sábado, 24 de dezembro de 2011

O CAFÉ DE BODOCONGÓ

Quando li o valor da conta quase não acreditei. Tive a sensação de que aquilo me estava sendo cobrado em libras, quiçá, em euro. Mas não! Eu ia pagar na nossa moeda, o Real. Mas aquilo estava irreal. Perguntei ao caixa se aquilo estava certo. Se era mesmo aquele o valor a ser cobrado. Sim, o valor era aquele mesmo. Me senti no primeiro mundo. Um café com chantily, um pão de queijo e uma água não podiam custar dezenove Reais. A não ser que fosse no Café de la Paix. E lá nem tem pão de queijo e sim um croissant dos deuses e não essa coisa ressecada que comemos aqui na terra das bananas. Se não saímos do terceiro mundo, eu fui assaltado com certeza e recibo. 

Uma semana depois deste fato, fui a outro café. Esse um pouco mais intimista, mais chique e até o nome era francês. Pedi de meu café com chantily, um porção de três churros minúsculos acompanhados de uma irrisória porção de doce de leite e uma água não gasosa. Novamente tive a mesma sensação. Paguei vinte e um Reais por aquilo. O chantily nem era tão bom, me veio separado numa pequena tigela, e o doce de leite  era só uma gota perdida no pequeno recipiente e nem era lá essas coisas no sabor.

Sou viciado em café e isso todo mundo já sabe. Mas um expresso, mesmo que colhido pelas monjas cegas, mancas e castas do mosteiro de Bodocongó, a meu ver, não poderia custar mais que três Reais, a preços de hoje. Mas o pior é uma água que foi engarrafada numa torneira qualquer me custar cinco ou seis Reais. Uma coca-cola que é formulada com trezentos milhões de compostos químicos, não custa o preço do expresso ou da água, então como se pode cobrar  cinco reais por uma garrafa minúscula do líquido vital e que corre abundantemente, aos rios, pelo nosso país continental? A mesma água pode ser tomada de graça no bebedouro do mesmo shopping. Água não devia ser vendida neste país. Na Europa, onde já se vive a escassez, garrafas de água são postas, gratuitamente, na mesa de quem pretende almoçar ou jantar.

A solução, no meu caso, é montar, eu próprio, minha cafeteria em local que faça fundos com um rio. Vou tomar meus expressos colhido pelas mesmas freiras a preço de custo e, ainda, ganhar dinheiro vendendo água a preço de ouro e, fartamente, oferecerei, de graça, água a quem o queira. Mas, certo é que algo está errado. E é meu salário! Apenas ele, insista em ficar terceiro-mundista.

Wanderley Lucena

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

SONHOS SONHADOS

Ontem á noite sonhei um sonho engraçado. Sonhei que sonhava um sonho. E nunca tinha imaginado que se pode sonhar que se está sonhando. No meu sonho sonhado me aparecia alguém que me dizia me está vindo em sonho para que eu avisasse a um parente seu que ele, o parente, iria morrer. Acordei atônito e me levantei, meio que em transe, e me fui lavar a cara. Voltei á minha alcova e, de novo, sonhei. Sonhei que estava ante o parente e que não tinha coragem de dizer-lhe que havia sonhado o sonho no qual algum parente seu lhe avisava de sua morte iminente. Nesse segundo sonho, me lembro, fiquei na dúvida se havia mesmo sonhado aquele sonho e se ele era digno de credibilidade. Sonhos são só sonhos. E sonhos que são sonhos de sonhos devem ter menos importância ainda. Quando acordei do segundo sonho, encafifado, fiquei a pensar em quantos sonhos dentro de sonhos eu havia sonhado. Não sei quem que me aparecia no sonho, nem a quem deveria avisar de alguma morte. Entretanto, nessa semana, pura coincidência, morreram Cesária Évora, Sérgio Brito, Joãozinho Trinta, Rodolfo Bottino e um mequetrefe chamado Kim Jong-il.

Wanderley Lucena

Promessa



Vontade de partir
de começar de novo
começar diferente.
Vou sair sem hora para voltar.
Preciso de mais espaço
de novos horizontes
de objetivos claros.
Talvez nem volte.
Volto pra te visitar.
Prometo!

Wanderley Lucena

CUIDADO COM O QUE PENSA


Por vezes...
leio pensamentos.
Cuidado com o que pensa na minha frente!
Será que lemos?

Wanderley Lucena

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CHUVA, LENÇÓIS E MARASMO.


O marasmo, o ócio, a inércia. Dia de chuva, de frio, de ficar debaixo dos lençóis, coberto dos pés à cabeça. Sem atender interfone, campaínha, telefone. Por mim não levantaria da cama hoje. Ficaria sentindo o cheiro do confort do edredom e o carinho do algodão em minha pele. Mas... meu café. Preciso de café. Tenho de levantar ou o vício vai me fazer mal humorado. Enquanto preparo o café ligo a tv. Tv a cabo. Centenas de canais e todos parecem repetir as mesmas programações. Nos jornais... notícias repetidas sem cessar.

Mas... mortes... muitas mortes. Quanta morte! Quanta perda! Isso é pura coincidência, um acaso. Mas chama a atenção. Jãozinho Trinta, Sérgio Brito, Cesária Évora. Mas a última, confesso, é para se comemorar. O mundo ficou melhor com a morte de Kim Jong Il, o pigmeu que era dono da Coréia do Norte. É bem verdade que no lugar dele pode surgir alguém ainda pior.  E na arte da maldade o ser humano é sempre capaz de superar-se. 

Mas... e a Cesária? Quem a substituirá? E o Sérgio Brito e sua maestria com a cultura? O Joãozinho Trinta, meu conterrâneo, e sua criatividade para fazer coisas grandiosas? Para esses não haverão substitutos. Uma ironia da vida. Os bons são insubstituíveis, já os maus...

Fica ao menos o legado dessas pessoas. Eu sempre ouvirei a Cesária na minha casa. A obra deixada pelo Sérgio será sempre lida e muitos se mirarão nele para tentarem criar um teatro cada vez mais significativo e criativo. O legado do Joãozinho vai ficar nas imagens e no ensinamento por ele passado aos seus muitos discípulos.

Que o natal e o ano novo cheguem com notícias melhores. E o ócio, a preguiça, o marasmo, a melancolia... hahhh!!! Servem pra escrever bobagens como esta.

Wanderley Lucena

sábado, 26 de novembro de 2011

PRAZER INENARRÁVEL

Quando cheguei ao Palácio de Versalhes já tinha passado do meio-dia. Eu não estava mesmo à fim de entrar no Palácio. Não só porque já o conhecia, mas porque meu grande interesse dessa vez eram os jardins. Ademais estava querendo me recolher um pouco. Estava interessado em andar sem pressa pelos famosos jardins aos quais eu não pude explorá-los como gostaria quando de outra feita. E foi o que fiz. Fui direto para os fundos do belíssimo Palácio e sai andando, sozinho, sem pressa, sem rumo, porém, dentro dos limites do gigantesco jardim. De tão grande, o Rei Sol caçava raposas nele. Os lagos artificiais lhe serviam de mar onde brincava de guerras em barcos de verdade. São imensos os lagos daquele jardim.

Encontrei muitas estátuas e cenas reproduzidas em  tamanho bem maior que o natural. Dragões imensos que saiam da água e Netuno a dominar cavalos que aparecem no espelho d'água como viessem de outro mundo. Medusas, Nefertites, Venus, Eros, cavalos, aves e todos os seres imagináveis. Todas as alamedas repletas de tais estátuas e cenas dramáticas me faziam sentir pequeno. 


No chão, as folhas amareladas, típicas do outono, eram levadas pelo vento ou serviam para amaciar o chão das muitas pessoas que, sobre ele, decidiram fazer seus pic-nics. O farfalhar das folhas, o uivo do vento ou o canto dos passarinhos eram os sons que me chegavam ao ouvido. O vento era gelado e parecia querer congelar minhas orelhas e nariz. Tudo me fazia ter a certeza de que me encontrava bem longe de minha casa, do Brasil e de nosso clima tropical. Me senti só. Fora isso que eu buscara e o resultado era o esperado. Entrei em contato comigo mesmo. E isso era muito bom.

Em uma tarde não se explora o jardim, haja vista, o seu tamanho. Aqui e acolá eu via algumas pessoas andando de bicicleta e quase não acreditei quando vi um quiosque que as alugava.  Montei a minha bike e sai rumo aos fundos do jardim. Lá pude encontrar pedaços de floresta, ainda virgem, pressuponho. Tive receio de perder-me mas continuei até que cheguei aos limites do jardim quando se encontra uma cerca e logo após ela, uma pista de asfalto.

