sábado, 26 de dezembro de 2015

Pimenta nos olhos!

O médico oftalmologista receitou-me dois tipos de colírios para que eu usasse por algum tempo. Um deles eu deveria usar sempre antes de dormir, no horário noturno. Eu sempre tomo uma cervejinha depois que encerro meu expediente. É algo assim como um ritual... coisa de velho. Saio de minha casa vou andando pela rua iluminada e a sentir a brisa que vem do mar. Cumprimento vários conhecidos até chegar no bar onde já me esperam e peço a minha cerveja junto ao balcão.

Volto para casa e, sempre muito à vontade, vou me preparando para dormir. Desleixadamente, com as luzes apagadas e somente com a iluminação da televisão já ligada, peguei o frasco do colirio e pinguei no olho. Foi como uma gota de limão. Uma ardência infernal e sai desesperado, corri para o banheiro onde joguei bastante água certo de que eu havia colocado qualquer coisa em olho, menos o colírio receitado.  Ao olhar no espelho vi minha pupila que parecia uma bola de gude, totalmente dilatada e o globo ocular vermelho como pimenta malagueta. Mantive o controle apesar da forte dor e fui ver o que, afinal, eu havia colocado em meu olho. 

Meses antes havia levado ao veterinário meu pequeno Shitsu, um lindo e carinhoso cãozinho que me acompanaha a alguns anos. Estava com um pequeno arranhã no olho por ter lecado uma unhada de um gato. Ele não suporta gatos e aqui tem ao montes, soltos, de todos os tamanhos e cores. Quando estão no cio minha vida vira um inferno. Encho a mão de pedras e saio noite à dentro a tentar acertar-lhes para que fujam e me deixem dormir. Mas, o veterinário lhe receitou três tipos de colírios e um deles era de cor ferrugem, quase pastoso, que deixava olho de meu cãozinho em cor de barro vermelho. Sim foi essa medicação que este maluco desleixado colocou no próprio olho. 

Ao acordar no outro dia e olhei curioso no espelho, cheio de esperança que não tivesse nada mais. Porém em meu olho só vi a bola de fogo vermelha no meu olho e a pupila dilatada, enorme, do tamanho de uma peteca. A vermelhidão foi desaparecendo devagar ao longo do dia, mas, continuava a arder e a pupila estava lá, fixa, sem quaquer sinal de retração. Passei a usar colirio de lágrimas artificiais e me recusei a procurar um oftalmologista. 

Por uns dez dias as pessoas me olhavam e me informavam que meu olho direito estava diferente do esquerdo. Eu, de palhaçada, lhes informava que havia sido abduzido e que, desde então, estava com a pupila naquele estado. Depois de uns dez dias, aliviei-me ao constatar que a pupila havia se retraido. Aqui estou a ver como sempre, inclusive, o que não se deve, muitas vezes.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Trovoadas Natalinas

Depois de muitos dias sem uma gota de água de chuva, hoje é natal, 25 de dezembro e chove e troveja como se os céus anunciassem a glória do Cosmos e me quisesse acordar durante o sono da madruga com seus estrondos assustadores de tremer as paredes e a dizer-me: estás vivo e sob um teto; tens comida em tua cozinha e nada te tem faltado. 

O dia amanheceu sob a mesma forte chuva e com o intenso barulho dos mesmos trovões. As gotas a cairem do telhado ou a baterem nas imensas folhas da Jibóia, trepadeira tropical enramada em frondosa árvore adiante minha janela. O som das gotas acalma e refrigera a alma e traz lembranças de um passado tão distante e que já não volta mais. As lembrança da infancia e das brincadeiras de menino com todos os querido primos de idades quase semelhantes.

Meu cãozinho não se animou a sair de casa, mesmo sob minha insistência, para fazer as suas necessidades matinais de costume. A grama encharcada e os arbustos úmidos a molharem minhas pernas. Faz frio aqui e isso é fenômeno raríssimo nestas terras ensolaradas. Não há viv'alma a passar na rua. A senhora que todos os dias, religiosamente, me acorda com seu carro de som nas alturas e descer para a praia a vender cd's pirateados, tampouco, deu as caras.

Eu estou deveras agradecido por tudo o que vivi até aqui. É lindo poder está inserido nessa paisagem. Comprei pães recheados para a minha ceia e meus dois amigos de verão me fizeram uma visita longa e prazeirosa. Conversamos sobre banalidades e saimos para tomar uma cerveja em bar que já estava a fechar as portas. Voltei para casa e tentei entregar-me ao prazer visual da televisão que passava uma película daquelas que me prendem. Porém, meus olhos já insistiam em fechar e entreguei-me a Morfeu.

Hoje tem prova de maratona e que passa em frente à minha casa. Um espetáculo de vida a passar ante minha cara. 

Enfim, um natal como tantos outros e de tantas gentes como eu. Espero, de verdade que seus corações assim como o meu, esteja em paz agradecida ante o Cosmos que nos envolve e sob a terra onde os meus pés se firmam e de onde tiramos tudo o que precisamos.

Um feliz natal a todos!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Uma Noite Feliz!

"Então é natal! A festa cristã". E você vai se reunir com sua familia e comer até encher a pança e beber até de madrugada e nem vai saber o porquê. Dizem que Jesus nasceu nesse dia. Se isso é verdade ou mentira não importa. É um dia alusivo ao seu nascimento e só por isso já vale. Mesmo que seja mito a sua estória não posso deixar de reconhecer o belo exemplo de amor dessa figura à quem chamamos Jesus. Quem dera eu conseguir seguir as suas pegadas, mesmo que de longe como o fez o nanico Zaqueu, o cobrador de impostos desprezado por todos e a quem Jesus disse: "desse desse árvore Zaqueu, pois, hoje mesmo pousarei em tua casa". E Zaqueu ficou inflamado e sem acreditar no amor que lhe inundara naquele momento. Desceu da árvore e, sabedor de sua indignidade, replicou: "Senhor, não digno que pouses em minha casa". Mas, Jesus foi para a casa dele que, já convertido ao amor divinal, informou: "se roubei alguma coisa de alguém, devolverei em dobro!". E Jesus declarou: "Hoje chegou salvação à esta casa".

Aquela noite foi natal na casa de Zaqueu. Foi a data do nascimento de um novo ser em Zaqueu e uma alegria sem tamanho inundou a sua casa. Ele recebia a Jesus em sua vida e em seu coração. Ali estava uma nova criatura, transformada pelo amor do Cristo. Não há como negar a energia transformadora do amor. O amor tudo pode. É logânimo e paciente. 

E para aqueles que, assim como eu, são dados à certa reclusão em tais festas eu vos informo que é possível não está só mesmo que solitário. Sinto as energias emanadas daqueles que me amam e que não podem está comigo hoje. Eu, da mesma maneira, penso neles e lhes sinto enorme saudade. Além do mais, ante o Cosmos infinito, agradeço por todas as lutas e por todas as vitórias. 

Tenho pão recheado de goiabada para a minha ceia. E pense na felicidade que sinto! Meu coração explode de felicidade e as lágrimas me vêm ao rosto. Obrigado a todos que me querem e eu vos desejo todo o amor! O mesmo amor que salvou Zaqueu inunde hoje as suas casas e seus corações.


Wanderley Lucena

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Pecados como Medalhas

Com satisfação vejo minhas rugas ante o espelho. Percebo-me envelhecendo! Minha barba já está branquiando e minhas cãs igualmente. Levo todas essas manifestações naturais como se marcas de pecados ora cometidos. E é um orgulho poder sentir-me pecador, quiçá, o maior deles. Sim, rebelei-me com ensinamentos mentirosos que me foram ensinados e assumi a mim mesmo como ser capaz de conduzir-me nessa jornada belíssima que é a vida.

Sentir-me pecador é declarar, em alto brado, a minha independência intelectual e a posse completa de mim mesmo. Não preciso que mais ninguém me diga o que é melhor para mim. 

Não nego minha existência condicionada à vontade da natureza e jamais a renegarei por covardia que me leve a ser o que a sociedade hipócrita dita. Jamais me renderei ao discurso tenebroso das religiões que me ameaçam com suas mentiras e me decretam o meu fim no inferno. 

