terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pirilampos, Nambus e Juritis

Fazia tanto tempo que eu não via vagalumes! Quando menino, na roça, era lúdico ficar a ver as luzes a piscar entre os arbustos. Pois bem, aqui faltou energia numa noite dessas. Custou a retornar a eleticidade e que sem ter o que fazer, sai a caminhar pelo jardim e... surpresa! Lá estam eles, os pirilampos ou vagalumes. Quem não acha mágico que tais insetos tenham a capacidade de iluminarem-se e saírem a piscar suas luzinhas na escuridão? Quem não se encanta com o pisca-pisca dos tais bichinhos. Pois bem, magicamente, voltei a ser criança por um momento. Voltei ao Maranhão e ao pequenino vilarejo onde nasci. Lá não tinha eletricidade e as luzes eram as das lamparinas. Dormia-se muito cedo, quase com as galinhas. O que se fazia depois que a noite caia era ouvir estórias contadas pelos mais velhos enquanto debulhava-se a fava. E a fava era grão maior que o do feijão. Era de cor branca e tinha sabor delicioso quando feita com pedaços enormes de tocinhos que eram cozidos dentro da enorme panela. Mas, a fava podia ser comida até fria. E era tão deliciosa quanto comer ela quando acabava de sair da panela. Pra acompanhar vinha uma nambu, ou uma juriti, ou um um jacu. Podia ser assado, frito ou cozido. Era delicioso sentar no chão ao redor da enorme bacia de aluminio cheia de arroz e fava que comíamos com a mão mesmo e a fazer bolinhos que empurrávamos na boca e fechávamos os olhos ante o prazer da papilas a se abrirem ante o sabor que lhe era colocado.

Tomara falte energia quaquer dia e que eu possa sair pelo jardim e os encontre de novo a piscar. Tomara seja noite de natal!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Teismo Agnóstico

- Desde quando és ateu? - perguntou-me ele ante aos meus posts de facebook.

- Desde nunca - respondi sem titubear - Sou agnóstio, apenas. Creio em um deus que não se define, que não se qualifica, que não se explica e nem precisa ser explicado - complementei.

- Pura cientologia - replicou ele a indicar o famoso movimento que arregimenta estrelas de Holywood, tais como, Madonna e Tom Cruise e que muita celeuma tem criado ante os olhos consevadores e incautos de quem pensa ser o dono da verdade.

- O deus bíblico é um monstro sem qualquer razoabilidade e, de acordo com as definições das tais escrituras ditas sagradas, é um ser bem pior que o pior dos seres humanos. Não quero saber de tal deus e, aliás, quero distância. Mas, será que sou um cientologista? - Perguntei-me.

Um deus ególatra, ciumento, medroso, violento, vingativo até a quarta geração, homicida, xonofóbico, sanguinário, racista, homofóbico, machista, injusto, inseguro e tresloucado. São algumas das características que encontro nesse deus que, afirmo, é mera criatura.

Um deus que mandará para o inferno 99% dos homens por ele criado - segundo consta - apenas por responderem à humanidade que ele mesmo implantou em tais seres... é inaiceitável e injusto. Se há algum culpado - e não o há - por uma criação mal fadada, esse culpado só pode ser quem criou.

Um Deus que, segundo consta no imaginário quase lúdico - pra não dizer infantil - mora numa cidade de ouro e que tal cidade levita em algum ponto do Cosmos; um deus que é branco e que tem as mesmas feições humanas; que tem uma espada na mão; que está rodeado de anjos (bem que podiam ser fadas e, algumas delas, madrinhas); etc... etc.. É tão ingênuo acreditar num deus assim quanto acreditar em Lord Ganesha, Brahma, Shiva, Vishu  ou em duendes a passear pelo meu jardim.

Deus, segundo consta, tudo sabe: presente, passado e futuro.. Portanto, sendo ele onisciente era sabedor do fracasso e falência de sua criação, porque não a abortou antes da produção? Para que criar algo ao qual só traria decepção e desgosto? - Mas, bem sei... nada há de errado com conosco que se possa atribuir a Deus.

O que ocorre é temos as duas naturezas, a boa e a ruim, instaladas em nosso âmago. E, a cada indivíduo, cabe a escolha de ser bom ou ruim. O culpado por toda a maldade somos nós mesmos e somos nós que daremos fim a nós mesmos. E bem sei que, grande parte de nosso caráter, sofre influência direta do meio ao qual estamos inseridos. Portanto, por vezes, nem ao próprio indivíduo se pode atribuir alguma culpa por ser ele quem é.

Explicar o Deus é mera perda de tempo e qualificá-lo, igualmente. Porém, é inegável, ao menos para mim, que há um grande mistério. Como explicar o universo? O firmamento? Se tudo foi fruto do bi-bang, como explicar o próprio big-bang? Quem apertou o botão? Antes de tudo já existia o mistério que produziu o big-bang.

Basta-me andar pela praia e sentir a areia ao meus pés; olhar o movimento das ondas; as folhas do coqueiro a balançar com o vento; obervar a lua em sua órbita e movimento; o sorriso de uma criança; obervar o corpo a respirar e o coração a bater; o meu cãozinho que abana o rabo e corre para me lamber cheio de afeto. Basta-me observar um pouco ao meu redor ou dentro de mim mesmo para perceber que não há resposta suficientemente lógica que possa explicar tal mistério.

Não sei como é Deus nem o que Ele quer de mim. Não quero qualquer resposta, todavia. Qualquer resposta seria tentativa inválida, produto de fé ou de mera especulação. Portanto, resta-me perceber que há mesmo um mistério por trás de tudo e, a esse mistério, chamo-o Deus. Um Deus que está para lá, para o Cosmos infinito, e para cá, para dentro de mim, igualmente, infinito. É esse Deus inesplicável e inqualificável, que late dentro de mim, é n'Ele que eu acredito. E isso me basta!

Crer num Deus que tem as mesmas características minhas ou de um ser humano qualquer, me é inconcebível e declaração máxima, um atestado, de que eu não seria capaz de raciocinar por meio de uma lógica que nem precisa ser matemática. Crendices? Prefiro crer em duendes em meu jardim!

Wanderley Lucena

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Banguelas de Marechal

A umildade do ambiente, por si só, já era demasiada. Porém, restavam os enfeites de mau gosto de alguma comemoração que de dizia respeito ao outubro rosa. No teto baixo, pregados mau e porcamente, faixas de papel crepom que se cruzavam de um lado ao outro da sala e laços desingonçados roçavam as cabeças e entrelaçavam nos pecoços dos menos baixos que por ali se encontravam. 

Fotos impressas em papel ofício foram coladas ao longo das paredes em alusão à alegria da festividade passada. Um ventildor ajudava a manter a temperatura um pouco mais amena. 

A maioria da clientela era de mulheres. Havia cerva de umas vinte e alguns homens. Quase todos buscavam arrancar algum dente que incomodava. Aqui ninguém gosta de recuperar dentes por meio de obturação. Pra obturar se vai estragar de novo? Para quê manter dente na boca que vai doer depois? Melhor é extrair logo. Quase todos que entravam á sala do consultório saíam com um tufo enorme de algodão na boca a conter o sangramento da extração. 

Crianças melequentas e remelentas disputavam as poucas cadeiras com os adultos, e gritavam, e choravam, e riam, e corriam sem parar. Havia cerca de vinte a serem atendidos antes de mim. Mulheres grávidas ou gordas, simplesmente, e faladeiras, passavam receitas de bolo em altura bem acima do que se estou eu acostumado. As crianças passaram a comer sacos de pipoca industrializada que, certa vez, experimentei e garanto, isopor tem bem mais sabor. A pipoca esparramou-se desleixadamente por todo o salão e um chiqueiro estaria bem mais limpo desde então. As mães em nada se incomodaram e contiuaram sua laquera horrorosa. Vez por outra o dentista mandava sair um ao qual não podia atender por não ter se dado ao trabalho de escovar os dentes antes do atendimento ou por ter enchido as panelas com tais pipocas de isopor.

Levantei da cadeira de plástico branco apenas para pegar água em filtro bem ao meu lado. Quando voltei-me para sentar-me quase sentei-me no colo de uma menina-capeta com um pirulito na boca a alimentar as cáries. Olhei-a com olhar fusilante. Elha me olhou de baixo para cima mas não se intimidou. Ficou ali, sentada, com bunda grudada na cadeira. Olhei para a mãe dela que não esboçou reação. Eu tirei do fundo do peito todo o ar que me restava e a mandei levantar-se da minha cadeira. Ela saiu correndo pela porta do posto com um cachorro a correr atrás dela. Voltou algum tempo depois e sentou-se no colo da desleixada mãe.

