quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CIÚMES


Corta como navalha
Incomoda como ferida que não cicatriza
Atordoa como murro pesado, bem dado, na orelha
Me tira a razão e da cama
E faz andar sem rumo madrugada a dentro 
Causa repulsa como se escatológico
Me cega com tarja escura
Me prende e me impede movimentos livres
Veneno que estrebucha para só então matar
Espraguejo e lanço maus agouros que assustariam qualquer bruxa


...e depois, me chegas sorrindo e tudo se esvai.

Wanderley Lucena



CARTAS EUROPÉIAS



Brasília-DF, 27 de outubro de 2011.

Caro Amigo;

Na quarta-feira, dia 02 de novembro, justo no dia de finados, bem cedinho, porei os pés, novamente, na cidade luz. Isso mesmo! Desembarcarei em Paris. E por falar em finados, de novo quero explorar os cemitérios daquela cidade. São belíssimos, sabia? Tirar uma foto no túmulo de Chopin, da Edith Piaf e tantos outros é programa dos melhores. Os mausoléus são belíssimos e muitos deles são verdadeiros palacetes. Vale a pena!

O vôo pela Airfrance é aquele. Aquele mesmo. O que caiu no meio do oceano, lembra? Que medo! Estou brincando. Para falar a verdade não estou com o menor medo não. Tenho medo da morte mais não. A morte que não me chegue por agora quando gozo o melhor da vida. Ela que me venha quando eu não conseguir mais segurar a "caca". Ela que me chegue quando a bengala, que ainda não uso, me furtar e não me sirva de terceira perna. Ela que me chegue quando não mais me seja possível tomar meu banho sozinho ou quando não dê conta de me sentar mais no vaso sanitário. Ela que me chegue sem avisar, de preferência num sono pesado. Êta morte boa essa de quem dorme e não mais acorda! Nem ao menos se ver face ossuda e o vestido preto básico e mal costurado de Dona Morta.

Não ficarei apenas em Paris. Vou passar por baixo do Canal da Mancha pelo TGV e desembarcar em Londres pela primeira vez. A rainha me aguarda no Buckingham Palace. De lá me vou para terras romanas. Roma e suas Vias Ápias. Depois ainda dou um pulo em Florença e, por último, Veneza. A boa e velha Veneza de Romeu e Julieta.

Mas, quero te informar que tenho a pretensão de escrever-te diariamente. Quero manter-te informado de minhas aventuras e desventuras, minhas impressões e vivências na Paris que conheces melhor que eu.  Tomara eu não te canses de minhas cartas diárias. É que te tenho tanto apreço que gostaria de deixar-te informado de minhas emoções.

É mesmo uma pena que não possas, mais uma vez, vir comigo. Não estarás fisicamente, mas, tenhas a certeza de que te levo no coração. E se comigo vais, contigo fico da mesma forma e na mesma medida.

Um abraço e, na próxima carta já te escreverei de Paris.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CHIQUEIRO BRASIL

A sujeira é tanta que me sinto num chiqueiro continental. Ouço e vejo sujeira o tempo todo nos noticiários. A política é para homens bossais. Acho mesmo que os homens de bem, aqueles que têm vergonha na cara, não sobem em palanques, nem se filiam a partidos políticos. Eles, por nojo, preferem ficar conforto de seus lares.

A política é para homens reles e os honestos que se embrenharem pelo seu caminho serão mal sucedidos. É regra: quanto menos caráter, mais bem sucedido será o indivíduo político.

Apesar de ter colocado barricadas e sacos de contenção para impedir que o lamaçal adentre ao meu lar, ao meu espaço, percebo, revoltado, que há infiltrações. O cheiro da corrupção passiva e ativa entra pelas frestas e vejo-me impotente ante tal força. 

ONGs, igrejas evangélicas e católicas, centros espíritas,   todo tipo de associação vira pretexto para estender a mão à luz do dia e pedir polpudas quantias ao Estado. Mas, na calada da noite, é que se vampirizam as veias grossas e passivas do dinheiro publico. 

Pessoas conhecidas, amigos e até parentes estão encharcados na lama da corrupção. Alguns deles viraram pastores, catimbozeiros, políticos, donos de ONGs, etc... Poucos são os que suam verdadeiramente para se sustentar. Todos tentam, a qualquer custo, sem esforço braçal, uma teta para mamar. Pode ser um grupo de liderados, ou a falcatrua de uma licitação, ou um discurso falso e hipócrita que arregimente um grupo ou uma multidão suficiente para dar-lhe o sustento por meio de dízimos ou doações.