Cruzei-o de uma ponta à outra, de canto a canto. Fui aos lugares mais recônditos e... quanta descoberta! Mas o melhor era que eu estava ali sozinho, quase que em retiro de algumas horas. Entrei em contato comigo mesmo e fiz reflexões. Ali tomei decisões que, provavelmente, serão para toda a vida.

Voltei ao palácio pela lateral e tive de encarar uma subida de algumas dezenas de degraus, com a bike no ombro. O tempo estava gelado e eu aproveitei o exercício para me aquecer. De novo estava no Palácio e desci pela alameda central até o grande lago onde devolvi a bicicleta.

Um prazer inenarrável!

Wanderley Lucena




quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O GARÇOM DA MOUFETARD

Saímos do Hotel Confort in, na Rue Muffetard, no Quartier Latin de Paris à busca de um restaurante para jantarmos. A dita rua está lotada de charmosos restaurantes e lojas de souveniers. Não andamos muito, na verdade. Bem próximo do dito hotel, entramos no Le Jardin d’Artemis. O restaurante seria só mais um como qualquer outro não fosse a aparência de Mortícia do único garçom no pequeno restaurante. O ambiente era pequeno mas muito confortável e acolhedor. 

Tinha muita coisa para se olhar no pequeno restaurante, desde fotos em preto e branco a enfeites que boiavam dentro de taças cheias de algum líquido não identificado que ficavam sobre as mesas. Mas a atenção de todos se concentrou no garçom. Ele tinha dentes desalinhados em boca protuberante e que naquela luz indireta não foi possível perceber se a cor preta no esmalte era mesmo pura cárie ou algum efeito de sombra da pouca luz. 


No topo do corpo esquelético, a pequena cabeça tinha cabelos em fio reto partidos ao meio e postados, propositadamente, por trás das orelhas e lhe desciam quase até a altura dos ombros.  As mãos magras mostravam, nos dedos ossudos, anéis de preço e gosto bastante duvidosos. O uniforme preto lhe caia de cima abaixo completava a figura que estaria perfeita em um desenho macabro de Tim Burton. Vez por outra ele saia repentinamente do restaurante e se postava do lado de fora como se tivesse percebido algo que não poderia deixar de ver.  Lembrou-me em muito a um flamingo em sua busca atenta por alimento.

O garçom trouxe os pedidos um a um. Entretanto... que suplício! O moço parecia ter o mal de Parkinson. Tremia o prato como se os mesmos fossem derramar a qualquer momento no colo de algum de nós. Deixei todo mundo estarrecido ao pedir um expresso a ele. O café foi servido com o suspense de um filme de Hitchcock. Aparei a xícara quando ela tremia como uma flâmula bem abaixo de meu nariz antes o líquido quente me causasse algum estrago na virilha.  Que suplício, meu Deus!

Antes disso, porém , o vinho desceu muito bem e foi ele que me fez sentir meio tonto ao levantar-me da mesa. Já na porta de saída do estabelecimento, procurei a maçaneta para abri-la. Passei a mão e tatiei  mas não encontrava a maldita. Vi que um casal sentado em uma mesa ao lado, e que presenciava a minha cena, já estava a morrer de rir. Vi que faziam gestos e me queriam informar a forma correta de abrir a porta, parece-me que empurrando-a para fora. Fui-me para a rua com os meus amigos que abriram a porta para mim e já se rirem aos montes. Ainda bem que tava todo mundo bem humorado. Mas a cena não me foi constrangedora, senão, engraçada.

Entretanto, a maior surpresa – e esta, muito agradável – foi mesmo o jantar. Cada prato era um primor.  Não só pela disposição do alimento no prato, mas, pelo sabor. Era verdadeira iguaria que poderia ser servida a qualquer crítico de gastronomia mais exigente. Retornamos a Paris e, parte de nós, decidiu voltar ao mesmo restaurante para repetir o desguste. Não foi só pelo garçom ou pelas minhas "mancadas" que aquele jantar foi inesquecível. O jantar foi inesquecível pelo sabor que a cada um dos convivas daquela mesa.

Não deixaria de indicar o Le Jardin de d'Artemis a quem quer que seja. Não por causa de seu garçom com cara de Mortiça. Diria apenas que ele é o lado exótico e uma das atrações do restaurante. Diria apenas que tomem cuidado com o vinho da casa. Se parece bom ao palato, entra na corrente sanguínea rapidamente e em altos teores.

Wanderley Lucena


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

THE BREAD IS OLD.

O Hotel se impunha e estava em frente à Praça da Independência em Florença, Itália. O primeiro café da manhã, no entanto, me decepcionou um pouco. Não foi porque fosse pobre. Estava até bem servido e havia alguma variedade e até salada de frutas frescas, coisa meio rara por aqui pela Europa. Quase tudo aqui vem em conserva, mas nem por isso deixa de ser gostoso. Aliás, algumas delas são mais saborosas que as bananas empretejadas que compramos nas feiras daí. Mas o que me deixava meio fulo era a cara do pão francês. Aqui ele se apresenta branco opaco e duro igual pedra, como se de uma semana estivesse ali naquela cesta.

Já no segundo dia, a moça que fazia o serviço, muito eficiente, corria de lá para cá a não deixar faltar nada aos hóspedes. Mas tinha ela cara de poucos amigos. Era sisuda e tinha ombros largos. O cabelo loiro preso por uma fita preta em laço e um avental igualmente preto sobre calça e blusas brancas me fez lembrar um carcereiro de Aushevitz. O pão estava ali novamente, sem graça, branquelo e nada convidativo. Resolvi me dirigir, a uma certa distancia, à carcereira que nos servia e da qual eu ainda não tinha ouvida a voz. Fui no meu deficiente inglês e tasquei: “the bread is old”.

A moça que já era sisuda virou em minha direção em movimento brusco. Senti o arranhar de um portão pesado e enferrujado de um castelo medieval a abrir-se. As sobrancelhas estavam cerradas e ela começou a falar em inglês de forte sotaque germânico. Não entendi quase nada do que ela me dizia. Mas entendi que era a sua responsabilidade colocar pães frescos à mesa todos os dias e que se não o fizesse, sua cabeça podia rolar, ou seja, poderia ser demitida. O que chamou mais a minha atenção foi o gesto feito com o polegar. A mão fechada e o polegar em riste que ele fez passar sobre sua garganta em tom ameaçador. Senti a minha própria cabeça a rolar. Recolhi-me enquanto minha irmã, em bom inglês, tratou de apaziguar a gafe. Disse minha irmã que o pão servido no Brasil é diferente e que estava havendo apenas um choque de culturas naquele ambiente.

Agora, sempre que vejo os pães pálidos nos hotéis daqui, corro para a bandeja de croissants que, sem dúvida, são quase e sempre iguais e não tem como eu não gostar.

Wanderley Lucena

terça-feira, 15 de novembro de 2011

CRÔNICAS À QUATRO


Tudo começa porque ela não estava lá, mas eles estavam. Ela, a internet, não compareceu. Mas, eles sim. Estavam dentro de um trem, mas não um trem qualquer. Não um trem de mineiro. E sim, um trem Florenciano. Sem que, nem pra que, quem dirá por que, decidiram construir uma crônica a quatro. Eu, Madalene, adoro que me chamem Madá. Graça e grata por natureza. Gosto de viajar. Neste exato momento não estou muito criativa para escrever, mas contarei o que mais de cômico tem me acontecido: os meus Fiftys... Não compreendo o por que de eles chamarem tanta atenção, mas por onde quer que eu passe nessa viagem me custa alguns fiftys. Fiftys pra cá, fiftys pra lá. Todos sorriem, eu sorrio. Graças a Deus, o meu sorriso não custa caro e eu o compartilho até mesmo com aqueles que me cobram fiftys.


Madá Vertelo

Em Noronha – a ilha paradisíaca – há duas pedras, quase gêmeas, que por agora não me recordo de seus nomes.  Cercadas pela imensidão do mar esverdeado, são por certo muito díspares, moldadas lado a lado pelas mesmas intempéries, mas maravilhosamente desiguais. Bem poderiam ser chamadas amigas, como nós quatro que agora escrevemos. Aqui neste trem rumo a Veneza me chega  uma branda tristeza por deixar a linda Florença, mas uma terna alegria me toma, porque assim como as pedras do Atlântico somos moldados pelas agruras e venturas da vida. Tão belos e íntegros - Bem vinda Veneza!   

