terça-feira, 28 de julho de 2015

Familia e Cena

- Com licença, meu Senhor, mas preciso dizer-lhe que fiquei a olhar a sua familia desde ali e fiquei impressionado com tamanha beleza... a começar por sua esposa. E isso não é uma "cantada". - esclareci ante uma inesperada resposta de um marido ciumento.

A Senhora mirou-me sem entender direito o elogio vindo de estranho que jamais vira. O marido pegou em minha mão e sorriu assentindo permissão para a conclusão do racicínio.

- Eu gostaria de parabenizar-lhe por sua escolha em relação à ela. A beleza de sua esposa é ímpar, estonteante, e o Senhor tem muita sorte! 

Claro que depois de elogio tão exagerado senti-me estraneamente incomodado. Parecia que eu estava bêbado e não consegui me conter. Parecia que qualquer coisa poderia me emocionar ao ponto de me fazer deslocar de onde estava sentado e ir até o objeto idenficado e passar-lhe os dedos por pura curiosidade.

Eu, de cá, de minha solidão e com meu corpo já decrépto, confesso, não morro de inveja da bela familia e cena que ela me proporciounou ante o esplendido mar azul da Praia do Francês, em Maceió. Olho a minha figura e vejo nas rugas que se aprofundam, as muitas estórias que vivi e que tenho a contar. Há dor e há alegria em cada uma delas. Estou ficando velho! 

A ignorância parece ter ficado para traz e a lucidez me implica novo sofrimento. Dialogar com quem ficou para trás é tarefa árdua, dificil, irritante e, muitas vezes, puro atraso, perda de tempo. Mas, sigo em minha jornada, agora mais arrojado e... sozinho. Ao menos até que o acaso me tire desse estado. E há vantagens muitas em ser sozinho. Uma delas é poder ir sem precisar voltar e fazer isso á hora que o queira. E me vou!

Wanderley Lucena


sábado, 18 de julho de 2015

Camuflagem

Eu sempre percebi o meu humor negro, por vezes, desagradável
Mas, eu não sabia que eu era tão decifrável, tão óbvio
Decepcionei-me comigo mesmo ante a minha falta mínima de fingimento
Enganei-me ao pensar que ninguém perceberia a extensão do que se vai por traz de meu olhar
Uma simples fotografia e me denuncio completamente
E, olhando bem, está na cara, ou seja, nos olhos
Sinto-me desnudado e envergonhado
Mas... Eu me gosto...
Gosto-me o suficiente para te dizer que assumo, com humildade, que gosto de mim mesmo
Acho que sou boa companhia, apesar de presa furtiva
Claro que me dissimulo ou intento
A minha camuflagem levou anos para ser composta
Agora, você me chega e, despudoramente, me mostra o quão frágil e perceptível estou
Sim, você me conhece e, digo-te
Não sou nem uma coisa nem outra
E... sequer sei quem sou, verdadeiramente
Mas, devo ser alguma coisa
Não sei quem sou
Sou assim, feio e bonito a depender de onde olham e de quem olha
Mas, na frente do espelho da vida seguirei a proteger-me, camufladamente
Ou não!

Wanderley Lucena

sábado, 4 de julho de 2015

Isso me basta

Deixei de dizer um bocado de coisas que penso. Deixei de perguntar o que me seria mera curiosidade. Claro que continuo falastrão e que, por vezes, meus comentários são impiedosos, constrangedores, ácidos e/ou picantes. E, por vezes, mas raras vezes, pode até ser que todas as características mencionadas estejam no mesmo momento. E é certo que, algumas vezes, mas só algumas vezes, eles também me fazem mal. A culpa que eu venha a sentir levo como galardão. Levo com a certeza que, na minha espontaneidade ou no comentário propositado fui eu mesmo. O que me interessa é só isso. Escancarar a mim mesmo. E, mesmo assim, há quem goste. Acho até que me preferem assim. Eu me gosto assim. Isso me basta!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Encontro de mim

Quando tudo vai vai bem e o mar bravio se acalma, continuo a sentir a mesma inquietude que me acompanha desde que me entendo por gente. É hora de ir. A partida está próxima e programada. Dói deixar tudo o que foi construído, por outro lado, lembro-me do princípio budista do desapego. Vou para outras paisagens em busca de mim mesmo. Espero que, no dia em acontecer tal encontro, o meu coração, igualmente, queira ir-se.

Wanderley Lucena

terça-feira, 23 de junho de 2015

ALÉM MAR


Agora já sei
O meu amor não está aqui
Levei longo tempo para perceber
Mas, agora sei
Existe um oceano a ser atravessado
Eu sei que até a outra margem eu chegarei
Mesmo que minhas forças falhem 
Que eu queira desistir
Mesmo que a noite seja longa
E que as águas sejam frias
Nem ante todas as feras marítimas 
Ou ante a dor do estômago vazio
A certeza de que estás lá será o meu guia
Eu chegarei às margens do outro lado
Sei que, primeiro, verei teus pés molhados nas águas salgadas
Eu te pedirei desculpas por ter me atrasado tanto
Sentirei teus braços a me acolher 
A água doce a umedecer as minhas papilas
E agora, o beijo que me fará ver os anjos e toda a glória
Cheguei, aqui estou
Agora a caminhada será branda contigo ao meu lado
Valeu toda a espera 
A vida de novo me vem
O teu sorriso, a tua voz, a tua tez
A tua sombra ao entardecer 
E tua cumplicidade
Nada mais preciso
Tenho tudo
Tenho a ti.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 22 de maio de 2015

ZODIACAL

Meu estado de alerta é meu guia, aprendi com o Spinoza
Já não mais uso armas de pólvora
Mas, a língua continua ferina e, por vezes, até mata
Resta-me, entretanto, alguma piedade
Algumas vítimas, deixo-as vivas, porém, aleijadas
Quero fazer o Caminho de Santiago antes de me fixar por lá 
Verei se me salvo
Ou se ainda tenho salvação
Aqui já sei que não há
Só peço que se fores ao meu encalço
Lembra-te que meu calcanhar é de Aquiles
Tu és sagitariano
Do mundo, sem dono nem rédias
Invejo-te
Uso as minhas rédias desde que me entendo por gente
Mas já sei 
Sou de todos os meses
De todos os tempos
Mas, já fui de julho por nascimento
Canceriano já o fui
Levo agora todos os signos 
E muitos mais que os do zodíaco
Diz minha mãe que sou nascido em dia sétimo
- Vou te ligar!
- Because?
- Trim, trim, trim - tocou-me o telefone.

Wanderley Lucena

sábado, 16 de maio de 2015

A DOR DA PERDA

A morte surpreendente e repentina, do um vizinho nesta tarde. Ver o corpo e consolar os parentes, inclusive, a viúva foi a primeira atitude de todos que souberam do infeliz fato.

A cena que, bem poderia ser encarada como falsa ou desnecessária é, na verdade, a oportunidade de reconciliação e entendimento. A dor da perda não é só de quem perdeu o ente querido, mas, também do vizinho até então desafeto. O vizinho sente e chora a mesma dor. É ante ao desespero dessa dor de perda que se dá a disponibilidade de corações, humanos e falhos, que se unem para se auto consolar.

Nesses momentos difíceis é que se percebe o quanto a vida é passageira e o quanto perdemos nosso tempo com coisas pequenas. Acho que não se pode ignorar a agressão dos que, quando em vida, insistem em se manifestar negativamente, e repetidas vezes, contra alguém. Entretanto, é com uma perda como essas que, os parentes e amigos refletem o quanto é importante ignorar determinados gestos e valorizar outros. 

O evento "morte" é só mais um  momento da própria vida. Dói como ante ao apego ao que se foi e ao fato de nunca mais se verá  o ente querido. É dor parecido com a da mãe ou pai que ver um filho ser encarcerado numa cela depois de ter cometido crime não esperado e saber que ele ali permanecerá por anos a fio e que, no caso brasileiro, sairá de lá pior que quando entrou. 

Por isso, o budismo prega o desapego. É ele, o apego, a causa do sofrimento que leva à depressão e muitas doenças. O apego é o mesmo do objeto. A madame que perdeu a sua joia e não consegue mais achá-la e que se atormentará por dias, meses e até anos, a lembrar do bem perdido quando, é tão somente um objeto que, mesmo caro, não vale um minuto de apego. E claro que um ente querido é mais valioso que qualquer joia. Mas, há que se ficar com as lembranças dos bons momentos vividos com ele e o contentamento da certeza de que se aproveitou ao máximo, enquanto em vida, da presença dele. 

Daí, a necessidade da vigilância em não perder tempo com o desnecessário. E sei que, como diz o adágio popular, "falar é fácil".

