segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A ESTÓRIA DE UM MILAGRE


A estória que passo a contar-vos aconteceu comigo mesmo, há muitos anos, quando eu tinha apenas 19 anos. Alguns não acreditarão  que ela foi verídica e outros podem dizer que trata-se de mero acaso. Só contarei os fatos que me aconteceram e nada além disso. 

Eu estava morando no quartel, de "laranjeira". O termo era usado ao recruta que precisava de alojamento. Alguns por não terem família na cidade, outros por não terem condições de locomoção até seu lar. No meu caso era uma mistura das duas coisas. Eu tinha parentes que me deram hospedagem quando cheguei do nordeste "com uma mão na frente e outra atrás". Mas, tão logo passei no concurso da Polícia Militar do DF e me apresentei no quartel para o recrutamento, me inscrevi para ser um  ""laranjeira".

A vida era muito difícil. Os tempos eram outros. O recruta ganhava uma "merreca", metade de um salário mínimo à época. Eu ganhava a tal "merreca" e tirava a metade dela para mandar para meus familiares que passavam "maus pedaços" no Maranhão". A pequena quantia que me sobrava eu comprava de gêneros de primeiríssima necessidade: creme dental, sabonete, papel higiênico, biscoitos de água e sal, suco granulado, etc... 

Num determinado mês não pude comprar os tais gêneros. É que eu tive de pagar uma dívida e mandei o resto para os meus familiares. Estava consciente que deveria economizar ao máximo o que me restava dos gêneros. Mas, mesmo com toda a economia, na metade do mês, acabou-se o estoque. Nada me restava. Fiquei na penúria total. 

Olhei para o interior do pequeno armário de campana e percebi que me faltava o sabonete, o papel higiênico, tudo enfim... Fechei os olhos e passei, em silêncio, a fazer uma oração. Eu era rapaz novo, quase impúbere, mas muito dedicado á leitura das escrituras ditas sagradas. Crente de igreja evangélica, diga-se, tradicional. Acreditava em tudo o que me foi ensinado e nunca duvidei poder do Todo Poderoso, embora, até aquele momento, jamais tivesse percebido qualquer milagre em minha vida.

Orei e pedi a Deus que operasse um milagre. Declarei em meu coração que, se ocorresse o milagre, jamais duvidaria da existência D'ele e que tal milagre me seria sinal de vitória ante as adversidades que me  viriam até que trouxesse toda a minha família para Brasília. Embora não estivessem a passar fome, meus familiares vivam verdadeira penúria. A casa era humilde e, sequer, tinha vaso sanitário e minha mãe comprava "fiado", o pacote de café, do mais barato, na vendinha da rua.

Mas, enquanto fazia a minha oração silenciosa, percebi uma atmosfera vibrante que me envolvia e fez tremer. Ouvi voz intuitiva dentro da minha cabeça e que me dizia: "Eu vou realizar um milagre". Não titubeei e, mentalmente, declarei que faria tudo o que Ele me mandasse. Ouvi as instruções que me recomendavam: "Não duvide em momento algum", "vá ao mercado e leve papel e caneta".

Foi o que fiz em seguida. Sai do quartel debaixo do sol de agosto quando, na capital federal, vivemos o ápice da seca. Eu suava, embora, sentisse sensação inversa. Era um frio que me fazia tremer. Nada falei a ninguém, em momento algum. Foi assim, "possuído", que entrei no mercado. Ouvi a "voz" que me recomendava anotar os preços de tudo o que eu necessitava. Anotei tudo e somei. Cinquenta cruzeiros. A quantia da soma era exata assim mesmo. Cinquenta cruzeiros: a moeda à época.

- E agora? Que faço? Ponho tudo no carrinho do mercado e me dirijo ao caixa? - Perguntei eu no meu íntimo e esperando que a resposta fosse positiva.

- Você foi sorteado numa promoção "X" - Imaginei que seria o que gerente iria dizer no exato momento do pagamento.

- Coitado! Deixe que eu pago - Talvez seria o que diria algum estranho, logo atrás de mim, na fila, esperando sua vez de ser atendido no caixa e ao perceber que eu estava sem dinheiro.

- Nada disso! Não coloque nada no carrinho! Volte para o quartel! - Em tom imperativo foram as ordens que recebi no meu íntimo. Surpreso, me lembrei: "Não duvide!" foi a instrução recebida ainda no quartel. E foi o que fiz: rumei para o quartel sentido a mesma sensação de frio debaixo do sol escaldante.

- Se ocorre como você imaginou, bastam dois anos para que você se convença que tudo foi mero acaso. O que você quer é milagre, é prova, portanto, é milagre que você terá. Até que você chegue no quartel, você estará com seu milagre - foi o que ouvi no meu íntimo.

- Agora... ao invés de você  ir para o alojamento, passando pelo campo de futebol... vá pelo caminho entre os eucaliptos - foi a ordem dada e imediatamente obedecida.

- Você verá um pequeno pé de eucalipto dentre os demais. Lá debaixo você encontrará uma nota de Cinquenta Cruzeiros - foi o que ouvi.

De longe, há cerca de cem metros, vi o pequeno pé de eucalipto.

- É aquele! - Pensei eu ao escolher um pequeno pé de eucalipto dentre os muitos outros.

Fui me aproximando e já bem mais perto, vi a nota de dinheiro que balançava com o vento, debaixo do pequeno pé de eucalipto, presa não sei como. Eu a peguei numa emoção que não consigo descrever. Agradeci enormemente a Deus e com o coração explodindo me fui para o alojamento na certeza de que existe uma força que não sei descrevê-la nem explicá-la, mas, que muitos a denominam "Deus". 

Toda a minha família se encontra na capital federal. Todos estudaram e estão com seus empregos e suas casas que dispõem de toda a tecnologia moderna das casas de classe "c" ou "b". Meus pais moram em casa que jamais sonharam e podem ter sua velhice digna com direito a plano de saúde e qualidade de vida.

É isso! Milagres acontecem! Eu posso afirmar isso! Não sei se o milagre acontece por fé de quem crer, se por decisão e escolha do "Ser supremo"... Mas, há algo inexplicável. Se está dentro de cada ser e cabe a este ser fazê-lo mover-se a seu favor; se está no cosmos e de lá move os elementos a favor do ser... não o sei. Mas, fui agraciado com este milagre e com vários outros. Não posso negá-los. Não posso negar: existe algo inexplicável.

Não posso negar que já não sou mais o jovem quase impúbere que viveu o milagre que acabei de relatar; não posso negar que mudei e que minha crença mudou; não posso negar que prefiro a razão à fé; não posso negar que "a fé move montanhas", todavia. Não posso negar que "Ele" de alguma forma, de forma milagrosa se manifestou e se manifesta. 

Que Ele seja sempre misericordioso para com todos nós! Que continue a ter compaixão deste que, apesar de crescido, continua crente n'Ele. Não sei o que me reserva o amanhã, mas, das poucas certezas que tenho: não posso negá-Lo.

Wanderley Lucena

2 comentários:

Gasparello disse...

Que bom que colocou este pedaço de sua história no papel, ou no computador, sei lá! O importante foi compartilhar!

Abraço

Wanderley Lucena disse...

Sim, concordo, meu amigo Gasparello!