Um cachorro vadio insistia em ficar deitado de barriga para cima, displicentemente, a brincar com a dona e a lamber-lhe as enormes rachaduras dos pés ressecados. Ela aceitava a lambeção sem reclamar. Passei quase três horas no posto e o cachorro ficou ali o tempo todo sem que a dona com ele ralhasse. Era o cachorro a lamber-lhe os pés e ela a falar igual uma arara "chumbada". Ao menos três receitas de bolo eu acompanhei, mesmo que sem querer, enquanto as outras a ouviam atentas. Confesso que não me atreverei a experimentar fazer nenhuma das tais receitas ante as lembranças infernais que podem vir a torturar-me. 

Um rapaz entrou com a cara que mais parecia uma meia-lua. Não questionei os motivos de tantos ferimentos e machucaduras. Pensei ter sido um acidente de moto ou uma briga comum entre os vizinhos daqui. O braço direito estava devidamente imobilizado por um gesso que lhe descia do pescoço até a cintura como se fora um grande colete branco. Arranhões enormes que lhe marcavam desde a testa até o pesocço e o inchaço na região do maxilar. O lado afetado estava duas vezes maior que o outro.

A "mucissoca-soca-soca" era a trilha musical adequada para a cena e vinha de um telefone escondido no bolso da bermuda do pai das crianças de dentes careados. Eu não sabia que o som de celular podia ser tão alto. Entretanto, dado momento, percebi que a ele faltavam ao menos quatro dentes bem na frente do sorriso.

Uma criança começou a berrar dentro do consultório. Com os gritos, o irmãozinho que estava na sala de espera começou a chorar sozinho. O menininho de, no máximo cinco, anos chorava aos berros e batia desesperado na porta do dentista. Eu fui até ele e o abraçei enquanto via seu dentinhos todos careados, verdadeiras panelas, em sua boca. Sentei-o em minha cadeira e tentei distraí-lo. Cerca de dez minutos depois saiu a sua irmão com o tufo de algodão na boca e um dente a menos na boca. Dentro do consultório permaneceu sua mãe que, algum tempo depois, saiu, também com um tufo de algodão na boca e um dente a menos na boca.

Depois de quase três horas de suplício, sem pedir licença, uma senhora sem qualquer uniforme ou identificação, desligou o ventilador e ficamos a escaldar. Eu, de imediato, perguntei à mal educada senhora se ela poderia religar o bendito ventilador. Ela, sem responder nada, com cara de entojo, voltoou a ligar o bendito. Em seguida, deu alguns gritos que quase estouravam meus ouvidos, com uma colega que se encontrava em sala fechada. Depois disso, montou numa bicicleta velha e empoeirada e se foi desaparecendo pela rua pobre.

Já saia para ir embora quando olhei, mais uma vez, a enorme foto mal emoldurada e pensa, pregada na parece suja que um dia já foi braca. O Prefeito local em sorriso colgate e cabelo aprtido ao meio olhava a cena. Eu tive vontade de dizer-lhe alguns impropérios mesmo que só para a foto. Mas, iam rir-me e dizer que estava louco. Mas, o prefeito ria na foto. Nada mais apropriado. E o sorriso era mesmo de deboche.

Eu levei um livro e aproveitei para ler alguns capítulos. Mas, a cena que ali se apresentava era por demais rica e não passei alheio à ela. Fui o último a ser atendido. Sai com medo de ter contraido algum virus ou bactéria. Porém, já que estou na chuva tenho de me molhar. Plano de saúde nesse lugar é pior que saúde pública. Tudo é dificil e desorganizado. A cena descrita, embora tenha acontecido num posto de saúde pública umilde, de uma comunidade humilde, de uma cidade humilde que se chama Marechal Deodoro, em Alagoas, Brasil, bem poderia ter acontecido no melhor hospital da capital e com personagens bem mais abastadas e que estiveram nas melhores escolas.

Mas, é certo que essa gente tem seu valor e ele não pequeno. São guerreiros e guerreiras que, mesmo sem saber, estão a buscar o que lhes resta das migalhas dos altos impostos que são pagos por todos nós. Essa gente umilde que, sequer sabe ler ou escrever e que não passa de massa manobrada e necessária aos políticos que para justificar a precária assistência precisam de muitas verbas federais ás quais deviam aos seus próprios bolsos.

Os desdentados de Marechal continuarão a se reproduzir e, sem educação, seus meninos remelentos contiuarão a frequentar o umilde posto de saúde.

Wanderley Lucena



sábado, 17 de outubro de 2015

Pavonices

Apressei o passo na rua de pouca luz. O flash explodiu e clareou a noite. Olhei para todas as direções e não sabia o que se passara, de onde viera o tal flash. Pensei ser uma lâmpada a estourar ou um problema na fiação elétrica. Porém, apenas o silêncio imperou.

No outro dia me chega um amigo e mostra minha foto, de costas, que já percorria o mundo virtual por meio do aplicativo, quase maldito, watssap. De início fiquei assustado. Sou eu tão importante ao ponto de ter um paparazzi a me seguir? Quem se daria ao trabalho de fotografar-me às tantas da noite em rua de pouco movimento e se daria ao trabalho de espalhar uma besteira dessas na internet? Seria mesmo muita falta do que fazer ou coisa de meninos. Sim, a segunda opção. Era apenas um menino quase hacker que me sacara a foto. Menos mal! Mas, fiquei com a sensação de ser alguma celebridade local.

E ontem, no bar "inferninho" desse lugar - diga-se: adoro os "inferninhos"! - quando fui ao caixa, fui então informado que a minha conta já havia sido paga. 

- Quê? Como? - Perguntei eu estupefacto ante a situação também inusitada. Jamis alguém me pagara a conta e, ademais, não percebia nos frequentadores presentes, ninguém que pudesse ser suspeito de tão boa ação. Insisti com o rapaz que estava no caixa e quis saber quem pagara a minha conta.

- Andreas - Foi a sua resposta depois de eu muito insistir.

Mas, Andreas é um italiano jove, jogador provicional de futebol em seu país. Nós nos cumprimentamos todas as vezes que nos vemos, mas, não sabia eu que gozava de tanto prestígio junto ao moço.

Voltei para casa sem ter entendido direito, mas, na primeira oportunidade, além de agradecer a Andreas, eu lhe serei mais atencioso e, também, retribuirei a gentileza.

Certo é que, por motivo de fofoca ou  não, cá estou a ser alguém para "alguéns". E quando pensamos que o viço já nos se esvai, de alguma maneira, totalmente nova, a natureza insiste a informar-nos que o pavão sempre será pavão, não importa onde esteja nem quantos dias já lhe imprimiu a vida.

Wanderley Lucena

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cotidiano

Sem mais nem menos voltei para casa já meio bêbado e, melhor, acompanhado de duas criaturas incríveis. Ela de Brasília e a passar alguns dias por aqui a aproveitar a praia. Ele nativo, porém, de tiradas inteligentes e marcantes. Falastrão, ousado, sem papas na lingua, chegando quase ao tosco, porém, de beleza igual ou superior à da moça à qual demonstrava todo o poder da testosterona. 

A conversa, ainda no bar, girava sobre temas banais, porém, agradabilíssima para todos que ali estávamos. Eu os convidei a tomar um Casal Garcia, vinho de muito boa qualidade, dizem, já que não sou nenhum somelier. Mas, a proposta foi aceita com efusividade e rumamos para minha humilde residência, a poucos metros do bar. 

A casa estava um pardieiro e eu ruborizei-me ao pedir-lhes desculpas. A cozinha tinha louça suja na pia e já vai pra uma semana que não chamo a empregada a fazer a faxina. Não me lembrei de colocar a música e a conversa foi aumentando de volume que eu, a todo instante, pedia para decermos a tom mais ameno, haja vista, a vizinhança implicante que cobra silêncio sepulcral como se isso aqui fosse lugar que não merece gente feliz. 

Já era madrugada quando abri o Casal Garcia. Com as glândulas palatais inchadas ante o sabor seco tenso do vinho, ríamos e gesticulávamos em conversas exaltadas que iam desde à crítica à cultura local até às viagens marcantes que fizéramos.

