas adoram por em seus rebentos.

 - Mas deve ser muito feio o nome desse camarada - pensei eu, curiosíssimo para que ele me dissesse o verdadeiro nome.

- Meu nome é Deobaldo. Deobaldo Filho - me respondeu ele soltando um baita sorriso que foi acompanhado pelo da mulher manca.

- Devem existir dois Deobaldo neste planeta de meu Deus, este Deobaldo que ora me fala e seu genitor - pensei eu enquanto sorria junto com eles.


- Mas, como que eu vou gravar esse nome "nada a ver"? - indaguei-me certo de que, com minha parca memória, jamais conseguiria me lembrar de tal nome.

- O Teobaldo! É só trocar o "T" pelo "D" - pensei ao lembrar-me do famoso personagem de Guimarães Rosa em "O Grande Sertão Veredas".


Deobaldo me contou muitas estórias naquela tarde. Contou-me que seu pai já fora donos da fazenda onde se encontra a Praia da Engenhoca e várias outras, inclusive, Itacarezinho. Que um mineiro endinheirado chegou e se apossou de tudo por ali e que vendeu as mesmas terras a um grupo hoteleiro português, o Pestana. Ali, no meio da mata atlântica, várias estruturas de concreto imensas, estavam engolidas pela floresta. O grupo pretendia instalar ali o segundo hotel seis estrelas do mundo. Existe apenas um no mundo e está instalado na África do Sul. Diante de tamanha agressão ecológica e à cidadania do povo de Itacaré, Deobaldo, o Gazo, declarou guerra ao Grupo Pestana.

Fez abaixo assinado com milhares de assinaturas dos nativos e dos muitos turistas. Imprimiu panfletos que informavam sobre a agressão ecológica e à comunidade e, ainda, da submissão suspeita das autoridades locais e, de o prefeito ter se vendido ao grupo empreendedor.

Deobaldo conheceu um casal de turistas e fez amizade com eles. Eram desembargadores federais que decidiram comprar a briga de Deobaldo. Entraram com ação na Justiça Federal e embargaram a obra. O orgulho faz Deobaldo inchar o peito e declarar que venceu o elefante sendo ele uma formiga. O grupo desistiu de do mega empreendimento e restam suas carcaças no meio da floresta à beira mar.

Eu me pergunto porque que Deobaldo, o Gazo, não recebeu qualquer menção honrosa da Câmara de Vereadores de Itacaré. Ele deveria virar nome rua, ser estátua em praça pública. Sua estória deveria entrar para os anais de Itacaré e ser ensinada nos colégios.

- Há! Se o Brasil tivesse mais Deobaldos! Eles podiam ser brancos, negros, indios, mamelucos, pardos  ou gazos... mas tinham que ser "deobaldos" - pensei eu enquanto fazia a trilha de volta para a pousada -

Wanderley Lucena







quarta-feira, 25 de abril de 2012

ITACARÉ É TUDO DE BOM!


Itacaré na Bahia é mesmo tudo o  que já eu já tinha ouvido falar e tudo o que já havia visto pelas fotos. O lugar é um paraíso na terra. As praias são de beleza ímpar e o mar azul turquesa faz qualquer um perder o fôlego. Os nativos do lugar são super simpáticos e você poderá ficar horas conversando com eles. Aqui é a Bahia e tudo é meio malemolente e até tempo é parece mais lento. 

Tem tapiocas recheadas com tudo o que você possa imaginar. Mas tem uma com carne seca que eu indico. Mas prefiro a que leva apenas manteiga. Peço sempre um café preto para acompanhar. Me faz lembrar minha mãe, minha terra, minha infância. São todas deliciosas de qualquer forma.

A vilinha de Itacaré, à noite é um charme. Restaurantes charmosos e atraentes servem deliciosos pratos e fazem disso aqui um dos maiores polos gastronômicos do Brasil.

É bem verdade que é baixa temporada e a cidade não está abarrotada de turistas e as coisas todas, inclusive, as pousadas e hotéis são bem mais baratos. O hóspede é disputado a tapas nesta época. 

Chegar às praias é emoção à parte. Sempre se tem de enfrentar as trilhas dentro da mata atlântica e você poderá colher cacau e comer. Aqui isso tem como goiaba por ai - cai de podre. Na paradisíaca praia de Jeribucaçú você poderá tomar uma deliciosa caipirosca  de cacau feita pelo nativo Delei. Servida dentro da casca do cacau. Pense num negócio bom!