Wanderley Lucena


quarta-feira, 13 de maio de 2015

A HIPOCRISIA DO DISCURSO

Creio que a grande frustração de um artista é perceber a hipocrisia daqueles com quem é obrigado a conviver e que o julgam um depravado por sua livre expressão. O mesmo se passa com intelectual - e eu não o sou, nem intelectual, quiçá, artista - que se aborrece com o ignorante ao ponto de, simplesmente, deixá-lo a falar sozinho.

É um incômodo permanente perceber que a falta de bom gosto é desequilíbrio e ouvir que "gosto é gosto, cada um tem o seu". Permanecer num diálogo que não trará frutos é um verdadeiro infortúnio. E há aqueles que, como eu, por muitas vezes, insiste em tentar. E, na maioria das vezes, fica o desgaste, o dissabor, a frustração. E o ignorante sair dizendo que você é um "metido" e que o está a discriminar. Francamente!

É como discutir religião. Quando o religioso percebe que você não se converterá ao seu pensamento ele logo pronuncia: "religião não se discute". Eu digo que, se as partes são adultas e inteligentes, discute-se qualquer assunto, até futebol. E ambos têm que sair do diálogo valorados pela experiência frutífera de falar e ouvir. 

Pior, é perceber-se julgado por quem ouve e saber que, no fundo - mas, nem tão fundo assim - aquele indivíduo é igual, senão, inferior a você. E, bem sei, somos todos hipócritas mesmo, inclusive, este que ora escreve!

Wanderley Lucena



sexta-feira, 8 de maio de 2015

BENDITO SILÊNCIO

Ficar só, por vezes, é a melhor opção. Fazer-se companhia e ouvir apenas a sua própria voz. Recluir-se em obstinada busca pela paz interior... ou não. Há que se reconhecer o que nos faz dano, mesmo que não intencional. Há que se reconhecer o que danificamos, intencional ou não. Certo é que quando adoecemos e fazemos adoecer ou, nos adoecem, é hora de parar e recomeçar. Ninguém é obrigado a nada e muitas vezes, por amor ou outro sentimento nobre - ou não - alguém se atrela ao outro em verdadeiro auto ato punitivo de si ou do amado. Ele não estará feliz ao seu lado e nem você estará feliz ao lado dele. Assim sendo, o melhor é desapegar e lançar, ou lançar-se, rumo ao desconhecido interior que tanto bem traz.

A própria dor é fogo que apura o espírito e enleva ao alto. Nada de masoquismos, por favor! A solidão propositada por períodos pré-determinados e regulares, é super benéfica ao espírito e se reflete no corpo. Calar-se é melhor que falar. Quem fala deve fazê-lo de maneira ponderada e, de preferência, sem ser prolixo.

Quem espera resposta falada deve ouvir o silêncio que grita. O silêncio é a resposta inteligente de quem já chegou à maturidade ou está rumando à ela. O meu silêncio me faz muito bem. É ele um dos meus aprendizados.Um "não" dito implica rejeição e conflito iminente. O silêncio é "não" que vem acompanhado de reflexão e tolerância. Um "não" não dito verbalmente é caminho largo para o diálogo e o bem-dizer que necessita a espera do posterior momento. A celeuma que existe ante um "não" verbalizado é briga de facões. Os corações sairão dilacerados. Por isso, manter o silêncio é manter a abertura para o diálogo posterior que, a depender, bem pode, novamente, silenciar-se.

Wanderley Lucena

quinta-feira, 16 de abril de 2015

SOBRIEDADE

Ando mais devagar. Desacelerei! Estou menos apreensivo e a impulsão já se faz retardada. Há uma calmaria. Atitude contemplativa ante a natureza e, acima de tudo, agradecida por tudo, inclusive, pelo ar que ainda respiro. Todas as marcas que levo, eu sei, são doloridas, porém, escancaram-me minha própria história como um quadro na parede, pintado por um surrealista. Não me envergonho de nenhuma delas. Se são profundas e na alma ou mesmo aquela que veja ao olhar o espelho e que me tocou a própria carne... não importa. São, igualmente, ricas para mim.

Sobriedade é a estampa que me cobre ao menos por enquanto. Minhas malas levam menos bagagem, porém, sinto-me mais rico. Levo uma visão que vai mais além. O meu horizonte é mais distante. A paisagem tem menos componentes. Entenda-se, porém, que a paisagem não é, nem de longe, menos bonita. Insiro-me sozinho por pura vontade nessa pintura que eu mesmo crio. É bom está aqui. É bom saber que não mais estarei. É bom saber que continuarei minha jornada. Desta vez, em busca de tão pouco. A busca é apenas pela caminhada. Não busco nada além.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A JORNADA PARA SHANGRI-LA

A minha angustia ante o que não sou é enorme. Estou onde quis está. Estou onde não quero está. E sei que me vou e que, quando lá chegar, igualmente, não me contentarei. E fico a me perguntar dessa prisão corpórea que me leva quase à insanidade. A insatisfação desde que me entendo por gente. Essa ambiguidade latente da existência humana que me corrói as entranhas e me leva a desejar está onde não estou. E que lá estando, logo quererei está em outro lugar. Qual a resposta para tanto incômodo se a simples existência já, por si só, dadiva de Deus?

O discurso da crença da paz interior que tanto pregam as religiões não mais me basta. É bem verdade que, o equilíbrio do nirvana pregado pelo budismo e alguns outros ramos esotéricos, quase me convence. Entretanto, o nirvana implica trabalho hercúleo e disciplina de monge. Não sei se almejo o fim com tantos meios.

De um lado há a certeza de ter feito muita asneira, muitos erros cometidos na jornada. Por outro lado, há uma voz que me sussurra baixinho, suave e melosa: você viveu! você nem errou tanto! Você tentou, e tentar, por si só, já vale á pena! Se tivesse tentado haveria dor maior, a da covardia! 

Em breve, muito breve, me dedicarei a jornada espiritual. E, de já, a angustia me consome. Poderia ser tão simples: basta escolher. Já escolhi. Mas, e os que te desejam a presença? Aqueles aos quais se está atado por relações amorosas ou de contrato? E os parentes que cá ficarão? Uma decisão já tomada e a angustia do que virá.

Vou em busca da minha Shagri-lah!

Mas, parece que já está gravado no meu código genético. Tenho de ir!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 18 de março de 2015

CADAFALSO

Levaram-me - levei-me? - até o cadafalso e me puseram a corda no pescoço e... quem dera fosse bamba. Olhei para baixo pelo buraco quadrado. Estávamos a uma altura de uns quatro metros do chão. Não havia plateia. O dia era opaco, morno. Um vento cortante trazia ao meu nariz o cheiro do esgoto que corria a céu aberto pela valeta abaixo da calçada de pedras seculares. Havia o algoz que cumpria as ordens e mais ninguém. Aquele algoz trazia o peso do todo. Escondido dentro de touca que lhe cobria até o pescoço e que me mostravam olhos pequenos e assustados. Era franzino, raquítico. Decepcionei-me ante o seu tamanho já que esperava um gigante barrigudo que não me permitisse qualquer reação. Entretanto, não queria reagir. Minhas mãos, mesmo que não estivessem atadas não se levantariam contra ele. Maior que o meu medo era a humilhação. Mil palavras se sobrepuseram em pensamentos turvos e saudosos. Muitos deles de pura amargura. Outros doces e felizes. Minha conclusão era de que valera aá pena. Em alguns segundos as tábuas cederiam aos meus pés e eu esperava a liberdade. Havia tristeza em minh'alma. Mais que ela, havia um imenso mar de sobriedade agradecida. Não me vinham lágrimas. Havia resignação. Os segundos viraram horas. A espera parecia infinita. Sequer sentia algum ódio. Havia amor e agradecimento. Logo eu sairia dali para não sei onde. Queria continuar a sentir todo o ser que agora me sentia. Podia me sentir inteiro e em total simbiose com o universo. O céu estava fora, infinito aos meus olhos. Mas, dentro de mim havia o mesmo céu. Respirei fundo e senti que o ar me preenchia não só os pulmões. Percebi o vulto do braço forte e nu a puxar a alavanca, enfim. Sai de cena e continuei a perceber-me ressonando junto com todos e com tudo. A calma se apropriou de meu ser. Não mais dor. Não mais ânsia. Só amor.