Carlos Roberto Vieira

Grata surpresa perceber o talento que têm meus amigos pra escrever tão belamente. Depois de lê-los acima, me sinto acanhado e pouco inspirado. Mas me ponho a pensar nos quatro seres que aqui se encontram. Somos tão diferentes e tão humanamente iguais.  Ante o risco da discórdia há sempre a ponderação madura que nos leva a, mesmo individualizados, necessitarmos do conjunto. Cada um tem a sua característica que lhe é própria e a cada um cabe o cuidado e sensibilidade de reparar o outro e dele cuidar. Cá estamos chegando a Veneza e já se vão quatorze dias de convivência e vivências. A bagagem aumentou não só por causa das bugigangas compradas ao longo da viagem mas também por causa troca de sentimentos. E esta bagagem é leve por vezes... pesada por vezes. Mas sabe o que importa? Viver!

Wanderley Lucena

Eu aqui exausta, quase dormindo, e meus amigos pedem para que eu participe neste escrito a “várias” mãos. Sobre o que falar? Eis a questão. Depois de tantas situações cômicas prefiro falar da última... O recepcionista do nosso hotel em Florença nos pergunta o que significa ”prego” no Brasil e meu irmão rapidamente com toda expressão dramática explica que essa palavra significa o mesmo que ”Jesus crucificado na cruz”. Os três companheiros de viagem espantados caem na gargalhada e essa é mais uma das perolas do meu irmão durante a viagem que iremos lembrar e rir por muito tempo... Assim como a situação do “the bread is old”, mas isso será outra crônica que provavelmente ele mesmo escreverá.


Jeanne Lucena

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CARTA FLORENTINA



Florença, Itália, 14 de novembro de 2011.


Querido amigo;


Chegamos a Florença muito cansados e já no início da madrugada. O hotel era confortável e ficava bem em frente a Praca da Independência. A praca por si só nao tem a menor graca. No entanto, se andares cerca de duzentos metros adentro da cidade, te depararás com imensas esculturas gregas em mármore branco que representam figuras humanas, entretanto, duas a três vezes maior que o natural. A imponência de tais estátuas e obras de arte a céu aberto me fez pensar sobre a capacidade de criação do homem. Uma grande quantidade de museus da cidade guardam acervos que podem ir de leonardo da Vinci a Michelângelo. As ruas estão sempre entupidas de turistas. O detalhe é que vi pouquíssimos carros a  transitar nas ruas antigas. É que a maioria dos turistas chegam de avião ou de trem.

Uma imensa construção octogonal no meio de uma praça me chamou a tenção e decidi entrar. Trata-se do Batistério. A construção, originalmente, era uma espécie de altar pagao usado pelos primitivos, não sei há quantos anos, entretanto, muito antes do cristianismo transformá-la em igreja.  O interior mostra a rusticidade da paredes e o piso, totalmente irregular, embora coberto por piso decorado, é totalmente irregular e a criatura deficiente visual pode perder as pernas.

A Ponte Vechia é de origem medieval e está construida por sobre o Rio Arno. A tal ponte, com o tempo, virou rua e suas laterais foram tomadas por construções de dois andares e pequenas lojas, quase todas de joalherias, vendem preciosidades.

Na Galeria da Academia, um dos muitos museus, está ninguem menos que o Davi de Michelângelo. Acredita? E fiquei ali por um bom tempo, em frente ao Davi, admirando aquela figura magistral no mármore branco. Fiquei imaginando se ela podia respirar de tão perfeito. Na figura "sarada" percebem-se detalhes como a latência aparente das veias a saltar dos músculos da criatura perfeita.

As folhas continuavam a cair das arvores por causa do outono. A cena era belíssima. O chão era tapete amarelado que soava aos pés com o farfalhar das folhas a informar a estação. O clima frio não chegava a doer, mas, obrigava que todos usem roupas mais pesadas e torna tudo mais elegante.

Comemos e bebemos muito bem. Com saciedade, a vontade de fazer a "sexta". Bate a fadiga e, junto com ela, a saudade do Brasil ja incomoda por demais. Nao vejo a hora de sentir o cheiro dos meus lencóis e de ter o meu cachorro a pular em meus bracos todo feliz por me ter de volta em casa.

Levo bugigangas mil. Presentes e lembranças. Um especial para ti.

Amanha estaremos em Veneza e, por fim, voltaremos ao Brasil.

Abraco.

Wanderley Lucena

sábado, 12 de novembro de 2011

CARTA ROMANA


Roma, 12 de novembro de 2011.

Caro Amigo;

É com saudade do Brasil que te escrevo desde esta cidade monumental que se Roma.  A cidade é um imenso sitio arqueológico a céu aberto. Não importa para que lado olhes, verás um monumento , uma igreja, uma ruína. E não penses ser algum deles discreto. De forma alguma!

Aqui se pisa em pedras que calçam a rua desde os tempos de  Calígula ou Julio Cézar.  Estive na Via Ápia e senti as bigas a transitarem conduzidas por romanos a se dirigirem para o Coliseo. A via Marguta é belíssima e foi endereço do Felinni. Rua tipicamente romana que sai desde a Piazza di Spagna. A praça está sempre abarrotada de gente e suas escada sobem em direção a uma igreja  de onde se pode ver o por do sol ao longo da Via Condotti.

O Vaticano é um absurdo. Não parece coisa de homens. Parece que estamos em outra dimensão.  Nunca tinha visto tanta arte. Desde a Basílica de São Pedro à Capela Sistina. Não há como descrever aquilo. Do teto ao chão é tudo arte. No horizontal ou no vertical. Pura arte sacra.

Todos os papas estão enterrados no subterrâneo da Basílica. Tive de Pará e reverenciar ao Papa João Paulo II. Homem de elevada espiritualidade que merece minha reverência. O túmulo de Pedro, o Apóstolo, o pai da Igreja Católica é emocionante igualmente.

Amanhã estaremos em Florênça e são novas emoções.

Um abraço.

Wanderle

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

CARTA LONDRINA


































Londres, 10 de novembro de 2011.

Caro Amigo;

Te  escrevo de um computador no aeroporto de Londres ao qual nem me atreeverei a escrever o nome, haja vista, a quantidade de consoantes no nome. Mas estou aqui porque chegamos atrasados para o embarque para Roma. Cinco minutos atrasados e ficamos presos aqui ate o meio dia quando embarcaremos em outro voo, depois de pagarmos uma "baba" de multa pelo atraso.

Mas Londres e gigantesca e belissima. Ontem subi na roda gigante que eles chamam de London Eye. Disem ser a maior do mundo, mas nao afirmo isso categoricamente por nao ter tempo de fazer pesquisa agora. Depois fomos ao museu da Madame Tussou. E isso nos valeu muita pena. As imagens em cera, todas em tamanho natural, exibidas ao longo de alguns andares, de tao perfeitas, podem ser, facilmente, confundidas com uma pessoa real. Uma descida a camara do horrores e imperdivel. La a madame espressou os horrores das guilhotinadas da Bastilha francesa, incluindo-se, a cabeca de Maria Antonieta. Impressionante!

Depois uma visita demorada e muito prazeirosda, com aprendizado historico, na Catedral de Westminster. Aquele onde secasam e se coroam os reis e principes da Granbretania. Reis, rainhas, cavaleiros, camareiros, ppoetas e cientistas, ao montes, estao ali enterrados em tumulos que deixam o espectador de boca aberta. 

Desculpe-me se te escrevo sem a devida pontuacao. Estou em computador que tem teclado diferente e alguns dos nossos pontos usados no portugues, sequer existem nele.   

Um abraco e ate a proxima.

Wanderley Lucena

sábado, 5 de novembro de 2011

CARTA PARISIENSE 2

Paris, 05 de novembro de 2011.


Caro amigo;


Hoje visitamos o Panteon da Pátria. Um pujante edifício no meio de uma praça. Colunas gigantescas sustentam a edificação. O interior é de riqueza indescritível. Bem ao centro do Panteon, sobe um domo altíssimo e pintado com motivos renascentistas, se encontra o pêndulo de Foucault. O tal pêndulo é esfera dourado, parecendo ouro, pendurada desde o domo por fio quase invisível e que balança sobre um relógio em movimento quase hipnotizante e eterno. Trata-se da experiência do físico francês Léon Foucault para demonstrar a rotação da terra. 