Wanderley Lucena

segunda-feira, 23 de abril de 2012

JAÍZA, A HIPOCONDRÍACA DO MARINA PALACE

Jaíza é, talvez, a pessoa mais espirituosa que já conheci. Está em sua companhia é garantia de risadas abertas, de se ficar sem o fôlego com suas "tiradas" inteligentes e humor sarcástico, apurado, inteligente.  Característica que alguns viventes, muito de vez em quando, são agraciados por alguma fada madrinha que abençoa com algum talento único. Ocorre que ela, além de ser tudo isso, acompanha-lhe um destabalhoamento que, na verdade, é tempero único de uma personalidade interessantíssima. Certo é que a minha Jaíza não traz prejuízos a ninguém com seu estilo, muito pelo contrário, embeleza a roda de amigos e faz todo mundo não querer ir embora.

Minha amiga Jaíza hospedou-se no Marina Palace, hotel cinco estrelas do Leblon, depois de ter feito a reserva e achar que ia lavar a égua aproveitando-se das mordomias que o dito hotel dispensa aos seus seletos hóspedes. Ocorre que o luxo todo foi virando inferno quando, na hora de cair nos braços de Morfeu, em lençóis de fio egípcio, descobriu ela que o andar quase todo estava em reforma. Martelos, britadeiras, esmeris, furadeiras, etc... era o que se ouvia. Nada do silêncio dos justos ao qual merecia Jaiza.

Jaíza tomou suas gotas dobradas de rivotril, colocou tampões aos ouvidos, enfiou-se debaixo do poderoso edredom e... nada. Possessa ela ligou para a recepção.

- Moço aqui é a hóspede da suite 402. Ocorre que não consigo dormir com todo o barulho da reforma à qual não fui informada quando fiz a reserva - reclamou ela indignada e tentando manter a pose.

- Nada podemos fazer, minha Senhora! - Foi a resposta do funcionário.

- Escuta aqui moço, o Senhor não sabe quem eu sou! - Respondeu ela, receosa que ele procurasse saber quem era ela.

Mas foi com voz de madame indignada que lhe falou. E Jaíza é mesmo mulher fina, mas, até onde eu sei, não tem o sobrenome Matarazzo na sua identidade.

- A senhora trabalha com o quê? - perguntou o insolente funcionário.

- Eu sou rica, meu Senhor! - disse ela tentando segurar o sorriso descontrolado - ...e minha Carteira Profissional é meu cartão de crédito! - complementou.

E Jaíza não quis mesmo humilhar o funcionário. Era apenas a sua espirituosidade aflorada que a fazia agir como se personagem nelsonrodriguiana.

- Um momento, Senhora! - Pediu o funcionário mudando o tom da voz.

Algum tempo depois o telefone tocou.

- Senhora, colocamos à sua disposição e de seu esposo, a suite presidencial de nossa outra unidade hoteleira. Sentimos pelo transtorno e esperamos ter compensado o aborrecimento.

Jaíza não acreditava. Disponibilizaram-lhe a suite destinada aos presidentes, príncipes, etc... e aos Matarazzo. Saltitou incontrolavelmente e  soltou um grito que deixaria o Hitchcock assustado. Sua felicidade não cabia em si. Depois de um jantar romântico com o maridão, dormiu como se rainha fosse.

Mas o marido levantara-se mui cedo para cuidar de encontros de negócios. Jaíza ainda sob o efeito do rivotril, ouviu seu marido dizer-lhe algo incompreensível e colocar-lhe à palma da mão, algo que ela pensou ser algum dos seus comprimidos que tomava para a enchaqueca crônica. Jogou-o de um golpe à boca e o engoliu. O troço desceu seco, rasgando-lhe a garganta. Ela passou a mão ao copo d'água que se encontrava no criado mudo e tomou-o quase todo.

Já de tarde quando o marido a encontrou na piscina e perguntou-lhe se estava bem. Ela respondeu-lhe que a maldita enxaqueca não aparecera até aquele momento, Que tal fato só podia se dever ao comprimido que ele lhe dera antes de sair da suite. 

- Que comprimido? - Perguntou ele boquiaberto - não te dei nenhum comprimido.

- Como assim? - Indagou ela curiosa e já na certeza que era mais uma das suas loucuras.