Wanderley Lucena 

terça-feira, 3 de março de 2015

CÍCLICO


Apaixonei-me e me contentei
Mas, me desapaixonei e, me contentei de igual modo
Gratidão ante abóbada cósmica
Placenta de Deus que a tudo envolve
Acalentado, senti-me protegido
E veio o medo e deixou o gosto de fruta estragada
A dúvida nefasta que embolora corações
E me pari depois das contrações normais da solidão
E ali permaneci até que, de novo renascido
Levantei-me e me fui
Para debaixo de céu de estrelas opacas
De lua cinzenta
Rumei para lá  e me apaixonei
E me desapaixonei
De maneira cíclica me contentei
Mas não fique tão “bolado”
É apenas poesia de que não sabe fazê-lo


Wanderley Lucena

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

CENA DE FAMÍLIA MODERNA

- Mãe, estou namorando! - Disse a filha mais nova.

- Com quem, minha filha? - Perguntou a mãe, sabedora que o genro não devia valer grande coisa.

- Com o Parafuso - respondeu a garota esperando resposta sisuda e de desaprovação, haja vista, a má fama do rapaz. Parafuso era magrelo e arredio. Tinha os dentes amarelados pelo uso excessivo de "la marijuana" e já tinha sido preso, não só uma vez,  por vender o referido produto.

- Que bom minha filha - respondeu a mãe a surpreender a filha.

- Mas mãe, ele é surfista - reclamou à mãe a filha mais velha que se encontrava encostada no balcão da pia a tomar um café preto em copo americano. Na verdade, a expressão da filha era de surpresa estupefacta.

- Minha filha, surfista é tudo gente boa, você sabe bem disso - justificou a mãe enquanto desviava o olhar e a enxugar a pia.

- Mãe, ele é traficante. Vai dizer que você não sabe? - insistiu a filha intrometida.

- Que bom! Assim o meu vai sair de graça - respondeu.

Wanderley Lucena

A SURPRESA E A INDOLÊNCIA

Até uma semana atrás a Praia do Francês, ao menos para mim, apresentava paisagem paradisíaca e mais nada. Os ambientes eram desleixados e o serviço, desde restaurantes a hotéis,  pareciam parados no tempo. Os estabelecimentos eram feitos de forma remendadas, na base do "puxadinho". O puxadinho, a gambiarra e o mau gosto que perpassa pela pobreza que vai dos tons desequilibrados das cores até os móveis pobres e rudes feitos à machadas em cima de madeira esquisita e pesada como o coqueiro. Aliás, vim saber que coqueiro era madeira para se fazer móveis nestas terras. Para mim coqueiro só servia pra dá côco. Sim, aqui coqueiro é madeira, e de lei. Fazem-se móveis que vão desde as cadeiras até as camas e armários de cozinha. É madeira pesadíssima e efeito burlesco  negro-moreno, deselegante A exceção fica para quando usado no exterior das casa. Fazem-se cercas e até pérgolas . E nada tenho contra o coqueiro. Acho mesmo que neste momento de consciência ecológica, vai muito bem a escolha pelo coqueiro. Mas, tenho certeza que o coqueiro está sendo mal utilizado na falta da criatividade, quiçá, pela preguiça impregnada na consciência generalizada.

Mas, foi na noite de natal que saí de casa desanimado, meio que forçado por amigos que me haviam convencido a ir a uma festa de nome "SUBSTACION".

Surpresa das surpresas! A festa acontecia em estrutura que já fora um armazém. A rua na qual se localiza é uma pérola colonial. As construções estão bem preservadas e a iluminação está em postes de ferro envergado - com certeza, aquilo é francês - de mais de cem anos.

As paredes em tijolos que um dia já foram rebocados, ganharam iluminação projetada em canhões desde o chão que explodem na cor ocre  do barro e explode em espetáculo de equilíbrio. As portas lembravam as das igrejas antigas e o interior, enorme, com multidão de gente linda a dançar música boa maestrada por DJ local que em nada deixou a desejar aos grandes das maiores capitais do país.

Grandes espelhos emoldurados foram colados, displicentes, ao longo das paredes. Os espelhos eram desde o teto ao chão. O ambiente parecia maior ainda.

A minha felicidade era a de está engando. Sim, alguém sabe fazer alguma coisa direita por aqui. E gente daqui fazendo coisa como os de lá. Adorei a festa e voltei pra casa apressado, haja vista, o vigilante não ter atendido as minhas ligações para informar-me que tudo estava bem. Cheguei e o encontrei a dormir como uma "Bela adormecida" no meio do salão do café manhã depois de ter fumado alguns "backs", pré-suponho. E ai, saí da fantasia e encarei a realidade ante a cena. Eu continuava no mesmo lugar, rodeado de gente indolente e matreira.

Wanderley Lucena




quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

ICEBERG

Eu me peguei a pensar sobre a espera. Sim, o ato de esperar. Esse ato que nos impõe a vida em tantas ocasiões e aos quais insistimos em não nos acostumarmos a ele. Eu poderia afirmar ser o ato infame da espera o maior causador das gastrites, das úlceras estomacais e, pior, dos cânceres que matam algumas centenas de milhares de pessoas pelo mundo à fora...

 O desejo pela coisa ou pela presença de alguém que não chega na hora ou dia marcado é sentimento infame que parece iceberg estacionado no estômago.

Fiquei pensando que agora, depois que a idade me chega e junto com ela a maturidade, fica mais fácil o ato de esperar. A espera pode ser resignada e quase alheia à concretização do desejo que pode ser satisfeito ou não... A não satisfação implica maior desejo e, portanto, maior sofrimento.

O desejo é apego que gera a ânsia que causa a dor ante a insatisfação. Quem se desapega, conforme manda o princípio budista, sofre menos. 

O desejo seria o que chamarmos de "AMOR". Amor de mãe ou qualquer outro tipo. Amar é desejar estar. Amar é desejar ter. Nada além. Amar é sofrer. É melhor morrer de amor que não amar, entretanto.

Mas, alguns indivíduos, depois certa altura da vida, começam a entender que o tempo é senhor de tudo e que a luta contra ele é hercúlea e perdida. Lutar por amor é, quase e sempre, pura perda de tempo e energia. O ideal é que o amado, seja indivíduo ou objeto, esteja por querer estar com quem o ama. 

O Cosmos sempre conspirar a nosso favor mesmo quando o resultado da espera não nos é favorável e o amado não vem. Nesse caso, cabe a aceitação conformada de que o Universo assim o quis por ser a melhor saída. Se ele não veio foi porque não o quis. Melhor assim, senão, seria verdadeira prisão que levaria ambos à infelicidade certa.

Wanderley Lucena


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A canoa e o caju


A canoa de todo não era ruim. Tinha ela a simplicidade da tábuas devidamente ajuntadas por algum artesão local. Era pequena ante a quantidade de água a atravessar. Levava a mim e a mais três passageiros, fora o canoeiro que, de longe, me lembrou o gondoleiro de Veneza. O homem era franzino e fraco. Tinha mais de quarenta anos e pele morena, queimada pelo sol escaldante da região. 

O banco de areia branca, alva como açúcar refinado, esperava-nos logo a algumas remais adiante. Os poucos bares dispostos em frente à lagoa não passavam de quatro. Embora carentes de equipamentos, percebia-se o cuidado e o zelo de seus proprietários na apresentação. Mesas e cadeiras coloridas se destacavam na brancura da areia. Meninos moços pescavam o que nos seria servido em seguida. Algumas mulheres, com grandes bacias, em conversa animada, lavavam crustáceos que iriam para a panela a transformarem-se em deliciosas receitas locais. 

Quando a canoa encostou na areia, descemos todos e ficamos a explorar, visualmente, toda a extensão de 360º que nos oferecia a paisagem. A água da lagoa sofria a interferência da salinidade marítima. O mar estava logo depois do banco de areia, a apenas 100 metros as ondas quebravam em contraste com as águas calmas  da lagoa. Logo nos veio atender um rapaz simpático que nos preparou, por sugestão dele próprio, uma caipirosca de caju*, fruta típica do nordeste brasileiro e pela qual tenho verdadeiro fascínio. O caju se apresenta em diversas cores e tamanhos. Parece que quanto menor, melhor. As tonalidades vão desde um amarelo desbotado passando pelo alaranjado e chegando na pujança de um vermelho paixão. Come-se o caju de diversas maneiras. É fruto abençoado. Eu adoro comer cortado sobre o prato servido com qualquer tipo de comida durante o almoço. Mas, ele pode ser comido ou chupado. É fruta aquosa e de muita fibra. Trava na boca e faz as glândulas palatais incharem-se em degustação incrível. 

O pé de caju, a árvore, é belíssima e frondosa. A folha é grande, densa e brilhosa e, se esmagada entre os dedos, o cheiro é incomum e maravilhoso. Oferece sombra a quem queira. Mas, agora estava me sendo entregue em copo simples, um drinque que me abriu o desejo antes mesmo de experimentá-lo, Era bonito, sensual. Um das frutas fora cortada e esmagada e, depois, acrescentou-se a vodka, o gelo, e sei lá mais o quê. Saí da Prainha de Barra Nova em Alagoas, pedaço pobre brasileiro, ébrio, porém, com a certeza que voltaria ali muitas vezes, pois, além daquela paisagem incrível, ali havia, a caipirosca de caju que jamais experimentara, sequer ouvira falar. 

