sexta-feira, 3 de junho de 2011

LOUCOS E SANTOS





"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. 
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. 
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso. 
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. 
Para isso, só sendo louco. 
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. 
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. 
Não quero só ombro e colo, quero também sua maior alegria. 
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. 
Meus amigos são todos assim: Metade bobeira, metade seriedade. 
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. 
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. 
Não quero amigos adultos nem chatos. 
Quero-os metade infância e outra metade velhice! 
Criança, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. 
Tenho amigos para saber quem eu sou. 
Pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que 'normalidade' é uma ilusão imbecil e estéril".

Oscar Wilde

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A COSTUREIRA E O CANGACEIRO - (Eu recomendo)



A escritora Frances de Pontes Peebles, 30 anos, foi criada em Miami, uma das capitais mais urbanizadas dos EUA, e se formou na Universidade do Texas. Sua genealogia, no entanto, remete a um local a milhares de quilômetros de distância: uma pequena cidade brasileira chamada Taquaritinga do Norte, no interior de Pernambuco. Lá nasceu sua avó, de quem Frances cresceu ouvindo as incríveis histórias a respeito de uma infância em uma terra habitada por figuras impressionantes como coronéis e cangaceiros. Foram essas lembranças familiares que formaram a escritora: o Brasil dessas memórias, acrescidos de uma irrepreensível pesquisa histórica e dos dotes de uma contadora de histórias inata, deu origem a seu romance de estréia. A costureira e o cangaceiro, escrito em inglês e traduzido para o português pela Editora Nova Fronteira, conta a história de duas irmãs que, na caatinga do final da década de 1920 e começo de 30, acabam sendo carregadas por rumos contrários. Aldous Huxley escreveu que “a memória de cada homem é sua literatura privada”; em A costureira e o cangaceiro, Frances transforma a memória de sua família em literatura a ser compartilhada com leitores do mundo inteiro.


As órfãs Emília e Luzia foram criadas pela tia, a melhor costureira da cidade, e logo aprenderam brilhantemente o ofício. Porém, apesar de terem recebido a mesma educação, não poderiam ter personalidades mais distintas. A delicada Emília desde cedo se mostrou sonhadora e ambiciosa. Seu maior desejo sempre foi se casar com um rapaz de boa família, para assim conseguir escapar para a capital e viver em um mundo como o das ilustrações que a maravilhavam ao folhear a revista Fon Fon. A caçula Luzia, por outro lado, era mais conectada ao solo de Taquaritinga. E um acidente durante a infância provocou uma deformação que a deixaria ainda mais brutalizada e isolada do convívio social: com um braço permanentemente dobrado, foi apelidada de Vitrola e ficou marcada como uma mulher sem futuro.
A distância entre as duas se torna física quando um bando de cangaceiros, liderados pelo infame Falcão – assim chamado por ter, como a ave de rapina, o hábito de arrancar os olhos de suas vítimas –, de passagem pela cidade, invade a casa das costureiras em busca de roupas novas e leva Luzia consigo. Assim, enquanto Emília se casa com o filho de um médico influente e vai morar em Recife, Luzia torna-se esposa de Falcão, formando o casal mais temido de toda a caatinga. Na cidade grande, porém, Emilia se deparará com preconceitos e decepções, ao passo que sua irmã encontrará um sentido para a vida em sua rotina itinerante como cangaceira. Mas, mesmo em lados tão opostos, suas vidas permanecerão eternamente conectadas.


O ponto de partida do romance é autobiográfico: o nome da avó de Frances – que realmente se casou com um homem de família abastada do Recife – era Emília e uma de suas seis irmãs se chamava Luzia. Além disso, todas eram costureiras. Mas, segundo a autora, o restante é pura ficção. “Sempre quis saber mais sobre as mulheres que acompanhavam os cangaceiros em seus bandos, mas não consegui encontrar muita coisa a respeito”, afirma a autora. “Apenas uma mulher, Maria Bonita, foi estudada a fundo. Essa falta de informação me fez pensar em minha avó e tinhas tias-avós, que viviam na zona rural na época do cangaço e eram o tipo de meninas que poderiam ter sido sequestradas e forçadas a ingressar em algum bando. Elas conseguiram escapar desse destino, mas o que aconteceria se não tivessem conseguido? Essa pergunta foi a fonte de inspiração para o meu romance.”
Utilizando a Revolução de 1930 e a Era Vargas como pano de fundo, Frances de Pontes Peebles narra – com leveza, suspense e inteligência – um verdadeiro épico. A costureira e o cangaceiro chegou a ser comparado a E o vento levou, de Margaret Mitchell: uma saga romântica e familiar ambientada em um país em transformação.


SOBRE A AUTORA
Frances de Pontes Peebles nasceu no Recife, Pernambuco. Formou-se em Letras pela Universidade de Texas em Austin e fez o seu mestrado no Writer's Workshop na Universidade de Iowa. Atualmente mora em Chicago, Illinois.
Fonte: Approach

domingo, 29 de maio de 2011

ENTORPECIDO PELO PECADO

ENTORPECIDO PELO PECADO

Eu achei o nome do blog de um amigo bastante significativo. Chama-se: ENTORPECIDO PELO PECADO. O título é impactante. Meu amigo é pessoa maravilhosa e não está aquém, em valores, de qualquer jovem de sua época. Entretanto, fiquei a pensar naquele título e na pessoa do meu amigo. A expressão, por si só, já nos leva aos conceitos bíblicos de céu e inferno.

O conceito de inferno em si já um pecado. Tal conceito é injusto para com o ser humano e para com a humanidade como um todo. Muitas doenças psicológicas estão atribuídas à opressão de falsos conceitos que foram incutidos nos juízos dos viventes. O pecado é um deles. Indivíduos atormentados a se auto-flagelar com os chicotes da culpa e da incapacidade de agradar a deus ao se perceberem incapazes de se absterem da condição humana que lhes é inerente.

Quem acredita no pecado, acredita em Deus e em Diabo, concluo. Que o puro é branco e que o sujo é negro. Que Deus mora acima das nuvens e o o Diabo nas trevas profundas e escuras.  O pecado atormenta a mente humana desde que foi inventado.

Deus seria magnânimo e perdoaria todo e qualquer pecado. Segundo consta: de graça. Mas não é tão simples assim. Você não pode desagradar a esse deus em nada. E aqui ele vai com "d" minúsculo mesmo. Deus, assim como o pecado, estou convencido, são criação humana. E não sou eu quem diz isso. Vários já o disseram.

Ele é exigente, ciumento. Você devo segui-lo cegamente, não devendo olhar nem para a direita nem para a esquerda. Ele morre de medo de você achar um deus mais interessante. Se você pecar, o inferno lhe está reservado. O pecado, em minha concepção, é a maior invenção do homem para controlar o outro.

É lógico que existem dois lados na vida. Você deve saber que há o certo e o errado, o bom e o mal. O errado não é pecado, assim como, o mal não tem cara. O diabo vermelho e com chifres é tão criatura quanto o deus de barba e túnica brancas que paira sobre as nuvens.  Escolhas você deve tomar o tempo todo, não resta dúvidas. É certo que quanto menos você errar nessas escolhas, melhor será o seu futuro. Mas é com erros que se aprende e se amadurece. Entretanto, não só com erros se aprende. Pessoas inteligentes ouvem muito, observam demais. Só por isso, já estão na frente dos demais.