Estou consciente que a morte chegará para todos, inclusive, para mim. Sei que levo até o momento fatídico essa energia que me faz sentir e pensar á qual chamamos espírito. E meu espírito será atraído para a positividade da luz mesmo que insistam em dizer que não. Assim como o meu coração late em meu peito sinto em minha mente a certeza que estou fazendo a coisa certa. E que se dane quem quiser pensar o contrário. Controlar-me jamais alguém conseguirá, a não ser que me venha com argumentos razoáveis, lógicos e sem extremismos ou fanatismos. E, nesse caso, terás apenas me me convencido, mas, continuarei livre, embora, convencido de tua verdade. 

Quem bem quiser viver, peque! Peque muito! Mas, se divirtui de valores éticos, nem traga danos ao seu corpo ou à sociedade. Pecar não significa rebeldia burra e que vai contra sí mesmo ou os outros. Pecar é conviver consigo mesmo e com os demais em plena harmonia. É ousar deixar de crer por crer e experimentar sensações que sempre te disseram ser proibidas.

E aos que insistem em achar que existe o retorno, a reconcialiação eu lhes afirmo, nunca!

Sim levo todos os meus pecados e sem qualquer culpa. Levo como se fossem meldalhas - a compiar Zélia Duncan.

Amém!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Bons Pecados

Apreciei o líquido que me descia garganta abaixo depois sentir minhas glândulas palatais inchadas pelo gosto ácido e ocre. Na taça permaneciam lágrimas a descer de cima para baixo quase imperceptíveis ao olho nu. Um cidadão em mesa ao lado deu uma baforada em um charuto que, com certeza, era cubano. Nunca fui apreciador das fumaças por pura falta de costume e por saber o risco que se corre. No pátio aberto os odores variavam desde o manjericão nas massas servidas, a maresia que vinha do mar logo adiante, a fumaça do charuto e de um jasminzeiro imenso que estava logo na entrada do restaurante.

A companhia não era das piores e eu estava feliz mais uma vez e a constatar que valia mesmo muito a pena tudo o que fiz de minha vida. Com todas as aventuras e desventuras... sinto-me orgulhoso de minha rebeldia e independência. Não quero que pensem que não sou consciente de que todos precisamos uns dos outros o tempo todo. Eu mesmo gosto muito de dividir sempre. Mas, confesso tenho uma dificuldade enorme em aceitar ajuda. E sei que chegará o dia em que não mais darei conta de minhas necessidades básicas. E ai... que Deus tenha misericordia e que possa pagar alguém a cuidar de mim.

Eu quero os sabores dos pecados todos. Quero os sabores dos verdes e dos maduros. Quero ver a montanha ao longe ou a minha pele a envelhecer nas minhas mão já manchadas pelo tempo a apenas alguns centimetros de meus olhos. Já não quero as garantias do futuro certo. É que se assim o fora me acabariam as aventuras. Quero ir-me sem saber para onde. Quero satisfazer a todos os meus desejos. Minha casa será a casa de todos os que eu quiser em minha companhia.

Que o gosto seja travoso, ácido, adocicado. Que venha sempre acompanhado de todos os demais sentidos. Cheiros bons. Toques leves e demorados. Uma boa paisagem de longe ou de perto. Que os ouvidos ouçam bons sons. E que os cheiros sejam do jasmim, de lavanda, de alfazema. E que a recordação vá longe e traga as sensacões da infancia vivida com tanta intensidade e que não mais voltará.

Não mais quero as gentes certas nem os equilibrados. Quero os que ousam e se rebelam. Os que pensam por si e não pelo que lhe rezaram. Que coloquem boa música e que encham a taça com bom vinho. Que tragam os cubanos para que possamos fumar e comemorar a vida! Com bons odores , com bons sabores, com toques de todas as músicas! Viva! 

Wanderley Lucena

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

DICOTOMIA

Vivo verdadeira dicotomia. Vivo em lugar lindo e paradisíaco ao qual qualquer indivíduo se sentiria afortunado em viver nele. Trata-se praia de águas mornas e límpidas. O azul turquesa e o verde esmeralda se compõem harmônicos em paisagem digna de Matisse. As piscinas naturais formam verdadeiros aquários nos quais vivem peixes coloridos, polvos, águas marinhas, moluscos e, até a vegetação dos planctons é riquíssima. 

A areia branca e fina é o solo no qual coloco os pés em caminhada diária rumo ao coqueiral e onde, por vezes, pude ver as tartarugas marinhas a desovarem em noite de lua. Até golfinhos cheguei a ver. No braço cheguei até os arrecifes e ali me emocionei ante a riquesa da vista e agradeci a Deus por não está ali sozinho e inclusive, á convite de nativos incríveis e amigos.

Agora, quando já me vou, percebo o ciclo de amigos que fiz e que a vida, generosamente, esfrega em minha cara. Sinto-me enganado sob diversos aspectos. Sempre tratei a maior parte das gentes daqui com olhar esnobe e arrogante ante a ignorância que impera em muitos. Porém, agora sei, são eles vitimados desde o momento em que nasceram. São os políticos que mantém essa gente ignorante por serem assim mais fáceis de manuseio.

Sei que se tenho melhor formação que eles, embora tenha vindo da extrema miséria, isso não me torna melhor que eles nem ninguém. Ao contrário, tenho o dever da tolerância. Preciso dizer que peço desculpas a todos! Espero que me perdoem por minha soberba!

Estou feliz por poder ir e saber que sentirei saudades deste lugar e que aqui deixarei amigos que falarão bem de mim. Levarei um coração repleto de boas lembranças. Certo é que muito aprendi e que levo toda a experiência que aqui ganhei.

E é agora quando já nem queria mais gostar que me apaixono por este lugar. Tenho que ir. Preciso achar meu lar, meu lugar no mundo. Não sei se está para onde me vou. Mas, que me apaixone logo de chegada e que encontre amigos como os que aqui deixarei.

Preciso de lugar onde possa sentir-me seguro e onde o Estado seja uma realidade.Estou envelhecendo e precisarei de assistência, de sistema de saúde que, realmente funcione.

Muito obrigado Praia do Francês.


Wanderley Lucena

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Cosmos

Nadar desde a orla da Prais do Francês até as piscinas naturais que se formam nos arrecifes cerca de 150 metros à frente não tem preço. A visão desde alí, tanto para mar aberto quanto para a propria praia, é visão paradisíaca. E o melhor é que fiz a travessia à nado. Claro que eu estava acompanhado de quem poderia salvar-me em caso de necessidade e cansaço. Mas, apesar de sentir o peito ofegante e o peso das aguas mornas e salgadas a levarem-me corrente contrária ao ponto que desejávamos, consegui sucesso em por os pés cuidadosamente ante a grande quantidade de ouriços ali presente. 

A vida marinha é abundante e até um polvo nós avistamos enquanto se escondia embaixo dos arrecifes. Peixes coloridos, algas, caranguejos, larvas e outros tipos que se pareciam minhocas e aos quais não sei nominar. 

O intenso azul turquesa do mar beijava no horizonte o azul celeste de um céu sem qualquer sinal de nuvens. A beleza de olhar desde ali as areias brancas banhadas pelas águas caudolosas e mornas de uma incrivelmente acolhedor. A praia estava lotada e os banhistas estavam às centenas a banharem-se. Brinquedos inflados e enormes levavam turistas que eram puxados por voadeiras ou jetskis a uma velocidade imensa. Parapentes e até helicópeteros marcavam o azul celeste com tons coloridos fortes. Ao sul um imenso e verde coqueiral trazia um ar bucólico e, até certo ponto, sevagem. Ao norte a paisagem seguia margeada por faixa branca de areia fina, mar cálido das piscinas naturais e o muro de arrecifes que chegava quase até Maceió. Donde estávamos era possível ver os prédios da capital ao longe.

Um grupo grande de esportistas de standup apareceu ao longe e me informaram que os tais vinham desde Maceió, quase 20 kms de distância de onde estávamos. E segundo me informaram, eles continuariam até Barra de São Miguel, quase cinco kms adiante de onde estávamos. Acho que eu não teria tanta coragem, sequer vigor físico para tanto. Mas, que bonito que é ver gente a viver com intensidade toda a humanidade que nos foi confiada.

Nadei de volta até a praia e ao sentir meus pés tocarem a areia senti uma alegria imensa de poder conviver com aqueles que até a piscina natural haviam me levado e pelo imenso privilégio que foi viver e perceber-me vivo ante tão imenso cosmos. 

