terça-feira, 22 de março de 2011

O ANÃO DO CAMINHÃO



Essa semana me dirigia ao trabalho por uma via expressa do Distrito Federal conhecida por Estrutural. Por estar atrasado me permiti dirigir acima da velocidade da via, mesmo sabendo ser essa uma atitude injustificável, quase e sempre. Mas não vai ser você, caro leitor, que vai me criticar nesta hora. Afinal, todos temos telhado de vidro. Quem é que nunca falou ao celular estando ao volante? Qual de nós nunca jogou o farelo do pão pela janela do apartamento abaixo? Quem nunca tirou a meleca do nariz e limpou o dedo na parede? Etc... etc... etc... Portanto, perdoem-me! Pensai nos vossos pecados e perdoai-me como se vós eu fora. (risos).

Pois bem, para piorar, dirigia uma velha viatura, um vw Santana caindo aos pedaços. Estava muito acima dos 100 e pouco abaixo dos 200 por hora quando quase bati a cabeça no teto ante o susto. Uma ensurdecedora buzina que tocava sem parar. Com o coração quase saindo pela boca olhei pelo retrovisor e vi uma carreta gigante logo atrás, colada no velho santana, quase a passar por cima dele. Vi que se tratava de uma baita carreta, gigantesca e assustadora só de ver. Buzinava em altíssimo volume. Pensei que o motorista estava a socorrer alguém ou fugindo de algum caça das forças armadas. Era uma jamanta novíssima e brilhante.

A via Estrutural tem três faixas e eu voava pela faixa da esquerda. A velocidade máxima da citada via sempre foi de 80 km/h. Todos sabemos que caminhões são obrigados a trafegar pela faixa da direita. Mesmo que o motorista quisesse apenas ultrapassar outro veiculo, deveria fazê-lo pela faixa central. A buzina continuava a tocar insistentemente enquanto eu apertava ainda mais o pé para dar-lhe passagem.

Fui para a faixa central e vi aquele imenso caminhão lustroso passando por mim. Eu senti o meu Santana velho desestabilizar por causa do vácuo deixado. A jamanta continuava a buzinar desesperada para os veículos à frente. Os motoristas assustados saiam da faixa e abriam caminho.

Eu não me contive. Voltei para a faixa da esquerda, fiquei logo atrás do gigante. Me senti o Davi ante o Golias. Liguei a sirene, meti o pé no pedal e... uai uai uai uai uai uai uai. O caminhãozão não se fazia de rogado e me ignorava. Quiçá o seu motorista não ouvisse a sirene que era facilmente encoberta pelo volume da sua buzina. Ele insistia em continuar na mesma faixa e na mesma velocidade. Eu já ia pedir reforços quando ele, finalmente, deu seta para a direita e foi parando no acostamento. A descarga do bicho, acoplada junto à cabinona, parecia mais a chaminé de uma usina ceramista que vi em Recife.

Desci de minha viatura fazendo questão de mostrar meu distintivo e minha .40 em aço inox que brilhava com o sol do meio dia. Olhei para cima e pedi que o motorista descesse. Quase não acreditei quando o rapaz abriu a imensa porta. Tratava-se de indivíduo que não passava de 1,60 cm. Pensei que era um anão a serviço de Papai Noel. Eu precisei fazer um esforço imenso para não soltar um gargalhada daquelas.

Eles desceu os degraus com dificuldade. Suas pernas eram curtas e ele ficava tentando achar o degrau abaixo. Fiquei olhando a imensa boleia. Tudo era gigante, desde o banco até os pedais. A marcha era quase o mastro da bandeira nacional. Minha curiosidade era grande, mas, não ousei perguntar com aquelas perninhas conseguiam alcançar os pedais. Não sei como ele alcançava o volante, os pedais, etc...

Já no chão, ele teve de olhar para cima para poder falar comigo. Tremia igual vara verde. Agora eu era o Golias e ele o Davi. De imediato, foi me pedindo desculpas humildemente. Ao verificar a sua Carteira Nacional de Habilitação, notei que ali estavam escritas desde a letra A até a letra E. O moço tava podendo. Talvez pudesse até pilotar um boing.

Eu perguntei se ele sabia o valor da multa por excesso de velocidade. (Veja só quem falava!). Ameacei ligar para a transportadora proprietária da jamanta e denunciá-lo. Ele, muito nervoso, solicitou, humilhado, gaguejando, que não o prejudicasse. Explicou-me que o patrão era, por demais, exigente e que perderia seu emprego, com certeza. Pareceu-me crueldade desnecessária denunciá-lo. Ele havia aprendido a lição. Ademais, se comportou respeitosamente, pediu-me desculpas e garantiu que jamais iria fazer aquilo novamente.

Liberei-o para fazer as entregas de Papai Noel e segui para o trabalho no velho Santana, dessa vez, tanto eu quanto o anão, respeitando o limite de velocidade.

Wanderley Lucena

Um comentário:

gerag2010 disse...

Você pede pra sermos verdadeiros.
Eu quase morri de rir sosinha com meu velho computador.Eu imaginei a cena!!!kkkkkkkkkkkkkkkkkkk.Quém te conhece sabe>>>>>.