No mesmo Panteon encontram-se criptas subterrâneas onde estão os corpos dos que morreram pela pátria, além nos que contribuíram de alguma forma para que França seja hoje a potência que é. Entram na lista físicos, matemáticos, escritores, etc...

As paredes do grande salão são decoradas de cima a baixo por telas em óleo assinadas pelos mais famosos pintores. São tantas telas que se o visitante quiser olhar uma a uma, fixando-se cinco minutos ante cada uma, não conseguirá terminar em um dia apenas. Muitas delas, de tão gigantescas, tomam toda a parede. 

Cenas dramáticas de guerras e adoração à liberdade, traduzidas por escultores de primeira, em mármore branco como a neve, podem ser vistas com espanto. 

De frente ao Panteon se vê a Torre Eiffel ao longe e uma foto tirada nesse lugar é uma ótima ideia. Descemos displicentes pela rua e paramos na loja da GAP e, tudo baratinho, comprei um belíssimo blazer a preço de banana. E como a banana anda cara! Mas o blazer foi mesmo uma pechincha. Me senti meio francês de tão chique que vi ao vesti-lo.

Mais adiante, em um machê bem simpático, compramos as típicas baguetes e nos fartamos em um almoço improvisado. Depois o grupo se separou e eu decidi vir para hotel para descansar um pouco e escrever-te estas linhas que espero, gostes.

Um abraço e até amanhã se Deus quiser.

Wanderley Lucena 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CARTA PARISIENSE


Paris, 02 de Novembro de 2011.

Caro Amigo;

Chegamos a Paris pelo gigantesco e assustador Charles de Gaulle. De tão grande pode assustar ao turista de primeira viagem. As distâncias entre um ponto e outro chegam a quilômetros de distância e, mesmo com a ajuda das muitas esteiras rolantes, quando você conseguir passar pelo guichê de imigração, se dirigirá à esteira de entrega das bagagens e, depois, poderá pegar um táxi e ir ao hotel. Eu preferi ir de metrô. Custou-me 9 (nove) euros. De taxi eu pagaria 60 (sessenta) euros e perderia o contato verdadeiro com o parisiense.
O vôo foi tranqüilo e digno. O serviço da Air France é de primeira e ceamos fartamente. Assisti a um filme e, já era madrugada quando recorri ao mágico RIVOTRIL. Apaguei e acordei com os comissários a servirem o café da manhã.  Mais ou menos meia hora depois desembarcávamos em Paris.
A imensa aeronave da Air France levava todo tipo de gente. Embora estivesse apinhada de gente, encontramos o espaço muito limpo e organizado. Alguns aproveitaram para encher a cara de whisky e outros, assim como eu, recorreram aos expediente do RIVOTRIL etc... Eu aconselho. É pa-pum! Tomou as seis gotinhas e, meia hora depois, como por passe de mágica, você estará nos braços de Morfeu.

Deixamos as malas no hotel e saímos correndo iguais crianças em parque de brinquedos.  Saímos muito bem agasalhados ante o frio do outono parisiense e chegamos ao Jardin dês Plantes.  Às margens do Sena, trata-se de imenso parque com estfas grandiosas e dentro delas coleções de plantas que podem ir de uma floresta tropical igual à da Tijuca a um deserto mexicano cheio de cactos, pedras e areia.

Já no meio da tarde entramos em típico café de Paris e pedimos o almoço que nos decepcionou um bocado. A batata não estava a contento e as carnes igualmente. Mas vale sempre. Aqui até as decepções ficam charmosas. Ninguém se importa com uma bobagem dessas se estiver em Paris – eu muito menos.

Ontem fomos à Tour Eiffel e deixei que meus amigos subissem nela enquanto fiquei num café bem atrás da Trocadero. Usei a internet e me pus a par do que ocorre no Brasil. Decepção! Não nem porque leio.
Já à noite, os mesmos amigos assistiram ao fabuloso espetáculo do Moulin Rouge enquanto e minha irmã nos dirigimos a famoso Café da Amelie Poulan. “O fabuloso destino de Amelie Poulan”  é filme dos mais graciosos. Leve, sensível e emocionante, virou ícone de  Paris. Quem vem a Paris tem de ver o filme. As locações são no Bairro de Mont Martre.  Vale muito essa dica. Não deixe de emocionar ao ver a belíssima Sacre Couer.

Tinhas razão. Não me é possível escrever-te diarimente. O tempo urge. Saímos correndo e voltamos sempre muito cansados e bem tarde da noite. Não é possível escrever ante o estado de esgotamento. Mas está comigo sempre. Levo-te no coração.

Com saudades de dou o meu abraço e... até a próxima.

Wanderley Lucena

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CIÚMES


Corta como navalha
Incomoda como ferida que não cicatriza
Atordoa como murro pesado, bem dado, na orelha
Me tira a razão e da cama
E faz andar sem rumo madrugada a dentro 
Causa repulsa como se escatológico
Me cega com tarja escura
Me prende e me impede movimentos livres
Veneno que estrebucha para só então matar
Espraguejo e lanço maus agouros que assustariam qualquer bruxa


...e depois, me chegas sorrindo e tudo se esvai.

Wanderley Lucena



CARTAS EUROPÉIAS



Brasília-DF, 27 de outubro de 2011.

Caro Amigo;

Na quarta-feira, dia 02 de novembro, justo no dia de finados, bem cedinho, porei os pés, novamente, na cidade luz. Isso mesmo! Desembarcarei em Paris. E por falar em finados, de novo quero explorar os cemitérios daquela cidade. São belíssimos, sabia? Tirar uma foto no túmulo de Chopin, da Edith Piaf e tantos outros é programa dos melhores. Os mausoléus são belíssimos e muitos deles são verdadeiros palacetes. Vale a pena!

O vôo pela Airfrance é aquele. Aquele mesmo. O que caiu no meio do oceano, lembra? Que medo! Estou brincando. Para falar a verdade não estou com o menor medo não. Tenho medo da morte mais não. A morte que não me chegue por agora quando gozo o melhor da vida. Ela que me venha quando eu não conseguir mais segurar a "caca". Ela que me chegue quando a bengala, que ainda não uso, me furtar e não me sirva de terceira perna. Ela que me chegue quando não mais me seja possível tomar meu banho sozinho ou quando não dê conta de me sentar mais no vaso sanitário. Ela que me chegue sem avisar, de preferência num sono pesado. Êta morte boa essa de quem dorme e não mais acorda! Nem ao menos se ver face ossuda e o vestido preto básico e mal costurado de Dona Morta.

Não ficarei apenas em Paris. Vou passar por baixo do Canal da Mancha pelo TGV e desembarcar em Londres pela primeira vez. A rainha me aguarda no Buckingham Palace. De lá me vou para terras romanas. Roma e suas Vias Ápias. Depois ainda dou um pulo em Florença e, por último, Veneza. A boa e velha Veneza de Romeu e Julieta.

Mas, quero te informar que tenho a pretensão de escrever-te diariamente. Quero manter-te informado de minhas aventuras e desventuras, minhas impressões e vivências na Paris que conheces melhor que eu.  Tomara eu não te canses de minhas cartas diárias. É que te tenho tanto apreço que gostaria de deixar-te informado de minhas emoções.

É mesmo uma pena que não possas, mais uma vez, vir comigo. Não estarás fisicamente, mas, tenhas a certeza de que te levo no coração. E se comigo vais, contigo fico da mesma forma e na mesma medida.

Um abraço e, na próxima carta já te escreverei de Paris.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CHIQUEIRO BRASIL

A sujeira é tanta que me sinto num chiqueiro continental. Ouço e vejo sujeira o tempo todo nos noticiários. A política é para homens bossais. Acho mesmo que os homens de bem, aqueles que têm vergonha na cara, não sobem em palanques, nem se filiam a partidos políticos. Eles, por nojo, preferem ficar conforto de seus lares.

A política é para homens reles e os honestos que se embrenharem pelo seu caminho serão mal sucedidos. É regra: quanto menos caráter, mais bem sucedido será o indivíduo político.

Apesar de ter colocado barricadas e sacos de contenção para impedir que o lamaçal adentre ao meu lar, ao meu espaço, percebo, revoltado, que há infiltrações. O cheiro da corrupção passiva e ativa entra pelas frestas e vejo-me impotente ante tal força. 