- Coloquei em sua mão o botão da blusa que você usou no jantar e que encontrei solto, caído no tapete.

- Jesus! Engoli o botão achando que era comprimido. Mas funciona pra enxaqueca! - Asseverou ela em tom debochado. O que se ouviu foram as gargalhadas soltas que só ela  sabe dá.

Esqueci de perguntar à minha amiga se recuperou ela o bendito botão que cura enxaquecas. Mas, d'outra feita perguntarei.

Wanderley Lucena






segunda-feira, 16 de abril de 2012

A CATAPULTA

Por vezes, nos lançamos de cabeça em direção ao desconhecido. Por vezes o fazemos, não por escolha, mas, por impulso. Noutras vezes, somos é obrigados mesmo. A vida nos lança como se fora ela uma poderosa catapulta. Não sabemos o vai nos aparar do outro lado. Talvez um muro de pedras ou as águas calmas, mansas e acolhedoras de um lago. Certo é que o vôo fica mais fácil se tivermos asas. E alguns de nós já nascem com asas.

Alguns de nós a têm a capacidade de lidar com as adversidades com maestria impressionante. São eles tão desapegados que me causam inveja. Não fazem questão de luxos ou confortos. Saem sem hora pra voltar e alguns nem voltam. Não se prendem a conceitos e, desprovidos de preconceitos, se lançam para a vida, para o mundo.

Queria eu ser um deles. Um hippie cabeludo e pé descalço. Mas não o sou. Eu sou um desses que não tem asas. Quiçá, as minhas foram quebradas em algum acidente psicológico. Entretanto, não sou do tipo que se entrega fácil e se engana quem pensa que sou frágil. Já levei muitas quedas e nenhuma delas me matou. Se sai ferido, machucado, logo me sarei e tornei mais forte. Se não tenho asas improviso uma asa delta, um pára-quedas, etc... E na falta de qualquer apetrecho que me auxilie a um pouso tranquilo, me deixo nas mãos da providência divina. Mas, não fico resistindo ao impulso inevitável que é viver.

É com medo que me lanço. É começar de novo. Levo meu pára-quedas e mala cheia de lembranças passadas e minha experiência. Levo pouca bagagem para que não me pese durante o vôo. Espero pousar em campos floridos ou em riacho paradisíaco. Mas se pousar em paisagem mais agreste... eu a domarei e a transformarei. Senão... a ela me adaptarei e passarei desapercebido a quem olhe desatento. Mas lá me fixarei e criarei minhas raízes até que as arranque e me lance em novo vôo.

Wanderley Lucena


sexta-feira, 13 de abril de 2012

DE MALA E CUIA

Apenas mais uma semana e me mando de mala e cuia rumo a João Pessoa. Sequer conheço a capital paraibana, entretanto, me vou cheio de esperanças e sonhos. Ali sedimentarei outra etapa de minha vida e, com a ajuda de Deus, serei ainda mais feliz e, com suor, serei muito bem sucedido.

Brasília me deu o que sou. Minha vida mudou radicalmente desde que aqui cheguei ainda impúbere. É certo que não me foi fácil. A luta foi árdua e muitas lágrimas rolaram pelo caminho. Mas cada uma delas me traziam a certeza da vitória. Foram elas, as lágrimas, que me fizeram valorizar tudo o que consegui. Se as lágrimas rolaram pelo sofrimento hoje elas podem até vir, mas, com um baita sorriso em minha cara lavada. Com cara e alma lavada, sim senhor! Me vou leve, lindo e solto! Que a Paraíba me seja tão pródiga quanto me foi a capital federal.

Vou-me de mala e cuia. Com a mala cheia de esperanças. Sim Senhor! Vou cheio de sonhos, mas, com os pés no chão. Vou com a coragem paraibana, embora, não o seja de nascença. Que venha o leão! Estou pronto para o que der e vier. 

E não me venha dizer que vai sentir saudades. A passagem aérea tá tão barata que não tem porque senti-la. Te espero em minha casa. 

Beijos meus amados amigos! Beijo Brasília! Obrigado por tudo e por todos!

domingo, 8 de abril de 2012

VACAS BAIANAS

Acordar cedo para sair com meu cachorro que precisa se aliviar urgente. Aproveitar para comprar pão quentinho e cheiroso na padaria do outro lado da rua. Na volta, pará na banca de revistas e ver as manchetes dos jornais que nunca deixam de me indignar. Política podre, violência descabida, corrupção, etc... são as manchetes. Mas um vento frio e úmido me reportou a outras paisagens. Paisagens do sul, da Europa. 