* O conto acima é uma ficção. A caipirosca citada tomei sim, porém, numa barraca chamada ALOHA, localizada na Praia do Francês, em Alagoas. A Prainha de Barra Nova existe e, salvo a veia poética deste que a descreve, em muito se parece verdadeiramente.

Wanderley Lucena

terça-feira, 11 de novembro de 2014

AMAR E SER AMADO

 

Li, certa vez, um post idiota numa página de facebook de um idiota: "Apaixone-se por alguém que te cuide, que te guie, que te dê apoio..." etc... Eu, porém, me apaixono por me apaixonar, apenas. Me apaixono e vivo. Não espero nada do outro que não o respeito e a lealdade. E, claro, a lealdade passa pela parceria. Isso implica algumas respostas ante as dificuldades enfrentadas por ambos os parceiros. Mas, não exigência "sine qua non" que o parceiro me responda exatamente como eu o deseje. Quero, muito mais, a minha independência que me leve a está ao lado e não nos ombros de ninguém. Não quero ser peso, nem meio peso.  Não quero levar pesos que, bem poderiam, andar sozinhos ou ao meu lado, de mãos dados, rumo ao objetivo de uma vida melhor. Mas, ouvi desse mesmo idiota, d'outra feita: "eu me apaixono por quem se apaixona por mim". E então, calei-me. Não havia mais o que se discutir. Afirmo que, tal idiota, jamais se apaixonou, muito menos, amou! Quiças, jamais amará. E... mais importante que ser amado é... AMAR!

Wanderley Lucena

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

EQUÍVOCOS

Eu gritei enquanto tu gritavas.
Bocas cerradas depois de tudo dito
Dito tudo o que bem podia não precisava
Palavras doces e fraternas ficaram mudas
Amargas lançadas como navalhas
Cortaram e machucaram
Cicatrizes que, certo, não se apagarão
Negamos o óbvio amor
Por medo de expor-se à fragilidade
Ou se por mera vaidade de quem, egoísta, quer ouvir
Vaidade de quem não quer falar
Eu esperava apenas a palavra bendita de quem pede que se fique
Ocorre que tu esperaste o mesmo
Eu me fui e tu te foste
Levamos o enorme fardo da dor e da mágoa que, de tão grande, parece não nos caber
Eu, de cima, com orgulho, digo-te o que não queria ouvir-te: jamais te dirigirei palavra novamente
E se soubera que o tanto que vivemos terminaria no vale do ressentimento
Melhor me seria, nada termos começado, sequer, conhecido
Mas, agora, sozinho, digo-me: valeu muito!
Comigo levo-te eternamente. Sentirei saudades!
E me dói que não mais aqui me estejas
Falso desprezo que nada mais é que artimanha para que me continues vivo e latente em mim.
O coração sombrio vai cheio de amor que, mesmo machucado, sabe
Outros me virão
Te virão
Diferentes
Não nos substituirão
Fomos únicos
Sempre seremos
E entendemos que o aquilo se nos havia dentro em nós
De tão grande dava medo de entrega
Diamante precioso que, sem o devido reconhecimento, bem poderia ser confundido
Viraria mera bijuteria a ser jogada na prateleira mal cuidada
Levo-te como me eras e não o sabias
Preciosidade deveras
De tamanho que reconhecer não puderas.


Wanderley Lucena



sábado, 1 de novembro de 2014

AGREGAR É MELHOR


Mas, é bem chato mesmo conviver com quem discordamos. A postura da simples eliminação é precária e cômoda. Já eliminei algumas pessoas de minha vida. Nunca me arrependi de tal atitude. Quando elimino alguém é porque amadureci a ideia e percebi, com as atitudes do outro, que não vale à pena tê-lo em meu convívio. E quando o faço, geralmente, é para sempre. Entretanto, gosto de quem argumenta com inteligência e me mostra que posso está enganado a respeito do que se discute. E gosto muito de uma boa discussão com indivíduos adultos, respeitadores e, principalmente, TOLERANTES. Foi a intolerância que criou alguns mequetrefes ao longo da história da humanidade, inclusive, o maior deles, Hitler. Mas temos vários mais contemporâneos como os ditadores da Coreia do Norte, o apartheid na África do Sul, etc... etc...  O importante é que, mesmo que eu discorde totalmente do outro, ele tenha a total liberdade para expressar-se. Eu pegaria em armas para que você pudesse expressar o que pensa. Reflita sobre isso e elimine o menos possível. Agregue o máximo possível. Ouça mais. Fale menos. A lição vale para todos, inclusive, para mim. Eso ya lo sé!

Wanderley Lucena

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

DE LUTO FECHADO


















Hoje não ligo a TV, não vejo jornais, não falo, não escuto. Não abro as cortinas, não ligo o rádio. Meu café da manhã veio morno e sem graça. O sol esturricante na moleira logo cedo a espantar os animais silvestres do jardim. Acordei tarde de um sono profundo. Sonhei. Tive pesadelos. Estou de luto fechado. Enterraram-se as minhas esperanças. Não conseguimos atravessar o pântano formado pela indecência da política brasileira. E os "intelectuais" desta republiqueta de bananas, e de merda, a quererem me convencer que a educação melhorou 200%. Aonde? Não percebi. Vejo um massa invalidada pela preguiça da ignorância. Uma massa dependente das "bolsas" vergonhosas ofertadas por esse governo reles e maldito que está acima das instituições e da lei. E os "intelectuais" a quererem me convencer que eles saíram da linha da pobreza. Estou envergonhado de termos 16 milhões de brasileiros a receberem as tais "bolsas". Bolsas estas que são pagas com o meu dinheiro, com o dinheiro dos que insistem em trabalhar. Revolta ainda mais saber que, mais da metade dos meus impostos vão para o bolso desses salafrários que se apoderaram do Estado brasileiro. Os homens bons e de bem, os homens sérios, não querem saber de política, com ela não se envolvem. Político bem sucedido será o que menos caráter tiver. O vereador será eleito deputado estadual se, no seu pleito, roubar o suficiente para a sustentar a sua campanha ao novo cargo comprando votos com cestas básicas ou em espécie mesmo. Afirmo que, a melhor saída à quem pode, é o embarque internacional de qualquer aeroporto deste país. 

Wanderley Lucena

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A CULPA DOS RENEGADOS

Acho que reduzir a maioridade penal é impor culpa à vítima. Os meninos infratores, maus que só o capeta, na verdade, são vítimas da ausência estatal que não lhes deu a assistência a que tinham direito. Veja as escolas mau aparelhadas, com farinha seca por merenda, professores mau pagos e semi-analfabetos. Veja a família constituída por esses mesmos renegados que, na verdade, apenas procriam e soltam seus filhos ao mundo para multiplicarem-se no terreno árido da escassez do mínimo básico à dignidade humana. Eu poderia escrever um livro de alegações que levariam qualquer pessoa menos esclarecida a concluir que só existe um culpado. Ele se chama ESTADO. Sim, o governo brasileiro que desvia tubos de dinheiro de impostos que pagamos para os bolsos, largos e profundos, da corrupção. Aos que defendem a redução da maioridade penal, muitos deles cristãos-pastores-deputados, informo que "o buraco é mais embaixo". Ademais, estaríamos mandando as crianças, já vitimadas pela ausência governamental, a fazer um curso superior, um doutorado, nas escolas de crime que são as prisões brasileiras. Quem tem que ir para a cadeia é cúpula de corruptos que manda e desmanda no nosso país.

domingo, 17 de agosto de 2014

DITOS E FEITOS


Hoje dormi até tarde. Fazia tanto tempo que não tinha tal privilégio. Senti remorso. Seria a hora de relaxar? Há tanto por fazer.

Tanto já foi feito. A instabilidade já parece coisa do passado. Entretanto, a ânsia pela matéria e a esperança de que ela me proporcione dias melhores me fez sair para terras desconhecidas e insólitas.

É verdade que a maldade dos homens nos impulsiona e nos faz lançar em abismos. Mas, quem se joga ao abismo, nem sempre, o faz por medo da luta. Muitas vezes conta com o acaso providencial do Cosmos que pode nos acolher logo abaixo sem que nos machuquemos, ou que, mesmo machucados, sejamos salvos por obra de milagre.

Eu acredito na providência milagrosa e no destino. Pensava eu que meu lugar de paz seria numa terra nova e, de preferência, numa paradisíaca praia. De onde saí eu trouxe algumas marcas de agressões de homens vis. Mas, neste lugar, sofri piores.