E não pense que sou ateu. Não sou. Mas não posso descrever Deus. Não o Deus que está acima de tudo. O deus da bíblia... aqui ele vai com minúscula mesmo. É que eu o acho pequeno mesmo. Ele é tão pequeno que pode ser decifrado e conceituado. Não só isso. Acho-o mesquinho, ciumento, medroso, etc.. E a sua vingança? Tão vingativo quanto o pior dos homens. Um deus que muito se assemelha a qualquer um de nós. Ele tem os mesmos sentimentos dos humanos.

E sabe? Aqui eu vou colocar o Amor com letra maiúscula também. Acho mesmo que Amor é a chave. Quer agradar a Deus? Tenha amor para tudo e todos. Se tiver amor, já vale. E Deus, em sua perfeição, não nos condenará ao fogo eterno. Ele nos dirá mansamente: vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei.

Deus e pecado são ícones usados para o controle social. Conceitos falidos e egoístas, trazem infelicidade e medo a quem deles se torna prisioneiro. Para se libertar deles, segundo Richard Dawkins, duas hipóteses: uma inteligência acima da média ou se o discurso escravizante não foi muito bem elaborado e não se lhe incutiu como deveria. Não sei em qual das duas hipóteses me encontro. Ma estou em uma delas, GRAÇAS A DEUS!

Um abraço desse amigo com quem você pode contar quase e sempre.

Lucena

quinta-feira, 26 de maio de 2011

VAMOS VOAR



Vamos voar 
Leves como bolhas de sabão
Sem asas
Num só coração
Em um dia de verão
Ou de primavera
Ou de qualquer estação
Dá-me tua mão
Confia em mim
Eu confio em ti
Abre sorriso largo
Sem culpas ou receios
Ouve minhas palavras doces, elas só te bendizem
Minh'alma canta junto com a tua
Posso ouvir-te como se tu eu fosse
Como se eu tu fosses
Não te percas com inseguranças
Apenas confia
Prende-te a mim e solta-te!
Sente a minha mão à tua
Envolve-te comigo e seremos um
Por toda estação
Por todas as estações
Vamos voar juntos.
(Wanderley Lucena)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

SAUDADE

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"Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida".
Clarice Lispector

domingo, 22 de maio de 2011

PARA ALÉM DOS CAFUNDÓS

PARA ALÉM DOS CAFUNDÓS


Ela teve de voltar ao seu torrão na companhia da mãe, do pai e do irmão mais velho. Enfim, sua família. Durante a jornada se perguntava quem eram aquelas pessoas que compunham a sua família. Se pegou perguntando a si própria, em silêncio profundo, alheia à paisagem que lhe cercava naquele momento. Não percebeu a abelha preta e fedida que se lhe enroscar no cabelo. Zangada, a abelha zumbia ao tentar matar o que lhe seria o inimigo. A abelha podia zumbir á vontade pois Perpétua estava em outra dimensão.

De onde vieram aquelas pessoas que lhe acompanhavam?  Como vieram parar naquela terra? Quem eram seus avós? Onde haviam nascido? As respostas talvez jamais as teria. Era tímida por demais para perguntar o que fosse a seus pais sobre este assunto. Seu pai, apesar de mais sensível, nem sempre estava disposto a responder. Certa feita, depois de uma pergunta qualquer, respondeu-lhe:

- Vá procurar o que fazer, menina!

Ela sentiu o sangue vibrando em sua face e fazendo-a corar de vergonha.  A mãe não a respondia por falta de paciência mesmo ou porque a odiava a ponto de quase não suportar-lhe a presença. Enquanto ela voltava-se para dentro de si mesma, também, podia perceber crescer o rancor e o ódio por tudo e por todos.

Percebeu-se ficando adulta antes da hora e agradeceu por isso. O tempo passava e lhe crescia a certeza a certeza de que sua sina seria tão seca quanto aquela terra maldita para além dos cafundós. No entanto, Perpétua jamais satisfaria a sua curiosidade. Seus pensamentos, dúvidas e angustias jamais se externavam.

A jornada de volta foi longa para si. Ela o fizera a pé por todo o tempo. A carga estava por demais pesada para o coitado do jumento que trupicava das pernas. Todos se deslocavam calados. Não havia mesmo o que ser dito. Mas tinha uma bomba quase a explodir dentro dela. Uma ansiedade do tamanho do mundo. A revolta que queria gritar à mãe e perguntar o porque de tanto desprezo para consigo. Se ela a odiava mesmo ou queria apenas se entrosar com as mulheres do Oliveira. Não tinha noção de todo o mal que lhe causara.  Perpétua sabia que aquela lembrança horrorosa jamais se apagaria e que o peso em seu coração jamais diminuiria.

 Suas vistas turvavam e sentia sensações de desmaios. Entretanto, não deu alarme algum. Permaneceu segurando-se no jacá  da  mesma forma que segurava o choro. Ela não podia parar para se recuperar. Tinha de achar forças para continuar a caminhada. Se odiaria se seu irmão que seguia logo a frente, puxando o jumento pelo cabresto, percebesse seu fungar de choro. Não queria receber qualquer afeto. Não saberia recebê-lo.  Sentiu gosto de sangue na boca e o ar lhe faltando ao pulmão. Deu-se um baita tapa no próprio rosto. Todos pensaram que ela espantava as mutucas que empestavam as canelas do jumento e o faziam surrar-se a todo o tempo com a própria calda.

As tais mutucas não respeitavam a pernas de ninguém, na verdade. Todos tinham de se proteger abanando as pernas, o tempo todo, com galhos verdes. Mesmo assim, vez em quando, sentia-se a ferroada da maldita, desesperada por sangue. Quem sofria era o coitado do jumento. Sua calda não era suficiente para espantar o enxame de mutucas e elas lhe atacavam nas pernas da frente e pelo pescoço onde o seu rabo jamais alcançaria. Mas sentiu-se grata à existência delas por lhe disfarçarem o estalo da palma da mão em seu próprio rosto.

A família levava peixe para uma semana. Levava também, farinha, azeite de coco babaçu,  abóbora, macaxeira, um cacho de banana murici, macaúba, cachos de pitomba, carambas etc..  e as trouxas de roupas lavadas, parte delas ainda úmidas.  Ela trazia sobre si uma carga bem mais pesada que a daquele coitado jumento, voltava com o peso do desprezo de todos.

Uma alma bondosa poderia dela se compadecer, alguém poderia ver-lhe o âmago sofrido e negro, a alma que chorava e coração dilacerado. Uma criatura bondosa a levaria daquele  lugar e lhe daria afeto, carinho, educação, comida e roupa decente. Perpétua sabia que esse seu desejo jamais se tornaria realidade. Ela não podia se enganar. Sonhar era ter de conviver com a frustração. Encarar a vida, nua e crua, era a sua única opção.