Em casa a chaleira foi posta a esquentar a água do café e depois de alguns minutos e assobio fino do vapor a sair pelo bico do dito utensílio doméstico me fez refletir que os elementos naturais, fogo e água, são manifestações da vida que vai muito além e independente da minha própria vida. Elementos naturais que existem desde que o mundo é mundo e que, com certeza, existirão em outros planetas, quiçá, em ebulição ou não. 

O cheiro do café. A manteiga a ser passada sobre a fatia do pão. O leite que apesar de ter sido comprado no mercado, estrategicamente engarrafado em boteja atraente para atrair o consumidor, em primeira análise, me foi, generosamente, fornecido por Dona Vaca. Mas o rótulo da garrafa de leite me informa que o leite que se encontra em seu interior é orgânico e que a ordenha se dá sem que as vacas, de origem holandesa, se estressem. Que a fazenda fica na Bahia e que o pasto consumido pelas vacas é devidamente protegido de qualquer contaminação de produtos químicos. Fiquei imaginando as vacas deitadas em redes baianas enquanto os profissionais lhes faziam massagens em suas tetas e lhes faziam a ordenha. Um exagero de cuidados que pretende me trazer qualidade de vida e que me custa uma "baba" de dinheiro. 

O dia será de sol. Menos seco, haja vista, a chuva leve que caiu durante a noite. Um alívio ante o calor que fazia. Tive tomar um banho frio para que pudesse dormir. É a vida que late. E de tão latente não posso negar que nas pequenas coisas, muitas delas, imperceptíveis por causa da rotina, percebo a pujança pulsante que deve ser agradecida solenemente ou em alaridos de alegria descontrolável. Que até na minha imaginação fértil de imaginar as vacas leiteiras baianas, a biologia se manifesta em vida através do meus neurônios. Que bom que é viver!


Wanderley Lucena

terça-feira, 3 de abril de 2012

OS DESIGREJADOS


Desigrejados? É um novo termo, uma nova palavra. Eu devo ser um desses desigrejados. Desigrejado por não pertencer a nenhum ajuntamento de doentes. Desigrejado por está convicto que o amor de deus, ao menos o da Bíblia, é totalmente condicional. Nada tem de incondicional. O caminho é estreito e difícil - diz a Bíblia. Muitos são chamados e poucos são escolhidos - e por ai vai. Prefiro ser um doente, um desigrejado... a está no imenso hospício de doentes que virou a igreja. Qaunto mais doentes juntos, maior a contaminação. É certo que todo hospício, hospital, nosocômio, etc... tem seus cuidadores e depende deles a assepsia. E quanto maior a assepsia, maior a cura. Não vejo assepsia nem cuidadores nos tais ajuntamentos de doentes das tais igrejas - com algumas raras exceções. Vejo líderes loucos que gritam e sobem no batente ao se dizerem os donos da verdade, os iluminados. Vejo um bando, ainda maior, de loucos e que se submetem ao discurso de tais líderes insanos e ladrões. Falta-nos o amor. Falta-nos tudo, até o bom senso. Se reconhecer-se carente da misericórdia de Deus que pode até não ser o da Bíblia - é ato pedante ou um lapso... bem... depende do coração de cada um. E o coração de cada um ninguém é capaz de enxergar. Cada qual que carregue a sua cruz. Eu carrego a minha. E no meu lapso egoísta e desdenhoso de não fazer parte de tal ajuntamento de loucos, Deus o sabe, preciso mesmo é da Sua misericórdia. Acredite ou não nas minhas palavras!

Wanderley Lucena





quarta-feira, 28 de março de 2012

O EQUILÍBRIO DISTANTE


Malho todos os dias, há anos. Além de pegar pesado nos ferros, levantar muito peso, encaro a esteira de corrida e, por meia hora, botando os bofes pra fora, suo igual chaleira,  numa corrida acelerada que, apesar de tudo, não saio do lugar. Meus pulmões em busca de ar e meu coração a bombear, acelerado, sangue para todas as extremidades do meu corpo. Os músculos, em perfeita mecânica, obedecem o comando do cérebro e se esforçam em esticamentos dolorosos. 