ONGs, igrejas evangélicas e católicas, centros espíritas,   todo tipo de associação vira pretexto para estender a mão à luz do dia e pedir polpudas quantias ao Estado. Mas, na calada da noite, é que se vampirizam as veias grossas e passivas do dinheiro publico. 

Pessoas conhecidas, amigos e até parentes estão encharcados na lama da corrupção. Alguns deles viraram pastores, catimbozeiros, políticos, donos de ONGs, etc... Poucos são os que suam verdadeiramente para se sustentar. Todos tentam, a qualquer custo, sem esforço braçal, uma teta para mamar. Pode ser um grupo de liderados, ou a falcatrua de uma licitação, ou um discurso falso e hipócrita que arregimente um grupo ou uma multidão suficiente para dar-lhe o sustento por meio de dízimos ou doações.

Homens de bem não se expõem, não se posicionam contra a injustiça. São, geralmente, discretos e equilibrados. Permanecem protegidos pelas grades de suas janelas vendo do lado de fora o assalto à mão armada contra seu semelhante. Os homens de bem podem até sofrer, podem até ter um discurso ético, mas se protegem de qualquer situação na qual possam ser expostos. Doe-lhes na alma a injustiça mas, eticamente, permanecem impávidos a assistir a sangramento público. Esses mesmos homens de bem não toleram discursos inflamados ou o ruído dos revoltados que gritam e denunciam os ladrões que se apoderaram do Estado..

Conheci um advogado muito importante, homem de valor, religioso como ninguém, que batia no peito, orgulhosamente, para informar a quem quisesse ouvir que não se contaminava lendo noticias de jornal. Preferia frugalidades, noticias leves, eventos sociais. Fiquei envergonhado e enojado do seu orgulho burro tanto quanto com a sujeira política a que estamos submersos.

A inércia ante a injustiça de qualquer tipo, assim como, a própria injustiça é, a meu ver, postura exatamente igual. É tão nojento e desprezível o acovardar-se diante do crime quanto ser o próprio criminoso. 

Wanderley Lucena


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ANDAR COM ASAS

Se podes "andar" com tuas asas?
Eu te afirmo que já voaste até onde te encontras.
E feliz é quem pode voar. 
A jornada é suave embora requeira a força nos músculos das asas. 
Levantar vôo pode até ser difícil, mas quando se está a plainar... 
Olhar para baixo com o vento a bater no peito.
No horizonte uma praia ensolarada na qual podes pousar. 
Mas não podes esquecer do passarinheiro, da sua arapuca.
Dos estilingues e das pedras contra ti atiradas. 
Mas, mesmo de asa quebrada, continua o teu vôo sem parar. 
E se quiseres pousar em segurança podes fazer o teu ninho em minha torre.

Wanderley Lucena

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ANDANÇA


De bike
de velocípede
de patins
de jegue
à pé
não importa
chegarei lá
com certeza
antes o sol se ponha.
E o sol vai se por
para mim
e para você.

Wanderley Lucena

sábado, 15 de outubro de 2011

PORTUGUÊS BEM DITO

Interessa-me a palavra bem dita. Expressada com todas as sílabas muito bem pronunciadas e que se transformam na expressão audível. Com o verbo no tempo correto, concordando do início ao final. Seja na frase ou no texto por completo. A frase bem entonada quando pergunta, quando responde, quando exclama. Não importa se escrita ou falada, a palavra bem colocada traduz na exata dimensão de sentimento de quem a produz. 

É a língua uma das principais características de um povo. É ela que nos identifica em qualquer lugar do mundo. Quando estive na França, por diversas vezes identifiquei meus patrícios por ouvi-los a falar o bom, velho e lindíssimo português brasileiro. Com alguns deles travei diálogos e com outros fiz amizade. Assim será toda vez que estiver em país de língua diferente da minha. E você pode imaginar como é bom identificar a sonoridade da mesma língua que a sua na Babilônia que é Paris. 

Outro dia encontrei no Rio, uma colombiana que morava em Chicago. Depois de travarmos breve diálogo na sua língua ela me pediu a gentileza de falarmos em português, mesmo que ela não soubesse falar português. Explicou-me que ali estava para aprender a nossa língua por achá-la a mais bela do mundo e, disse ela, ter morado em diversos lugares do planeta. Fez questão de esclarecer que era o português do Brasil e não o de Portugal que lhe soava no ouvido como melodia sensual. Perdi a chance de praticar meu espanhol, entretanto, meu ego se massageou ao ouvir o elogio.

O português é mesmo língua traiçoeira e de difícil aprendizado. Mas renegá-la é abrir mão da identidade própria que é a identidade de um povo. Povo lindo, moreno, miscigenado, faceiro e acolhedor. Que não nos falte o orgulho de nossa língua e o interesse em aprendê-la.

Queria eu escrever sem erros e com a certeza das palavras bem ditas. Queria eu dizer apenas palavras benditas. Mas sei que sou capaz das palavras malditas e, muitas vezes, mal ditas. Tenho consciência da minha deficiência no aprendizado com a língua máter e da minha humanidade. Mas continuarei minha luta em tentar me expressar cada dia forma mais clara possível e em tentar ser um indivíduo mais evoluido. 

Wanderley Lucena

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O COMÉRCIO DA FOFOCA

A fofoca, como chamamos aqui no Brasil o falar da vida alheia, não é fenômeno da vida moderna. Entretanto, ganha-se muito dinheiro com ela enquanto perdemos nosso tempo,  prazeirosamente, a ler tais magazines. Detalhe é que esquecemos que vidas são destruídas e indivíduos são lançados ao poço da depressão quando se vêem clicados pelas lentes de paparazzis e depois, um Zé Mané, numa redação açougue, retalha a vida privada e a lança em páginas semanais. Tais açougueiros terminam por enriquecer com a destruição da privacidade alheia.

                                                                                                    Wanderley Lucena

terça-feira, 11 de outubro de 2011

DONA FIFI


Dona Fifi chegou no condomínio dizendo-se madame de fino trato, mulher de berço nobre, oriunda de família riquíssima, tinha nome e sobre-nome. Quis ser recebida com tapete vermelho e ser reverenciada. Quis ser amada como se rainha sueca. Fazia questão de apresentar-se como a esposa do Sr. Conde de Chaterley. Espalhou aos quatro ventos que tudo na sua casa era do bom e do melhor e que o piso de sua casa era de madeira de lei. 

Lady Fifi sentiu-se enfada e enjoada por não receber para o chá das cinco nenhum dos seus súditos. Ninguém a visitava nem a chamava para tomar um café. Passou a procurar encrencas com todos os vizinhos e a reclamar de tudo e de todos. Desde a música moderna do filho do serviçal aos constantes sorrisos de felicidade da moça solteira e independente que morava em frente à sua casa. 

Ela ouvia os rumores de alcova da casa apegada à sua e não suportava que na sua casa, o marido inválido, não a satisfizesse. Se mordia de inveja. A vizinha estava visivelmente feliz e bem amada enquanto ela padecia de carência. Embora o marido tentasse entrar na onda de Dona Fifi, sua debilidade e apatia não permitiam o mínimo esforço. Ademais, Dona Fifi era nada atraente e até o marido já estava desconfiado que havia entrado numa fria ao casar-se com ela. O Conde tinha uma deficiência sanguínea que impedia-lhe que os músculos se enrijecessem. O constrangimento era visível e ela desistiu de vez de tentar seduzi-lo.

Dona Fifi passou a comer desesperadamente tentando preencher o seu vazio interior e suas formas já rechonchudas, cresceram ainda mais e ela já andava com certa dificuldade.

As senhoras distintas e discretas da comunidade não a suportavam e os seus maridos passaram a ordenar que elas a evitassem. Todos já sabiam ser Dona Fifi uma farsa total. Todos passaram a evitá-la, pois, tamanha era carência de Dona Fifi que ela passava horas a falar sem parar com quem lhe desse algum ouvido.

Dona Fifi chorou e esperneou porque não lhe davam atenção. Por fim, se disse mulher muito fraca e que seu marido estava muito doente. Que tinha alergia a poeira, cheiros fortes, produtos químicos de todas as espécies.Era agora hipocondríaca. Não podia ela ser contrariada ou perturbada. Pretendia ela com tal chantagem, despertar a piedade de quem a via. 


Mas já era tarde. Ela perdera todo o prestigio. Prestígio que nunca tivera, diga-se. Ninguém lhe dava mais atenção alguma e ela passou a ser motivo de comentários e chacotas. Dona Fifi era, afinal, uma uma grandessíssima fofoqueira encruada e invejosa. Ela era mesmo, na verdade, uma coitada. Mas ninguém sentia a menor dó da coitada. É que Dona Fifi era mesmo muito chata e repetitiva. As suas reclamações já se repetiam e sua conversa era pura ladainha enfadonha .