Chegaram em casa e a encontraram como a haviam deixado. Por ali ninguém passava mesmo. Não haviam ladrões ou malfeitores. A casa esta fora da rota de todo mundo. Os tropeiros eram os andantes mais prováveis, mesmo assim, nunca nenhum grupo por ali passou a pedir uma caneca d'água.  E mesmo que um deles por ali chegasse, ao ver a penúria daquela casa, logo seguiria caminho sem nada pedir ou levar. Nada de valor havia naquela choupana velha que mais parecia uma tapera abandonada.

O fogão de lenha foi acesso e a fumaça subiu céu acima. Já era noite e Perpétua sabia que o sono não lhe chegaria. Sua mente inquieta a impediria de dormir. Relembraria mil vezes as cenas vividas no Centro Velho.

Decidiu ir para o terreiro em frente a sua casa e observar o céu. Ante o céu estrelado permanecia a sua agonia e os seus presságios lhe atravessavam a alma como facas em fogo. Tinha medo do futuro. Sabia que as coisas piorariam para  si. Era questão de tempo. Estava condenada sem saber qual crime cometera ante os homens e qual pecado ante a Deus.  As lágrimas rolavam pesadas no rosto ainda infantil.

No, seria se não houvera sido concebida. Jamais viria à luz por vontade própria. Deus, tão misericordioso, nem precisaria se dar ao trabalho lhe tirar toda a tristeza  ou de lhe preencher todas as lacunas e, pacientemente, lhe daria resposta a todas as perguntas. Todos dormiam em suas redes quando ela voltou para a casa sentindo o mesmo peso.

Como já previra, mais uma noite sem dormir. Ouviu o galo cantar e finalmente adormeceu para acordar em seguida com o barulho do milho seco que estava sendo despejado no balde velho de alumínio. A ração dos porcos. Seu irmão obedecia a mesma rotina toda madrugada. Levantava o saco e o despejava no balde lentamente. O barulho sempre vinha logo depois do cantar do galo. Ele não tinha a menor intenção de fazer algum silencio. A intenção era mesmo infernizá-la. Fazer-lhe acordar mal humorada.

A dor no estômago a estava matando quando se dirigiu ao velho fogão feito de barro. A lenha queimava e a fumaça empretejava os caibros e as palhas que cobriam a casa. O velho bule de esmalte sobre a grelha mantinha morno o café ralo. Ela tomou dois goles que lhe desceram como pedras garganta abaixo. Nada mais para acompanhar o café da manhã a não ser a farinha de puba que ela dispensou por não estar com a minha vontade de forrar o estômago. Os olhos remelentos foram lavados com uma caneca d’água. Os dentes foram limpos com jalapa na velha escova de dentes toda esfarrapada.  A jalapa era o pó extraído da casca de uma árvore e que fazia as vezes de creme dental. A casca da árvore era triturada até virar um pó que fazia uma espuma ao ser esfregada contra os dentes e dava a sensação de alguma higiene.

Ela estava toda entrevada. Tinha dificuldade nos movimentos, pegou a coité cheia de milho seco que ela mesmo debulhara da espiga e, ainda, grãos crus de arroz. Foi para os fundos da casa, para o quintal poeirento levando a arapuca feita de galhos secos.  A armou com cuidado e voltou para casa.  Quando o sol estava no meio do céu, voltou ao local e pegou a rolinha magra que se debatia, presa na arapuca. Era só mais uma rolinha. Bem que podia ser uma pomba avuaçã, uma nambu ou uma juriti. Mas a sorte lhe trouxera para o almoço apenas aquela rolinha.

A natureza insistia em não ser-lhe pródiga. Depois de quebrar o pescoço da avezinha, depenou-a, a abriu-lhe as costas, sacando-lhe as tripas e os demais miúdos. Salgou-a e a estendeu sobre a grelha. O cheiro era bom e abriu-lhe o apetite por fim. Dividiu o pequeno passarinho com seu irmão.Comeram acompanhada com farinha de puba. Mas tarde, quando a fome apertou novamente, quebrou tucuns e os comeu com dificuldade, haja vista, a castanha ser dura por demais.

Seus pais haviam saído logo depois do café e não voltariam com o por do sol. Tinham ido para a roça. Seu irmão ficara com ela, como de costume. Nada haviam deixado para o almoço. Sabiam que os filhos seriam capazes de se virarem sozinhos. Que comeriam barro, se preciso fosse.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A ORIGEM

Ela sentia necessidade de banhar-se em água corrente e abundante. Estava farta de banhos de cuia e de lavar-se com apenas uma lata d'água. Pensava em voltar ao Flores. Desejava reencontrar a negra Maria. Talvez, ensaboar-se com seu sabonete cheiroso. Conversar com ela. Ouvir-lhe a voz a cantar alguma cantiga de roda. Sentir o abraço caloroso dos braços gordos daquela negra de coração tão bom.

Ainda era dia, quando ela, acabrunhada, com medo da reação negativa de Zé Bento, falou a ele, escolhendo as palavras, para perguntar se podia ir ao Flores. Nervosa e com as mãos geladas fez força para que a voz saísse na entonação certa.

- Amanhã vou ao Flores, lavar a roupa suja.

Surpreendeu-se ao ouvir a própria voz. Soou como um comunicado. O tom era imperativo. Imaginou que as suas sobrancelhas estivessem franzidas e que isso pioraria a sua imagem de autoritária. Torceu para que Zé Bento não lhe maltratasse com uma resposta ríspida e que não a impedisse daquele intento.

Ele comia um pedaço de cana. Cuspiu o bagaço e, sem olhar para ela, perguntou-lhe com a voz mansa e suave:

- Você tem certeza?

- Tenho sim. Não tem perigo nenhum. Sei o caminho. Vou de manhãzinha e volto no final do dia. Lavo a roupa e trago as cabaças cheias. 
 
Respondeu ela, torcendo para que ele não obstasse.

- Pois então vá. Eu tenho que trabalhar na roça. Não posso estar contigo, mas saímos juntos e lhe deixo no porto.
 
Informou-a Zé Bento, já que ia passar a semana trabalhando para os Oliveira.

Ela nunca fora de rezar, mas naquela noite ela se pegou pedindo a Deus, que a ajudasse naquela empreitada. Que Ele fizesse com que a negra também fosse lavar a roupa e que a pudesse encontrar.

Ela preparou o frito ainda naquela mesma noite. Quebrou os ovos e os fritou em azeite de coco babaçu. Misturou com a farinha de puba e botou em uma velha panela, a qual envolveu com um pano que lhe segurava a tampa e impedia que o frito derramasse. Pôs tudo nos jacás, a roupa suja, uma faca peixeira, o caniço para pescar, a cabaça d’água e tudo o mais.

O sol ainda não tinha raiado quando ela pegou a estrada, sentada na cangalha. O jumento ia rápido como se nada levasse em suas costas. Os dois jacás não levavam quase nada mesmo e Perpétua era coro e ossos. As mutucas, uma peste, às centenas, insistiam em sugar o sangue nas pernas do animal, fazendo-o surrar-se com o próprio rabo em chicotadas frenéticas.