É certo que me vou de novo daqui a pouco. É certo que vou mais desapegado da matéria. Mas, levo comigo o que consegui arrecadar com meu suor. Levarei muito. Mas vou mais leve.


Wanderley Lucena 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

ALGO QUE O VALHA


A minha inquietude não é apenas de ir-me desde aqui. Ela é desejosa de desprendimento e desapego. Sei que me vou para não mais voltar. As sandálias baterei quando entrar no veículo que me levará. Levarei minhas rugas, minhas marcas valorosas. Não levo mágoa, não levo dor, não levo rancor. Levo a cara limpa e a certeza da lição aprendida.

Eu sinto mesmo ter nascido no ocidente e que minha covardia me impeça de transformar-me em um indu, num faqui, num budista ou algo que o valha. Mas, não quero mesmo exteriorizar a minha identidade espiritual. Não quero, sequer, ser apontado como "homem bom" ou "honesto". Quero apenas levar no meu âmago a certeza de que fiz o que me foi possível.

O "Caminho de Santiago de Compostela" é desejo que pretendo realizar tão logo a minha missão aqui seja concluída. Uma incursão para dentro de mim mesmo e que volte para o externo na forma mais óbvia de bondade e amor. Quero encontrar uma causa humanitária e me dedicar a ela.

Claro que tudo muda a todo instante e nada está decretado. Falo de vontades, de desejos. É desejo oposto, por exemplo, morar uma temporada em Madrid. Uma reflexão sobre os contrastes da educação e da moral em relação ao nosso país. Quero verificar "in locu" se é tudo a mesma coisa. Que a qualidade de vida e os valores estão tão perdidos quanto aqui.

A busca pela riqueza me trouxe mais instabilidade. Muitas foram as agressões vis oriundas de homens reles que jamais teria com eles qualquer contato. E não que me sinta superior a eles. Apenas me percebo diferente e sem qualquer afinidade com tais indivíduos. E os chamo de reles com conhecimento de causa e sem qualquer medo de está errado em meu juízo.

É isso! Que me venga un nuevo câmbio!

Wanderley Lucena



quarta-feira, 5 de março de 2014

Quarta-feira de cinzas!

A Quarta-feira é de cinzas, acabou o carnaval. Ficou o lixo nas ruas, praias, parques e jardins. O cheiro do mijo descarregado pelos foliões apertados e meninas brejeiras e sem juízos, muitas delas, ainda não sabem que daqui a pouco a barriga já será grande e, mais uma bolsa família será paga com meu dinheiro. E a PresidENTA garantirá a sua reeleição.

O dia aqui amanheceu turvo, o sol tímido - talvez de preguiça ou por ser a quarta-feira de cinzas, ou seja, o sol desinchou o céu cinza mesmo. Eu me sinto esgotado. E pior, acho que estou com labirintite ou qualquer outra coisa que me faz cambalear como se tivesse tomado uma garrafa de vodka vagabunda. Mas, não posso entregar os pontos. Estou a sair já para fazer as compras e levar a roupa para a lavanderia. A vida continua e o tempo urge... mesmo numa quarta-feira de cinzas - ao menos para mim, o tempo não para!

Wanderley Lucena

domingo, 2 de março de 2014

ADIÓS MUCHACHOS!

Tenho uma certeza: a de que se sobreviver a isto, me irei daqui para lugar distante. Vou-me para nunca mais voltar.

Tratarei de colocar em baú, muito bem fechado, todas as lembranças destes três anos de aprendizado e expiação. Eu que pensava já ter passado pelo pior... hoje sinto-me inserido em sociedade atrasada em pelo menos trinta anos em relação à Capital Federal. Sinto-me como se voltado ao Maranhão, estado federativo do qual migrei ainda muito jovem.

A escassez não é só tecnológico-educacional. Ela perpassa os limites da razão vai a uma ignorância profunda e arraigada até naqueles que têm "nível superior". O indivíduo aqui tem o orgulho de ser ignorante. Bate no peito e diz: "sou macho e não levo desaforo para casa". O imbecil, muitas vezes, sangra ou é sangrado e deixa esposa viúva e folhos órfãos.

Questões banais de vizinhança se tornam pendengas que se transformam em "barracos" dignos de favela. Toda a rua se alvoroça ante um bate-boca que pode ser ouvido em todo o lugarejo. Ademais, são dados à fofoca. E a fofoca mentirosa, do tipo "cabeluda". Adoram sentar-se nas portas, nas calçadas, esparramados nas calçadas estreitas, sob sol sol que esturrica a moleira e calor escaldante. Prestam-se a olhar quem passa e a comentar da vida uns dos outros. É verdade que a "sessão da tarde", ao menos para mim, é lixo puro, mas, para esse povo que, em sua grande maioria, é incapaz de uma crítica racional, a televisão deveria ser uma boa alternativa para que o indivíduo se "vidrasse" ante a tela e deixasse a calçada e a vida do outro.

É verdade que todos padecem de mau gosto e que suas formas já prejudicadas pela genética de origem desconhecida, pioram ante a mal alimentação. Aqui se come margarina como se fosse geleia. Os embutidos - os mais baratos - são verdadeiras iguarias que eles adoram. A "mortandela",  "chalchicha" e os queijos amarelos e sem marca vendem como se água.

A alimentação errada transforma as criaturas já desprovidas de beleza em verdadeiras aberrações. As mulheres não são apenas gordas. Elas são gordas e buchudas - mas, muito buchudas mesmo! Mas, não só isso. Elas se vestem de roupas esfuziantes, coloridíssimas, apertadíssimas, curtíssimas - horríveis! Mas, não só isso - devido ao calor, creio - adoram mostrar os buchos. Os umbigos explodem como uma azeitona gigante que elas adoram enfeitar com piercing vagabundo de strass que balançam como os pendulas dos sinos das igrejas de Ouro Preto.

Os homens são um capítulo à parte. Cheios de si, geralmente, soberbos, mentirosos e gananciosos. Seus egos estão presos em corpos carregados por pernas "de frango". São pernas de formas arredondadas e sem músculos. Cochas cheias e flácidas que sustentam bundas grandes, enormes, que sempre associei à preguiça. Eles são indolentes, de raciocínio lento. Entretanto, se percebem uma maneira se "se darem bem", de preferência "passando a perna" em alguém, são ágeis, acelerados e espertos. E ninguém vai convencê-los da desonestidade. São dados às trapaças que não respeita sequer a família. Irmão trapaceia irmão e filho engana a própria mãe e a rouba fácil em qualquer questão.

As drogas talvez estejam acabando com o que resta desses mentes cauterizadas pela falta de valores éticos. Aqui não tem quem não use maconha - e nada tenho contra, diga-se. Acho mesmo que mal maior faz o cigarro que por sua nicotina e alcatrão superlota nossos hospitais com as criaturas cancerosas. Mas, aqui o buraco é mais embaixo. Todos usam, além da maconha, cocaína. LSD, êxtase e outra mais pesadas. Muitas são as criaturas reles escravizadas por seus vícios.

Não me adequei a esta realidade e não quero me adequar a ela. Vou embora porque o posso. Vou porque quero e porque mereço lugar melhor do que este paraíso de paisagem linda carcomido e cheio dessa gente que, de humilde, nada tem.

Em breve, muito em breve, se vivo, direi a esta terra um "Adiós muchachos!".

Wanderley Lucena

domingo, 25 de agosto de 2013

À SOBERBA O CIÁTICO



O ciático continua a me incomodar. Depois de vinte dias andando enviesado, ele insiste em não curar-se.  É bem verdade que não tenho nenhuma tendência à hipocondria e não tomei medicação que não fosse apenas para aliviar a dor. Não fui a médicos, nem tomei a santa voltaren. Mas, me sinto vivo. A dor que me serve de alerta e me informa o quão frágil somos, também, me conscientiza de que preciso crescer em espírito e que o crescimento material pode ser mais devagar. Tenho ganas e necessito correr contra o tempo. A certeza de que sou capaz de produzir cada dia mais e melhor traz ebulição interior que faz ficar meio louco a quem ver. Diz que sou elétrico, que sou hiper ativo e agoniado. Eu me sinto em paz comigo mesmo. Sinto a onda gigantesca que vem em minha direção e, com a experiência já aprendi que, basta mergulhar e não se sente qualquer impacto ou violência.

O medo de decepcionar quem espera o salário no final do mês, por vezes, me faz perder um pouco o sono. Mas, certa vez li que a cama não foi feita para pensar e sim para dormir. Quando me deito procuro não pensar em nada que não seja agradável e, depois de um dia estafante, não tem sono que não venha. 

