domingo, 22 de maio de 2011

PARA ALÉM DOS CAFUNDÓS

PARA ALÉM DOS CAFUNDÓS


Ela teve de voltar ao seu torrão na companhia da mãe, do pai e do irmão mais velho. Enfim, sua família. Durante a jornada se perguntava quem eram aquelas pessoas que compunham a sua família. Se pegou perguntando a si própria, em silêncio profundo, alheia à paisagem que lhe cercava naquele momento. Não percebeu a abelha preta e fedida que se lhe enroscar no cabelo. Zangada, a abelha zumbia ao tentar matar o que lhe seria o inimigo. A abelha podia zumbir á vontade pois Perpétua estava em outra dimensão.

De onde vieram aquelas pessoas que lhe acompanhavam?  Como vieram parar naquela terra? Quem eram seus avós? Onde haviam nascido? As respostas talvez jamais as teria. Era tímida por demais para perguntar o que fosse a seus pais sobre este assunto. Seu pai, apesar de mais sensível, nem sempre estava disposto a responder. Certa feita, depois de uma pergunta qualquer, respondeu-lhe:

- Vá procurar o que fazer, menina!

Ela sentiu o sangue vibrando em sua face e fazendo-a corar de vergonha.  A mãe não a respondia por falta de paciência mesmo ou porque a odiava a ponto de quase não suportar-lhe a presença. Enquanto ela voltava-se para dentro de si mesma, também, podia perceber crescer o rancor e o ódio por tudo e por todos.

Percebeu-se ficando adulta antes da hora e agradeceu por isso. O tempo passava e lhe crescia a certeza a certeza de que sua sina seria tão seca quanto aquela terra maldita para além dos cafundós. No entanto, Perpétua jamais satisfaria a sua curiosidade. Seus pensamentos, dúvidas e angustias jamais se externavam.

A jornada de volta foi longa para si. Ela o fizera a pé por todo o tempo. A carga estava por demais pesada para o coitado do jumento que trupicava das pernas. Todos se deslocavam calados. Não havia mesmo o que ser dito. Mas tinha uma bomba quase a explodir dentro dela. Uma ansiedade do tamanho do mundo. A revolta que queria gritar à mãe e perguntar o porque de tanto desprezo para consigo. Se ela a odiava mesmo ou queria apenas se entrosar com as mulheres do Oliveira. Não tinha noção de todo o mal que lhe causara.  Perpétua sabia que aquela lembrança horrorosa jamais se apagaria e que o peso em seu coração jamais diminuiria.

 Suas vistas turvavam e sentia sensações de desmaios. Entretanto, não deu alarme algum. Permaneceu segurando-se no jacá  da  mesma forma que segurava o choro. Ela não podia parar para se recuperar. Tinha de achar forças para continuar a caminhada. Se odiaria se seu irmão que seguia logo a frente, puxando o jumento pelo cabresto, percebesse seu fungar de choro. Não queria receber qualquer afeto. Não saberia recebê-lo.  Sentiu gosto de sangue na boca e o ar lhe faltando ao pulmão. Deu-se um baita tapa no próprio rosto. Todos pensaram que ela espantava as mutucas que empestavam as canelas do jumento e o faziam surrar-se a todo o tempo com a própria calda.

As tais mutucas não respeitavam a pernas de ninguém, na verdade. Todos tinham de se proteger abanando as pernas, o tempo todo, com galhos verdes. Mesmo assim, vez em quando, sentia-se a ferroada da maldita, desesperada por sangue. Quem sofria era o coitado do jumento. Sua calda não era suficiente para espantar o enxame de mutucas e elas lhe atacavam nas pernas da frente e pelo pescoço onde o seu rabo jamais alcançaria. Mas sentiu-se grata à existência delas por lhe disfarçarem o estalo da palma da mão em seu próprio rosto.

A família levava peixe para uma semana. Levava também, farinha, azeite de coco babaçu,  abóbora, macaxeira, um cacho de banana murici, macaúba, cachos de pitomba, carambas etc..  e as trouxas de roupas lavadas, parte delas ainda úmidas.  Ela trazia sobre si uma carga bem mais pesada que a daquele coitado jumento, voltava com o peso do desprezo de todos.

Uma alma bondosa poderia dela se compadecer, alguém poderia ver-lhe o âmago sofrido e negro, a alma que chorava e coração dilacerado. Uma criatura bondosa a levaria daquele  lugar e lhe daria afeto, carinho, educação, comida e roupa decente. Perpétua sabia que esse seu desejo jamais se tornaria realidade. Ela não podia se enganar. Sonhar era ter de conviver com a frustração. Encarar a vida, nua e crua, era a sua única opção.