A noite tinha que acabar e ambos se foram, dessa vez, com ela sentada na garupa da bicicleta do moço. Não sei o que aconteceu até que ele a deixasse na porta de sua casa. Mas, espero que tenham aproveitado a vida, a noite, o minuto. Porque desta vida pode ser que não levemos nada, nem as lembranças. Mas, que em vida gozemos toda intensidade da humanidade divina que habita em cada um de nós!

Wanderley Lucena

domingo, 11 de outubro de 2015

Feliz Aniversário

O universo insiste em fazer-me surpresas. Aqui ou acolá encontro alguém, alguma coisa, tem brilho diferente e me atrai a curiá-lo. Os óculos fundo de garrafa, tipo nerd inveterado, contrasta com a idade. O jovenzinho magro esguio, de cabelo bem aparado, fala com desenvoltura e conhecimento e de quase todos os assuntos e o faz com segurança. Seus planos podem parecer mirabolantes. Quer ir-se para o exterior e ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Quer casar-se com sua amada e com ela ter filhos.

Os olhos verdes prendem a atenção de quem por ele é mirado. Fotos foram sacadas e a admiração ante a beleza ocular surpreendeu até mesmo o próprio dono. Há sinceridade no tom da voz e na postura. Falante, eloquente e dono da situação não fica desagradável quando se percebe a artimanha da manipulação ao tentar reter alguém que insiste em não querer ficar na roda.

A surpresa foi quando pediu-me um livro como presente de aniversário. Sério? Um livro? Sim, senhor! Um livro. Fui ao meu pequeno acervo, ao qual doarei em breve, e escolhi dois títulos. Um Nietzche e um José Saramago.

O Nietzsche está em linguagem para principiante. Já o José Saramago em O Evangelho segundo Jesus Cristo é pancada das boas e espero que o jovem consiga lê-lo bravamente e que sua reflexão seja para toda a vida.

Que a leitura lhe seja prazeirosa e que seus anos sejam longos! Que a terra lhe ofereça frutos e que sua mesa seja farta! Que seu caminho lhe seja suave e que o sol brilhe cálido em sua fronte - como diria o Druida.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A Pausa e o Silêncio

E você está ai?
Aonde?
Que silêncio!  
Sepulcral
Pausa dramática
Eu ouço o silêncio
Sepulcral
Morremos agora?
Ou só no próximo ato?
Molière diz que são três atos
Estamos no segundo?
Primeiro?
Terceiro
Não quero morrer agora
Tá tão gostoso!
Vou dormir
Aos braços de Morfeu e avante!
Vai
Valeu!
Vendo o quê?
Nada
Percebi!
Comporte-se!
Valeu, coroa!
Coroa é o...
Boa noite!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Simples assim

O telefone toca vez por outra e, desanimado, já sei que nada será novidade. Um ou outro cliente a consultar preços de diárias de hotel. Mas, aqui ou ali, um fantasma ou outro quer fazer contato. Eu não sou muito bom vidente. Costumo não ter muita piedade de quem não se me respeita a distancia de tempo ou a que se nos impuzemos quando do passado em algum momento de desavença. 

Considero mesmo muito normal que hajam enganos a respeito das imagens que fazemos uns dos outros. E nada há demais quando se deixa claro que não se quer relação com este ou aquele indivíduo. Eu não passaria na mesma calçada na qual se me vem alguém que sei não me suportar. Porém, se a calçada for a única via, passo ao lado, respeitosamente e sem provocações, porém, sempre de nariz em pé. Exijo apenas a mesma atitude de quem não me suporta.

Vinte ou trinta anos depois, um desses, encontra-me em aplicativo virtual e, depois de várias tentativas, decido abrir-lhe a guarda. O dito cujus veraneia em casa própria, todos os anos, aqui em praia ao lado. Queria conversar e colocar o papo em dia. Eu não me animei e já podia imaginar que nada seria como antes e que a frustração seria a sensação ao retornar para a minha casa. Dito e feito! Depois de informar-lhe inúmeras vezes não querer conhecer a sua casa, mesmo assim, fui obrigado a desviar de caminho e passar em frente á residência da qual muito se orgulhava. Mas, resisti bravamente e não adentrei ao recinto. A minha raiva, mesmo que contida, foi se esvaindo depois de uma ou duas cervejas já em um bar próximo.

O papo fluia de maneira tão chata. Eu supliquei para que esquecerssemos o passado, porém, já com o teor etílico passado da medida, o assunto era o mesmo. Cobranças ante o que se fez e o que não se fez quando do passado, as expectativas frustradas.

Que pena! A noite era para ser prazeirosa, mas, a insistência sobre o tema me fazia sentir repulsa e ter a certeza que atender ao fantasma do passado fora mesmo um grandissíssimo erro. 

Raríssimos são os casos onde o perdão, verdadeiramente, funciona e apaga tudo o que foi feito ou dito enquanto os indivíduos se degladiavam ante atitudes de desdém ou de ódio completo. E ao que não percebe o motivo das agressões, as coisas pioram e o sentimento da mágoa pode jamais ser apagado.

O perdão pode velado. O perdão pode ser o ato de guardar as boas lembranças como quem guarda um bom livro na estante. O perdão pode ser silencioso e sabedor de que jamais se quererá está na companhia de quem foi perdoado.

A vida continua e novas amizades virão  e muitas não ficarão. Normal como o sol que nasce todos os dias. Perceber que passou e que o que se perdeu jamais será reconquistado é verdadeiro ato de libertação e desapego. Serve para qualquer tipo de relação, desde amizade, parentesco ou amoroso. Simples assim!

Wanderley Lucena


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O Ato

Estás por demais sexual
Acho que estou quase a concordá com tua mãe:
"Tá na hora de aprenderes a cozinhar".
Eu e minha libido...
Não sei aonde a escondi
Mas, vou achá-la qualquer dia, e aí...
Eu quero mesmo é voltar a sentir como no primeiro amor
O gosto da fruta roubada
Esconder-me atrás do muro pra fazer coisa errada e boa
Olhar pelo buraco da fechadura
Coração a sair pela boca
Amar sem ser percebido
Sequer pelo objeto amado
Olhar o precipício e desejar lancar-me
Conscientizar-me, logo em seguida, que vale mesmo é o amor próprio
Curtir fossa às margens do Reno
Tomar um Bordoux qualquer e achar normal e rotineiro
Acordar debaixo do edredon depois de noite intensa
Perceber o corpo quente que aceita o abraço
E que murmura de tanto prazer
Mesmo que jamais se me ocorra
Imaginar-me já é ato de prazer indelével
Alimenta-me como se fora real, quiçá, ainda melhor
O meu abraço quem o recebe, obrigatoriamente, é Brahma
Meu queridíssimo companheiro que não tem como fugir-me
Meu pequeno shitsu é obrigado a aceitar-me, inclusive, os abraços apertados
Rosna, e late, e se me avança, ameaçadoramente, como se o pudera
Arregala-me os olhos em expressão raivosa
Suas presas pequeninas a tocam minha pele em tentativa desesperada e inútil de fuga
Estás vitimado pela impotência ante nosso disparate de poder e posse
Nem que não queiras, és obrigado a suportar-me, querido Brahma
Sinto pena de ti, meu querido
Você depende de mim pra tudo
Perdoa-me, Brahma!
Perdoa o meu amor averso
Tantos donos poderias ter tido
E a vida quis que fora eu a ser-te
Aqui em terras desoladas e áridas de afeto estamos os dois
Vitimados igualmente
Mas, a vida, muitas vezes nos muda o curso natural
E muitas vezes a mudança é pra melhor
Verdade que, por vezes, afasta
E, por vezes, ajunta
Não importa
Nada importa
Importa só o ato
Inspire!
Expire!
Inspire!
Expire!
Lá já se foram quatro atos
Sinta o ato!
Só ele importa
Aprenda a cozinhar!
Aprenda a cozinhar!