Wanderley Lucena

domingo, 6 de dezembro de 2015

Resto de mim

Este blog é apenas uma faceta de mim. Engana-se que pensa que sou isso 24h. Aqui sou apenas 10 minutos do meu dia. E é o que mais gosto de mim. Cuido-o e alimento com carinho e disciplina. É verdade que a minha disciplina já não mais é militaresca, mas, mesmo com erros de grafia, ortografia ou digitação, imponho a ele a mesma estética e equilíbrio que gostaria por toda a vida. O meu trabalho aqui é diverso do resto de horas que as ocupo com coisas chatas ou não. Minhas obrigações diárias são exercício que, nem sempre me oferecem o prazer que tenho quando estou diante do meu computador a escrever o que sinto e, bem sei, muitas vezes, sequer serão lidos por quem quer que seja. 

O que resta de mim, sabe-se lá, nem precisa ser conhecido de ninguém. E há uma parte de mim, como há em todos os indivíduos, que sequer quero mostrar. Talvez porque precise mesmo esconder a sete chaves ou por saber que nenhum prazer traria a mim ou a quem lhes viesse a conhecer. Assim sendo, essa parte de mim eu lido com ela quando apago a luz. Quando estou na minha cama e de olhos fechados abro o baú das desilusões, das tristezas. O meu relicário de angústias é vasto. Disponho cada relíquia como se fossem medalhas. Sim sou meio masoquista. Ou totalmente masoquista, não sei... Mas, é desse baú de horrores que me sai grande parte de minha inspiração. É das reflexões que dali retiro que procuro fazer o meu dia seguinte melhor.

Sou assim, alegre e triste, feio e bonito, bom e mau, certo e errado. Mas, por vezes, afeito-me com cuidado na tentativa de ser agradável. Necessito que me suportem quando com a luz acesa. Se não me afeito e não mantenho o meu monstro muito bem preso, ninguém me suporta. E assim vou indo por essa estrada que não sei aonde vai acabar. Mas que se me finalize como se fosse uma comédia. Receio e tenho medo que o "le gran finale" seja uma tragédia.

E o que resta de mim? 

Wanderley Lucena

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pirilampos, Nambus e Juritis

Fazia tanto tempo que eu não via vagalumes! Quando menino, na roça, era lúdico ficar a ver as luzes a piscar entre os arbustos. Pois bem, aqui faltou energia numa noite dessas. Custou a retornar a eleticidade e que sem ter o que fazer, sai a caminhar pelo jardim e... surpresa! Lá estam eles, os pirilampos ou vagalumes. Quem não acha mágico que tais insetos tenham a capacidade de iluminarem-se e saírem a piscar suas luzinhas na escuridão? Quem não se encanta com o pisca-pisca dos tais bichinhos. Pois bem, magicamente, voltei a ser criança por um momento. Voltei ao Maranhão e ao pequenino vilarejo onde nasci. Lá não tinha eletricidade e as luzes eram as das lamparinas. Dormia-se muito cedo, quase com as galinhas. O que se fazia depois que a noite caia era ouvir estórias contadas pelos mais velhos enquanto debulhava-se a fava. E a fava era grão maior que o do feijão. Era de cor branca e tinha sabor delicioso quando feita com pedaços enormes de tocinhos que eram cozidos dentro da enorme panela. Mas, a fava podia ser comida até fria. E era tão deliciosa quanto comer ela quando acabava de sair da panela. Pra acompanhar vinha uma nambu, ou uma juriti, ou um um jacu. Podia ser assado, frito ou cozido. Era delicioso sentar no chão ao redor da enorme bacia de aluminio cheia de arroz e fava que comíamos com a mão mesmo e a fazer bolinhos que empurrávamos na boca e fechávamos os olhos ante o prazer da papilas a se abrirem ante o sabor que lhe era colocado.

Tomara falte energia quaquer dia e que eu possa sair pelo jardim e os encontre de novo a piscar. Tomara seja noite de natal!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Teismo Agnóstico

- Desde quando és ateu? - perguntou-me ele ante aos meus posts de facebook.

- Desde nunca - respondi sem titubear - Sou agnóstio, apenas. Creio em um deus que não se define, que não se qualifica, que não se explica e nem precisa ser explicado - complementei.

- Pura cientologia - replicou ele a indicar o famoso movimento que arregimenta estrelas de Holywood, tais como, Madonna e Tom Cruise e que muita celeuma tem criado ante os olhos consevadores e incautos de quem pensa ser o dono da verdade.

- O deus bíblico é um monstro sem qualquer razoabilidade e, de acordo com as definições das tais escrituras ditas sagradas, é um ser bem pior que o pior dos seres humanos. Não quero saber de tal deus e, aliás, quero distância. Mas, será que sou um cientologista? - Perguntei-me.

Um deus ególatra, ciumento, medroso, violento, vingativo até a quarta geração, homicida, xonofóbico, sanguinário, racista, homofóbico, machista, injusto, inseguro e tresloucado. São algumas das características que encontro nesse deus que, afirmo, é mera criatura.

Um deus que mandará para o inferno 99% dos homens por ele criado - segundo consta - apenas por responderem à humanidade que ele mesmo implantou em tais seres... é inaiceitável e injusto. Se há algum culpado - e não o há - por uma criação mal fadada, esse culpado só pode ser quem criou.

Um Deus que, segundo consta no imaginário quase lúdico - pra não dizer infantil - mora numa cidade de ouro e que tal cidade levita em algum ponto do Cosmos; um deus que é branco e que tem as mesmas feições humanas; que tem uma espada na mão; que está rodeado de anjos (bem que podiam ser fadas e, algumas delas, madrinhas); etc... etc.. É tão ingênuo acreditar num deus assim quanto acreditar em Lord Ganesha, Brahma, Shiva, Vishu  ou em duendes a passear pelo meu jardim.

Deus, segundo consta, tudo sabe: presente, passado e futuro.. Portanto, sendo ele onisciente era sabedor do fracasso e falência de sua criação, porque não a abortou antes da produção? Para que criar algo ao qual só traria decepção e desgosto? - Mas, bem sei... nada há de errado com conosco que se possa atribuir a Deus.

O que ocorre é temos as duas naturezas, a boa e a ruim, instaladas em nosso âmago. E, a cada indivíduo, cabe a escolha de ser bom ou ruim. O culpado por toda a maldade somos nós mesmos e somos nós que daremos fim a nós mesmos. E bem sei que, grande parte de nosso caráter, sofre influência direta do meio ao qual estamos inseridos. Portanto, por vezes, nem ao próprio indivíduo se pode atribuir alguma culpa por ser ele quem é.

Explicar o Deus é mera perda de tempo e qualificá-lo, igualmente. Porém, é inegável, ao menos para mim, que há um grande mistério. Como explicar o universo? O firmamento? Se tudo foi fruto do bi-bang, como explicar o próprio big-bang? Quem apertou o botão? Antes de tudo já existia o mistério que produziu o big-bang.

Basta-me andar pela praia e sentir a areia ao meus pés; olhar o movimento das ondas; as folhas do coqueiro a balançar com o vento; obervar a lua em sua órbita e movimento; o sorriso de uma criança; obervar o corpo a respirar e o coração a bater; o meu cãozinho que abana o rabo e corre para me lamber cheio de afeto. Basta-me observar um pouco ao meu redor ou dentro de mim mesmo para perceber que não há resposta suficientemente lógica que possa explicar tal mistério.

Não sei como é Deus nem o que Ele quer de mim. Não quero qualquer resposta, todavia. Qualquer resposta seria tentativa inválida, produto de fé ou de mera especulação. Portanto, resta-me perceber que há mesmo um mistério por trás de tudo e, a esse mistério, chamo-o Deus. Um Deus que está para lá, para o Cosmos infinito, e para cá, para dentro de mim, igualmente, infinito. É esse Deus inesplicável e inqualificável, que late dentro de mim, é n'Ele que eu acredito. E isso me basta!

Crer num Deus que tem as mesmas características minhas ou de um ser humano qualquer, me é inconcebível e declaração máxima, um atestado, de que eu não seria capaz de raciocinar por meio de uma lógica que nem precisa ser matemática. Crendices? Prefiro crer em duendes em meu jardim!