Durante todo o trajeto ela desejou, ardentemente, por benção de Deus, ver a negra Maria. Sabia, no entanto, que a possibilidade de tal encontro era por demais remota e, se a visse, era mesmo por puro milagre.

O porto ao qual se dirigia, ainda bem, não era o das Oliveira. Não queria reencontrá-las jamais. Além disso, não era sábado aquele dia. Ao menos que ela ainda se lembrasse vagamente, aquele dia devia ser segunda-feira. Não encontraria as Oliveira. Não era o dia que elas lavavam as roupas e, mesmo que fosse, não se aproximaria do porto delas. Iria agir com a maior discrição. Bateria a roupa devagar, sem tanto barulho.

Depois de umas duas horas de caminhada, a vegetação começou a ficar mais verde e o ar foi se tornando mais úmido. Apenas mais alguns minutos e ela estaria no porto, lavando a roupa. Iria tomar um bom banho, iria tentar pegar uns piaus cabeça-gorda para almoçar e, ainda, levaria alguns para casa.

Ao descer a ladeira em direção ao porto, olhava esperançosa, intentando ver Maria, no entanto, nada viu ou ouviu, a não ser os macacos-prego nos galhos das árvores. Se Maria ali estivesse, estaria do outro lado do rio e, certamente, já teria ouvido a sua cantiga. Sua esperança se esvaía. Mas se visse Maria, pensou ela, com certeza atravessaria o Flores de um pulo só. Queria fazer muitas perguntas à negra. Tinha vontade de contar-lhe tudo. Sobre sua vida, sobre sua saga, seus segredos. A negra lhe ofereceria gentilmente o sabonete que cheirava a flores e ela tomaria um banho cheiroso.

Deus não ouvira suas preces. Zé se foi e ela ficou sozinha. O porto estava mesmo sem viv'alma. Desceu a carga do jumento e o amarrou às margens do rio. Ele logo passou a pastar depois de beber muito nas águas correntes. O capim ali era verde e era manjar para ele, com certeza. A carga já havia sido arriada. Tirou a pouca roupa e a ensaboou num tronco que usou como tábua.

Ouviu barulho de pedregulhos rolando ladeira abaixo na outra margem do rio. Ouviu passos de cavalo. Seu coração acelerou-se ao pensar que Maria estava chegando. Ela se surpreendeu, ao ver o cachorro que chegara primeiro do que aquele outro que descia a ladeira por trás dos arbustos. Ela conhecia aquele cachorro. O seu cão Fiel, que a acompanhara, saltou dentro da agua do rio e o atravessou para ir lamber o outro que acabara de chegar. O cão abanava o rabo em frenesi de alegria por ver o seu companheiro.

O coração de Perpétua, no entanto, se empretejou. Uma imensa nuvem negra se lhe abateu. Ela conhecia aquele cachorro que chegara antes que seu dono. Era o Fiel. Um vira-latas misturado com pequinês. Ela virou-se de costas para quem chegava. Não dava mais tempo de correr e esconder-se. Não tinha tempo para arrumar a carga toda e evadir-se dali.

Os cachorros pararam de se lamber e vieram-lhe ao encontro, depois atravessarem as águas rasas do Flores. O cachorro veio lamber-lhes as mãos, feliz por reconhecer-lhe. Perpétua passou-lhe a mão na cabeça, fazendo-lhe um carinho em retribuição.

De costas para a outra margem do rio, não sabia quem tinha chegado. Se sua mãe, se seu pai, ou se ambos. Ficou parada por alguns minutos, torcendo para que aquele parente se fosse para o porto das Oliveira sem sequer lhe falar uma única palavra. Ouviu, no entanto, o barulho da água sendo rasgada com força por pernas que a atravessavam. Perpétua continuou imóvel. Agora, sabia que era sua mãe que vinha em sua direção... e o sabia pelas passadas nervosas na água. Seu pai seria mais discreto, não faria aquele barulho todo só para atravessar aquele rio raso.

- Sai daqui, miséria! 
 
 Ralhou sua mãe com o cachorro.

O cachorro se afastou e se aquietou a alguns metros, a observar como se estivesse com pena dela.

- Quem diria? Aqui estamos. Muito que bem! Sua infeliz! Eu pensei que nunca mais ia te ver nessa vida, mas tu tá aqui... e viva, né mesmo? 
 
Espraguejou, irritada, sua mãe.

Perpétua continuava cabisbaixa, vendo-a apenas da cintura para baixo. Queria morrer naquele momento. Era uma sensação mil vezes pior do que o dia em aquela mulher a humilhara ante as Oliveira. Não achava forças nem coragem para levantar a cabeça e olhar sua mãe nas fuças.

Continuou imóvel, sentada no tronco do qual fizera tábua de lavar roupa. A garganta secara e parecia que havia engolido um punhado de terra seca ou uma mão cheia de farinha-de-puba, sem antes umidecê-la com a saliva. A respiração não lhe obedecia e o coração batia descompassado.

- Tu fugiu com aquele assassino, não foi? Sua desavergonhada! Pensa que eu achei ruim? Achei foi bom!
 
 Disse sua mãe, demonstrando júbilo e alívio, enquanto batia forte no peito.

- Só não pensei que tu tivesse tanta coragem. Sempre te achei uma pomba morta, uma lerda, uma lesada.
 
Continuou sua mãe.

Ela continuava paralisada, sem nada dizer. Seu juízo agora lhe trazia a sensação de desmaio. Sua cabeça parecia rodar.

Perpétua resignou-se e se empertigou. Respirou fundo e buscou forças onde não tinha. Levantou a cabeça com dificuldade. Viu ódio e satisfação na cara de sua mãe.

Tentou a todo custo não demonstrar o seu pavor e nervosismo.

- Continue. Fale tudo o que tem a dizer!
 
Conseguiu falar a trêmula Perpétua.

- Você sempre me foi um fardo, sua lazarenta! Eu nunca te quis. Sempre te reneguei desde o momento em percebi que tava buchuda de ti. Tomei todo tipo de beberagem venenosa para te expulsar de minha barriga. Queria, com todas as minhas forças, que tu tivesse nascido morta. Quando tu nasceu, nem parteira eu procurei. Eu mesma quebrei o cordão com as mãos. Nunca te amamentei. Tua papa era de água com pó de banana seca com água e açúcar. Nem araruta eu quis te dar. Era muito trabalho ter de plantar para te fazer um gomoso diferente. Eu te tive de pé, se quer saber. Nem me deitar me deitei pra te ter. Tua cabeça bateu no chão quando te expeli. Desejei que tu morresse. Mesmo assim tu não morreu.
 
Bradava-lhe sua mãe, aos berros e com os punhos fechados.

- E por que mesmo, Dona Nilde? 
 
Perguntou Perpétua, estarrecida com o que ouvia.

- Pensa que é filha de teu pai? Não é não! O Nonato é que era teu pai - continuou sua mãe.

- Nonato? 
 
Perguntou-se Perpétua, intimamente. 
 
- Nonato? Será? 
 
A única pessoa que sabia chamar-se Nonato era o finado marido da viúva Carosina. Perguntou-se ela, sem deixar que sua mãe percebesse as perguntas que se fazia.