Wanderley Lucena





quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Despedida Iminente

Tudo vai bem! E continuo a me despedir deste lugar que tantas algurias me trouxe. Não posso culpar somente o lugar em si. Seria injustiça minha. Talvez a minha personalidade com tendências à melancolia ou o meu caráter forte que destoa da maioria dos conviventes locais. Não sei! Só sei que estou mesmo em momentos de fechamento de cortina. Vou tentar me limpar antes de chegar o dia da partida. Vou tentar sair o mais leve que eu possa. Levarei, com certeza, minhas duas malas e meu cachorro. Mas, não só. Levarei todas as marcas que este lugar me infligiu. Todas as vezes que me olhar ante o espelho verei a cicatriz na fronte e as rugas que consegui. Levarei poucas boas lembranças que, agora, não consigo lembrar-me. Mas, elas existem. Devo deixar algum amigo que, por agora, também, não se me ocorre. Que me venha o próximo carnavel e, em seguida, o aeroporto. Jamais voltarei a este lugar, a não ser que, a vida me obrigue a tal. E odeio obrigações, confesso. Se aqui vim para expiar pecados, creio, pagueios-os todos. Ao menos é o que sinto. E minha amargura não precisa de dó ou piedade de ninguém. Sou auto-sufuciente e dono de meu nariz. Estou aqui porque o quis. E, vou-me porque quero. Sou feliz! Mas, valeu! Sempre vale! 

Wanderley Lucena

sábado, 29 de agosto de 2015

Cinquenta

Do alto dos meus cinquenta, sentado desta cadeira, já posso lhes dizer: respeitem-me!
Agora tenho uma estória a contar 
E já levo aquela espécie de salvo-conduto com o qual os mais velhos podem dizer quase tudo o que pensam sobre si, os outros e o mundo
E se não me pronuncio sobre tudo o que percebo é pura generosidade ou por saber que o diálogo será perdido, barulhento, ou desagradável
E me resta alguma piedade, todavia
E claro que me importo com sua opinião a respeito do que quer que seja, inclusive, sobre mim, porém, tome cuidado para que eu não lhe interprete mal
Pode ser que eu venha a ter-lhe por ignorante
Nesses casos posso, simplesmente, reponder-lhe à altura e, geralmente, não gostam quando falo de forma veemente com quem considero ignorante
Mas, por sorte, nessa idade já evitamos os escândalos maiores
E o "barraco" nunca me cai bem
É que aos cinquenta se perde o medo do desprezo de quem não consideramos importante.
Também, aos cinquenta, por vezes, é melhor o sino do desprezo a ressoar-nos, desagradavelmente,  na lembrança que ser tolerante com o preconceito de gente ignorante que não sabe argumentar ou aceitar as diferêncas dos indivíduos
Aos cinquenta já não mais importa muito
E isso não precisa ser dolorido, digno de dó ou pena, senão, privilégio
É a dor de quem se percebe vivo, muito vivo, e se apropria dessa verdade
Sim, viver e chegar até aqui é privilégio
Mas, confesso: é mesmo muito dolorido chegar aos cinquenta
Resta saber como se chegará aos sessenta
Resta a esperança de chegar aos setenta
E... pior: resta saber se chegaremos aos oitenta ou a qualquer outra idade mesmo que seja o minuto adiante
Que me venham os anos!
Que me venha a sorte dos amores vividos
Que se me venha o equilíbrio!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Colóquio sobre Funerais

- Momento nostalgia. Não vale cortar os pulsos. (Começa a tocar Rod Stewart e Amy Belle a cantar "I Dont Want to Talk About It").

- Navalhas no cofre!

- Putz! Você me leu antecipadamente. Eu ia dizer: Sugiro guardar todas as facas antes de apertar o "play", mas, não deu tempo.

(Recebo em seguida, por ele me enviado, "Antony and the Johnsons - Hope There's Someone").

- Música para suicídio. Dor, muita dor. Cadê a porra da peixeira? Mas, como lembrou-me a Nina Simone. Um réquiem. Não, não toque no meu enterro. Prefiro a Marisa Monte: já sei namorar, já sei beijar de língua, agora só me resta sonhar...

- Eu brinco que tenho algumas músicas para tocar no meu funeral. Uma delas é esta:

(Veio-me, em vídeo, "Portishead - Roads", e em seguida:

- Há! E vai ter Nina, viu?

- Você é um fdp*, um adorável fdp, mas fdp!

- Aliás, o texto do blog "Familia e Cena" é lindo!

- Sério? Você gostou? Você é mesmo um fdp. Eu tenho que lhe dizer que fiquei por demais feliz. Feliz "pacarai"**. Sei que você não seria generoso por dó ou piedade. Você é um crítico nato e não precisa me fazer cena por causa de nossa amizade. E, embora furtivo, você sempre me foi muito honesto, não o posso negar. Mesmo que usando-se da ausência de palavras, inclusive. Compreendes?

- Eu posso não ter talento para tocar um instrumento, nem para escrever um livro ou para ser ator... mas tenho-o para entender tudo isso! Te percebo sim!

- Um fdp! Valeu! Continue a me perceber.

-  Hei! (rs)

- Sobre "Familia e Cena" informo que não é uma crônica e sim um conto. Trata-se de uma ficção por mim criada. Tal fato jamais se me ocorreu. Ok?

- Será? (rs)

Wanderley Lucena
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
* Filho da puta.
** Pra caralho.



terça-feira, 28 de julho de 2015

Familia e Cena

- Com licença, meu Senhor, mas preciso dizer-lhe que fiquei a olhar a sua familia desde ali e fiquei impressionado com tamanha beleza... a começar por sua esposa. E isso não é uma "cantada". - esclareci ante uma inesperada resposta de um marido ciumento.

A Senhora mirou-me sem entender direito o elogio vindo de estranho que jamais vira. O marido pegou em minha mão e sorriu assentindo permissão para a conclusão do racicínio.

- Eu gostaria de parabenizar-lhe por sua escolha em relação à ela. A beleza de sua esposa é ímpar, estonteante, e o Senhor tem muita sorte! 

Claro que depois de elogio tão exagerado senti-me estraneamente incomodado. Parecia que eu estava bêbado e não consegui me conter. Parecia que qualquer coisa poderia me emocionar ao ponto de me fazer deslocar de onde estava sentado e ir até o objeto idenficado e passar-lhe os dedos por pura curiosidade.

Eu, de cá, de minha solidão e com meu corpo já decrépto, confesso, não morro de inveja da bela familia e cena que ela me proporciounou ante o esplendido mar azul da Praia do Francês, em Maceió. Olho a minha figura e vejo nas rugas que se aprofundam, as muitas estórias que vivi e que tenho a contar. Há dor e há alegria em cada uma delas. Estou ficando velho! 

A ignorância parece ter ficado para traz e a lucidez me implica novo sofrimento. Dialogar com quem ficou para trás é tarefa árdua, dificil, irritante e, muitas vezes, puro atraso, perda de tempo. Mas, sigo em minha jornada, agora mais arrojado e... sozinho. Ao menos até que o acaso me tire desse estado. E há vantagens muitas em ser sozinho. Uma delas é poder ir sem precisar voltar e fazer isso á hora que o queira. E me vou!

Wanderley Lucena


sábado, 18 de julho de 2015

Camuflagem

Eu sempre percebi o meu humor negro, por vezes, desagradável
Mas, eu não sabia que eu era tão decifrável, tão óbvio
Decepcionei-me comigo mesmo ante a minha falta mínima de fingimento
Enganei-me ao pensar que ninguém perceberia a extensão do que se vai por traz de meu olhar
Uma simples fotografia e me denuncio completamente
E, olhando bem, está na cara, ou seja, nos olhos
Sinto-me desnudado e envergonhado
Mas... Eu me gosto...
Gosto-me o suficiente para te dizer que assumo, com humildade, que gosto de mim mesmo
Acho que sou boa companhia, apesar de presa furtiva
Claro que me dissimulo ou intento
A minha camuflagem levou anos para ser composta
Agora, você me chega e, despudoramente, me mostra o quão frágil e perceptível estou
Sim, você me conhece e, digo-te
Não sou nem uma coisa nem outra
E... sequer sei quem sou, verdadeiramente
Mas, devo ser alguma coisa
Não sei quem sou
Sou assim, feio e bonito a depender de onde olham e de quem olha
Mas, na frente do espelho da vida seguirei a proteger-me, camufladamente
Ou não!