Mas, o ambiente "academia" me lembra muito o de uma masmorra. Não que eu já tenha visto alguma. Não ao vivo e à cores. Mas as fotografias, a história e os filmes nos fazem ter uma noção das torturas ocorridas nos calabouços ao longo da história da humanidade. Muitas foram as máquinas inventadas conforme a criatividade maléfica de quem queria torturar. Mas as máquinas lembravam, em muito, as máquinas que vejo nas academias. E se for falar dos studios de pilates... aquilo é tortura pura. 

Mas sem a tal malhação, sem todo o suor, sem puxar tanto peso, perde-se qualidade de vida. O bucho já me teria impedido de ver a púbis e os pneus estariam parecendo uma boia atracada à cintura de quem se joga à piscina sem saber nadar. As taxas de triglicérides, colesterol, açucares, etc... etc... etc... já estariam na estratosfera. 

Graças a tanto esforço, cá estou... inteiro aos 46 anos. Uso o mesmo numero de calça e camisa dos meus 20 anos e a barriga continua sendo uma barriga e não um bucho. Levo minha vida sem grandes excessos. Controlo minhas farras ao limite do bom senso que permite minha idade - e nem entrei na terceira idade, todavia! Como o mais saudável possível - estou na onda dos produtos orgânicos. E como custa caro comprar na prateleira dos orgânicos - o dobro ou triplo das demais mercadorias.

E é graças a tanta tortura que mantenho um outro equilíbrio. O mental-espiritual ou espiritual-mental, como queira. Não sei... mas me sinto mais em paz depois de ter feito tanto esforço. Sinto que o esgotamento, o suar às bicas, me faz emergir das profundezas de algum estado de hibernação e me lança para o amanhã num otimismo e bom humor que... não sei se sem ele, o esgotamento, eu teria.

Mas como seria bom se quanto mais eu comesse eu emagrecesse; se quanto mais eu ficasse parado meus músculos se definissem; se enquanto eu dormisse todas as taxas de gorduras, colesterol, triglicerídios e etc... e tal... se equilibrassem. 

Certo é que "tudo que eu gosto é ilegal, imoral, ou engorda!" - uma merda mesmo! Tudo em nome da saúde e da beleza. 

Wanderley Lucena

quarta-feira, 21 de março de 2012

POR LA REVOLUCIÓN

 
A guerra, nada santa, agora é entre a Igreja Universal e a Mundial do Poder de Deus. Edir e Waldomiro e digladiam em rede nacional. A disputa é pelos fieis que debandam da Universal rumando para a Mundial. O Edir acusa o Waldomiro de ser ladrão e contrabandista de armas e de ter ficha policial. E é a mais pura verdade mesmo.

Ora veja! Logo o Edir. O Edir! O sujo falando do mal lavado. O Edir já foi processado inúmeras vezes e todos lembram dele atrás das grades com a Bíblia na mão a posar para as fotos enquanto seus fiéis oravam para que ele fosse solto. Ele foi mesmo solto. Mas não foi por causa das orações dos incautos fiéis e sim por causa dos advogados, pagos a peso de ouro, com o dinheiro dos dízimos e ofertas destes mesmos fiéis incautos. Mas a imagem que mais me agride, no entanto, é a PresidENTE recebendo o Edir no Palácio do Planalto. Me causa náseas!

Enquanto isso a igreja permanece orando passivamente. Esquecem que o que pedem e esperam de Deus, Ele já lhes deu: o discernimento, a capacidade de fazer justiça com a próprias mãos, justiça com os instrumentos  legais à disposição etc... Bando de cabrones covardes que não se indignam ao ver os humildes a serem explorados em sua ignorância. Jesus acoitou os que fizeram do templo mercado, esqueceram?

Eu vos digo: façam a revolução! Saiam de vossas igrejas e procurem os tribunais! Peguem em armas se preciso for! Mas não sejam covardes, nem esperem que Deus faça o que lhes é devido. Vós sois os instrumentos que Deus quer usar.

E vocês, ovelhas tosquiadas, se escondem covardemente a esperar que Ele mande um raio que venha a cair bem na cabeça do Edir e outro na cabeça do Waldomiro. Francamente! Acordem bando de covardes!

"Vós sois o sal da terra".