- Isso mesmo! Aquele cão sarnento do finado marido da Carosina me enganou. Me ludibriou, me iludiu e me desvirginou, dizendo que me daria mundos e fundos, mas quando ficou sabendo que eu tava buchuda de ti, me procurou e me disse que ia me matar se tu nascesse. Bem que eu tentei, mas tu insistia em crescer na minha barriga.
 
Gritava sua mãe, agora curvada e a dois palmos do seu ouvido.

Perpétua desejou ter forças e coragem para partir para cima de sua mãe e matá-la, ali mesmo. Foi contida, porém, por um lampejo de razão. Se assim procedesse, jamais saberia o resto da sua história. Ademais, não mataria mesmo, por mais que a estivesse odiando, naquele momento infeliz.

- Quem matou o Nonato foi teu pai. Quer dizer, aquele que tu pensava que era teu pai. O Nonato se aproveitou que estávamos trabalhando na roça dele e quis me matar. Foi quando fui salva pelo teu pai, que matou o miserável a facãozadas. Fugi com teu pai no mesmo instante e fomos parar naquele torrão de terra seco dos infernos. Nunca mais passei nem perto da fazendo da viúva.
 
Esclareceu sua mãe.

A cabeça de Perpétua estava com um torvelinho. Agora, porém, tudo lhe fazia sentido. O desprezo da sua sua mãe por toda a sua vida. Morarem naquele lugar seco e longe de tudo. Tudo parecia fazer sentido.

- Você é a culpada de tudo, sua infeliz! 
 
Decretou sua mãe, agarrando-a pelo cabelo e levantando a sua cabeça.

Os braços de Perpétua continuavam imóveis. Ela se mantinha passiva. Agora, não tinha a menor vontade de defender-se.

- Tomara que você morra de vez!
 
Gritou sua mãe por entre os dentes cerrados e soltando-a com desprezo.

Nada mais foi dito. Ela permaneceu sentada sobre o tronco, enquanto Enilde atravessou o rio para a outra margem. Um imenso grito se acumulava em seu peito. Uma quantidade tão grande de revolta que parecia que ela iria explodir. Ela fez um esforço descomunal para se conter. Não queria que sua mãe lhe ouvisse em prantos. A cabeça se curvou e o queixo chegou a tocar-lhe o colo. Lágrimas jorravam de seus olhos e o peito resfolegava. Fez concha com as mãos, colheu as águas do Flores e as levou ao rosto para lavar as lágrimas que lhe corriam.

Ela não conseguia mais bater a roupa. Apenas as enxaguou rapidamente e foi botar a cangalha no jumento. Nunca teve tanta dificuldade de colocá-la nas costas do jumento. Olhou, então, para o outro lado do Flores e percebeu que sua mãe não se encontrava mais ali. Sentiu-se aliviada. O segundo cachorro, Fiel, ali permaneceu abanando o rabo. Ela passou a mão na cabeça do cão e ele se deitou de barriga para cima, mexendo as patas no ar, alheio ao que ali se passara.

O sol já ia alto quando ela subiu a ladeira e deixou o Flores para trás. Nada pescou, sequer pôs algum mingongo como isca no anzol do caniço. Queria ir embora dali. Apenas isso. O coração estava pesado e lhe enchia o peito num incômodo descomunal. Já não mais chorava. Os cachorros a seguiam, latindo de vez em quando.

Ela já se encontrava próxima da sua casa, passando ao lado das terras da viúva Carosina. Podia sentir uma energia ruim. Um bafo de receios e pressentimentos. Estava próxima demais da viúva afamada pela maldade e pela mesquinharia. Jamais a vira. Talvez jamais a veria. Poucos tiveram tal desventura.

domingo, 24 de abril de 2011

EQUILÍBRIO

EQUILÍBRIO


A bondade consta de não desejar o mal a ninguém. Significa que você deve desejar que seu inimigo ganhe na mega-sena e sozinho. Que ele viva tantos dias quanto os de Matusalém. Que ele seja sempre bem sucedido, mesmo, que às custas da desonestidade. Deve recebê-lo de bom grado dentro de sua casa e fazer-lhe sala. Deve ficar orgulhoso dele participar dos mesmo eventos sociais e, se sua filha se interessar pelo malandro do filho dele, você deve aceitar e, inclusive, dar-lhe a maior força.

É claro que você não concorda com isso, muito menos eu. Mas muita gente pensa exatamente assim. Ouvi demais, quando participei de uma comunidade evangélica na qual descobri ser o pastor um pedófilo, ladrão, dissimulado que, sequer, tinha segundo grau, quanto mais o curso de teologia. Ao desmascará-lo, os irmãos diziam, com benevolência, estarem orando e Deus tomaria de conta dele. Ora, pois entendo eu, sermos nós, muitas vezes, os instrumentos da vontade divina. Que negar-se a ver a tirania explícita e imposta ao mais fraco, tal negação deveria ser pecado mortal. No entanto, temos por ai uma legião deles a explorar o bolso de quem não tem capacidade de fazer qualquer crítica. E ninguém faz nada. é terreno por demais delicado, minado. É religião e não se deve intrometer. Francamente! Sei que muitos nada fazem por pura covardia ou mesmo pelo conforto de não envolver-se. Ou seja, o próximo que se f...!

Tempos atrás prendi o neto que surrupiava a própria avó. Ela recebia uma baita aposentadoria mas estava esclerosada. O bandido deu, de uma tacada só, 16 mil Reais a Igreja. Sim, aquela mesma. Aquela da corrente da rosa amarela, do sal, dos empresários, etc... Nenhum escrúpulo em arrancar o dinheiro daquela velhinha esclerozada. Tanto da parte do neto quanto dos falsos pastores.

Na Índia tem os Janistas. Os adeptos de tal religião andam em cadeiras de rodas, empurrados por gente de casta mais abaixo. Sabe porque? Ele não querem ser responsáveis por matar uma barata, uma formiga ou mesmo, a grama. Os mesmo ainda usam uma mascara cirúrgica no rosto. Assim eles evitam que moscas e mosquitos sejam engolidos por eles num momento de descuido. Justifica-se o receio ante a quantidade de moscas e mosquitos no fétido país. Mas fico pensando que em nosso corpo existem milhões de bactérias, vírus e outros. Toda vez que tomo banho imagino que se vão pelo ralo uma quantidade enorme deles, bem como, quando escovo os dentes, lavo as mãos, etc... A ciência já provou que tais seres são vivos. Portanto... também estão sendo mortos. Excesso de bondade neste caso.

Fico pensando no planeta terra e que somos virus nele. Logo o mataremos, podes crer!

Há o princípio budista que diz que o equilíbrio está no meio. Sim senhor! Todos devemos assumir que, na nossa essência está a bondade e a maldade. Não estaria certo desenvolver uma delas apenas. Nem mal demais, nem bom demais. Entendeu? Ser mal na medida certa. Ser bom na medida certa. Fazer o bem olhando a quem. Sacou? Equilíbrio demais pode ser desequilíbrio.