Wanderley Lucena

sábado, 4 de julho de 2015

Isso me basta

Deixei de dizer um bocado de coisas que penso. Deixei de perguntar o que me seria mera curiosidade. Claro que continuo falastrão e que, por vezes, meus comentários são impiedosos, constrangedores, ácidos e/ou picantes. E, por vezes, mas raras vezes, pode até ser que todas as características mencionadas estejam no mesmo momento. E é certo que, algumas vezes, mas só algumas vezes, eles também me fazem mal. A culpa que eu venha a sentir levo como galardão. Levo com a certeza que, na minha espontaneidade ou no comentário propositado fui eu mesmo. O que me interessa é só isso. Escancarar a mim mesmo. E, mesmo assim, há quem goste. Acho até que me preferem assim. Eu me gosto assim. Isso me basta!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Encontro de mim

Quando tudo vai vai bem e o mar bravio se acalma, continuo a sentir a mesma inquietude que me acompanha desde que me entendo por gente. É hora de ir. A partida está próxima e programada. Dói deixar tudo o que foi construído, por outro lado, lembro-me do princípio budista do desapego. Vou para outras paisagens em busca de mim mesmo. Espero que, no dia em acontecer tal encontro, o meu coração, igualmente, queira ir-se.

Wanderley Lucena

terça-feira, 23 de junho de 2015

ALÉM MAR


Agora já sei
O meu amor não está aqui
Levei longo tempo para perceber
Mas, agora sei
Existe um oceano a ser atravessado
Eu sei que até a outra margem eu chegarei
Mesmo que minhas forças falhem 
Que eu queira desistir
Mesmo que a noite seja longa
E que as águas sejam frias
Nem ante todas as feras marítimas 
Ou ante a dor do estômago vazio
A certeza de que estás lá será o meu guia
Eu chegarei às margens do outro lado
Sei que, primeiro, verei teus pés molhados nas águas salgadas
Eu te pedirei desculpas por ter me atrasado tanto
Sentirei teus braços a me acolher 
A água doce a umedecer as minhas papilas
E agora, o beijo que me fará ver os anjos e toda a glória
Cheguei, aqui estou
Agora a caminhada será branda contigo ao meu lado
Valeu toda a espera 
A vida de novo me vem
O teu sorriso, a tua voz, a tua tez
A tua sombra ao entardecer 
E tua cumplicidade
Nada mais preciso
Tenho tudo
Tenho a ti.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 22 de maio de 2015

ZODIACAL

Meu estado de alerta é meu guia, aprendi com o Spinoza
Já não mais uso armas de pólvora
Mas, a língua continua ferina e, por vezes, até mata
Resta-me, entretanto, alguma piedade
Algumas vítimas, deixo-as vivas, porém, aleijadas
Quero fazer o Caminho de Santiago antes de me fixar por lá 
Verei se me salvo
Ou se ainda tenho salvação
Aqui já sei que não há
Só peço que se fores ao meu encalço
Lembra-te que meu calcanhar é de Aquiles
Tu és sagitariano
Do mundo, sem dono nem rédias
Invejo-te
Uso as minhas rédias desde que me entendo por gente
Mas já sei 
Sou de todos os meses
De todos os tempos
Mas, já fui de julho por nascimento
Canceriano já o fui
Levo agora todos os signos 
E muitos mais que os do zodíaco
Diz minha mãe que sou nascido em dia sétimo
- Vou te ligar!
- Because?
- Trim, trim, trim - tocou-me o telefone.

Wanderley Lucena

sábado, 16 de maio de 2015

A DOR DA PERDA

A morte surpreendente e repentina, do um vizinho nesta tarde. Ver o corpo e consolar os parentes, inclusive, a viúva foi a primeira atitude de todos que souberam do infeliz fato.

A cena que, bem poderia ser encarada como falsa ou desnecessária é, na verdade, a oportunidade de reconciliação e entendimento. A dor da perda não é só de quem perdeu o ente querido, mas, também do vizinho até então desafeto. O vizinho sente e chora a mesma dor. É ante ao desespero dessa dor de perda que se dá a disponibilidade de corações, humanos e falhos, que se unem para se auto consolar.

Nesses momentos difíceis é que se percebe o quanto a vida é passageira e o quanto perdemos nosso tempo com coisas pequenas. Acho que não se pode ignorar a agressão dos que, quando em vida, insistem em se manifestar negativamente, e repetidas vezes, contra alguém. Entretanto, é com uma perda como essas que, os parentes e amigos refletem o quanto é importante ignorar determinados gestos e valorizar outros. 

O evento "morte" é só mais um  momento da própria vida. Dói como ante ao apego ao que se foi e ao fato de nunca mais se verá  o ente querido. É dor parecido com a da mãe ou pai que ver um filho ser encarcerado numa cela depois de ter cometido crime não esperado e saber que ele ali permanecerá por anos a fio e que, no caso brasileiro, sairá de lá pior que quando entrou. 

Por isso, o budismo prega o desapego. É ele, o apego, a causa do sofrimento que leva à depressão e muitas doenças. O apego é o mesmo do objeto. A madame que perdeu a sua joia e não consegue mais achá-la e que se atormentará por dias, meses e até anos, a lembrar do bem perdido quando, é tão somente um objeto que, mesmo caro, não vale um minuto de apego. E claro que um ente querido é mais valioso que qualquer joia. Mas, há que se ficar com as lembranças dos bons momentos vividos com ele e o contentamento da certeza de que se aproveitou ao máximo, enquanto em vida, da presença dele. 

Daí, a necessidade da vigilância em não perder tempo com o desnecessário. E sei que, como diz o adágio popular, "falar é fácil".

Wanderley Lucena


quarta-feira, 13 de maio de 2015

A HIPOCRISIA DO DISCURSO

Creio que a grande frustração de um artista é perceber a hipocrisia daqueles com quem é obrigado a conviver e que o julgam um depravado por sua livre expressão. O mesmo se passa com intelectual - e eu não o sou, nem intelectual, quiçá, artista - que se aborrece com o ignorante ao ponto de, simplesmente, deixá-lo a falar sozinho.

É um incômodo permanente perceber que a falta de bom gosto é desequilíbrio e ouvir que "gosto é gosto, cada um tem o seu". Permanecer num diálogo que não trará frutos é um verdadeiro infortúnio. E há aqueles que, como eu, por muitas vezes, insiste em tentar. E, na maioria das vezes, fica o desgaste, o dissabor, a frustração. E o ignorante sair dizendo que você é um "metido" e que o está a discriminar. Francamente!

É como discutir religião. Quando o religioso percebe que você não se converterá ao seu pensamento ele logo pronuncia: "religião não se discute". Eu digo que, se as partes são adultas e inteligentes, discute-se qualquer assunto, até futebol. E ambos têm que sair do diálogo valorados pela experiência frutífera de falar e ouvir. 

Pior, é perceber-se julgado por quem ouve e saber que, no fundo - mas, nem tão fundo assim - aquele indivíduo é igual, senão, inferior a você. E, bem sei, somos todos hipócritas mesmo, inclusive, este que ora escreve!

Wanderley Lucena



sexta-feira, 8 de maio de 2015

BENDITO SILÊNCIO

Ficar só, por vezes, é a melhor opção. Fazer-se companhia e ouvir apenas a sua própria voz. Recluir-se em obstinada busca pela paz interior... ou não. Há que se reconhecer o que nos faz dano, mesmo que não intencional. Há que se reconhecer o que danificamos, intencional ou não. Certo é que quando adoecemos e fazemos adoecer ou, nos adoecem, é hora de parar e recomeçar. Ninguém é obrigado a nada e muitas vezes, por amor ou outro sentimento nobre - ou não - alguém se atrela ao outro em verdadeiro auto ato punitivo de si ou do amado. Ele não estará feliz ao seu lado e nem você estará feliz ao lado dele. Assim sendo, o melhor é desapegar e lançar, ou lançar-se, rumo ao desconhecido interior que tanto bem traz.

A própria dor é fogo que apura o espírito e enleva ao alto. Nada de masoquismos, por favor! A solidão propositada por períodos pré-determinados e regulares, é super benéfica ao espírito e se reflete no corpo. Calar-se é melhor que falar. Quem fala deve fazê-lo de maneira ponderada e, de preferência, sem ser prolixo.

Quem espera resposta falada deve ouvir o silêncio que grita. O silêncio é a resposta inteligente de quem já chegou à maturidade ou está rumando à ela. O meu silêncio me faz muito bem. É ele um dos meus aprendizados.Um "não" dito implica rejeição e conflito iminente. O silêncio é "não" que vem acompanhado de reflexão e tolerância. Um "não" não dito verbalmente é caminho largo para o diálogo e o bem-dizer que necessita a espera do posterior momento. A celeuma que existe ante um "não" verbalizado é briga de facões. Os corações sairão dilacerados. Por isso, manter o silêncio é manter a abertura para o diálogo posterior que, a depender, bem pode, novamente, silenciar-se.