Wanderley Lucena

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Banguelas de Marechal

A umildade do ambiente, por si só, já era demasiada. Porém, restavam os enfeites de mau gosto de alguma comemoração que de dizia respeito ao outubro rosa. No teto baixo, pregados mau e porcamente, faixas de papel crepom que se cruzavam de um lado ao outro da sala e laços desingonçados roçavam as cabeças e entrelaçavam nos pecoços dos menos baixos que por ali se encontravam. 

Fotos impressas em papel ofício foram coladas ao longo das paredes em alusão à alegria da festividade passada. Um ventildor ajudava a manter a temperatura um pouco mais amena. 

A maioria da clientela era de mulheres. Havia cerva de umas vinte e alguns homens. Quase todos buscavam arrancar algum dente que incomodava. Aqui ninguém gosta de recuperar dentes por meio de obturação. Pra obturar se vai estragar de novo? Para quê manter dente na boca que vai doer depois? Melhor é extrair logo. Quase todos que entravam á sala do consultório saíam com um tufo enorme de algodão na boca a conter o sangramento da extração. 

Crianças melequentas e remelentas disputavam as poucas cadeiras com os adultos, e gritavam, e choravam, e riam, e corriam sem parar. Havia cerca de vinte a serem atendidos antes de mim. Mulheres grávidas ou gordas, simplesmente, e faladeiras, passavam receitas de bolo em altura bem acima do que se estou eu acostumado. As crianças passaram a comer sacos de pipoca industrializada que, certa vez, experimentei e garanto, isopor tem bem mais sabor. A pipoca esparramou-se desleixadamente por todo o salão e um chiqueiro estaria bem mais limpo desde então. As mães em nada se incomodaram e contiuaram sua laquera horrorosa. Vez por outra o dentista mandava sair um ao qual não podia atender por não ter se dado ao trabalho de escovar os dentes antes do atendimento ou por ter enchido as panelas com tais pipocas de isopor.

Levantei da cadeira de plástico branco apenas para pegar água em filtro bem ao meu lado. Quando voltei-me para sentar-me quase sentei-me no colo de uma menina-capeta com um pirulito na boca a alimentar as cáries. Olhei-a com olhar fusilante. Elha me olhou de baixo para cima mas não se intimidou. Ficou ali, sentada, com bunda grudada na cadeira. Olhei para a mãe dela que não esboçou reação. Eu tirei do fundo do peito todo o ar que me restava e a mandei levantar-se da minha cadeira. Ela saiu correndo pela porta do posto com um cachorro a correr atrás dela. Voltou algum tempo depois e sentou-se no colo da desleixada mãe.

Um cachorro vadio insistia em ficar deitado de barriga para cima, displicentemente, a brincar com a dona e a lamber-lhe as enormes rachaduras dos pés ressecados. Ela aceitava a lambeção sem reclamar. Passei quase três horas no posto e o cachorro ficou ali o tempo todo sem que a dona com ele ralhasse. Era o cachorro a lamber-lhe os pés e ela a falar igual uma arara "chumbada". Ao menos três receitas de bolo eu acompanhei, mesmo que sem querer, enquanto as outras a ouviam atentas. Confesso que não me atreverei a experimentar fazer nenhuma das tais receitas ante as lembranças infernais que podem vir a torturar-me. 

Um rapaz entrou com a cara que mais parecia uma meia-lua. Não questionei os motivos de tantos ferimentos e machucaduras. Pensei ter sido um acidente de moto ou uma briga comum entre os vizinhos daqui. O braço direito estava devidamente imobilizado por um gesso que lhe descia do pescoço até a cintura como se fora um grande colete branco. Arranhões enormes que lhe marcavam desde a testa até o pesocço e o inchaço na região do maxilar. O lado afetado estava duas vezes maior que o outro.

A "mucissoca-soca-soca" era a trilha musical adequada para a cena e vinha de um telefone escondido no bolso da bermuda do pai das crianças de dentes careados. Eu não sabia que o som de celular podia ser tão alto. Entretanto, dado momento, percebi que a ele faltavam ao menos quatro dentes bem na frente do sorriso.

Uma criança começou a berrar dentro do consultório. Com os gritos, o irmãozinho que estava na sala de espera começou a chorar sozinho. O menininho de, no máximo cinco, anos chorava aos berros e batia desesperado na porta do dentista. Eu fui até ele e o abraçei enquanto via seu dentinhos todos careados, verdadeiras panelas, em sua boca. Sentei-o em minha cadeira e tentei distraí-lo. Cerca de dez minutos depois saiu a sua irmão com o tufo de algodão na boca e um dente a menos na boca. Dentro do consultório permaneceu sua mãe que, algum tempo depois, saiu, também com um tufo de algodão na boca e um dente a menos na boca.

Depois de quase três horas de suplício, sem pedir licença, uma senhora sem qualquer uniforme ou identificação, desligou o ventilador e ficamos a escaldar. Eu, de imediato, perguntei à mal educada senhora se ela poderia religar o bendito ventilador. Ela, sem responder nada, com cara de entojo, voltoou a ligar o bendito. Em seguida, deu alguns gritos que quase estouravam meus ouvidos, com uma colega que se encontrava em sala fechada. Depois disso, montou numa bicicleta velha e empoeirada e se foi desaparecendo pela rua pobre.

Já saia para ir embora quando olhei, mais uma vez, a enorme foto mal emoldurada e pensa, pregada na parece suja que um dia já foi braca. O Prefeito local em sorriso colgate e cabelo aprtido ao meio olhava a cena. Eu tive vontade de dizer-lhe alguns impropérios mesmo que só para a foto. Mas, iam rir-me e dizer que estava louco. Mas, o prefeito ria na foto. Nada mais apropriado. E o sorriso era mesmo de deboche.

Eu levei um livro e aproveitei para ler alguns capítulos. Mas, a cena que ali se apresentava era por demais rica e não passei alheio à ela. Fui o último a ser atendido. Sai com medo de ter contraido algum virus ou bactéria. Porém, já que estou na chuva tenho de me molhar. Plano de saúde nesse lugar é pior que saúde pública. Tudo é dificil e desorganizado. A cena descrita, embora tenha acontecido num posto de saúde pública umilde, de uma comunidade humilde, de uma cidade humilde que se chama Marechal Deodoro, em Alagoas, Brasil, bem poderia ter acontecido no melhor hospital da capital e com personagens bem mais abastadas e que estiveram nas melhores escolas.

Mas, é certo que essa gente tem seu valor e ele não pequeno. São guerreiros e guerreiras que, mesmo sem saber, estão a buscar o que lhes resta das migalhas dos altos impostos que são pagos por todos nós. Essa gente umilde que, sequer sabe ler ou escrever e que não passa de massa manobrada e necessária aos políticos que para justificar a precária assistência precisam de muitas verbas federais ás quais deviam aos seus próprios bolsos.

Os desdentados de Marechal continuarão a se reproduzir e, sem educação, seus meninos remelentos contiuarão a frequentar o umilde posto de saúde.

Wanderley Lucena



sábado, 17 de outubro de 2015

Pavonices

Apressei o passo na rua de pouca luz. O flash explodiu e clareou a noite. Olhei para todas as direções e não sabia o que se passara, de onde viera o tal flash. Pensei ser uma lâmpada a estourar ou um problema na fiação elétrica. Porém, apenas o silêncio imperou.

No outro dia me chega um amigo e mostra minha foto, de costas, que já percorria o mundo virtual por meio do aplicativo, quase maldito, watssap. De início fiquei assustado. Sou eu tão importante ao ponto de ter um paparazzi a me seguir? Quem se daria ao trabalho de fotografar-me às tantas da noite em rua de pouco movimento e se daria ao trabalho de espalhar uma besteira dessas na internet? Seria mesmo muita falta do que fazer ou coisa de meninos. Sim, a segunda opção. Era apenas um menino quase hacker que me sacara a foto. Menos mal! Mas, fiquei com a sensação de ser alguma celebridade local.

E ontem, no bar "inferninho" desse lugar - diga-se: adoro os "inferninhos"! - quando fui ao caixa, fui então informado que a minha conta já havia sido paga. 

- Quê? Como? - Perguntei eu estupefacto ante a situação também inusitada. Jamis alguém me pagara a conta e, ademais, não percebia nos frequentadores presentes, ninguém que pudesse ser suspeito de tão boa ação. Insisti com o rapaz que estava no caixa e quis saber quem pagara a minha conta.

