quarta-feira, 13 de julho de 2016

Dona Davina

Quem a ver pegando o ônibus numa alegria que beira à doidice não imagina o passado de lutas. Ela sobe os degraus na estação por volta do meio dia, três vezes por semana. Cerca de meia hora depois desce no clube onde faz a natação.  Motoristas e cobradores já a conhecem e lhe são gentis ante toda a graça e risadaria que ela provoca com suas tiradas de quem está feliz.

A natação começa lá pelas 15h. Ela chega duas horas antes só pra ficar a jogar conversa fora e matar todo mundo de rir. Começa já ao descer do ônibus com qualquer um que esteja na parada e queira ajudar a velha senhora a descer os degraus. Alguns passos e já está na recepção do clube a cumprimentar à todos que a conhecem ou não. Por ali fica a fazer graça até a hora do compromisso de nadar. Se joga na piscina com seu maiô preto e, igual uma pata de asa quebrada, atende aos comandos da instrutora que, vez por outra, lhe grita o nome e ouve-se o riso largo a ecoar na piscina do ginásio coberto.


Ela não quer saber de tristezas. Não se entrega à idade e se vai em passos firmes a viver a vida que pensou jamais teria. Ela nunca escondeu a origem humilde de mulher da roça, lavadeira e zeladora de escola. Veio para a capital depois de aposentada e vive com uma das filhas que lhe proporciona nivel de vida de classe média alta.

Até um sorriso novo pôs na cara. Naqueles tempos idos quando arrancar todos os dentes de uma só vez era a garantia de não sentir dores futuras ela, ainda adolescente, pôs uma "chapa" no lugar dos dentes. Mas, os dentes inferiores ela perdeu com o mesmo argumento e jamais pôs a dentadura. De tanto mastigar encima das gengivas percebia-se o osso do maxilar exposto. Pois, além de uma peça fixa pôs implantes e quando já não mais sabia o que era mastigar voltou a sentir o sumo da cenoura mastigada, enfim.

As muitas rugas que lhe marcam o rosto contam as muitas estórias da mulher nordestina que suou muito para educar os filhos e mostrar-lhes o valor da honestidade.

Wanderley Lucena

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