Wanderley Lucena

quinta-feira, 16 de abril de 2015

SOBRIEDADE

Ando mais devagar. Desacelerei! Estou menos apreensivo e a impulsão já se faz retardada. Há uma calmaria. Atitude contemplativa ante a natureza e, acima de tudo, agradecida por tudo, inclusive, pelo ar que ainda respiro. Todas as marcas que levo, eu sei, são doloridas, porém, escancaram-me minha própria história como um quadro na parede, pintado por um surrealista. Não me envergonho de nenhuma delas. Se são profundas e na alma ou mesmo aquela que veja ao olhar o espelho e que me tocou a própria carne... não importa. São, igualmente, ricas para mim.

Sobriedade é a estampa que me cobre ao menos por enquanto. Minhas malas levam menos bagagem, porém, sinto-me mais rico. Levo uma visão que vai mais além. O meu horizonte é mais distante. A paisagem tem menos componentes. Entenda-se, porém, que a paisagem não é, nem de longe, menos bonita. Insiro-me sozinho por pura vontade nessa pintura que eu mesmo crio. É bom está aqui. É bom saber que não mais estarei. É bom saber que continuarei minha jornada. Desta vez, em busca de tão pouco. A busca é apenas pela caminhada. Não busco nada além.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A JORNADA PARA SHANGRI-LA

A minha angustia ante o que não sou é enorme. Estou onde quis está. Estou onde não quero está. E sei que me vou e que, quando lá chegar, igualmente, não me contentarei. E fico a me perguntar dessa prisão corpórea que me leva quase à insanidade. A insatisfação desde que me entendo por gente. Essa ambiguidade latente da existência humana que me corrói as entranhas e me leva a desejar está onde não estou. E que lá estando, logo quererei está em outro lugar. Qual a resposta para tanto incômodo se a simples existência já, por si só, dadiva de Deus?

O discurso da crença da paz interior que tanto pregam as religiões não mais me basta. É bem verdade que, o equilíbrio do nirvana pregado pelo budismo e alguns outros ramos esotéricos, quase me convence. Entretanto, o nirvana implica trabalho hercúleo e disciplina de monge. Não sei se almejo o fim com tantos meios.

De um lado há a certeza de ter feito muita asneira, muitos erros cometidos na jornada. Por outro lado, há uma voz que me sussurra baixinho, suave e melosa: você viveu! você nem errou tanto! Você tentou, e tentar, por si só, já vale á pena! Se tivesse tentado haveria dor maior, a da covardia! 

Em breve, muito breve, me dedicarei a jornada espiritual. E, de já, a angustia me consome. Poderia ser tão simples: basta escolher. Já escolhi. Mas, e os que te desejam a presença? Aqueles aos quais se está atado por relações amorosas ou de contrato? E os parentes que cá ficarão? Uma decisão já tomada e a angustia do que virá.

Vou em busca da minha Shagri-lah!

Mas, parece que já está gravado no meu código genético. Tenho de ir!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 18 de março de 2015

CADAFALSO

Levaram-me - levei-me? - até o cadafalso e me puseram a corda no pescoço e... quem dera fosse bamba. Olhei para baixo pelo buraco quadrado. Estávamos a uma altura de uns quatro metros do chão. Não havia plateia. O dia era opaco, morno. Um vento cortante trazia ao meu nariz o cheiro do esgoto que corria a céu aberto pela valeta abaixo da calçada de pedras seculares. Havia o algoz que cumpria as ordens e mais ninguém. Aquele algoz trazia o peso do todo. Escondido dentro de touca que lhe cobria até o pescoço e que me mostravam olhos pequenos e assustados. Era franzino, raquítico. Decepcionei-me ante o seu tamanho já que esperava um gigante barrigudo que não me permitisse qualquer reação. Entretanto, não queria reagir. Minhas mãos, mesmo que não estivessem atadas não se levantariam contra ele. Maior que o meu medo era a humilhação. Mil palavras se sobrepuseram em pensamentos turvos e saudosos. Muitos deles de pura amargura. Outros doces e felizes. Minha conclusão era de que valera aá pena. Em alguns segundos as tábuas cederiam aos meus pés e eu esperava a liberdade. Havia tristeza em minh'alma. Mais que ela, havia um imenso mar de sobriedade agradecida. Não me vinham lágrimas. Havia resignação. Os segundos viraram horas. A espera parecia infinita. Sequer sentia algum ódio. Havia amor e agradecimento. Logo eu sairia dali para não sei onde. Queria continuar a sentir todo o ser que agora me sentia. Podia me sentir inteiro e em total simbiose com o universo. O céu estava fora, infinito aos meus olhos. Mas, dentro de mim havia o mesmo céu. Respirei fundo e senti que o ar me preenchia não só os pulmões. Percebi o vulto do braço forte e nu a puxar a alavanca, enfim. Sai de cena e continuei a perceber-me ressonando junto com todos e com tudo. A calma se apropriou de meu ser. Não mais dor. Não mais ânsia. Só amor.

Wanderley Lucena 

terça-feira, 3 de março de 2015

CÍCLICO


Apaixonei-me e me contentei
Mas, me desapaixonei e, me contentei de igual modo
Gratidão ante abóbada cósmica
Placenta de Deus que a tudo envolve
Acalentado, senti-me protegido
E veio o medo e deixou o gosto de fruta estragada
A dúvida nefasta que embolora corações
E me pari depois das contrações normais da solidão
E ali permaneci até que, de novo renascido
Levantei-me e me fui
Para debaixo de céu de estrelas opacas
De lua cinzenta
Rumei para lá  e me apaixonei
E me desapaixonei
De maneira cíclica me contentei
Mas não fique tão “bolado”
É apenas poesia de que não sabe fazê-lo


Wanderley Lucena

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

CENA DE FAMÍLIA MODERNA

- Mãe, estou namorando! - Disse a filha mais nova.

- Com quem, minha filha? - Perguntou a mãe, sabedora que o genro não devia valer grande coisa.

- Com o Parafuso - respondeu a garota esperando resposta sisuda e de desaprovação, haja vista, a má fama do rapaz. Parafuso era magrelo e arredio. Tinha os dentes amarelados pelo uso excessivo de "la marijuana" e já tinha sido preso, não só uma vez,  por vender o referido produto.

- Que bom minha filha - respondeu a mãe a surpreender a filha.

- Mas mãe, ele é surfista - reclamou à mãe a filha mais velha que se encontrava encostada no balcão da pia a tomar um café preto em copo americano. Na verdade, a expressão da filha era de surpresa estupefacta.

- Minha filha, surfista é tudo gente boa, você sabe bem disso - justificou a mãe enquanto desviava o olhar e a enxugar a pia.

- Mãe, ele é traficante. Vai dizer que você não sabe? - insistiu a filha intrometida.

- Que bom! Assim o meu vai sair de graça - respondeu.

Wanderley Lucena

A SURPRESA E A INDOLÊNCIA

Até uma semana atrás a Praia do Francês, ao menos para mim, apresentava paisagem paradisíaca e mais nada. Os ambientes eram desleixados e o serviço, desde restaurantes a hotéis,  pareciam parados no tempo. Os estabelecimentos eram feitos de forma remendadas, na base do "puxadinho". O puxadinho, a gambiarra e o mau gosto que perpassa pela pobreza que vai dos tons desequilibrados das cores até os móveis pobres e rudes feitos à machadas em cima de madeira esquisita e pesada como o coqueiro. Aliás, vim saber que coqueiro era madeira para se fazer móveis nestas terras. Para mim coqueiro só servia pra dá côco. Sim, aqui coqueiro é madeira, e de lei. Fazem-se móveis que vão desde as cadeiras até as camas e armários de cozinha. É madeira pesadíssima e efeito burlesco  negro-moreno, deselegante A exceção fica para quando usado no exterior das casa. Fazem-se cercas e até pérgolas . E nada tenho contra o coqueiro. Acho mesmo que neste momento de consciência ecológica, vai muito bem a escolha pelo coqueiro. Mas, tenho certeza que o coqueiro está sendo mal utilizado na falta da criatividade, quiçá, pela preguiça impregnada na consciência generalizada.