Não sei porque estou aqui. Se estou para apender ou para ensinar ou se as duas coisas. O meu aprendizado neste lugar parece superior aos da faculdade. Acho que já ensinei alguma coisa também. Há quem goste muito de mim e há quem me odeie. Não me preocupo nem com um nem com o outro. Minha preocupação maior é comigo mesmo. Procuro está de ouvidos bem abertos para tudo, inclusive, para as mensagens da intuição. Mas, não quero passar por cima de ninguém, nem, jamais abrirei mão de meus valores éticos. Nada de considerar-me melhor que o outro. Vigio o tempo todo para que a soberba - pecado capital - não me apodere.

Wanderley Lucena


sexta-feira, 21 de junho de 2013

AUSÊNCIA ESTATAL


Claro que não é possível tolerar o vandalismo e a violência que se percebe ante os protestos que ocorrem por todo o país. É chocante ver as cenas de destruição que atrapalham a belíssima imagem da mobilização espontânea do povo nas ruas em protesto aos exageros da falta de administração governamental. Entretanto, fico me perguntado se não dói igual ver a infância roubada pelo craque porque o menino não foi à escola e preferiu perambular pelas ruas, haja vista, a escola sucateada, sem graça e cor, que o governo disponibiliza através da rede pública de ensino. 

É terrível tolerar a pesada carga tributária deste país e que vai parar nos bolsos dessa corja de gravata instituída e legalizada pelo salvo-conduto do voto da legião analfabeta. É agressivo perceber tais ladrões de casaca se protegem atrás do grosso escudo das alianças políticas que perpassam todos os poderes instituídos. 

É uma covardia perceber o salário já sofrível do professor ser rebaixado ainda mais enquanto deputados aumentam os seus ao momento que o desejem e a seu bel-prazer. É dolorido perceber que nas filas intermináveis dos hospitais públicos o cidadão passa dias na fila e que muitos morrem enquanto esperam e que mães parem seus filhos nas calçadas de maternidades-pulgueiros por falta de vaga.

Saber que cargos públicos são usados como palanques para incitar o ódio e para a pregação pragmática e preconceituosa contra as minorias discriminadas ao longo do tempos.  Que o povo passa fome e que anda mal-trapilho e moribundo, vagando qual zumbi, verdadeiras carcaças sem conteúdo de qualquer aprendizado educacional. Que ONG's são verdeiros vampiros que sugam o dinheiro público em prol de seus presidentes.

A percepção de que os estados da Federação têm seus donos e que eles usam e abusam dos mesmos como se fossem seus feudos e os habitantes eleitores analfabetos políticos são suas propriedades, assim como se fossem meras cabeças de gado de suas fazendas me é tão agressivo e repugnante quanto o vandalismo ora visto,. O feudo é passado de pai para filho como se herança patrimonial. Alguns, além de passarem a herança aos descendentes, ainda, se apossam de outros estados. É o caso do Maranhão e a família Sarney. Neste momento Roseana manda e desmanda no seu curral enquanto o Sarney passou a mandar no Acre. Foi por aquele estado que foi eleito o Senador.  

Sim, é mesmo muito agressivo perceber que os vândalos estragam o movimento. Sim, é mesmo muito vergonhoso perceber que tais vândalos são, na verdade, vítimas da ausência estatal que deixa de formar cidadãos conscientes e educados e os transforma em criminosos que foram obrigados a viver à margem da sociedade, nos morros e favelas, onde se brutalizam e se cauterizam de sentimentos éticos básicos.

Só há um culpado por toda a violência: o Estado ou a ausência deste.

Wanderley Lucena

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

OLHA A FACA!


Há uma nuvem negra sobre este povo. Há retardo tecnológico e educacional. Aqui as pessoas jogam o seu lixo na esquina mesmo sabedores que isto é falta de educação e que cães e gatos arrastarão o lixo pela rua depois de rasgarem os sacos plásticos que os acondicionam. Aqui  a briga é para se continuar a jogar o lixo no mesmo lugar que se joga a vinte anos, dizem eles. Têm orgulho de não aceitar o novo e batem no peito, soberbamente, para afirmarem a masculinidade e resolverem suas pendengas na faca. Aqui se mata gente como se fosse galinha e a "honra" do marido corneado é lavada à sangue.

Mas, neste momento, há uma retração geral. Muitos estão abatidos, enfurnados em seus cafofos. Muitos deles endividados até a tampa. Desesperados, recolhem-se à escuridão de seus quartos, em suas alcovas humildes.  A grama secou porque não têm ânimo nem coragem para rega-la ou porque a empresa de água já lhes cortou o fornecimento. A cara é verdadeira carranca e o espírito abatido faz envergar a coluna e baixar a olhada que mira apenas o calçamento da rua.

A consciência coletiva é tacanha e de mal gosto. Idéias simples são rejeitadas em nome da tradição ignorante de que o "forasteiro" e suas idéias devem ser rejeitados. Aqui se olha com espanto à forasteiro que, educadamente, recolhe as fezes de seu velho e moribundo cãozinho. Os restos de construção ficam meses jogados pelos moradores adiante de suas residências, no meio da rua.

O carteiro não entrega cartas, mas, joga-as por cima dos muros, dentro dos lotes, sem se preocupar se chegarão ao seu destinatário ou se a chuva vai destruí-las. Os correios abrem apenas para três clientes por vez e a fila é formada do lado de fora, sob sol escaldante. Os caixas do banco param para o almoço, todos ao mesmo tempo, mesmo que a agência esteja lotada de clientes. O protocolo da prefeitura faz os registros em livros enormes e manuscritos - não há computadores - e a servidora informa que assim permanecerá, pois, do contrário ela perderá o emprego. O cartório de notas e oficios segue os mesmo moldes.

A praia está linda, porém, sofre do mesmo marasmo. Não há animação e os turistas não existem. As barracas estão sem música e os garçons irritados por faltarem-lhes a comissão do dia-a-dia. A moça do caixa foi demitida e está soltar fumaça pelos ouvidos.  As barracas-restaurantes são horríveis e de péssimo serviço. A higiene e a assepsia não existem. 

Eu não sei quanto tempo permanecerei nesse paraíso de paisagem e inferno de espíritos. Certo é que não ficarei aqui a não ser que o Cosmos me determine. Meu espírito me avisa: "é apenas um estágio". Minh'alma confirma em alegria. Quero mesmo ir-me de corpo e alma, de mala e cuia, levando na bagagem o conhecimento aqui adquirido. Esta terra ainda não me deu nada além disso: aprendizagem. Talvez seja isto que vim fazer aqui: aprender.

Wanderley Lucena


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

FELIZ ATÉ O TALO!


Já tive várias dúvidas que me atordoaram o juízo por boa parte da minha vida. Hoje tenho respostas que me parecem mais reais, mais verdadeiras do que aquelas às quais eu era obrigado a acreditar pela "fé". E é pela fé que a Xuxa ver duendes e eu posso acreditar em Saci Pererê, mula-sem-cabeça, fadas, anjos etc...

"A fé é plena convicção das coisas que não se vêem". Ouvi tal definição quando da minha cegueira religiosa e a repetia como papagaio, orgulhoso de minha ignorância. É possível ter plena convicção das coisas que não se vêem? Afirmo que não. 

A fé deveria vir de experiência real com a divindade, com o Cosmos, com Deus ou com aquele a quem sequer sabemos denominar. A fé não deveria ser apregoada por quem nunca teve tais experiências inexplicáveis e milagrosas. 

Precisei ler o texto de Spinoza no qual ele fala de um Deus que nos fez humanos e cheios de paixões, de vontades, desejos, falhas e livre arbítrio e, ao final, é o responsável por tudo e que nos estimula. Esse Deus quer que vivamos com toda a intensidade de nossa humanidade divina. Quer Ele que gozemos como se fôssemos morrer no próximo minuto. Um Deus que despreza nossa adoração em templos por nós mesmos construídos e que servem para alimentar o discurso castrador das religiões que, por séculos nos incutiram a culpa por sermos quem somos. Essa culpa só serve para nos afligir a alma e nos trazer doenças psicológicas e psiquiátricas e, em plano bem raso, para alimentar os imensos cofres de quem as lidera.

Pois bem! O templo de Deus está à tua frente. Ver a amplitude para cima e te sentirás em abóbada que ecoa o som da natureza e sentirás que Deus está ao teu redor. E se olhares, mesmo sem muita atenção, te perceberás parte desse cosmos e que dentro de ti existe universo tão grande quanto o que miras para fora. Se sentirás tão pequeno que terás vontade de te prostrares ante tal maravilha. Maravilha à qual só podemos, em êxtase, louvarmos. 