Wanderley Lucena

terça-feira, 20 de março de 2012

MINHA CARGA DE MANIAS

 
São tantas as manias que adquiri com o tempo. Mania de molhar os pés a todo instante; mania de ter o ventilador ligado em cima de mim por todo o dia e noite - aliás, se pudesse, baixaria a temperatura em cinco graus; mania de falar sozinho - e por vezes xingo e esbravejo, em alto e bom som; noutras faço uma oração; noutras pronuncio o nome de quem estou a pensar.

Mania de limpeza - não gosto de louça na pia, de ver pó no chão ou nos móveis; não suporto pentelhos espalhados no chão do meu banheiro; mania de tirar pelos das orelhas e do nariz também - e com idade eles, os pelos, só aumentam. Tenho mania de tomar café feito na hora - talvez porque o café engarrafado tem sabor velho ou por causa da minha gastrite; Mania de escrever - e postar neste blog. 

Muitos deveres me foram impostos pela vida. É claro que poderia simplesmente renegá-los, mas, se o fizesse, bem sei... minha vida seria menos saudável, menos organizada. Todos os dias sou obrigado a malhar - e isso significa pegar pesos e correr meia hora, botando os bofes pra fora, numa esteira mecânica que foi projetada pra me oferecer maior conforto e fazer da minha corrida mais macia e fácil, no entanto... Mas, as obrigações não são manias.

Sou obrigado a separar contas a pagar das que já foram pagas; recibos e notas; imposto de renda; manuais e apólices - haja pasta e gaveta pra guardar tanta coisa!  

Mas gosto cada vez mais das minhas manias. Estou cada vez mais tolerante comigo mesmo e com o próximo também. É verdade que a idade nos aguça a percepção, talvez pelas repetições de situações. De longe, sei se vale a pena ou não, perder meu tempo com determinado indivíduo. Adoro um bom colóquio. Gosto de conversar sem o ruído da discórdia agressiva. Gosto de discordância e acho que é ela quem nos acrescenta o que ainda não sabemos e pode nos fazer ver o assunto por outro ponto de vista. Acho difícil e irritante conversar com ignorantes, impacientes, pré-conceituosos e, ainda, quem pensa ser o dono da verdade e se põe a falar inflado, crendo está em posição superior. Se o colóquio não foi agradável... perdi meu tempo. Mas, se a conversa for em um bar charmoso - mais uma de minhas manias - com uma cerveja gelada, meu limite de tolerância pode, tranquilamente, pode ser expandido - ou não! 

Gosto das minhas manias e suporto minhas obrigações. Minhas manias me são leves, já as obrigações, embora, essenciais à sobrevivência, são um saco! É isso!

Wanderley Lucena

sábado, 17 de março de 2012

ESPANTA ENCOSTO


Uma peste! Um torcicolo me atormenta a três dias. Já tomei o Torsilax que sempre resolveu o problema, mas, que desta vez... não tem qualquer efeito. Massagens com Gelol, banhos quentes e compressas. Nada! Impede-me relaxar. E dormir é uma tormenta. Ouvi dizer que pode ser carência de vitamina D. Para mim é coisa da idade mesmo. Mas, a Vitamina D se encontra aonde? Eu que tomo o complemento vitamínico com alguma frequência penso está com tudo balanceado. É bem verdade que, apesar da complementação artificial de vitaminas, sinto que as coisas já não mais estão como dantes. Tudo insiste em cair.

Não encontro posição para sentar, para deitar, etc... Maldito torcicolo! Parece que tem uma estaca cravada bem no meio das minhas costas. Levantar da cama hoje cedo me fez lembrar do tempo em que carregava o cofo de milho nas costas desde a roça para casa. Me sinto entrevado. 

Pode ser um "encosto", haja vista, meu estado de evolução espiritual ainda está bem aquém e me deixar susceptível a tais forças.  Já acendi uma vela de sete dias, botei um incenso para queimar, chamei a faxineira para limpar a casa e joguei um sal grosso depois de uma oração daquelas de espantar até Curupira.

Wanderley Lucena


sábado, 3 de março de 2012

MIGUÉ, ONOFRE E ARMANI


- Ocê quer arco, quer tarco, ô quer cu mui - pergunta o Migué barbeiro lá pras corrutelas do Pernambuco.

- Você vai quer com álcool, com talco ou quer que eu umedeça? - Pergunta o elegante barbeiro na Barbearia do Onofre, no Planalto Central.

- Óh o aio ai ó! hó o aio ai! - grita o vendedor de cordas de alho em frente à barbearia do Migué.