- Andreas - Foi a sua resposta depois de eu muito insistir.

Mas, Andreas é um italiano jove, jogador provicional de futebol em seu país. Nós nos cumprimentamos todas as vezes que nos vemos, mas, não sabia eu que gozava de tanto prestígio junto ao moço.

Voltei para casa sem ter entendido direito, mas, na primeira oportunidade, além de agradecer a Andreas, eu lhe serei mais atencioso e, também, retribuirei a gentileza.

Certo é que, por motivo de fofoca ou  não, cá estou a ser alguém para "alguéns". E quando pensamos que o viço já nos se esvai, de alguma maneira, totalmente nova, a natureza insiste a informar-nos que o pavão sempre será pavão, não importa onde esteja nem quantos dias já lhe imprimiu a vida.

Wanderley Lucena

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cotidiano

Sem mais nem menos voltei para casa já meio bêbado e, melhor, acompanhado de duas criaturas incríveis. Ela de Brasília e a passar alguns dias por aqui a aproveitar a praia. Ele nativo, porém, de tiradas inteligentes e marcantes. Falastrão, ousado, sem papas na lingua, chegando quase ao tosco, porém, de beleza igual ou superior à da moça à qual demonstrava todo o poder da testosterona. 

A conversa, ainda no bar, girava sobre temas banais, porém, agradabilíssima para todos que ali estávamos. Eu os convidei a tomar um Casal Garcia, vinho de muito boa qualidade, dizem, já que não sou nenhum somelier. Mas, a proposta foi aceita com efusividade e rumamos para minha humilde residência, a poucos metros do bar. 

A casa estava um pardieiro e eu ruborizei-me ao pedir-lhes desculpas. A cozinha tinha louça suja na pia e já vai pra uma semana que não chamo a empregada a fazer a faxina. Não me lembrei de colocar a música e a conversa foi aumentando de volume que eu, a todo instante, pedia para decermos a tom mais ameno, haja vista, a vizinhança implicante que cobra silêncio sepulcral como se isso aqui fosse lugar que não merece gente feliz. 

Já era madrugada quando abri o Casal Garcia. Com as glândulas palatais inchadas ante o sabor seco tenso do vinho, ríamos e gesticulávamos em conversas exaltadas que iam desde à crítica à cultura local até às viagens marcantes que fizéramos.

A noite tinha que acabar e ambos se foram, dessa vez, com ela sentada na garupa da bicicleta do moço. Não sei o que aconteceu até que ele a deixasse na porta de sua casa. Mas, espero que tenham aproveitado a vida, a noite, o minuto. Porque desta vida pode ser que não levemos nada, nem as lembranças. Mas, que em vida gozemos toda intensidade da humanidade divina que habita em cada um de nós!

Wanderley Lucena

domingo, 11 de outubro de 2015

Feliz Aniversário

O universo insiste em fazer-me surpresas. Aqui ou acolá encontro alguém, alguma coisa, tem brilho diferente e me atrai a curiá-lo. Os óculos fundo de garrafa, tipo nerd inveterado, contrasta com a idade. O jovenzinho magro esguio, de cabelo bem aparado, fala com desenvoltura e conhecimento e de quase todos os assuntos e o faz com segurança. Seus planos podem parecer mirabolantes. Quer ir-se para o exterior e ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Quer casar-se com sua amada e com ela ter filhos.

Os olhos verdes prendem a atenção de quem por ele é mirado. Fotos foram sacadas e a admiração ante a beleza ocular surpreendeu até mesmo o próprio dono. Há sinceridade no tom da voz e na postura. Falante, eloquente e dono da situação não fica desagradável quando se percebe a artimanha da manipulação ao tentar reter alguém que insiste em não querer ficar na roda.

A surpresa foi quando pediu-me um livro como presente de aniversário. Sério? Um livro? Sim, senhor! Um livro. Fui ao meu pequeno acervo, ao qual doarei em breve, e escolhi dois títulos. Um Nietzche e um José Saramago.

O Nietzsche está em linguagem para principiante. Já o José Saramago em O Evangelho segundo Jesus Cristo é pancada das boas e espero que o jovem consiga lê-lo bravamente e que sua reflexão seja para toda a vida.

Que a leitura lhe seja prazeirosa e que seus anos sejam longos! Que a terra lhe ofereça frutos e que sua mesa seja farta! Que seu caminho lhe seja suave e que o sol brilhe cálido em sua fronte - como diria o Druida.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A Pausa e o Silêncio

E você está ai?
Aonde?
Que silêncio!  
Sepulcral
Pausa dramática
Eu ouço o silêncio
Sepulcral
Morremos agora?
Ou só no próximo ato?
Molière diz que são três atos
Estamos no segundo?
Primeiro?
Terceiro
Não quero morrer agora
Tá tão gostoso!
Vou dormir
Aos braços de Morfeu e avante!
Vai
Valeu!
Vendo o quê?
Nada
Percebi!
Comporte-se!
Valeu, coroa!
Coroa é o...
Boa noite!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Simples assim

O telefone toca vez por outra e, desanimado, já sei que nada será novidade. Um ou outro cliente a consultar preços de diárias de hotel. Mas, aqui ou ali, um fantasma ou outro quer fazer contato. Eu não sou muito bom vidente. Costumo não ter muita piedade de quem não se me respeita a distancia de tempo ou a que se nos impuzemos quando do passado em algum momento de desavença. 

Considero mesmo muito normal que hajam enganos a respeito das imagens que fazemos uns dos outros. E nada há demais quando se deixa claro que não se quer relação com este ou aquele indivíduo. Eu não passaria na mesma calçada na qual se me vem alguém que sei não me suportar. Porém, se a calçada for a única via, passo ao lado, respeitosamente e sem provocações, porém, sempre de nariz em pé. Exijo apenas a mesma atitude de quem não me suporta.

Vinte ou trinta anos depois, um desses, encontra-me em aplicativo virtual e, depois de várias tentativas, decido abrir-lhe a guarda. O dito cujus veraneia em casa própria, todos os anos, aqui em praia ao lado. Queria conversar e colocar o papo em dia. Eu não me animei e já podia imaginar que nada seria como antes e que a frustração seria a sensação ao retornar para a minha casa. Dito e feito! Depois de informar-lhe inúmeras vezes não querer conhecer a sua casa, mesmo assim, fui obrigado a desviar de caminho e passar em frente á residência da qual muito se orgulhava. Mas, resisti bravamente e não adentrei ao recinto. A minha raiva, mesmo que contida, foi se esvaindo depois de uma ou duas cervejas já em um bar próximo.

O papo fluia de maneira tão chata. Eu supliquei para que esquecerssemos o passado, porém, já com o teor etílico passado da medida, o assunto era o mesmo. Cobranças ante o que se fez e o que não se fez quando do passado, as expectativas frustradas.

Que pena! A noite era para ser prazeirosa, mas, a insistência sobre o tema me fazia sentir repulsa e ter a certeza que atender ao fantasma do passado fora mesmo um grandissíssimo erro. 

Raríssimos são os casos onde o perdão, verdadeiramente, funciona e apaga tudo o que foi feito ou dito enquanto os indivíduos se degladiavam ante atitudes de desdém ou de ódio completo. E ao que não percebe o motivo das agressões, as coisas pioram e o sentimento da mágoa pode jamais ser apagado.

O perdão pode velado. O perdão pode ser o ato de guardar as boas lembranças como quem guarda um bom livro na estante. O perdão pode ser silencioso e sabedor de que jamais se quererá está na companhia de quem foi perdoado.

A vida continua e novas amizades virão  e muitas não ficarão. Normal como o sol que nasce todos os dias. Perceber que passou e que o que se perdeu jamais será reconquistado é verdadeiro ato de libertação e desapego. Serve para qualquer tipo de relação, desde amizade, parentesco ou amoroso. Simples assim!

