sexta-feira, 10 de junho de 2011

FORA DA ORDEM




Não sei se é o fim dos tempos, mas chove em Brasília. Pleno junho e chove nesse deserto. Aqui as águas de março fecham mesmo o verão. Mas algo está mesmo fora da ordem. Quiçá, os deuses devam está em festa lá por cima e se esqueceram de fechar as torneiras. Estariam eles bêbados e bonachos. Esqueceram-se que já não é mais hora de nos abençoarem com as gotas da molhada chuva. Talvez estejam eles a fazer um bacanal e, felizes a gozar sobre a terra esturricada desta cidade que deveria ser lavada na cara.

Em trinta anos vivendo nesta que se tornou a minha cidade, não me recordo de ter visto chuva, e com abundancia, nos meses de junho. Certo é que, por sorte, me encontro sem carro esta semana. Fui obrigado a me locomover a pé pela cidade, nas redondezas de minha casa. Hoje sai andando e pude, mais uma vez, perceber a sensação da frescura do vento e a nuvens pesadas que anunciavam que os céus iam cair sobre as nossas cabeças. 

Enquanto caminhava por entre os blocos, por caminhos devidamente planejados, em calçadas postas de formas a que o pedestre não pise na grama, a observar as muitas árvores do cerrado ou mesmo as que ali foram plantadas por intervenção mão de alguns que ainda insistem em remar contra a maré, me senti mais vivo que nunca. A solidão daquela caminhada era, sem dúvida, uma oportunidade para que eu pudesse apreciar cada centímetro da paisagem à minha frente. Muitas floreiras, palmeiras, plantas nativas do cerrado.

Cheguei ao meu destino sem muito me molhar. Mas confesso que se a chuva me caísse de tal forma a molhar até o rego, minha emoção só aumentaria.Tem dias que estamos assim mesmo, emotivos, sensíveis. Acho que, no meu caso, tem uma terceira característica: agradecimento. Sim, uma postura agradecida ante a natureza e a Deus.

Tomara que a seca não nos castigue tanto neste ano. E já que a chuva não lava mesmo a cara dos políticos que são a razão primeira da existência desta cidade neste planalto seco, que os deuses continuem o seu bacanal e nos abençoem com as torneiras abertas.

Wanderley Lucena

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