Mas, foi na noite de natal que saí de casa desanimado, meio que forçado por amigos que me haviam convencido a ir a uma festa de nome "SUBSTACION".

Surpresa das surpresas! A festa acontecia em estrutura que já fora um armazém. A rua na qual se localiza é uma pérola colonial. As construções estão bem preservadas e a iluminação está em postes de ferro envergado - com certeza, aquilo é francês - de mais de cem anos.

As paredes em tijolos que um dia já foram rebocados, ganharam iluminação projetada em canhões desde o chão que explodem na cor ocre  do barro e explode em espetáculo de equilíbrio. As portas lembravam as das igrejas antigas e o interior, enorme, com multidão de gente linda a dançar música boa maestrada por DJ local que em nada deixou a desejar aos grandes das maiores capitais do país.

Grandes espelhos emoldurados foram colados, displicentes, ao longo das paredes. Os espelhos eram desde o teto ao chão. O ambiente parecia maior ainda.

A minha felicidade era a de está engando. Sim, alguém sabe fazer alguma coisa direita por aqui. E gente daqui fazendo coisa como os de lá. Adorei a festa e voltei pra casa apressado, haja vista, o vigilante não ter atendido as minhas ligações para informar-me que tudo estava bem. Cheguei e o encontrei a dormir como uma "Bela adormecida" no meio do salão do café manhã depois de ter fumado alguns "backs", pré-suponho. E ai, saí da fantasia e encarei a realidade ante a cena. Eu continuava no mesmo lugar, rodeado de gente indolente e matreira.

Wanderley Lucena




quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

ICEBERG

Eu me peguei a pensar sobre a espera. Sim, o ato de esperar. Esse ato que nos impõe a vida em tantas ocasiões e aos quais insistimos em não nos acostumarmos a ele. Eu poderia afirmar ser o ato infame da espera o maior causador das gastrites, das úlceras estomacais e, pior, dos cânceres que matam algumas centenas de milhares de pessoas pelo mundo à fora...

 O desejo pela coisa ou pela presença de alguém que não chega na hora ou dia marcado é sentimento infame que parece iceberg estacionado no estômago.

Fiquei pensando que agora, depois que a idade me chega e junto com ela a maturidade, fica mais fácil o ato de esperar. A espera pode ser resignada e quase alheia à concretização do desejo que pode ser satisfeito ou não... A não satisfação implica maior desejo e, portanto, maior sofrimento.

O desejo é apego que gera a ânsia que causa a dor ante a insatisfação. Quem se desapega, conforme manda o princípio budista, sofre menos. 

O desejo seria o que chamarmos de "AMOR". Amor de mãe ou qualquer outro tipo. Amar é desejar estar. Amar é desejar ter. Nada além. Amar é sofrer. É melhor morrer de amor que não amar, entretanto.

Mas, alguns indivíduos, depois certa altura da vida, começam a entender que o tempo é senhor de tudo e que a luta contra ele é hercúlea e perdida. Lutar por amor é, quase e sempre, pura perda de tempo e energia. O ideal é que o amado, seja indivíduo ou objeto, esteja por querer estar com quem o ama. 

O Cosmos sempre conspirar a nosso favor mesmo quando o resultado da espera não nos é favorável e o amado não vem. Nesse caso, cabe a aceitação conformada de que o Universo assim o quis por ser a melhor saída. Se ele não veio foi porque não o quis. Melhor assim, senão, seria verdadeira prisão que levaria ambos à infelicidade certa.

Wanderley Lucena


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A canoa e o caju


A canoa de todo não era ruim. Tinha ela a simplicidade da tábuas devidamente ajuntadas por algum artesão local. Era pequena ante a quantidade de água a atravessar. Levava a mim e a mais três passageiros, fora o canoeiro que, de longe, me lembrou o gondoleiro de Veneza. O homem era franzino e fraco. Tinha mais de quarenta anos e pele morena, queimada pelo sol escaldante da região. 

O banco de areia branca, alva como açúcar refinado, esperava-nos logo a algumas remais adiante. Os poucos bares dispostos em frente à lagoa não passavam de quatro. Embora carentes de equipamentos, percebia-se o cuidado e o zelo de seus proprietários na apresentação. Mesas e cadeiras coloridas se destacavam na brancura da areia. Meninos moços pescavam o que nos seria servido em seguida. Algumas mulheres, com grandes bacias, em conversa animada, lavavam crustáceos que iriam para a panela a transformarem-se em deliciosas receitas locais. 

Quando a canoa encostou na areia, descemos todos e ficamos a explorar, visualmente, toda a extensão de 360º que nos oferecia a paisagem. A água da lagoa sofria a interferência da salinidade marítima. O mar estava logo depois do banco de areia, a apenas 100 metros as ondas quebravam em contraste com as águas calmas  da lagoa. Logo nos veio atender um rapaz simpático que nos preparou, por sugestão dele próprio, uma caipirosca de caju*, fruta típica do nordeste brasileiro e pela qual tenho verdadeiro fascínio. O caju se apresenta em diversas cores e tamanhos. Parece que quanto menor, melhor. As tonalidades vão desde um amarelo desbotado passando pelo alaranjado e chegando na pujança de um vermelho paixão. Come-se o caju de diversas maneiras. É fruto abençoado. Eu adoro comer cortado sobre o prato servido com qualquer tipo de comida durante o almoço. Mas, ele pode ser comido ou chupado. É fruta aquosa e de muita fibra. Trava na boca e faz as glândulas palatais incharem-se em degustação incrível. 

O pé de caju, a árvore, é belíssima e frondosa. A folha é grande, densa e brilhosa e, se esmagada entre os dedos, o cheiro é incomum e maravilhoso. Oferece sombra a quem queira. Mas, agora estava me sendo entregue em copo simples, um drinque que me abriu o desejo antes mesmo de experimentá-lo, Era bonito, sensual. Um das frutas fora cortada e esmagada e, depois, acrescentou-se a vodka, o gelo, e sei lá mais o quê. Saí da Prainha de Barra Nova em Alagoas, pedaço pobre brasileiro, ébrio, porém, com a certeza que voltaria ali muitas vezes, pois, além daquela paisagem incrível, ali havia, a caipirosca de caju que jamais experimentara, sequer ouvira falar. 

* O conto acima é uma ficção. A caipirosca citada tomei sim, porém, numa barraca chamada ALOHA, localizada na Praia do Francês, em Alagoas. A Prainha de Barra Nova existe e, salvo a veia poética deste que a descreve, em muito se parece verdadeiramente.

Wanderley Lucena

terça-feira, 11 de novembro de 2014

AMAR E SER AMADO

 

Li, certa vez, um post idiota numa página de facebook de um idiota: "Apaixone-se por alguém que te cuide, que te guie, que te dê apoio..." etc... Eu, porém, me apaixono por me apaixonar, apenas. Me apaixono e vivo. Não espero nada do outro que não o respeito e a lealdade. E, claro, a lealdade passa pela parceria. Isso implica algumas respostas ante as dificuldades enfrentadas por ambos os parceiros. Mas, não exigência "sine qua non" que o parceiro me responda exatamente como eu o deseje. Quero, muito mais, a minha independência que me leve a está ao lado e não nos ombros de ninguém. Não quero ser peso, nem meio peso.  Não quero levar pesos que, bem poderiam, andar sozinhos ou ao meu lado, de mãos dados, rumo ao objetivo de uma vida melhor. Mas, ouvi desse mesmo idiota, d'outra feita: "eu me apaixono por quem se apaixona por mim". E então, calei-me. Não havia mais o que se discutir. Afirmo que, tal idiota, jamais se apaixonou, muito menos, amou! Quiças, jamais amará. E... mais importante que ser amado é... AMAR!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

EQUÍVOCOS

Eu gritei enquanto tu gritavas.
Bocas cerradas depois de tudo dito
Dito tudo o que bem podia não precisava
Palavras doces e fraternas ficaram mudas
Amargas lançadas como navalhas
Cortaram e machucaram
Cicatrizes que, certo, não se apagarão
Negamos o óbvio amor
Por medo de expor-se à fragilidade
Ou se por mera vaidade de quem, egoísta, quer ouvir
Vaidade de quem não quer falar
Eu esperava apenas a palavra bendita de quem pede que se fique
Ocorre que tu esperaste o mesmo
Eu me fui e tu te foste
Levamos o enorme fardo da dor e da mágoa que, de tão grande, parece não nos caber
Eu, de cima, com orgulho, digo-te o que não queria ouvir-te: jamais te dirigirei palavra novamente
E se soubera que o tanto que vivemos terminaria no vale do ressentimento
Melhor me seria, nada termos começado, sequer, conhecido
Mas, agora, sozinho, digo-me: valeu muito!
Comigo levo-te eternamente. Sentirei saudades!
E me dói que não mais aqui me estejas
Falso desprezo que nada mais é que artimanha para que me continues vivo e latente em mim.
O coração sombrio vai cheio de amor que, mesmo machucado, sabe
Outros me virão
Te virão
Diferentes
Não nos substituirão
Fomos únicos
Sempre seremos
E entendemos que o aquilo se nos havia dentro em nós
De tão grande dava medo de entrega
Diamante precioso que, sem o devido reconhecimento, bem poderia ser confundido
Viraria mera bijuteria a ser jogada na prateleira mal cuidada
Levo-te como me eras e não o sabias
Preciosidade deveras
De tamanho que reconhecer não puderas.