Wanderley Lucena


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O Ato

Estás por demais sexual
Acho que estou quase a concordá com tua mãe:
"Tá na hora de aprenderes a cozinhar".
Eu e minha libido...
Não sei aonde a escondi
Mas, vou achá-la qualquer dia, e aí...
Eu quero mesmo é voltar a sentir como no primeiro amor
O gosto da fruta roubada
Esconder-me atrás do muro pra fazer coisa errada e boa
Olhar pelo buraco da fechadura
Coração a sair pela boca
Amar sem ser percebido
Sequer pelo objeto amado
Olhar o precipício e desejar lancar-me
Conscientizar-me, logo em seguida, que vale mesmo é o amor próprio
Curtir fossa às margens do Reno
Tomar um Bordoux qualquer e achar normal e rotineiro
Acordar debaixo do edredon depois de noite intensa
Perceber o corpo quente que aceita o abraço
E que murmura de tanto prazer
Mesmo que jamais se me ocorra
Imaginar-me já é ato de prazer indelével
Alimenta-me como se fora real, quiçá, ainda melhor
O meu abraço quem o recebe, obrigatoriamente, é Brahma
Meu queridíssimo companheiro que não tem como fugir-me
Meu pequeno shitsu é obrigado a aceitar-me, inclusive, os abraços apertados
Rosna, e late, e se me avança, ameaçadoramente, como se o pudera
Arregala-me os olhos em expressão raivosa
Suas presas pequeninas a tocam minha pele em tentativa desesperada e inútil de fuga
Estás vitimado pela impotência ante nosso disparate de poder e posse
Nem que não queiras, és obrigado a suportar-me, querido Brahma
Sinto pena de ti, meu querido
Você depende de mim pra tudo
Perdoa-me, Brahma!
Perdoa o meu amor averso
Tantos donos poderias ter tido
E a vida quis que fora eu a ser-te
Aqui em terras desoladas e áridas de afeto estamos os dois
Vitimados igualmente
Mas, a vida, muitas vezes nos muda o curso natural
E muitas vezes a mudança é pra melhor
Verdade que, por vezes, afasta
E, por vezes, ajunta
Não importa
Nada importa
Importa só o ato
Inspire!
Expire!
Inspire!
Expire!
Lá já se foram quatro atos
Sinta o ato!
Só ele importa
Aprenda a cozinhar!
Aprenda a cozinhar!

Wanderley Lucena





quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Despedida Iminente

Tudo vai bem! E continuo a me despedir deste lugar que tantas algurias me trouxe. Não posso culpar somente o lugar em si. Seria injustiça minha. Talvez a minha personalidade com tendências à melancolia ou o meu caráter forte que destoa da maioria dos conviventes locais. Não sei! Só sei que estou mesmo em momentos de fechamento de cortina. Vou tentar me limpar antes de chegar o dia da partida. Vou tentar sair o mais leve que eu possa. Levarei, com certeza, minhas duas malas e meu cachorro. Mas, não só. Levarei todas as marcas que este lugar me infligiu. Todas as vezes que me olhar ante o espelho verei a cicatriz na fronte e as rugas que consegui. Levarei poucas boas lembranças que, agora, não consigo lembrar-me. Mas, elas existem. Devo deixar algum amigo que, por agora, também, não se me ocorre. Que me venha o próximo carnavel e, em seguida, o aeroporto. Jamais voltarei a este lugar, a não ser que, a vida me obrigue a tal. E odeio obrigações, confesso. Se aqui vim para expiar pecados, creio, pagueios-os todos. Ao menos é o que sinto. E minha amargura não precisa de dó ou piedade de ninguém. Sou auto-sufuciente e dono de meu nariz. Estou aqui porque o quis. E, vou-me porque quero. Sou feliz! Mas, valeu! Sempre vale! 

Wanderley Lucena

sábado, 29 de agosto de 2015

Cinquenta

Do alto dos meus cinquenta, sentado desta cadeira, já posso lhes dizer: respeitem-me!
Agora tenho uma estória a contar 
E já levo aquela espécie de salvo-conduto com o qual os mais velhos podem dizer quase tudo o que pensam sobre si, os outros e o mundo
E se não me pronuncio sobre tudo o que percebo é pura generosidade ou por saber que o diálogo será perdido, barulhento, ou desagradável
E me resta alguma piedade, todavia
E claro que me importo com sua opinião a respeito do que quer que seja, inclusive, sobre mim, porém, tome cuidado para que eu não lhe interprete mal
Pode ser que eu venha a ter-lhe por ignorante
Nesses casos posso, simplesmente, reponder-lhe à altura e, geralmente, não gostam quando falo de forma veemente com quem considero ignorante
Mas, por sorte, nessa idade já evitamos os escândalos maiores
E o "barraco" nunca me cai bem
É que aos cinquenta se perde o medo do desprezo de quem não consideramos importante.
Também, aos cinquenta, por vezes, é melhor o sino do desprezo a ressoar-nos, desagradavelmente,  na lembrança que ser tolerante com o preconceito de gente ignorante que não sabe argumentar ou aceitar as diferêncas dos indivíduos
Aos cinquenta já não mais importa muito
E isso não precisa ser dolorido, digno de dó ou pena, senão, privilégio
É a dor de quem se percebe vivo, muito vivo, e se apropria dessa verdade
Sim, viver e chegar até aqui é privilégio
Mas, confesso: é mesmo muito dolorido chegar aos cinquenta
Resta saber como se chegará aos sessenta
Resta a esperança de chegar aos setenta
E... pior: resta saber se chegaremos aos oitenta ou a qualquer outra idade mesmo que seja o minuto adiante
Que me venham os anos!
Que me venha a sorte dos amores vividos
Que se me venha o equilíbrio!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Colóquio sobre Funerais

- Momento nostalgia. Não vale cortar os pulsos. (Começa a tocar Rod Stewart e Amy Belle a cantar "I Dont Want to Talk About It").

- Navalhas no cofre!

- Putz! Você me leu antecipadamente. Eu ia dizer: Sugiro guardar todas as facas antes de apertar o "play", mas, não deu tempo.

(Recebo em seguida, por ele me enviado, "Antony and the Johnsons - Hope There's Someone").

- Música para suicídio. Dor, muita dor. Cadê a porra da peixeira? Mas, como lembrou-me a Nina Simone. Um réquiem. Não, não toque no meu enterro. Prefiro a Marisa Monte: já sei namorar, já sei beijar de língua, agora só me resta sonhar...

- Eu brinco que tenho algumas músicas para tocar no meu funeral. Uma delas é esta:

(Veio-me, em vídeo, "Portishead - Roads", e em seguida:

- Há! E vai ter Nina, viu?

- Você é um fdp*, um adorável fdp, mas fdp!

- Aliás, o texto do blog "Familia e Cena" é lindo!

- Sério? Você gostou? Você é mesmo um fdp. Eu tenho que lhe dizer que fiquei por demais feliz. Feliz "pacarai"**. Sei que você não seria generoso por dó ou piedade. Você é um crítico nato e não precisa me fazer cena por causa de nossa amizade. E, embora furtivo, você sempre me foi muito honesto, não o posso negar. Mesmo que usando-se da ausência de palavras, inclusive. Compreendes?

- Eu posso não ter talento para tocar um instrumento, nem para escrever um livro ou para ser ator... mas tenho-o para entender tudo isso! Te percebo sim!

- Um fdp! Valeu! Continue a me perceber.

-  Hei! (rs)

- Sobre "Familia e Cena" informo que não é uma crônica e sim um conto. Trata-se de uma ficção por mim criada. Tal fato jamais se me ocorreu. Ok?

- Será? (rs)

Wanderley Lucena
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
* Filho da puta.
** Pra caralho.



terça-feira, 28 de julho de 2015

Familia e Cena

- Com licença, meu Senhor, mas preciso dizer-lhe que fiquei a olhar a sua familia desde ali e fiquei impressionado com tamanha beleza... a começar por sua esposa. E isso não é uma "cantada". - esclareci ante uma inesperada resposta de um marido ciumento.

A Senhora mirou-me sem entender direito o elogio vindo de estranho que jamais vira. O marido pegou em minha mão e sorriu assentindo permissão para a conclusão do racicínio.

- Eu gostaria de parabenizar-lhe por sua escolha em relação à ela. A beleza de sua esposa é ímpar, estonteante, e o Senhor tem muita sorte! 

Claro que depois de elogio tão exagerado senti-me estraneamente incomodado. Parecia que eu estava bêbado e não consegui me conter. Parecia que qualquer coisa poderia me emocionar ao ponto de me fazer deslocar de onde estava sentado e ir até o objeto idenficado e passar-lhe os dedos por pura curiosidade.