Homens de bem não se expõem, não se posicionam contra a injustiça. São, geralmente, discretos e equilibrados. Permanecem protegidos pelas grades de suas janelas vendo do lado de fora o assalto à mão armada contra seu semelhante. Os homens de bem podem até sofrer, podem até ter um discurso ético, mas se protegem de qualquer situação na qual possam ser expostos. Doe-lhes na alma a injustiça mas, eticamente, permanecem impávidos a assistir a sangramento público. Esses mesmos homens de bem não toleram discursos inflamados ou o ruído dos revoltados que gritam e denunciam os ladrões que se apoderaram do Estado..

Conheci um advogado muito importante, homem de valor, religioso como ninguém, que batia no peito, orgulhosamente, para informar a quem quisesse ouvir que não se contaminava lendo noticias de jornal. Preferia frugalidades, noticias leves, eventos sociais. Fiquei envergonhado e enojado do seu orgulho burro tanto quanto com a sujeira política a que estamos submersos.

A inércia ante a injustiça de qualquer tipo, assim como, a própria injustiça é, a meu ver, postura exatamente igual. É tão nojento e desprezível o acovardar-se diante do crime quanto ser o próprio criminoso. 

Wanderley Lucena


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ANDAR COM ASAS

Se podes "andar" com tuas asas?
Eu te afirmo que já voaste até onde te encontras.
E feliz é quem pode voar. 
A jornada é suave embora requeira a força nos músculos das asas. 
Levantar vôo pode até ser difícil, mas quando se está a plainar... 
Olhar para baixo com o vento a bater no peito.
No horizonte uma praia ensolarada na qual podes pousar. 
Mas não podes esquecer do passarinheiro, da sua arapuca.
Dos estilingues e das pedras contra ti atiradas. 
Mas, mesmo de asa quebrada, continua o teu vôo sem parar. 
E se quiseres pousar em segurança podes fazer o teu ninho em minha torre.

Wanderley Lucena

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ANDANÇA


De bike
de velocípede
de patins
de jegue
à pé
não importa
chegarei lá
com certeza
antes o sol se ponha.
E o sol vai se por
para mim
e para você.

Wanderley Lucena

sábado, 15 de outubro de 2011

PORTUGUÊS BEM DITO

Interessa-me a palavra bem dita. Expressada com todas as sílabas muito bem pronunciadas e que se transformam na expressão audível. Com o verbo no tempo correto, concordando do início ao final. Seja na frase ou no texto por completo. A frase bem entonada quando pergunta, quando responde, quando exclama. Não importa se escrita ou falada, a palavra bem colocada traduz na exata dimensão de sentimento de quem a produz. 

É a língua uma das principais características de um povo. É ela que nos identifica em qualquer lugar do mundo. Quando estive na França, por diversas vezes identifiquei meus patrícios por ouvi-los a falar o bom, velho e lindíssimo português brasileiro. Com alguns deles travei diálogos e com outros fiz amizade. Assim será toda vez que estiver em país de língua diferente da minha. E você pode imaginar como é bom identificar a sonoridade da mesma língua que a sua na Babilônia que é Paris. 

Outro dia encontrei no Rio, uma colombiana que morava em Chicago. Depois de travarmos breve diálogo na sua língua ela me pediu a gentileza de falarmos em português, mesmo que ela não soubesse falar português. Explicou-me que ali estava para aprender a nossa língua por achá-la a mais bela do mundo e, disse ela, ter morado em diversos lugares do planeta. Fez questão de esclarecer que era o português do Brasil e não o de Portugal que lhe soava no ouvido como melodia sensual. Perdi a chance de praticar meu espanhol, entretanto, meu ego se massageou ao ouvir o elogio.

O português é mesmo língua traiçoeira e de difícil aprendizado. Mas renegá-la é abrir mão da identidade própria que é a identidade de um povo. Povo lindo, moreno, miscigenado, faceiro e acolhedor. Que não nos falte o orgulho de nossa língua e o interesse em aprendê-la.

Queria eu escrever sem erros e com a certeza das palavras bem ditas. Queria eu dizer apenas palavras benditas. Mas sei que sou capaz das palavras malditas e, muitas vezes, mal ditas. Tenho consciência da minha deficiência no aprendizado com a língua máter e da minha humanidade. Mas continuarei minha luta em tentar me expressar cada dia forma mais clara possível e em tentar ser um indivíduo mais evoluido. 

Wanderley Lucena

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O COMÉRCIO DA FOFOCA

A fofoca, como chamamos aqui no Brasil o falar da vida alheia, não é fenômeno da vida moderna. Entretanto, ganha-se muito dinheiro com ela enquanto perdemos nosso tempo,  prazeirosamente, a ler tais magazines. Detalhe é que esquecemos que vidas são destruídas e indivíduos são lançados ao poço da depressão quando se vêem clicados pelas lentes de paparazzis e depois, um Zé Mané, numa redação açougue, retalha a vida privada e a lança em páginas semanais. Tais açougueiros terminam por enriquecer com a destruição da privacidade alheia.