A dita Senhora passou então a desprezar quem a desprezava e disse a todos, em um blefe, que se mudaria do condomínio pois não aguentava conviver com aquela gentalha. No entanto, sua casa nunca foi anunciada e quem quis comprá-la desistia quando a madame informava o preço três vezes acima do que o imóvel mais valorizado da região. Era mesmo um engodo a Lady Chaterley, a Dona Fifi.


Wanderley Lucena

domingo, 25 de setembro de 2011

CARTAS CARIOCAS


Brasíla-DF, 25 de Setembro de 2011.


Caro Amigo;


Amanhã estarei no Rio, a cidade maravilhosa. Eu conheço bem o Rio e volto lá sempre que posso. É mesmo uma das cidades mais lindas do mundo, com certeza, a mais bela do Brasil. Tem a violência desorganizada da pobreza dos morros, tem o crime organizado e tem os "filhinhos de papai" que também, muitas vezes, são criminosos.

Quase tudo igual a qualquer outra metrópole não fosse um charme que é só seu. Não sei se é a geografia de tirar o fôlego; se é o sol; se as curvas da garota de Ipanema; se o mar azul; se a floresta atlântica; se o Cristo Redentor ou o Pão de Açúcar. Mas tem a "ginga" do malandro e o chiado charmoso do sotaque carioca. O sol e os desenhos sinuosos da calçada de Copacabana. O samba da Mangueira e  da Portela. É tanta coisa meu amigo, que se fosse te contar, escreveria um jornal e não uma singela carta como esta.

É minha intenção te informar, diariamente, por meio destas cartas, das minhas impressões pessoais da cidade  dos acontecimentos do meu dia na minha interação com essa gente de valor, a gente carioca. Tomara minha intenção não te canse, mas é que para mim és tão importante que preciso, quase que de pé de ouvido, contar-te. Bom seria que estivesses cá comigo para juntos irmos ao Rock in Rio e ver o Cold Play e o Maroon Five. Já que cá não estás, te deixarei informado por meio de minhas cartas diárias desde o Rio.


Um abraço.


Wanderley Lucena
--------------------------------------------------------------------

Rio de Janeiro-RJ, 26 de Setembro de 2011

Caro Amigo;

Chegamos ao Santos Dumont e para não ser, mais uma vez, roubado pelo taxistas que insistem em achar que meu dinheiro é farinha, peguei o “frescão” – e isso, aqui no Rio, é tão somente um ônibus que tem ar-condicionado. Custou-me seis reais e desembarquei, confortavelmente, na Princesa Isabel, a um quarteirão de onde, no Leme, me hospedo sempre que venho por aqui.

Tive de dormir um pouco para recuperar as forças depois da noite mal dormida e do vôo na lata de sardinha. Viajar na classe econômica é viajar enlatado. Sabes que, no momento, não posso dar-me a exageros. A lata de sardinha não chega a matar o cristão, mas é quase desumano o que fizeram com o espaço de um avião doméstico. Como não posso ir de primeira classe... 

Já era meio da tarde quando me dirigi ao Giraffas e almocei. Giraffas, sim senhor! Apesar de bonitinha a comida delivery da rede, de tão pouquinha, faz bem à consciência de quem não quer engordar.  Fiquei sonhando o bife à parmegiana do Beira.

Saí andando e já estava bem pertinho da estação de metrô  General Arcoverde e decidi não ir à pé para Ipanema.  Meu cafezinho já fazia uma falta danada no juízo – sou dependente de cafeína, como sabes – e saí surtado, em crise de abstinência, até que tomei meu cafezinho na Visconde de Pirajá numa charmosa cafeteria. Por pouco não pedi ao atendente que me aplicasse na veia.

Esqueci minha sunga ADIDAS em Brasília e decidi comprar outra. Terminei comprando também uma mochila, da mesma marca, para usar em Paris. As três listrinhas são chiques e não tem como errar. E na minha idade não dá pra arriscar muito. E sabes que vou a Paris já no mês que vem.

Tomei novo cafezinho na Colombo do Forte de Copacabana, já na volta, e fiz compras para o desjejum no Zona Sul – aqui as coisas estão mais baratas que no Pão de Açúcar do Sudoeste. Aproveitei e comprei um estoque de geléias de morango para abastecer a minha despensa em Brasília. Aqui tá pela metade do preço e - detalhe - são polonesas. Isso mesmo: são importadas. Volto com a mala cheia.

Agora estou a te escrever enquanto faço uma boquinha antes de dormir na Sanduicheria Leme Light. Um pão cheio de carne assada. Uma delícia.

Um abraço.

Wanderley Lucena

--------------------------------------------------------------------
Rio de Janeiro-RJ, 27 de Setembro de 2011.

Caro Amigo;

Te escrevo desde o Morro da Urca e, por incrível que pareça, a rede wi-fi é ótima - mas também... depois de pagar cinquenta e três reais pra subir no Bondinho... Embora o bilhete seja caro, vale a pena subir até o Pão de Açúcar pelo bondinho teleférico. A visão da paisagem é única.

No Pão de Acúcar, quem se prende apenas à paisagem, não sabe o que perde se não explorar a trilhas sinuosas e encantadas por dentro da floresta morro abaixo. Tudo muito bem calçado, com mesinhas de concreto e para-peitos para a proteção e conforto dos turistas. É só descer pelas escadas abaixo e pronto. Uma floresta encantada está a seus pés. O preço pode até ser alto, mas, se voce quiser subir a Eiffel, visitar o Louvre, não é menos caro. Não é que seja caro, nós é que ganhamos mal, meu amigo.

Para me inspirar, tomo uma caipirosca de lima no restaurante encima do Morro da Urca. Você não sabe o que é isso. Aqui se ouvem várias línguas. Turistas do mundo todo você pode ver aqui. Fiquei vendo o macaco "soin", lindo, clicado pela minha câmera, sem ter que fazer o zoom, de tão perto que o bicho estava da gente. Impressionante como estes bichos estão acostumados aos humanos e recebem alimentos de suas mãos.

Vou passar no ap e botar a minha Adidas que comprei. Vou mostrar as pelancas em Ipanema. E o faço sem constrangimentos. Tem muita gente linda aqui, globais aos montes, mas... o que tem de gente feia. Então, me sinto em casa.

Um abraço e até amanhã.

Wanderley Lucena

-------------------------------------------------------------------------
Rio de Janeiro-RJ, 28 de Setembro de 2011.




Caro Amigo;

Nunca senti tanto frio no Rio - na verdade, já sim - não tive coragem de entrar no mar até o momento. Tomara que a temperatura suba e que o sol dê a cara com gosto. Fazem 19 graus agora. E só são 4 horas da tarde. A previsão é que a temperatura despenque ainda mais.

Mas enfrentei o frio com bravura e subi o Corcovado a bordo do velho trem vermelho que vai ladeira arriba cortando a Floresta da Tijuca. Apesar do dia nublado consegui ver perfeitamente a geografia estonteante desta cidade. O mar azul e a ilhas pingadas nele, além da silhueta sex da cidade a chamar a todos ao deleite. Por um lado Lagoa Rodrigo de Freitas, Ipanema e Copacabana. Por outro, a ponte Rio-Niterói, o Santos Dumont. As barcas, pequeninas de tão longe que as vi, a fazerem a travessia, via mar, para a terra de Araribóia.

No mesmo bairro, peguei um ônibus que me levou para o Jardim Botânico. Além de belíssimo, é uma aula história. Imaginar que D. Pedro, nosso Imperador bigodudo foi quem plantou aquilo tudo. Que a Marquesa de Santos dava seus passeios de fim de tarde pelas alamedas de palmeiras imperiais plantadas pelo seu amante, o mesmo bigodudo.

Tinha a intenção de dar um pulo no Parque Lage mas, cansado que estava, desisti. O Parque Lage era a residência da mesma Marquesa. Um beleza de parque com muitas estátuas espalhadas a céu aberto, córregos e lagos artificiais. O belíssimo palacete que foi a residência da Marquesa é hoje uma escola de arte. Modelos vivos, nus em pelo, podem ser vistos pelas vidraças das janelas, a serem pintados pelos alunos. Mas, estava por demais cansado e desisti. Fui para casa e dormi um pouco e proteger-me do frio intenso que me incomodava.