Eu, de cá, de minha solidão e com meu corpo já decrépto, confesso, não morro de inveja da bela familia e cena que ela me proporciounou ante o esplendido mar azul da Praia do Francês, em Maceió. Olho a minha figura e vejo nas rugas que se aprofundam, as muitas estórias que vivi e que tenho a contar. Há dor e há alegria em cada uma delas. Estou ficando velho! 

A ignorância parece ter ficado para traz e a lucidez me implica novo sofrimento. Dialogar com quem ficou para trás é tarefa árdua, dificil, irritante e, muitas vezes, puro atraso, perda de tempo. Mas, sigo em minha jornada, agora mais arrojado e... sozinho. Ao menos até que o acaso me tire desse estado. E há vantagens muitas em ser sozinho. Uma delas é poder ir sem precisar voltar e fazer isso á hora que o queira. E me vou!

Wanderley Lucena


sábado, 18 de julho de 2015

Camuflagem

Eu sempre percebi o meu humor negro, por vezes, desagradável
Mas, eu não sabia que eu era tão decifrável, tão óbvio
Decepcionei-me comigo mesmo ante a minha falta mínima de fingimento
Enganei-me ao pensar que ninguém perceberia a extensão do que se vai por traz de meu olhar
Uma simples fotografia e me denuncio completamente
E, olhando bem, está na cara, ou seja, nos olhos
Sinto-me desnudado e envergonhado
Mas... Eu me gosto...
Gosto-me o suficiente para te dizer que assumo, com humildade, que gosto de mim mesmo
Acho que sou boa companhia, apesar de presa furtiva
Claro que me dissimulo ou intento
A minha camuflagem levou anos para ser composta
Agora, você me chega e, despudoramente, me mostra o quão frágil e perceptível estou
Sim, você me conhece e, digo-te
Não sou nem uma coisa nem outra
E... sequer sei quem sou, verdadeiramente
Mas, devo ser alguma coisa
Não sei quem sou
Sou assim, feio e bonito a depender de onde olham e de quem olha
Mas, na frente do espelho da vida seguirei a proteger-me, camufladamente
Ou não!

Wanderley Lucena

sábado, 4 de julho de 2015

Isso me basta

Deixei de dizer um bocado de coisas que penso. Deixei de perguntar o que me seria mera curiosidade. Claro que continuo falastrão e que, por vezes, meus comentários são impiedosos, constrangedores, ácidos e/ou picantes. E, por vezes, mas raras vezes, pode até ser que todas as características mencionadas estejam no mesmo momento. E é certo que, algumas vezes, mas só algumas vezes, eles também me fazem mal. A culpa que eu venha a sentir levo como galardão. Levo com a certeza que, na minha espontaneidade ou no comentário propositado fui eu mesmo. O que me interessa é só isso. Escancarar a mim mesmo. E, mesmo assim, há quem goste. Acho até que me preferem assim. Eu me gosto assim. Isso me basta!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Encontro de mim

Quando tudo vai vai bem e o mar bravio se acalma, continuo a sentir a mesma inquietude que me acompanha desde que me entendo por gente. É hora de ir. A partida está próxima e programada. Dói deixar tudo o que foi construído, por outro lado, lembro-me do princípio budista do desapego. Vou para outras paisagens em busca de mim mesmo. Espero que, no dia em acontecer tal encontro, o meu coração, igualmente, queira ir-se.

Wanderley Lucena

terça-feira, 23 de junho de 2015

ALÉM MAR


Agora já sei
O meu amor não está aqui
Levei longo tempo para perceber
Mas, agora sei
Existe um oceano a ser atravessado
Eu sei que até a outra margem eu chegarei
Mesmo que minhas forças falhem 
Que eu queira desistir
Mesmo que a noite seja longa
E que as águas sejam frias
Nem ante todas as feras marítimas 
Ou ante a dor do estômago vazio
A certeza de que estás lá será o meu guia
Eu chegarei às margens do outro lado
Sei que, primeiro, verei teus pés molhados nas águas salgadas
Eu te pedirei desculpas por ter me atrasado tanto
Sentirei teus braços a me acolher 
A água doce a umedecer as minhas papilas
E agora, o beijo que me fará ver os anjos e toda a glória
Cheguei, aqui estou
Agora a caminhada será branda contigo ao meu lado
Valeu toda a espera 
A vida de novo me vem
O teu sorriso, a tua voz, a tua tez
A tua sombra ao entardecer 
E tua cumplicidade
Nada mais preciso
Tenho tudo
Tenho a ti.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 22 de maio de 2015

ZODIACAL

Meu estado de alerta é meu guia, aprendi com o Spinoza
Já não mais uso armas de pólvora
Mas, a língua continua ferina e, por vezes, até mata
Resta-me, entretanto, alguma piedade
Algumas vítimas, deixo-as vivas, porém, aleijadas
Quero fazer o Caminho de Santiago antes de me fixar por lá 
Verei se me salvo
Ou se ainda tenho salvação
Aqui já sei que não há
Só peço que se fores ao meu encalço
Lembra-te que meu calcanhar é de Aquiles
Tu és sagitariano
Do mundo, sem dono nem rédias
Invejo-te
Uso as minhas rédias desde que me entendo por gente
Mas já sei 
Sou de todos os meses
De todos os tempos
Mas, já fui de julho por nascimento
Canceriano já o fui
Levo agora todos os signos 
E muitos mais que os do zodíaco
Diz minha mãe que sou nascido em dia sétimo
- Vou te ligar!
- Because?
- Trim, trim, trim - tocou-me o telefone.

Wanderley Lucena

sábado, 16 de maio de 2015

A DOR DA PERDA

A morte surpreendente e repentina, do um vizinho nesta tarde. Ver o corpo e consolar os parentes, inclusive, a viúva foi a primeira atitude de todos que souberam do infeliz fato.

A cena que, bem poderia ser encarada como falsa ou desnecessária é, na verdade, a oportunidade de reconciliação e entendimento. A dor da perda não é só de quem perdeu o ente querido, mas, também do vizinho até então desafeto. O vizinho sente e chora a mesma dor. É ante ao desespero dessa dor de perda que se dá a disponibilidade de corações, humanos e falhos, que se unem para se auto consolar.

Nesses momentos difíceis é que se percebe o quanto a vida é passageira e o quanto perdemos nosso tempo com coisas pequenas. Acho que não se pode ignorar a agressão dos que, quando em vida, insistem em se manifestar negativamente, e repetidas vezes, contra alguém. Entretanto, é com uma perda como essas que, os parentes e amigos refletem o quanto é importante ignorar determinados gestos e valorizar outros. 

O evento "morte" é só mais um  momento da própria vida. Dói como ante ao apego ao que se foi e ao fato de nunca mais se verá  o ente querido. É dor parecido com a da mãe ou pai que ver um filho ser encarcerado numa cela depois de ter cometido crime não esperado e saber que ele ali permanecerá por anos a fio e que, no caso brasileiro, sairá de lá pior que quando entrou. 

Por isso, o budismo prega o desapego. É ele, o apego, a causa do sofrimento que leva à depressão e muitas doenças. O apego é o mesmo do objeto. A madame que perdeu a sua joia e não consegue mais achá-la e que se atormentará por dias, meses e até anos, a lembrar do bem perdido quando, é tão somente um objeto que, mesmo caro, não vale um minuto de apego. E claro que um ente querido é mais valioso que qualquer joia. Mas, há que se ficar com as lembranças dos bons momentos vividos com ele e o contentamento da certeza de que se aproveitou ao máximo, enquanto em vida, da presença dele. 

Daí, a necessidade da vigilância em não perder tempo com o desnecessário. E sei que, como diz o adágio popular, "falar é fácil".

Wanderley Lucena


quarta-feira, 13 de maio de 2015

A HIPOCRISIA DO DISCURSO

Creio que a grande frustração de um artista é perceber a hipocrisia daqueles com quem é obrigado a conviver e que o julgam um depravado por sua livre expressão. O mesmo se passa com intelectual - e eu não o sou, nem intelectual, quiçá, artista - que se aborrece com o ignorante ao ponto de, simplesmente, deixá-lo a falar sozinho.

É um incômodo permanente perceber que a falta de bom gosto é desequilíbrio e ouvir que "gosto é gosto, cada um tem o seu". Permanecer num diálogo que não trará frutos é um verdadeiro infortúnio. E há aqueles que, como eu, por muitas vezes, insiste em tentar. E, na maioria das vezes, fica o desgaste, o dissabor, a frustração. E o ignorante sair dizendo que você é um "metido" e que o está a discriminar. Francamente!