Aliás, acho linda uma lenda de Buda que conta que ele passou não sei quantos anos debaixo de uma árvore. Naquela posição de todo Buda, posição de yoga. Dizem que ali debaixo daquela árvore ele repetia os mantras, fazia jejum e se concentrava na tentativa de atingir o nirvana. O nirvana, pra quem não sabe, é aquele estado de total equilíbrio, ou seja, um estado paradisíaco em vida. Ele insistia em seu objetivo com muita disciplina e o seu jejum chegou a constar de um único caroço de arroz por dia. Ele ficou tão magro que podia tocar sua coluna com a ponta do dedo ao apertar a própria barriga. Depois de anos e anos insistindo, desistiu sem atingir o seu objetivo, ou seja, o nirvana.

Voltava para casa triste, descrente e decepcionado. Entretanto, quando atravessava uma pequena pinguela no seu caminho de retorno, deparou-se com uma cena que lhe chamou a atenção. Às margens do caudaloso riacho abaixo da pinguela, um mestre ensinava um discípulo a tocar um instrumento de cordas. Quiçá uma cítara, haja vista, naquele tempo ainda não terem inventado o violão. O mestre dizia ao seu discípulo:

- Vamos afinar o instrumento. Não aperte demais a corda, pois ela poderá se romper. Mas não deixe a corda frouxa demais, pois, dessa forma ela não dará som algum.

Ao ouvir tal ensinamento, Buda que ainda não era Buda, mas um reles mortal, se iluminou. Ele entendeu que o equilíbrio que buscara anos a fio em seu sacrifício de jejum e orações, constava tão somente de encontrar o meio. Isso mesmo, o equilíbrio está no meio. Nem tanto aos céus, nem tanto à terra. Bondade demais é desequilíbrio. Assim como maldade demais, da mesma forma. Seca demais o é, chuva demais também. E assim em todos os antagonismos. Foi ali naquela pinguela, ao observar aquela cena, que ele se tornou Buda, o Iluminado.

Apareceu aqui na porta da minha casa, dias atrás, uma senhora enorme e forte, aparentando muito boa saúde. Tinha no máximo uns trinta anos. Se fazia acompanhar de três meninos que deveriam estar no colégio. Ela estava com um saco enorme de mantimentos e interfonava a todos os apartamentos pedindo um quilo de qualquer coisa para alimentar os seus filhos. Quando passava por ela ela me estendeu a mão e fez cara de fome. Me pedia um quilo de arroz ou uns trocados. Eu respondi que nada tinha naquele momento a não ser uma boa trouxa de roupa que, se ela quisesse lavar, eu a recompensaria monetariamente. Ela me olhou de cima a baixo, puta da vida, com as mãos nas cadeiras e batendo um dos pés freneticamente, e me perguntou se teria ela cara de lavadeira. Ficou ofendidíssima, acredita? Claro que eu quis mesmo provocá-la apenas. Mas fiquei ainda mais indignado ao olhar nos prédios da vizinhança e ver outras senhoras de mesma aparência. Enormes sacos de mantimentos já haviam arrecadado. Cada uma se fazia acompanhar de duas ou três crianças remelentas. Em um estacionamento próximo, às escondidas, estava estacionado um veiculo do tipo perua, quase arrastando no chão com tanto peso do que elas arrecadavam.

Nada pode ser feito contra tais criaturas. Seria maldade, entende? Entendo ser maldade não ver as crianças exploradas e, ainda, alimentar esse tipo de máfia. A ingenuidade cega da bondade é que alimenta tal acinte. É a mesma que nos faz dar um trocado ao craqueiro que diz ter guardado o nosso carro. Em seguida ele se dirige ao submundo para comprar a pedra e fumá-la. Detalhe: depois de viciado ele vai arrombar o seu carro, a sua casa, no desespero para satisfazer o seu vício.

São melhores os que sentem a dor da morte ao esmagar uma formiga ou que se levantam contra a injustiça e botam na cadeia os malfeitores de todos os tipos?

Equilibrado é quem sai de "fininho", sem barraco, sem dar escândalo. Ou será que trata-se tal indivíduo de um covarde, um egoísta que não liga se o seu próximo precisava da sua defesa veemente? Agradeço a todos os que se posicionaram ao meu lado quando, em algum momento, sofri alguma injustiça. A inércia ante a injustiça, sua ou do próximo, é algo que me ferve, me causa náuseas.

É verdade que só ladrão de galinhas é que vai pra cadeia. Confesso que já sonhei com a utopia de um grupo de extermínio que, justiceiramente, mataria sem dó muitos corruptos, ladrões do erário público, entre outros tantos.

Confesso: queria mesmo era jogar uma pá de cal na cara de alguns indivíduos quando do seu enterro. Sim, eu sei que posso bater as botas antes deles. Mas isso não muda o fato de que sou capaz das maiores bondades e das piores maldades. E sabe... Sinto-me humano. Humano e apenas isso. Não tenho nenhuma pretensão de ser beatificado mesmo. ão serei um Buda tupiniquim. Não tenho tanta pretensão assim.

CALMA! Falo utopicamente. O justiceiro logo estaria corrompido. Estamos fadados a uma eternidade de mesmice injusta. Creia-me!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O CENTRO VELHO DOS OLIVEIRA

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No Centro Velho era todo mundo protestante. Gente branca como ela, porém tinham uma beleza que lhes era própria. A gente de lá era diferente, tinha posses e falava de forma bem pronunciada e usava palavras que jamais ouvira. A pele deles era macia e os olhos eram brilhantes e vívidos. Os cabelos eram bem alinhados pareciam reluzir ao sol. As unhas limpas e aparadas, em pés que não eram rachados e caroçudos como os seus. Os rostos rechonchudos e sem manchas, dos meninos da sua idade, demonstravam que comiam bem.

O rio estava há poucas léguas do lugarejo e, caso a lagoa deles secasse, poderiam saciar a sede, inclusive a dos animais, com facilidade, bastando para isso que se deslocassem até o caudaloso Flores. É verdade que o dito rio não era dos mais abundantes, aliás, secou determinada feita, mas era de boa pescaria e o piau que lá se pescava, assado em folha de bananeira, tinha sabor inigualável. A água era transparente, limpa e muito boa para se beber.
 
Quando sua família ia ao Rio Flores, era obrigada a passar, obrigatoriamente, pelas terras dos Oliveira e, implicitamente, a mendigar o favor de lavar as roupas e pegar a água que lhes faltava, quando o verão secava suas cacimbas.

Bem pertinho da vila que compunha o Centro dos Oliveira, uma Lagoa fornecia água potável ao lugarejo e, no final do dia, os homens para ela se dirigiam. Eles enchiam as latas d’água e iam tomar banho para tirar o suor do dia de labuta. Ninguém entrava na Lagoa, afinal era de lá que tiravam a água para beber. Toda a Lagoa estava cercada devidamente e era assim que se evitava que animais urinassem ou deixassem nela o seu estrume. Por todo o espelho da d’água um imenso manto de mururus a protegia do sol e evitava que evaporasse. A água era fria e escura.