Wanderley Lucena



sábado, 1 de novembro de 2014

AGREGAR É MELHOR


Mas, é bem chato mesmo conviver com quem discordamos. A postura da simples eliminação é precária e cômoda. Já eliminei algumas pessoas de minha vida. Nunca me arrependi de tal atitude. Quando elimino alguém é porque amadureci a ideia e percebi, com as atitudes do outro, que não vale à pena tê-lo em meu convívio. E quando o faço, geralmente, é para sempre. Entretanto, gosto de quem argumenta com inteligência e me mostra que posso está enganado a respeito do que se discute. E gosto muito de uma boa discussão com indivíduos adultos, respeitadores e, principalmente, TOLERANTES. Foi a intolerância que criou alguns mequetrefes ao longo da história da humanidade, inclusive, o maior deles, Hitler. Mas temos vários mais contemporâneos como os ditadores da Coreia do Norte, o apartheid na África do Sul, etc... etc...  O importante é que, mesmo que eu discorde totalmente do outro, ele tenha a total liberdade para expressar-se. Eu pegaria em armas para que você pudesse expressar o que pensa. Reflita sobre isso e elimine o menos possível. Agregue o máximo possível. Ouça mais. Fale menos. A lição vale para todos, inclusive, para mim. Eso ya lo sé!

Wanderley Lucena

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

DE LUTO FECHADO


















Hoje não ligo a TV, não vejo jornais, não falo, não escuto. Não abro as cortinas, não ligo o rádio. Meu café da manhã veio morno e sem graça. O sol esturricante na moleira logo cedo a espantar os animais silvestres do jardim. Acordei tarde de um sono profundo. Sonhei. Tive pesadelos. Estou de luto fechado. Enterraram-se as minhas esperanças. Não conseguimos atravessar o pântano formado pela indecência da política brasileira. E os "intelectuais" desta republiqueta de bananas, e de merda, a quererem me convencer que a educação melhorou 200%. Aonde? Não percebi. Vejo um massa invalidada pela preguiça da ignorância. Uma massa dependente das "bolsas" vergonhosas ofertadas por esse governo reles e maldito que está acima das instituições e da lei. E os "intelectuais" a quererem me convencer que eles saíram da linha da pobreza. Estou envergonhado de termos 16 milhões de brasileiros a receberem as tais "bolsas". Bolsas estas que são pagas com o meu dinheiro, com o dinheiro dos que insistem em trabalhar. Revolta ainda mais saber que, mais da metade dos meus impostos vão para o bolso desses salafrários que se apoderaram do Estado brasileiro. Os homens bons e de bem, os homens sérios, não querem saber de política, com ela não se envolvem. Político bem sucedido será o que menos caráter tiver. O vereador será eleito deputado estadual se, no seu pleito, roubar o suficiente para a sustentar a sua campanha ao novo cargo comprando votos com cestas básicas ou em espécie mesmo. Afirmo que, a melhor saída à quem pode, é o embarque internacional de qualquer aeroporto deste país. 

Wanderley Lucena

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A CULPA DOS RENEGADOS

Acho que reduzir a maioridade penal é impor culpa à vítima. Os meninos infratores, maus que só o capeta, na verdade, são vítimas da ausência estatal que não lhes deu a assistência a que tinham direito. Veja as escolas mau aparelhadas, com farinha seca por merenda, professores mau pagos e semi-analfabetos. Veja a família constituída por esses mesmos renegados que, na verdade, apenas procriam e soltam seus filhos ao mundo para multiplicarem-se no terreno árido da escassez do mínimo básico à dignidade humana. Eu poderia escrever um livro de alegações que levariam qualquer pessoa menos esclarecida a concluir que só existe um culpado. Ele se chama ESTADO. Sim, o governo brasileiro que desvia tubos de dinheiro de impostos que pagamos para os bolsos, largos e profundos, da corrupção. Aos que defendem a redução da maioridade penal, muitos deles cristãos-pastores-deputados, informo que "o buraco é mais embaixo". Ademais, estaríamos mandando as crianças, já vitimadas pela ausência governamental, a fazer um curso superior, um doutorado, nas escolas de crime que são as prisões brasileiras. Quem tem que ir para a cadeia é cúpula de corruptos que manda e desmanda no nosso país.

domingo, 17 de agosto de 2014

DITOS E FEITOS


Hoje dormi até tarde. Fazia tanto tempo que não tinha tal privilégio. Senti remorso. Seria a hora de relaxar? Há tanto por fazer.

Tanto já foi feito. A instabilidade já parece coisa do passado. Entretanto, a ânsia pela matéria e a esperança de que ela me proporcione dias melhores me fez sair para terras desconhecidas e insólitas.

É verdade que a maldade dos homens nos impulsiona e nos faz lançar em abismos. Mas, quem se joga ao abismo, nem sempre, o faz por medo da luta. Muitas vezes conta com o acaso providencial do Cosmos que pode nos acolher logo abaixo sem que nos machuquemos, ou que, mesmo machucados, sejamos salvos por obra de milagre.

Eu acredito na providência milagrosa e no destino. Pensava eu que meu lugar de paz seria numa terra nova e, de preferência, numa paradisíaca praia. De onde saí eu trouxe algumas marcas de agressões de homens vis. Mas, neste lugar, sofri piores.

É certo que me vou de novo daqui a pouco. É certo que vou mais desapegado da matéria. Mas, levo comigo o que consegui arrecadar com meu suor. Levarei muito. Mas vou mais leve.


Wanderley Lucena 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

ALGO QUE O VALHA


A minha inquietude não é apenas de ir-me desde aqui. Ela é desejosa de desprendimento e desapego. Sei que me vou para não mais voltar. As sandálias baterei quando entrar no veículo que me levará. Levarei minhas rugas, minhas marcas valorosas. Não levo mágoa, não levo dor, não levo rancor. Levo a cara limpa e a certeza da lição aprendida.

Eu sinto mesmo ter nascido no ocidente e que minha covardia me impeça de transformar-me em um indu, num faqui, num budista ou algo que o valha. Mas, não quero mesmo exteriorizar a minha identidade espiritual. Não quero, sequer, ser apontado como "homem bom" ou "honesto". Quero apenas levar no meu âmago a certeza de que fiz o que me foi possível.

O "Caminho de Santiago de Compostela" é desejo que pretendo realizar tão logo a minha missão aqui seja concluída. Uma incursão para dentro de mim mesmo e que volte para o externo na forma mais óbvia de bondade e amor. Quero encontrar uma causa humanitária e me dedicar a ela.

Claro que tudo muda a todo instante e nada está decretado. Falo de vontades, de desejos. É desejo oposto, por exemplo, morar uma temporada em Madrid. Uma reflexão sobre os contrastes da educação e da moral em relação ao nosso país. Quero verificar "in locu" se é tudo a mesma coisa. Que a qualidade de vida e os valores estão tão perdidos quanto aqui.

A busca pela riqueza me trouxe mais instabilidade. Muitas foram as agressões vis oriundas de homens reles que jamais teria com eles qualquer contato. E não que me sinta superior a eles. Apenas me percebo diferente e sem qualquer afinidade com tais indivíduos. E os chamo de reles com conhecimento de causa e sem qualquer medo de está errado em meu juízo.

É isso! Que me venga un nuevo câmbio!

Wanderley Lucena