É como discutir religião. Quando o religioso percebe que você não se converterá ao seu pensamento ele logo pronuncia: "religião não se discute". Eu digo que, se as partes são adultas e inteligentes, discute-se qualquer assunto, até futebol. E ambos têm que sair do diálogo valorados pela experiência frutífera de falar e ouvir. 

Pior, é perceber-se julgado por quem ouve e saber que, no fundo - mas, nem tão fundo assim - aquele indivíduo é igual, senão, inferior a você. E, bem sei, somos todos hipócritas mesmo, inclusive, este que ora escreve!

Wanderley Lucena



sexta-feira, 8 de maio de 2015

BENDITO SILÊNCIO

Ficar só, por vezes, é a melhor opção. Fazer-se companhia e ouvir apenas a sua própria voz. Recluir-se em obstinada busca pela paz interior... ou não. Há que se reconhecer o que nos faz dano, mesmo que não intencional. Há que se reconhecer o que danificamos, intencional ou não. Certo é que quando adoecemos e fazemos adoecer ou, nos adoecem, é hora de parar e recomeçar. Ninguém é obrigado a nada e muitas vezes, por amor ou outro sentimento nobre - ou não - alguém se atrela ao outro em verdadeiro auto ato punitivo de si ou do amado. Ele não estará feliz ao seu lado e nem você estará feliz ao lado dele. Assim sendo, o melhor é desapegar e lançar, ou lançar-se, rumo ao desconhecido interior que tanto bem traz.

A própria dor é fogo que apura o espírito e enleva ao alto. Nada de masoquismos, por favor! A solidão propositada por períodos pré-determinados e regulares, é super benéfica ao espírito e se reflete no corpo. Calar-se é melhor que falar. Quem fala deve fazê-lo de maneira ponderada e, de preferência, sem ser prolixo.

Quem espera resposta falada deve ouvir o silêncio que grita. O silêncio é a resposta inteligente de quem já chegou à maturidade ou está rumando à ela. O meu silêncio me faz muito bem. É ele um dos meus aprendizados.Um "não" dito implica rejeição e conflito iminente. O silêncio é "não" que vem acompanhado de reflexão e tolerância. Um "não" não dito verbalmente é caminho largo para o diálogo e o bem-dizer que necessita a espera do posterior momento. A celeuma que existe ante um "não" verbalizado é briga de facões. Os corações sairão dilacerados. Por isso, manter o silêncio é manter a abertura para o diálogo posterior que, a depender, bem pode, novamente, silenciar-se.

Wanderley Lucena

quinta-feira, 16 de abril de 2015

SOBRIEDADE

Ando mais devagar. Desacelerei! Estou menos apreensivo e a impulsão já se faz retardada. Há uma calmaria. Atitude contemplativa ante a natureza e, acima de tudo, agradecida por tudo, inclusive, pelo ar que ainda respiro. Todas as marcas que levo, eu sei, são doloridas, porém, escancaram-me minha própria história como um quadro na parede, pintado por um surrealista. Não me envergonho de nenhuma delas. Se são profundas e na alma ou mesmo aquela que veja ao olhar o espelho e que me tocou a própria carne... não importa. São, igualmente, ricas para mim.

Sobriedade é a estampa que me cobre ao menos por enquanto. Minhas malas levam menos bagagem, porém, sinto-me mais rico. Levo uma visão que vai mais além. O meu horizonte é mais distante. A paisagem tem menos componentes. Entenda-se, porém, que a paisagem não é, nem de longe, menos bonita. Insiro-me sozinho por pura vontade nessa pintura que eu mesmo crio. É bom está aqui. É bom saber que não mais estarei. É bom saber que continuarei minha jornada. Desta vez, em busca de tão pouco. A busca é apenas pela caminhada. Não busco nada além.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A JORNADA PARA SHANGRI-LA

A minha angustia ante o que não sou é enorme. Estou onde quis está. Estou onde não quero está. E sei que me vou e que, quando lá chegar, igualmente, não me contentarei. E fico a me perguntar dessa prisão corpórea que me leva quase à insanidade. A insatisfação desde que me entendo por gente. Essa ambiguidade latente da existência humana que me corrói as entranhas e me leva a desejar está onde não estou. E que lá estando, logo quererei está em outro lugar. Qual a resposta para tanto incômodo se a simples existência já, por si só, dadiva de Deus?

O discurso da crença da paz interior que tanto pregam as religiões não mais me basta. É bem verdade que, o equilíbrio do nirvana pregado pelo budismo e alguns outros ramos esotéricos, quase me convence. Entretanto, o nirvana implica trabalho hercúleo e disciplina de monge. Não sei se almejo o fim com tantos meios.

De um lado há a certeza de ter feito muita asneira, muitos erros cometidos na jornada. Por outro lado, há uma voz que me sussurra baixinho, suave e melosa: você viveu! você nem errou tanto! Você tentou, e tentar, por si só, já vale á pena! Se tivesse tentado haveria dor maior, a da covardia! 

Em breve, muito breve, me dedicarei a jornada espiritual. E, de já, a angustia me consome. Poderia ser tão simples: basta escolher. Já escolhi. Mas, e os que te desejam a presença? Aqueles aos quais se está atado por relações amorosas ou de contrato? E os parentes que cá ficarão? Uma decisão já tomada e a angustia do que virá.

Vou em busca da minha Shagri-lah!

Mas, parece que já está gravado no meu código genético. Tenho de ir!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 18 de março de 2015

CADAFALSO

Levaram-me - levei-me? - até o cadafalso e me puseram a corda no pescoço e... quem dera fosse bamba. Olhei para baixo pelo buraco quadrado. Estávamos a uma altura de uns quatro metros do chão. Não havia plateia. O dia era opaco, morno. Um vento cortante trazia ao meu nariz o cheiro do esgoto que corria a céu aberto pela valeta abaixo da calçada de pedras seculares. Havia o algoz que cumpria as ordens e mais ninguém. Aquele algoz trazia o peso do todo. Escondido dentro de touca que lhe cobria até o pescoço e que me mostravam olhos pequenos e assustados. Era franzino, raquítico. Decepcionei-me ante o seu tamanho já que esperava um gigante barrigudo que não me permitisse qualquer reação. Entretanto, não queria reagir. Minhas mãos, mesmo que não estivessem atadas não se levantariam contra ele. Maior que o meu medo era a humilhação. Mil palavras se sobrepuseram em pensamentos turvos e saudosos. Muitos deles de pura amargura. Outros doces e felizes. Minha conclusão era de que valera aá pena. Em alguns segundos as tábuas cederiam aos meus pés e eu esperava a liberdade. Havia tristeza em minh'alma. Mais que ela, havia um imenso mar de sobriedade agradecida. Não me vinham lágrimas. Havia resignação. Os segundos viraram horas. A espera parecia infinita. Sequer sentia algum ódio. Havia amor e agradecimento. Logo eu sairia dali para não sei onde. Queria continuar a sentir todo o ser que agora me sentia. Podia me sentir inteiro e em total simbiose com o universo. O céu estava fora, infinito aos meus olhos. Mas, dentro de mim havia o mesmo céu. Respirei fundo e senti que o ar me preenchia não só os pulmões. Percebi o vulto do braço forte e nu a puxar a alavanca, enfim. Sai de cena e continuei a perceber-me ressonando junto com todos e com tudo. A calma se apropriou de meu ser. Não mais dor. Não mais ânsia. Só amor.

Wanderley Lucena 

terça-feira, 3 de março de 2015

CÍCLICO


Apaixonei-me e me contentei
Mas, me desapaixonei e, me contentei de igual modo
Gratidão ante abóbada cósmica
Placenta de Deus que a tudo envolve
Acalentado, senti-me protegido
E veio o medo e deixou o gosto de fruta estragada
A dúvida nefasta que embolora corações
E me pari depois das contrações normais da solidão
E ali permaneci até que, de novo renascido
Levantei-me e me fui
Para debaixo de céu de estrelas opacas
De lua cinzenta
Rumei para lá  e me apaixonei
E me desapaixonei
De maneira cíclica me contentei
Mas não fique tão “bolado”
É apenas poesia de que não sabe fazê-lo


Wanderley Lucena