Queira Deus, vá se embora esta frente fria que me dói até os ossos e possa eu entrar nas águas abençoadas e salgadas deste mares.

Um abraço e até amanhã.

Wanderley Lucena


-------------------------------------------------------------------------

Rio de Janeiro-RJ, 29 de Setembro de 2011.

Caro Amigo;

Hoje, finalmente, fez sol como eu desejei. A praia estava mesmo uma beleza. Acomodei-me numa cadeira alugada de um barraqueiro e pedi uma cerveja porque ninguém é de ferro. Uma cerveja em frente ao mar de Ipanema tem sabor inigualável, como você bem sabe.

Chamou-me a atenção a quantidade de maconheiros fumando abertamente, à luz do dia, orgulhosamente. E não vou aqui fazer discurso moralista, não mesmo. Mas as coisas mudaram muito desde a nossa época. Ninguém sente vergonha de puxar a erva e, muitos deles, sentem mesmo é orgulho. Talvez estejam mesmo a revolucionar os conceitos. Ademais, com o advento do crack, quem dera, nossos viciados fossem todos, tão somente, maconheiros.

Os morenos que serviam às barracas fazendo as vezes de garçom, se sentaram, comodamente, em círculo e ascenderam seu “baseado” e esqueceram das obrigações que, talvez, nunca as tiveram. Pedi a um deles, já fumado, com os olhos mais vermelhos que os de um dragão, que trouxesse uma prévia da conta. Ele me respondeu, debochado, dizendo que eu mesmo poderia fazer a prévia, já que tudo o que eu consumira tinha seu preço anotado na conta que estava em meu poder. Ora veja! Pois, pois!

De longe, vi uma moça de formas por demais arredondadas. Os seios pareciam dois melões e a bunda estava, por demais, empinada. A moça tirou a parte de cima do biquíni e, sem qualquer desfaçatez, mostrou os melões a quem os quisesse ver e aquém não os quisesse também, debruçou-se sobre eles e empinou o bundão rumo ao por do sol, num top lesse básico. O que ela menos queria era bronzear-se. Queria mesmo era chamar a atenção. A minha, pelo menos, ela conseguiu. Mas, notei mais. Os gestos exagerados, artificiais, e... o queixo. Acho que foi o queixo que a entregou. Os melões lhe foram ali implantados por algum Pitangui do Morro da Rocinha e a bunda, idem. Tratava-se de um travesti. Isso mesmo, um traveco – e isso é apenas o registro do que vi e vai sem preconceitos. Travecos e outros tipos não são exclusividade do Rio e na nossa cidade tem aos montes.

Peguei um “bronze” e me fui, a pé mesmo, e almocei no New Natural. Um restaurante onde se come muito bem e, totalmente, natural. Tudo leva selo verde, sem agrotóxico e, como um pouco de sorte, você pode dá de cara com alguns globais almoçando na mesa ao lado da sua.

Um café e fui pra casa passando pela pedra do Arpoador que se encontrava lotada de gente a ver o por do sol. Mais uma vez, uma quantidade muito, mas muito maior, de gente a fumar maconha. A pedra virou um enorme cachimbo de pajé. Até eu saí de lá “chapado” com a maresia que respirei sem ter para onde correr.

Um abraço e... até amanhã.

Wanderley Lucena

-----------------------------------------------------------------------



Brasília-DF, 01 de           Outubro de 2011.


Caro Amigo;


É claro que preferia o conforto de um bom hotel ao apartamento alugado para a temporada aqui no Rio. Sai bem mais barato e vale à pena se você não for dos mais exigentes. Em compensação você é que tem de manter a higiene ou pagar uma faxineira. O café da manhã você mesmo terá de fazer.  Eu até gosto de alguns dos afazeres domésticos, entretanto, confesso, sou avesso às outros.

Fui, ontem a um bar da moda,  à noite, em Ipanema. O ambiente era moderninho e a rapaziada também. Mas eu não estava na mesma energia que meus pares. Eles se divertiram por demais e, hoje, tinham estórias mil a contarem-se uns aos outros. Achei o lugar caro e contive-me dos gastos exagerados.

O sol deu as caras com tudo novamente e me fui com todos os protetores solares já passados, rumo à praia de Ipanema. Os gringos gastavam seus ricos dólares e se excitavam ante a pouca roupa de nossas lindas mulatas. Vendedores de abacaxi, sacolé, empadas, sanduiches, guará viton, salada de frutas e etc... e tal, empesteavam a praia nas suas idas e vindas, aos berros a anunciar  o seu produto. A temperatura da água do mar estava uma delícia e adorei ficar de molho por um tempo, a boiar relaxado sobre ela.

Já era fim de tarde quando fiz o caminho volta, a pé. Olhei o contraste dos prédios com a favela encravada no morro do Cantagalo. Fiquei com inveja dos favelados e sua visão do alto do morro rumo ao mar de Ipanema e Copacabana. Uma visão paradisíaca.

Um dia sol mas sem grandes emoções ou expectativas. Amanhã, ao contrário, é o dia em que estarei com todas as energias voltadas para a cidade do rock. Economizar a energia hoje para descarregar amanhã. Essa é a ordem!

Um abraço

Wanderley Lucena
---------------------------------------------------------------------


Rio de Janeiro-RJ, 02 de Outubro de 2011.

Caro Amigo;

Uma emoção botar os pés na cidade do Rock. Muita coisa pra ver. Sem falar nos shows, um logo depois do outro. Dois palcos, um deles, do tamanho de um prédio de dez andares. A maior expectativa era com o Cold Play, mas a banda Manah, do México e o grupo Maroon Five, que antecedeu ao grande show, já valia o ingresso que me custou uma baba. Quando o Cold Play subiu ao palco... Jesus! Fogos, luzes demais, raios lazer, chuvas de papel laminado, efeitos especiais na tela de LED. Foi lindo, meu amigo! Pena que você não estava aqui.

Cheguei em casa com a certeza de que entrei na terceira idade mesmo. Meus pés em frangalhos, mas, o pior era a coluna  que parecia que ter sido esmagada por um carro tanque. Tomei um banho com muita dificuldade e me joguei na cama. Acordei por volta do meio-dia de hoje. Ainda estou ressaquiado. Mas valeu muito a pena.

Hoje ainda fui à praia, aqui no Leme mesmo, bem em frente ao prédio. O tempo, aberto de início, foi fechando .ao longo da tarde. Mas entrei no mar em despedida nostálgica. É que amanhã volto pra Brasília. Tomara que a seca daí já se tenha ido. Tão log eu chegue, espero sua visita pra um café literário, ou um papo frugal para falarmos dos outros.

Um abraço!

Wanderley Lucena
------------------------------------------------------------------------

Rio de Janeiro-RJ, 03 de Outubro de 2011.

Caro Amigo;

Eu e minhas trapalhadas. Achei que hoje já era 4 de outubro, dia do meu embarque. Me levantei de madrugada, saí correndo para o aeroporto e, depois de fazer check in, quando já embarcava as malas, quando descobriram que eu estava antecipado em um dia.

Voltei frustrado para o apt ao qual já estava sem as chaves que havia jogado por debaixo da porta. Tentei, pelejei até... puxar a chave com um arame que encontrei, mas... nada. A danada foi parar do outro lado da sala e nao tinha vara que a alcançasse. Tive de chamar o chaveiro e foi ele quem conseguiu abrir a danada. Paguei uma baba pelo serviço do profissional, sem falar no táxi de ida e volta para o aeroporto.

Enfim, coisas de Lucena. Minhas trapalhadas às quais você já está é acostumado. Mas são essas trapalhadas que me rendem essas estórias que, depois vou lê-las e rio até. Espero que você também.

Amanhã nos vemos em Brasília. Um abraço e até amanhã.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ABDUZIDO POR UM E. T. PASSARINHO


Almocei sozinho e fui pagar a conta. Saquei a carteira do bolso e quando a olhei de perto não reconheci. Não era minha a carteira que estava em meu bolso. A carteira era de meu amigo que se encontrava, naquele momento, em minha casa a usar, de favor, a minha internet.

Peguei o cartão de crédito dele e entreguei à moça do caixa, certo de que, depois de explicar ao meu amigo a situação, ele não se importaria de eu ter usado seu cartão de crédito naquela emergência. Tudo bem se o caixa não tivesse me mandado digitar a senha do cartão na maquina. O cartão era de chip e precisava, obrigatoriamente, de uso da senha. Retirei o cartão e pedi um tempo.