- Olha o alho! Quem vai querer comprar alho - é aveludada voz de Silvio Santos impostada do vendedor de alhos na Barbearia do Onofre.

- Me dexe bunito pra pudê pegá muié lá no Buraco Quente - diz o cliente de Migué ao informar que o trato é intencional e que vai se divertir com as mulheres da zona da corrutela.

- Capriche ai que hoje vou na Star Night - é o que diz ao barbeiro o cliente que vai à boate do Setor Comercial.

- Passa o redondo e a féria do dia - anuncia o assante de peixeira na mão a pontar para o velho relógio Seiko do Migué e para a gaveta onde estavam as moedas ganhadas por todo o dia de trabalho.

- Cadê meu relógio? - Se pegunta o barbeiro do Onofre ao perceber que o cliente com cara de deputado lhe surrupiara o Armani depois de furtar o caixa levando umas centenas de reais.

Wanderley Lucena


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CALOR, ANDROPAUSA E SÃO PEDRO

Ontem achei o dia, por demais, quente e abafado. Entretanto, hoje, parece ainda mais quente. É verdade que corre um vento fresco que, no entanto, não consegue me tirar a sensação de que estou dentro de uma cuscuzeira. Suei como uma chaleira ao fazer meus exercícios físicos do dia. O ar-condicionado, tampouco, dava conta de dissipar o calor na academia.  

A meteorologia informou, ainda, na data de ontem, que uma chuva torrencial iria cair sobre o centro oeste. Esperei a olhar o céu com constância ansiosa. Uma nuvem aqui, outra ali, mas, nada que pudesse parecer o dilúvio anunciado pela meteorologia. Até agora, nenhuma gota quis dignar-se a precipitar-se sobre o planalto central. 

Resta-me entrar para debaixo do chuveiro e tomar um banho frio atrás do outro. E mais: todos os ventiladores estão ligados e uma moleza, uma malemolência do cão, me fez passar a tarde inteira dentro do meu quarto. Penso que pode ser a tal da andropausa, a versão masculina da menopausa. Pode até ser, mas, ouço todo mundo a reclamar do calor infernal que faz por esses dias. 

Tomara que tenha um computador no céu e que São Pedro, num desses acasos que ocorrem a desocupados como eu, numa busca no google, passe pelo meu blog e leia esta crônica e, com a benevolência que lhe é inerente, abra as torneiras do céu e me conceda uma chuva daquelas de molhar os regos. Tomara que ela caia durante a noite e que os pingos sejam enormes e que me acordem do meu sono. Que o vento fresco e úmido entre pelas janelas e, com as cortinas a balançar, levem todo esse calor que me sufoca o corpo e o ambiente.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

ACABOU O CARNAVAL

Hoje fui malhar como de costume. Dei de cara com a academia fechada. É quarta-feira de cinzas e a ressaca institucionalizada manda que os afazeres e obrigações comecem depois do meio-dia. Eu havia me esquecido disso. Voltei para minha casa com a certeza de ser mesmo um privilégio nascer em país tão festeiro. Qualquer tropeção por aqui é motivo de baile. É festa demais. Parece que ninguém tem contas a pagar, filhos pra criar, esposa ciumenta, etc... A obrigação é travestir-se em fantasia e viver, em mundo de maravilhas, a  ilusão ser de rei, palhaço, Arlequim ou Colombina.

Os dentes podem está careados, pode ser que nem mais tenha dentes na boca, mas o sorriso, sempre aberto, é sincero. É o sorriso da satisfação, do êxtase. E quanta gente desdentada nas baterias das escolas de samba!  E são eles que a câmera faz questão de pegar em close. O puxador do samba leva cordões e pulseiras douradas - provavelmente aquilo é ouro - mas  o sorriso... uma imensa banguela a cuspir no repórter que, sem guarda-chuvas para proteger-se, mantinha a devida distancia com o braço estirado ao levar o microfone até o entrevistado.

Não importam as contas a pagar. Importa é brincar. E que coisa linda que vira o Brasil continental, todo colorido, todo sorrisos - banguelas ou não - a brincar o carnaval. E atrás do bloco "só não vai quem já morreu".

Pena que sempre chega a quarta-feira de cinzas e leva tudo. É esperar o próximo carnaval. Agora é realidade de novo e... meus Deus! Quantas contas a pagar! Quero que seja carnaval o ano todo. Tem jeito?

Wanderley Lucena