Chegaram em casa e a encontraram como a haviam deixado. Por ali ninguém passava mesmo. Não haviam ladrões ou malfeitores. A casa esta fora da rota de todo mundo. Os tropeiros eram os andantes mais prováveis, mesmo assim, nunca nenhum grupo por ali passou a pedir uma caneca d'água.  E mesmo que um deles por ali chegasse, ao ver a penúria daquela casa, logo seguiria caminho sem nada pedir ou levar. Nada de valor havia naquela choupana velha que mais parecia uma tapera abandonada.

O fogão de lenha foi acesso e a fumaça subiu céu acima. Já era noite e Perpétua sabia que o sono não lhe chegaria. Sua mente inquieta a impediria de dormir. Relembraria mil vezes as cenas vividas no Centro Velho.

Decidiu ir para o terreiro em frente a sua casa e observar o céu. Ante o céu estrelado permanecia a sua agonia e os seus presságios lhe atravessavam a alma como facas em fogo. Tinha medo do futuro. Sabia que as coisas piorariam para  si. Era questão de tempo. Estava condenada sem saber qual crime cometera ante os homens e qual pecado ante a Deus.  As lágrimas rolavam pesadas no rosto ainda infantil.

espermatozóide se fundissem. Jamais viria à luz por vontade própria. Ele, tão misericordioso, lhe tiraria toda a tristeza e lhe preencheria todas as lacunas e, pacientemente, lhe daria resposta a todas as perguntas. Todos dormiam em suas redes quando ela voltou para a casa sentindo o mesmo peso.

Como já previra, mais uma noite sem dormir. Ouviu o galo cantar e finalmente adormeceu para acordar em seguida com o barulho do milho seco que estava sendo despejado no balde velho de alumínio. A ração dos porcos. Seu irmão obedecia a mesma rotina toda madrugada. Levantava o saco e o despejava no balde lentamente. O barulho sempre vinha logo depois do cantar do galo. Ele não tinha a menor intenção de fazer algum silencio. A intenção era mesmo infernizá-la. Fazer-lhe acordar mal humorada.

A dor no estômago a estava matando quando se dirigiu ao velho fogão feito de barro. A lenha queimava e a fumaça empretejava os caibros e as palhas que cobriam a casa. O velho bule de esmalte sobre a grelha mantinha morno o café ralo. Ela tomou dois goles que lhe desceram como pedras garganta abaixo. Nada mais para acompanhar o café da manhã a não ser a farinha de puba que ela dispensou por não estar com a minha vontade de forrar o estômago. Os olhos remelentos foram lavados com uma caneca d’água. Os dentes foram limpos com jalapa na velha escova de dentes toda esfarrapada.  A jalapa era o pó extraído da casca de uma árvore e que fazia as vezes de creme dental. A casca da árvore era triturada até virar um pó que fazia uma espuma ao ser esfregada contra os dentes e dava a sensação de alguma higiene.

Ela estava toda entrevada. Tinha dificuldade nos movimentos, pegou a coité cheia de milho seco que ela mesmo debulhara da espiga e, ainda, grãos crus de arroz. Foi para os fundos da casa, para o quintal poeirento levando a arapuca feita de galhos secos.  A armou com cuidado e voltou para casa.  Quando o sol estava no meio do céu, voltou ao local e pegou a rolinha magra que se debatia, presa na arapuca. Era só mais uma rolinha. Bem que podia ser uma pomba avuaçã, uma nambu ou uma juriti. Mas a sorte lhe trouxera para o almoço apenas aquela rolinha.

A natureza insistia em não ser-lhe pródiga. Depois de quebrar o pescoço da avezinha, depenou-a, a abriu-lhe as costas, sacando-lhe as tripas e os demais miúdos. Salgou-a e a estendeu sobre a grelha. O cheiro era bom e abriu-lhe o apetite por fim. Dividiu o pequeno passarinho com seu irmão.Comeram acompanhada com farinha de puba. Mas tarde, quando a fome apertou novamente, quebrou tucuns e os comeu com dificuldade, haja vista, a castanha ser dura por demais.

Seus pais haviam saído logo depois do café e não voltariam com o por do sol. Tinham ido para a roça. Seu irmão ficara com ela, como de costume. Nada haviam deixado para o almoço. Sabiam que os filhos seriam capazes de se virarem sozinhos. Que comeriam barro, se preciso fosse.

Um comentário:

LUCENA disse...

Olá Lucena.
Além dos parabéns pelo novo texto, quero registrar a admiração pela foto escolhida para ilustrar o texto (lindo por sinal) "Saudade". Pra mim também ela inspira o tema saudade. Maravilha.
Mais bela ainda foi a gravura (é uma gravura, não é) "Mudança de Sertanejo" aplicada no último post. Caramba, que coisa bela. Rivalisou em beleza e essência com o próprio texto.
Parabéns!!
Abraços,
Valdemar