Peguei meu celular no bolso da bermuda e liguei para meu amigo que, com certeza me passaria a sua senha. Senti vibrar o outro bolso da bermuda e um celular a tocar. O celular do meu amigo também estava comigo. Fiquei espantado e encrencado, sem saber como pagar a conta. Onde estaria a minha carteira? Com sorte, na minha casa. Não me restou alternativa a não ser chamar o gerente e explicar-lhe a situação. Deixei nome e telefone para que a conta pudesse ficar pendurada e eu pagá-la depois. 

Já saia com meu carro da garagem a céu aberto e empurrei o cartão do estacionamento na maquininha que libera a cancela quando, sobre ela, pousou um passarinho todo faceiro, olhando para um lado e para o outro, cantando feito um louco, na altura da minha mão, a menos de meio metro de mim, sem medo algum. Ele ignorava totalmente fato de eu ser predador natural, o meu tamanho ante o seu, o barulho do carro ou a cancela a se levantar. Eu poderia tocá-lo com minha mão tranquilamente. Fiquei ali parado a observá-lo por uns minutos e acelerei o carro em seguida, deixando-o ali, sobre a maquininha, a cantar, como se rindo da minha cara. Olhei o céu limpo e azul do planalto central esperando ver alguma nave espacial. Nem uma nuvem sequer. Tudo azul.

Pensei, ainda no restaurante, que tinha sido abduzido. afinal, a carteira do meu amigo em nada se parece com a minha e o celular muito menos. Quando vi o passarinho, tive certeza ser ele o E. T. que estava ali naquela forma alada, a gozar de minha cara.

A minha carteira eu tinha mesmo esquecido em casa. Não fumei nada. Aliás, não fumo nada. Mas se tivesse fumado, a danada tava estragada. Mas o juízo é que não achei até agora.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

UMA REFLEXÃO SOBRE FÁBULAS



Do alto de seu púlpito, falando para um público cauterizado pela ignorância, aos berros, com total empáfia e demonstrando desrespeito para com a religião alheia, o pastor contava aos incautos ouvintes a estória de Lord Ganesha, deus do riquíssimo panteão indu. Eu já estava a me retirar, não só porque já conhecia a estória desse deus, mas, também por desprezar a forma como aquele pastor ridicularizava o lord Ganesha e todos os que nele acreditam. Mas eu fiquei curioso para saber o desfecho daquele discurso insano e me preguei no banco duro de madeira. 

Lord Ganesha, segundo a fábula, já estava concebido no ventre da esposa de um guerreiro que saíra para a guerra desconhecendo que a deixara grávida. Ao retornar para sua casa, sete anos depois, encontrou a brincar o menino de seis anos de idade. O guerreiro concluiu que sua esposa o havia traído quando de sua ausência e, enfurecido, sacou da espada e degolou a cabeça do menino. A mãe em desespero saiu à procura de um animal qualquer ao qual pudesse cortar-lhe a cabeça para grudar no corpo de seu filho desfalecido. O primeiro animal que lhe apareceu foi um elefante. Ela lhe cortou a cabeça e grudou no corpo do menino que virou, desde então, Lord Ganesha, deus destruidor dos obstáculos. 

O pastor peguntava aos presentes como alguém podia acreditar numa estória tão infantil, ingênua e ridícula, dentre outros adjetivos nada respeitosos. Todos riam do que o pastor dizia. Menos eu que, indignado, procurei o pastor, por pura prudência, depois do culto, para perguntar-lhe se ele acreditava que uma serpente falara, em voz audível, com a Eva no paraíso. Se ele acreditava que tudo havia sido criado em seis dias, do nada, e que seu deus, todo poderoso, cansou-se a ponto de decretar feriado no sétimo dia. Se ele acreditava que Jonas havia sido engolido por uma baleia que, depois de alguns dias, empanzinada com a indigesta presa,  o vomitara vivo. Que um jumento falara com quem o surrava. Que Jesus um dia virá, montado num cavalo branco sobre nuvens, com todo o seu exército, flutuando sobre elas como se nem peso de algodão tivesse, etc... etc... etc...

O pior é que a sua resposta foi afirmativa, embora, seus olhos demonstrassem total insegurança. Eu lhe informei que tais estórias, contadas todas no "livro da verdade", a bíblia, eram tão fantasiosas, ingênuas e infantis quanto a deus Ganesha. 

É que o macaco senta encima do rabo e dana a falar do pitoco do coelho. O telhado é de vidro mas... vamos jogar pedra no telhado dos outros. Me retirei do ambiente certo de que ali não mais voltarei. Só não foi tempo totalmente perdido porque deixei no pastor a insegurança e, queira Deus, a reflexão. 

Wanderley Lucena

domingo, 18 de setembro de 2011

Janela Indiscreta

Fazia tempos que via desde uma de minhas sacadas - e nem são tantas assim - duas moçoilas e uma septuagenária, nuas em pêlo, a desfilarem pelos cômodos de seu apartamento. As moças enfiavam as mãos nas suas cavidades íntimas, como que a se coçarem por causa de algum cricri, enquanto conversavam umas com as outras, descontraidamente. 

Talvez não soubessem que os vidros fumês de suas janelas as protege dos olhares externos apenas durante o dia e que, à noite, de luzes acesas... de fora para dentro tudo se vê e que, ao contrário, quem está de dentro, nada vê a fora. Inverte-se o efeito fumê das vidraças.

As moçoilas jamais poderiam posar nuas para qualquer revista masculina e a septuagenária... Embora não gostasse do que via, permanecia hipnotizado a olhar a intimidades das moças.  Mas comprei uma lanterna neon e, numa noite em que se encontravam mais à vontade do que a Eva no Paraíso, danei a piscar o neon na direção delas. Muito tempo depois elas me perceberam e, assustadas, cobriram-se em toalhas de emergência.

Do outro lado do meu ap, noutra sacada, há tempos atrás, um rapaz, andava para lá e para cá, todas as noites, segurando um telefone com os ombros à orelha, nuzinho como Adão antes de perceber-se em pecado. Não só nuzinho, mas excitado, a fazer sexo consigo mesmo, num vai-e-vem frenético com uma das mãos - nada que o caro leitor nunca o tenha feito - em êxtase, a revirar olhos... e, por vezes, a atacar a geladeira com as partes traseiras arrebitadas na cara de quem o via. Se satisfazia o guloso, nos dois sentidos.

Não sei se o moço entrava em transe depois de fumar algumas folhas colhidas do imenso pé de maconha plantado em belíssimo vaso, com certeza, chinês, talvez ming, que estava postado, devidamente, de forma a pegar o sol dos trópicos. Impressionante a vitalidade da planta e a do moço ao fazer-se sexo todas as noites, talvez, sabendo que podia ser observado desde o meu prédio por quem o quisesse.

Mas o tal moço mudou-se e ocupou o mesmo apartamento um outro rapaz gordinho - e "gordinho é apenas para não ser agressivo sem necessidade - que decidiu dá novas cores às paredes. A pintura, feita por ele mesmo, era sempre efetuada à noite, com o dito cujus de pincel em punho - e tudo bem...  a beleza está nos olhos de quem ver - vestido em uma cueca tamanho "P", mostrando a quem quisesse ver, o seu imenso cofre e seus imensos pneus, além dos pêlos degringolados que lhe cobriam o corpo e que me lembravam, em muito, um gorila que vi certa vez no Geographic Channel. Pelo menos o gordinho não tinha nenhuma erva plantada na cozinha em vaso paraguaio.

No mesmo prédio das moçoilas, doutra feita, um pintor, dessa vez, profissional, também à noite, decide dá uma pausa no seu árduo trabalho de pintura num apartamento vazio e, pára pra descansar um pouco de sua labuta, a olhar displicente pela janela, protegido pelo mesmo vidro fumê. O rapaz começou a acariciar-se e, os mesmos movimentos frenéticos de vai-e-vem deixaram o pintor tarado a contorcer-se, a abrir a boca e a roçar os lábios com a língua. Uma cena medonha que podia ser vista por uma imensa platéia.

Considero que tais cenas fazem parte da modernidade. Coisa de quem mora num conglomerado de prédios. Mas se eu morasse num sítio as cenas seriam com as galinhas, com os porcos, com as joaninhas, enfim... considero que é coisa de quem está vivo. Tanto de quem viu, quanto de quem fez. Ademais, é melhor que ser ser cego.