                                                                                                    Wanderley Lucena

terça-feira, 11 de outubro de 2011

DONA FIFI


Dona Fifi chegou no condomínio dizendo-se madame de fino trato, mulher de berço nobre, oriunda de família riquíssima, tinha nome e sobre-nome. Quis ser recebida com tapete vermelho e ser reverenciada. Quis ser amada como se rainha sueca. Fazia questão de apresentar-se como a esposa do Sr. Conde de Chaterley. Espalhou aos quatro ventos que tudo na sua casa era do bom e do melhor e que o piso de sua casa era de madeira de lei. 

Lady Fifi sentiu-se enfada e enjoada por não receber para o chá das cinco nenhum dos seus súditos. Ninguém a visitava nem a chamava para tomar um café. Passou a procurar encrencas com todos os vizinhos e a reclamar de tudo e de todos. Desde a música moderna do filho do serviçal aos constantes sorrisos de felicidade da moça solteira e independente que morava em frente à sua casa. 

Ela ouvia os rumores de alcova da casa apegada à sua e não suportava que na sua casa, o marido inválido, não a satisfizesse. Se mordia de inveja. A vizinha estava visivelmente feliz e bem amada enquanto ela padecia de carência. Embora o marido tentasse entrar na onda de Dona Fifi, sua debilidade e apatia não permitiam o mínimo esforço. Ademais, Dona Fifi era nada atraente e até o marido já estava desconfiado que havia entrado numa fria ao casar-se com ela. O Conde tinha uma deficiência sanguínea que impedia-lhe que os músculos se enrijecessem. O constrangimento era visível e ela desistiu de vez de tentar seduzi-lo.

Dona Fifi passou a comer desesperadamente tentando preencher o seu vazio interior e suas formas já rechonchudas, cresceram ainda mais e ela já andava com certa dificuldade.

As senhoras distintas e discretas da comunidade não a suportavam e os seus maridos passaram a ordenar que elas a evitassem. Todos já sabiam ser Dona Fifi uma farsa total. Todos passaram a evitá-la, pois, tamanha era carência de Dona Fifi que ela passava horas a falar sem parar com quem lhe desse algum ouvido.

Dona Fifi chorou e esperneou porque não lhe davam atenção. Por fim, se disse mulher muito fraca e que seu marido estava muito doente. Que tinha alergia a poeira, cheiros fortes, produtos químicos de todas as espécies.Era agora hipocondríaca. Não podia ela ser contrariada ou perturbada. Pretendia ela com tal chantagem, despertar a piedade de quem a via. 


Mas já era tarde. Ela perdera todo o prestigio. Prestígio que nunca tivera, diga-se. Ninguém lhe dava mais atenção alguma e ela passou a ser motivo de comentários e chacotas. Dona Fifi era, afinal, uma uma grandessíssima fofoqueira encruada e invejosa. Ela era mesmo, na verdade, uma coitada. Mas ninguém sentia a menor dó da coitada. É que Dona Fifi era mesmo muito chata e repetitiva. As suas reclamações já se repetiam e sua conversa era pura ladainha enfadonha .


A dita Senhora passou então a desprezar quem a desprezava e disse a todos, em um blefe, que se mudaria do condomínio pois não aguentava conviver com aquela gentalha. No entanto, sua casa nunca foi anunciada e quem quis comprá-la desistia quando a madame informava o preço três vezes acima do que o imóvel mais valorizado da região. Era mesmo um engodo a Lady Chaterley, a Dona Fifi.


Wanderley Lucena

domingo, 25 de setembro de 2011

CARTAS CARIOCAS


Brasíla-DF, 25 de Setembro de 2011.


Caro Amigo;


Amanhã estarei no Rio, a cidade maravilhosa. Eu conheço bem o Rio e volto lá sempre que posso. É mesmo uma das cidades mais lindas do mundo, com certeza, a mais bela do Brasil. Tem a violência desorganizada da pobreza dos morros, tem o crime organizado e tem os "filhinhos de papai" que também, muitas vezes, são criminosos.

Quase tudo igual a qualquer outra metrópole não fosse um charme que é só seu. Não sei se é a geografia de tirar o fôlego; se é o sol; se as curvas da garota de Ipanema; se o mar azul; se a floresta atlântica; se o Cristo Redentor ou o Pão de Açúcar. Mas tem a "ginga" do malandro e o chiado charmoso do sotaque carioca. O sol e os desenhos sinuosos da calçada de Copacabana. O samba da Mangueira e  da Portela. É tanta coisa meu amigo, que se fosse te contar, escreveria um jornal e não uma singela carta como esta.