Quando os Oliveira iam botar o tingui nas águas do Flores era uma festa. O tingui é planta venenosa que batida e esmagada era jogada no leito do rio e deixava os peixes embriagados. O povo ficava abaixo e, com cofos, jacás e redes recolhiam o cardume. Naquela época não se falava em crime ambiental.

Foi um dos filhos do Oliveira, o Zaqueu, que chamou o pai de Perpétua para participar do tingui.
Ela jamais saíra do do torrão onde nascera. Os preparativos para a viagem rumo ao Flores começaram no dia anterior e Perpétua, ansiosíssima, passou a imaginar a água do rio que até então não conhecia. Imaginou a nova paisagem que veria ao longo de toda a viagem e as descobertas que faria. Era tão menina que não sabia direito do que se tratava. Não entendia e não lhe fora informado o motivo daquela viagem, mas ouvira os adultos, pai e mãe, enquanto arrumavam o frito, falando do tingui que os Oliveira iriam botar no Flores. Certo é que cada minuto parecia infinito. O dia não acabava. A noite inteira pela frente. Era muito tempo para a ansiosa Perpétua.

A noite de véspera foi longa para ela. A ansiedade não a deixava dormir. O dia não amanhecia. Levantou-se diversas vezes e, na ponta dos pés, foi até a porta do quarto dos pais para ver se já se levantavam. Tentou dormir insistentemente, porém não parava de pensar que dali a pouco estaria vendo os Oliveira, o Rio Flores, a vegetação verde e que brincaria feliz e faceira com os meninos da sua idade. Brincaria de roda e aprenderia cantigas lindas. Iria ser aceita sem distinção e faria uma amiga, uma confidente à qual contaria segredos.


O galo cantou finalmente. Ela pulou da rede e esperou que sua mãe viesse acender o fogão de lenha e preparar o quebra-jejum. Cada minuto parecia-lhe uma eternidade. Se fosse por ela, dispensava o café da manhã e já ia estrada afora. O pai, no entanto, ainda foi arrear o jumento e o irmão foi alimentar os animais no chiqueiro e no galinheiro. Ela ficou abanando freneticamente o fogo que sua mãe acendera. A fumaça subiu e uma labareda apareceu entre a lenha. Pronto! Agora era pôr a panela com a água e quando fervesse, duas colheres de café seriam jogadas. Depois, três colheres de açúcar ou, se este faltasse, umas cinco de rapadura raspada. Depois passar no velho pano de coar. A farinha de puba seria o pão que ela jamais comera, sequer vira.

Saíram todos ainda na madrugada. O sol estava alto quando chegaram às margens do Flores. As famílias dos Oliveira foram chegando. As mulheres desciam suas cargas dos cavalos de ancas gordas e de pelos macios e brilhosos. A roupa suja era tirada dos jacás e cada uma se sentava numa das tábuas já instaladas na beira do rio. A roupa era ensaboada com sabão que elas próprias faziam. Era feito da mesma forma que o de sua mãe, ou seja, com tripas de porco que iam ao fogo e viravam sabão, depois que a soda cáustica era misturada na panela. O sabão daquelas mulheres, entretanto, era cheiroso, branquinho e as barras eram cortadas de forma uniforme. O sabão que sua mãe fazia era cinza, indo para o preto. Os pedaços grandes, tinham tamanhos diferentes e era difícil de segurar para esfregar nas roupas. Além do mais, sentia-se o cheiro claro do fato do porco e da soda cáustica.

Ela achava que tinha chegado no paraíso. Era a primeira vez que entrava em água corrente de rio. O banho em sua casa era de caneca, por trás das bananeiras do quintal. Sentou-se numa tábua de lavar roupas que não estava sendo usada por nenhuma das mulheres e meteu as pernas n’água. A água veio aos poucos por sobre a tábua e lhe molhou as nádegas. A sensação era de carícia. Fechou os olhos e sentiu o cheiro da vegetação, das flores silvestres e do sabão perfumado das mulheres dos Oliveira. Viu abelhas amareladas que colhiam o pólen das flores. Outras, negras e sem ferrão, sobrevoavam os montes de roupas ensaboadas. Com as pernas branquelas a balançar dentro d’água, ficou com o olhar perdido a visualizar a cena.

As mulheres batiam roupa e tagarelavam. Os meninos, de bodoques e baladeiras em punho, se punham a caçar rolinhas, juritis e nambus. Os maiores empunhavam espingardas “por fora” e, de vez em quando, se ouvia o estampido de uma delas a matar uma caça qualquer. As meninas auxiliavam as mães com trouxas de roupa ou cuidavam dos burros, jumentos e cavalos usados na viagem.

Para cima do rio, se ouvia a algazarra do homens a preparar o tingui a ser despejado no rio. As mulheres se apressavam a lavar a roupa para que pudessem ajudar na pescaria que começaria logo.

Perpétua percebeu que a olhavam com curiosidade desmedida e com desprezo. Era menina mirrada e todos a achavam tísica e doente. Pareceu-lhe que tinham receio de que ela lhes transmitisse alguma doença contagiosa. Nenhum dos meninos a chamou para brincar ou para uma conversa curiosa. Nenhuma menina se interessou em cumprimentá-la. Ela, por sua vez, não ousava incomodar ninguém. Seu olhar era fundo e sem brilho. Não era de esboçar emoções e era de pouco sorriso. Falava pouco e não quis explorar nada. Não faria amigos ali, mas ao ver as brincadeiras dos meninos nas margens dos Flores, sentiu inveja deles e, no seu íntimo quis com eles brincar. Não se esquecia dos olhares para si. O olhar era discriminatório ou o de quem olhava para um leproso. Ela se sentia nua ante todos. Queria voltar para casa. Nada mais lhe interessava.

Chegaram a perguntar se era ela tísica ou tuberculosa. Sua mãe respondeu apenas que seu mal era ruindade mesmo. Que era uma “sem futuro“. Que tinha fastio e nada queria comer. Que era assim desde nascença. Desejou, então, que o chão se abrisse e ela sumisse dentro do abismo. Desejou ter ficado em casa.

As mulheres dos Oliveira, coradas e robustas, logo deram o diagnóstico de Perpétua. Era verme, lombriga. Só podia ser. Se nunca tivera impaludismo, se não era dada a comer barro, então eram as lombrigas que estavam a lhe sugar o sangue e a fazer a sua barriga crescer. A barriga de Perpétua estaria cheia de vermes que lhe roubavam as forças e vontades. A seguir, ensinaram beberagens e lavagens às quais sua mãe podia lançar mão e curá-la.

A coitada ficou apavorada ao ouvir sobre uma lavagem intestinal. Por seu ânus seria introduzido o bico de uma bomba plástica cheia de líquido quente. O líquido era para lavar as suas vísceras. Perpétua se imaginou completamente imobilizada por quatro mulheres, cada uma a lhe segurar pernas e braços e, uma quinta, a introduzir-lhe o bico da bomba no ânus, e o líquido sendo injetado.

Sua boca seria tapada para abafar-lhe os gritos. De olhos arregalados e com a vergonha de quem foi pego cometendo o pior dos pecados, Perpétua seria lavada por dentro. Seus excrementos seriam expelidos e as mulheres virariam a cara. Imaginou as caretas de nojo e as mãos sendo levadas ao nariz. Imaginou lombrigas enormes a rastejarem dentro de uma bacia de alumínio que serviria de penico.