A vida é milagre que, mesmo depois de explicado pelas ciências, permanecerá misteriosa. O corpo, a matéria, já sabemos de onde veio e para onde vai. Mas, essa energia que faz essa caixa chamada corpo se movimentar, sentir, falar, etc... Que energia é esta? De onde veio? Para onde vai? Uma vez me pus a olhar um morto num velório e a pensar sobre isso. Para onde foi a energia que fazia  aquela caixa chamada corpo se movimentar?

Tentar explicar Deus é inútil. E renego e desprezo quem o pinta "assim e assado". Deus é inexplicável. As escrituras ditas "sagradas" o pintam com as características de um ser humano bem pior que eu mesmo. Trata-se de um mequetrefe. Uma criatura feia, mal humorada, rancorosa, medrosa, ciumenta, insegura, xenofóbica, genocida, assassina, vingativa (até a quarta geração), homofóbica, etc... Esse Deus não me serve e, afirmo categoricamente, não passa de uma criatura.

Conheço um Deus que não sei explicar porque jamais o vi. Já senti emoções, e sensações e intuições às quais obedeci e que, ao final, me levaram à satisfação daquele momento. Isso se fez de forma milagrosa e, totalmente, inexplicada.

Não posso negar que exista um mistério para dentro e para fora. E a esse mistério fantástico atribuo um Deus misericordioso que jamais faria um lago de fogo para queimar à sua própria criação. Acredito num Deus que me manda ser feliz até o talo!

Wanderley Lucena


terça-feira, 26 de junho de 2012

O DEFUNTO DA PRAIA DO FRANCÊS


A estória que passo a contar-vos é verídica e aconteceu na Praia do Francês, nas Alagoas. Mãe e filho vieram de Maceió a tomar banho de mar. A mãe descuidou-se e, horas depois, percebeu a ausência do filho. Procurou-o por demais e, aterrorizada, concluiu, certo como dois e dois são quatro, que o filho querido morrera afogado e que o corpo fora levado pelas águas do mar. Com muita sorte o corpo seria devolvido e ela poderia enterrá-lo com velório digno.

A mãe esperou por cerca de dois dias, porém, o corpo não apareceu em lugar nenhum. Ela voltou para Maceió, antes alardeando que daria polpuda recompensa a quem achasse e lhe devolvesse o corpo de seu filho amado.

Um velho pescador, pobre-pobre-de-marré-deci, visualizando na recompensa a possibilidade de matar sua fome, passou noites a fio, a andar pela praia, na esperança de achar o corpo que, bem, poderia ser devolvido pelo mar durante a madrugada.

Dado momento da madrugada o velho pescador tropeçou em carne humana putrefata e deu pulos de alegria. Sua busca chegara ao fim. A sorte lhe sorria. Entretanto, o mar devolvera apenas a perna do defunto. O resto do corpo, com certeza, as feras marítimas já haviam devorado.

A perna putrefata, fedendo mais que carniça, foi colocada dentro de um saco de estopa e o velho pescador pegou o ônibus logo cedinho, rumo a Maceió onde entregaria á mãe do morto e receberia sua rica recompensa. O ônibus estava lotado e o povaréu logo começou a reclamar com o motorista que decidiu averiguar a situação. 

O saco com a perna logo foi identificado como a causa de tamanho desconforto às narinas dos passageiros. Todo mundo assustado ante a perna humana e o pescador de olhos arregalados, já quase sendo linchado. Depois de muito explicar e já chorando, o velho pescador convenceu todo mundo de que levava a perna do  defunto como ato humanitário e porque esperava matar a fome com a recompensa que receberia. Todo mundo ficou com dó do velho pescador e decidiram deixá-lo seguir viagem mesmo com a perna do morto dentro do saco.

O ônibus seguiu viagem levando o velho pescador, porém, o saco foi segurado pela janela, do lado de fora pelas ruas de Maceió até chegar na casa da mãe do morto. O pescador voltou para a praia com sua rica recompensa e matou sua fome por uma semana. Sobrou, ainda, para um litro de cachaça que o velho pescador tomou com os amigos  enquanto contava a dita estória sob a lua da Praia do Francês.

Wanderley Lucena


domingo, 10 de junho de 2012

FESTA NAS ALAGOAS

Aqui nas Alagoas as cidades se enfeitam para a Festa Junina como as demais, Brasil a fora, se enfeitam para o natal. Ao se passar por qualquer cidadezinha, por menor que seja, se vê  toda a parafernália que em nada fica atrás das luzes de natal. Balões coloridos, lanternas, fitas e bandeirolas são incontáveis. Os balões podem ser imensos ou pequeninos, porém, aos milhares. Enfeitam as rotatórias das avenidas e, mesmo nas BR's, o motorista que passa ligeiro não deixará de notar a atmosfera festiva. E, à noite, os enfeites estarão iluminados por luzes neon e toda a tecnologia moderna de iluminação. As ruas principais das pequeninas cidades ou nos grandes centros, ganham cordões de bandeirolas coloridas e o céu estará riscado pelos muito cordões de fitas multicolores a dançar ao vento.

Os funcionários do comércio são obrigados a se fantasiar de matutos. As moças pintam-se exageradamente nas maçãs dos rostos, fazem tranças nos cabelos e as amarram com as maria chiquinhas. Usam vestidos de chita e alpargatas nos pés e, por sobre a cabeça, presilhas, putinhas, atracas etc... Os rapazes colocam chapéus de palha e pintam um dente de preto para parecer banguela. É  bem verdade que muitos nem precisam de tal artifício já que, por estas bandas, falta a muitos, senão todos, ao menos um dente. E a porteira de São João se torna natural.  Para completar o visual dos rapazes, uma camisa xadrez toda remendada, uma calça marrom que leva uma corda como cinto, e sandálias alpargatas. Se fosse no centro-sul do país, se imitaria o jeito matuto e inocente de falar para completar o personagem. Aqui esse detalhe também é totalmente original.

Folguedos que podem ir desde um foguete a um tiro bem dado de espingarda podem ser ouvidos desde longe. Muitos são os que espraguejam a quem os solta depois de levar um susto de quase cair ao chão e o coração quase lhes sair pela boca.

Bandas de fama nacional e, este ano, ninguém menos que Elba Ramalho, se apresentam em praça pública depois que as muitas quadrilhas já se enfrentaram em passos de dança típica dessa época. Todos se envolvem e quem não vai dançar numa quadrilha se diverte a beber cachaça, a comer pamonha, cocadas e tantas outras guloseimas.

Marechal Deodoro é joia histórica tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e tem igrejas centenárias que lembram, em muito, as cidades históricas de Minas Gerais. Há todo o casario colonial em ruas com ladeiras ladrilhadas e de curvas sinuosas que passam rente às paredes de casinhas pintadas em cores fortes. Desde o carro é possível cumprimentar com um aperto de mão ao morador que se encontra nas janela. Aliás, aqui se você ficará um bom tempo a esperar que o motorista à sua frente coloque o papo em dia  com algum dos moradores ou enquanto compra, displicente, um refresco, uma jaca, uma melancia, um picolé, um cacho de bananas ou uma faca peixeira de algum dos muitos ambulantes que empesteiam, graciosos, as cidades.

Mas, Marechal, como aqui se chama a cidade de Marechal Deododo, está às margens da belíssima Lagoa de Manguaba. Águas calmas e mornas que são a fonte de renda dos muitos pescadores. Barquinhos se vão e que voltam carregados de cofos de peixes que serão vendidos no, recentemente, inaugurado Mercado do Peixe. Trata-se o Mercado do Peixe de bela construção colonial recuperada e preparada para receber as bancas dos feirantes. Entretanto, é por demais comum ver os pescadores a vender pelas ruas, em carrinhos de mão, toda a sua pescada fresquinha.

O Mercado Municipal, prédio também recuperado e em estilo colonial também não passará desapercebido. Não sei se por ser novinho, trata-se de ambiente limpíssimo. Ambos ficam de frente para o recém-inaugurado Calçadão da Lagoa de Manguaba. Quem não conhece não sabe o que tá perdendo. À noite é programa imperdível. 

Mas aqui o tempo passa depressa enquanto se fica nas esquinas ou nas portas a jogar conversa fora. Muitas vezes, a fofoca rola solta e todos sabem os segredos de alcova todo mundo. Muitas vezes os tais segredos não passam de maldade de quem quer destruir a reputação alheia. Aqui todo mundo se conhece e mesmo se não se conhece, sempre se cumprimenta a quem passa. E assim é o nordeste, as Alagoas e Marechal.