Enquanto pensava na cena Perpétua teve vertigens e entrou na água do rio com cuidado, segurando firme na tábua, pois não sabia nadar. Mergulhou e sentiu a água fria a encobrir-lhe a cabeça. Ela ficou ali imersa com respiração presa por alguns segundos e desejou ficar assim até que aquela conversa tivesse acabado. Não queria botar a cabeça fora d’água, nunca mais. Não queria ver ninguém. Não queria ouvir nada.

Ao voltar à tona, ouviu gargalhadas e frases sem nexo. Pensou que riam dela e novamente submergiu. Queria morrer. Queria que a mãe morresse. Arrependeu-se amargamente de ter passado a noite sem dormir, ansiosa por estar ali. Não entendia o desprezo que sua mãe demonstrava. O que a levava a agir daquela forma contra si. Odiou-a com toda a intensidade de sua alma infantil e torceu para que a mãe estivesse apenas querendo a aceitação das Oliveira. Que nunca a obrigasse a tal lavagem. Ficou emergindo e submergindo assim, até que percebeu que todos se arregimentavam para entrar no rio. Começava o tingui.

Todos de cofos nas mãos. As redes de pesca estavam armadas. Os meninos que brincavam nos arredores correram para dentro do rio e, juntamente com os adultos, fizeram uma fileira de uma margem à outra do Flores. O rio não era tão profundo e os homens formados ficaram mais para o meio. As mulheres ficaram do lado de fora a esperar os cofos cheios de peixe. Cardumes inteiros começaram a debater-se ante a barreira de gente. Os cofos já cheios de peixe começaram a ser recebidos pelas mulheres que os despejavam em jacás e já os devolviam. Depois, as redes que se encontravam pouco abaixo foram retiradas, também cheias de peixes bêbados do tingui.

Pouco tempo depois todos estavam a tratar e a salgar os peixes. Tinha pacu, piau cabeça-de-cachorro, piau cabeça-gorda, piabas, traíras, surubins, mandis, carás e cascudos. Estes últimos eram descartados. Ante à tanta fartura, eles não se faziam necessários.

Felizes eram os Oliveira. Tinham o Flores, as roças fartas, cavalos gordos, rebanhos de vacas e pomár de frutas que davam mangas, atas, carambolas, carnaúbas, laranjas, tangerinas tamarindos e muito mais. Tinham casa de farinha e mandioca que chegava a se perder na roça, por não haver necessidade de colhê-la. Perpétua não entendia porque aquela gente dos Oliveira tinha tanto tão fácil, enquanto a sua gente padecia na pobreza total.

Chegou a fantasiar que, quando moça, um dos Oliveira se interessaria por ela e iriam morar às margens do Flores. Seria amada e danaria a falar o que todos queriam ouvir. Nunca seria rejeitada e sua pele adquiriria a maciez das mulheres daquela família. Falaria o que quisesse sem medo. Seria uma Oliveira.

Naquele momento, todavia, só queria ser criança igual a todos os que lá vira, e vira que brincavam de roda e cantavam músicas de melodia agradável. Muitas das quais aprendeu sem que as tivesse cantado, pois na ciranda não brincou com os demais. Viu que os meninos usavam bodoques e estilingues. Alguns poucos, os maiores, usavam espingardas de espoleta e caçavam todo tipo de pássaros e caças.

Tudo nos Oliveira era mais intenso. Até os animais domésticos tinham aspecto melhor. Os cavalos, jumentos e mulas tinham costas largas e boas para se sentar e cavalgar. O pelo dos animais pareciam penteados e brilhavam como se lhes tivessem aplicado gordura de porco. O olhos vivos, arregalados, brilhantes mostravam quão bem alimentados estavam.

Os poucos animais que pertenciam a seus pais eram magros, e nas costas do jumento aparecia o espinhaço, nas laterais, as costelas debaixo da pele sem carne. Era desconfortável sentar naquele espinhaço seco e, o pior, sentia bastante dó do bichinho fraco a carregar mais o seu peso. Ainda tinha as mutucas que insistiam em sugar o sangue do coitado, enquanto ele abanava o rabo desesperado com as ferroadas. Mesmo assim, o danado aproveitava para mastigar sem parar o capim da beira da estrada. Deveria saber o jumento, por instinto, que para onde voltava, uma vez por dia, teria de encarar a bacia de palmas e mascá-las sem vontade.

Ao votarem do Flores e já na casa dos Oliveira, ouviu, encantada, o som mecânico de um rádio jabuti caramelo, postado por sobre um armário petisqueiro, lotado de louças, as quais ficou imaginando para que serviam. Na frente do rádio, várias réguas sobrepostas. Nelas, vários números e pontinhos coloridos. Dois botões amarelos, um de cada lado do rádio, podiam ser girados. Com um se localizava a rádio a ser ouvida, com o outro se aumentava e diminuía o volume.

  À frente da imensa casa do Sr. Oliveira, um imenso pé de pitomba fazia sombra. A pitombeira estava cheia de cachos e um quibano foi enchido de cachos da frutinha travosa. De pouca carne, mas deliciosa ao paladar. O caroço era sempre gêmeo de outro. A casca era facilmente quebrada com os dedos e, na boca, o gosto era meio azedo, meio travoso - uma delícia nas papilas da pobre Perpétua. A pitomba, porém, não era fruta que matasse a fome. Talvez a enganasse. Funcionava melhor para uma merenda ou para comer sem nenhuma pretensão.

Ninguém fumava, como na sua casa, o velho cigarro de palha ou os cachimbos fedidos. Invejava os meninos saudáveis a brincar de roda e a cantar músicas de ciranda, tão agradáveis aos seus ouvidos quanto o cantar do sabiá, que ouvia nas madrugadas, da sua casa.

Jantou sentada no chão, sobre uma esteira de palha de coco babaçu. Comeu peixe assado, arroz com farinha de puba e fava temperada com cheiro-verde. O sabor era diferente e lhe parecia um manjar. Pensou nos vermes e lombrigas de que as mulheres afirmavam sua barriga estava cheia. Um banquete para eles também. Viu os meninos todos, dos Oliveira, a se alimentarem a certa distância com garfos e facas em mãos habilidosas que não lhes deixavam enfiar as pontas do talher nas bochechas. Quis estar entre eles, porém sua timidez e inferioridade a empurraram em direção ao prato de alumínio, entre suas pernas ao chão, e a impediam de levantar os olhos para ver exatamente todo o desprezo que imaginava que demonstravam por si.

Odiou a estada com aquela gente e se arrependeu amargamente da noite que passara sem dormir, ansiosa pra que o dia amanhecesse e pudesse estar na companhia de gente que não fosse sua família. Sentia-se inferiorizada e ridicularizada. Era um trapo imundo e indigno de merecer atenção por parte de quem quer que fosse daquele lugar. Era como portasse uma doença contagiosa e não pudesse se aproximar deles nem brincar com as outras crianças.