Wanderley Lucena


sexta-feira, 25 de maio de 2012

CHUVA NAS ALAGOAS

Choveu nas Alagoas!!! É bem verdade que já caia uma chuvinha de manhã e outra no finzinho da tarde. Mas, era só chuvinha mesmo e aqui na beira-mar. Não era aquela chuva de cavalo beber em pé. Não eram daquelas chuvas que duram o mês inteiro como é o caso de Brasília. Em dezembro chove todo santo dia e o dia inteiro, e a noite inteira na capital federal. 

Aqui nas Alagoas os animais morriam de sede e a terra esturricava ante o sol infernal. Mas, hoje acordei ouvindo a trepidação das telhas e o aguaceiro caindo pelas bicas. E o melhor: ela não passava de jeito nenhum. Choveu muito. E parece que vai chover mais. Tomara que tenha chovido na mesma quantidade lá pelo interior do estado. É lá que a coisa tá feia e as rezes estão a morrer. Os urubus fazem a festa ante tanta carniça.

O tempo tá fechado neste momento e parece que vai continuar a chover. Queira Deus minha previsão se confirme. Deixo de ir à praia fazer a minha corrida de todo dia, mas, fico com um prazer danado de está trancado, sem poder sair de casa, por causa da chuva bendita.

Ouço os ben-te-vis na matinha próxima de casa e as rolinhas a catar pedrinhas na areia me informam que a vida late por essas bandas. Mas, tá bom mesmo é para praticar a preguiça. O sol está cândido, Intimidado pelas nuvens pesadas que o impedem de botar a cara para fora. Somos nós dois que não podemos sair de casa hoje. Nem eu nem o sol. Graças a Deus!

Wanderley Lucena

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A MARIA-FARINHA


Estou quarando aqui na Praia do Francês. A rotina é correr na praia ouvindo o som das ondas e vendos as andorinhas a catarem pequenos moluscos. A areia recebe meus pés enquanto corro e parece me convidar a fincá-los nestas terra alagoanas. Entretanto fico a resistir, sorrateiro, imaginando que pode existir lugar melhor. E o som do mar, falando-me nas ondas, num chuá-chuá-chuá que no meu íntimo parece traduzir-se em su-ces-so, su-ces-so. Mas, ainda assim, fico a pensar inseguro - pode ser alguma sereia a querer encantar-me e levar-me para a profundezas do mar, intentando matar-me a seguir, enebriando-me com encantos e prazeres.

E tem também um caranguejinho branco que se chama Maria-farinha. Corre apressado e se esconde em sua toca. A Maria-farinha é branquinha e ligeira. E foi esse caranguejeirinho que inspirou Marisa Monte a compor a belíssima "Maria de Verdade":


Pousa-se toda Maria
no varal das 22 fadas, nuas, lourinhas
Fostes besouro Maria
e a aba do Pierrot descosturou na bainha

Farinhar bem, derramar a canção
Revirar trens, louco mover paixão
Nas direções, programado e emoldurado
Esperarei romântico

Sou a pessoa Maria 
Na água quente e boa gente tua, Maria
Voa quem voa, Maria
e alma sempre boa, sempre vou à Maria

Farinhar bem, derramar a canção
Revirar trens, louco mover paixão
Nas direções, programado e emoldurado
Esperarei romântico


Tou vitimado no profundo poço
na poça do mundo
do céu amor vai chover
mesmo que doa, Maria
tua pessoa, Maria

Farinhar bem, derramar a canção
Revirar trens, louco mover paixão
Nas direções, programado e emoldurado
Esperarei romântico.

E se você não ouviu a tal música não sabe o que está perdendo. Vá lá e ouça! Lembre-se mim! Mas, não chore! Apenas sorria e torça para que estejamos juntos, a correr pela praia, a ver a Maria-farinha, as andorinhas e ouvir as ondas do mar a nos sussurrar: su-ces-so! chuá-chuá-chuá!

Wanderley Lucena


sexta-feira, 27 de abril de 2012

SAMURAI, O BÍGAMO DE ITACARÉ.

Depois de passar toda a manhã na Praia de Itacarezinho, para meu deleite, quase deserta na baixa temporada, fui à orla de Itacaré, propriamente dita, atrás de um peixe fresco para me alimentar. Passava de carro, vagarosamente, quase em ritmo baiano, observando os muitos quiosques para escolher um que me apetecesse parar quando um rapaz baixinho, franzino, de chapéu de palha com abas grandes e esfarrapadas, acenava mostrando-me o cardápio. 

Parei o carro e ele me convenceu, simpático, a almoçar no seu quiosque. Sentei-me na cadeira de plástico em frente à praia da Concha. Poucos turistas e muita paz. Uma cerveja, porque ninguém é de ferro. A barraca estava vazia ante a falta de turismo da baixa temporada. Sobra tempo para que os garçons possam nos atender como se VIP's fôssemos. E o melhor... jogar conversa fora. 

- Qual o seu nome? - perguntei ao rapaz franzino que me fez entrar no quiosque.

- Jason - me respondeu.

- Deve ser algum apelido de novo - pensei logo.

Mas, o nome do rapaz era mesmo Jason e, ao contrário do personagem do filme de terror, este Jason era totalmente da paz. 

- Nunca matei ninguém - me afirmou ele - mas, acho que foi a única coisa que não fiz nesta vida - complementou abrindo o sorriso.

Disse que sua estória daria para escrever um livro. Que era baiano de Trancoso e filho de arquiteta e engenheiro, portanto, tinha berço. Mas escolhera aquela vida de desapego. Já conhecera o Brasil quase todo e que já dormira na rua. Que magreza era fruto da fome mesmo. Renegou a vida confortável com os pais para viver pelo mundo, desapegadamente. Casado, a mulher estava grávida de nove meses. 

O pedido foi feito e passou a nos atender um outro garçom, tão franzino quanto Jason.

- Qual o seu nome - perguntei a ele certo de que iria ouvir como resposta um apelido.

- Samurai. Pode me chamar de Samurai - respondeu ele com voz empostada de locutor e gesto de quem estava no palco a se apresentar para platéia exigente.

- Mas estória mesmo quem tem pra contar é ele - informou-me Jason a apontar seu amigo Samurai.

Samurai era mesmo o apelido de Klebson. Sim, o nome de Samurai era Klebson. Era ele amigo de Jason e ambos chegaram quase que ao mesmo tempo em Itacaré. Os dois eram companheiros de aventuras e desventuras. Onde um vai, o outro vai atrás. 

- Ele é casado com duas mulheres. As duas vivem sob o mesmo teto - disse-me Jason a falar de Samurai.

Minha curiosidade aguçou-se e, com receio de está incomodando ou sendo invasivo, comecei a perguntar detalhes do triângulo amoroso a que estava submetido o sortudo - ou azarado - Samurai de Itacaré.

Estava ele casado há mais de dez anos e já com três filhos quando se envolveu com a melhor amiga da esposa que estava hospedada em sua casa. A até então amante, incomodada com a traição e que rolava já a algum tempo sob o teto e bigodes da amiga, a chamou para uma conversa e contou-lhe tudo. Disse que fora traída, ela própria, por seus sentimentos. Que estava apaixonada pelo marido dela e que iria embora dali a três dias no máximo.  A esposa de Samurai ficou estupefacta com a traição. A conversa, no entanto, rolou em nível cordial.

Samurai não sabia o que fazer. Estava ele apaixonado pela amante e amava a esposa da mesma forma. Mas nada podia fazer. A amante tinha mesmo de ir-se de sua casa. Seu coração estava despedaçado ante a perda. Mas, nada comentou com a esposa e ela não lhe procurou para qualquer conversa ou cobrança ante seu comportamento reprovável em nossa cultura.

Já de malas prontas, a amante estava para ir-se quando foi procurada pela esposa de Samurai que lhe confessou está muito incomodada. Incomodada não pela traição, mas, pelo fato de está perdendo uma amiga. 

Samurai quase não acreditou quando a esposa lhe informou que a amiga não mais iria embora e que ambas haviam entrado em acordo que seria bom para todos. Ambas morariam com ele, debaixo do mesmo teto, porém, em quartos separados. Ele teria de assistir ás duas igualmente. A paz voltou a reinar do grande coração de Samurai. 

Neste momento a segunda esposa e ex-amante de Samurai está grávida. Samurai é mesmo um guerreiro oriental. Quiçá, um felizardo que dispõe, em perfeita harmonia, de duas gueixas que lhe estão sempre prontas a servir. 

- Muitas outras estórias nós poderíamos lhe contar, mas o tempo não nos permite - me informou Jason e mandou que Samurai fosse atender a mesa em lado oposto ao meu.

Eu ficaria ali a tarde toda ouvindo as muitas estórias dessas duas criaturas tão ricas e desapegadas. Mas, só pensava em vir para a pousada e escrever esta crônica. E foi o que fiz! 

Wanderley Lucena