É minha intenção te informar, diariamente, por meio destas cartas, das minhas impressões pessoais da cidade  dos acontecimentos do meu dia na minha interação com essa gente de valor, a gente carioca. Tomara minha intenção não te canse, mas é que para mim és tão importante que preciso, quase que de pé de ouvido, contar-te. Bom seria que estivesses cá comigo para juntos irmos ao Rock in Rio e ver o Cold Play e o Maroon Five. Já que cá não estás, te deixarei informado por meio de minhas cartas diárias desde o Rio.


Um abraço.


Wanderley Lucena
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Rio de Janeiro-RJ, 26 de Setembro de 2011

Caro Amigo;

Chegamos ao Santos Dumont e para não ser, mais uma vez, roubado pelo taxistas que insistem em achar que meu dinheiro é farinha, peguei o “frescão” – e isso, aqui no Rio, é tão somente um ônibus que tem ar-condicionado. Custou-me seis reais e desembarquei, confortavelmente, na Princesa Isabel, a um quarteirão de onde, no Leme, me hospedo sempre que venho por aqui.

Tive de dormir um pouco para recuperar as forças depois da noite mal dormida e do vôo na lata de sardinha. Viajar na classe econômica é viajar enlatado. Sabes que, no momento, não posso dar-me a exageros. A lata de sardinha não chega a matar o cristão, mas é quase desumano o que fizeram com o espaço de um avião doméstico. Como não posso ir de primeira classe... 

Já era meio da tarde quando me dirigi ao Giraffas e almocei. Giraffas, sim senhor! Apesar de bonitinha a comida delivery da rede, de tão pouquinha, faz bem à consciência de quem não quer engordar.  Fiquei sonhando o bife à parmegiana do Beira.

Saí andando e já estava bem pertinho da estação de metrô  General Arcoverde e decidi não ir à pé para Ipanema.  Meu cafezinho já fazia uma falta danada no juízo – sou dependente de cafeína, como sabes – e saí surtado, em crise de abstinência, até que tomei meu cafezinho na Visconde de Pirajá numa charmosa cafeteria. Por pouco não pedi ao atendente que me aplicasse na veia.

Esqueci minha sunga ADIDAS em Brasília e decidi comprar outra. Terminei comprando também uma mochila, da mesma marca, para usar em Paris. As três listrinhas são chiques e não tem como errar. E na minha idade não dá pra arriscar muito. E sabes que vou a Paris já no mês que vem.

Tomei novo cafezinho na Colombo do Forte de Copacabana, já na volta, e fiz compras para o desjejum no Zona Sul – aqui as coisas estão mais baratas que no Pão de Açúcar do Sudoeste. Aproveitei e comprei um estoque de geléias de morango para abastecer a minha despensa em Brasília. Aqui tá pela metade do preço e - detalhe - são polonesas. Isso mesmo: são importadas. Volto com a mala cheia.

Agora estou a te escrever enquanto faço uma boquinha antes de dormir na Sanduicheria Leme Light. Um pão cheio de carne assada. Uma delícia.

Um abraço.

Wanderley Lucena

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Rio de Janeiro-RJ, 27 de Setembro de 2011.

Caro Amigo;

Te escrevo desde o Morro da Urca e, por incrível que pareça, a rede wi-fi é ótima - mas também... depois de pagar cinquenta e três reais pra subir no Bondinho... Embora o bilhete seja caro, vale a pena subir até o Pão de Açúcar pelo bondinho teleférico. A visão da paisagem é única.

No Pão de Acúcar, quem se prende apenas à paisagem, não sabe o que perde se não explorar a trilhas sinuosas e encantadas por dentro da floresta morro abaixo. Tudo muito bem calçado, com mesinhas de concreto e para-peitos para a proteção e conforto dos turistas. É só descer pelas escadas abaixo e pronto. Uma floresta encantada está a seus pés. O preço pode até ser alto, mas, se voce quiser subir a Eiffel, visitar o Louvre, não é menos caro. Não é que seja caro, nós é que ganhamos mal, meu amigo.

Para me inspirar, tomo uma caipirosca de lima no restaurante encima do Morro da Urca. Você não sabe o que é isso. Aqui se ouvem várias línguas. Turistas do mundo todo você pode ver aqui. Fiquei vendo o macaco "soin", lindo, clicado pela minha câmera, sem ter que fazer o zoom, de tão perto que o bicho estava da gente. Impressionante como estes bichos estão acostumados aos humanos e recebem alimentos de suas mãos.

Vou passar no ap e botar a minha Adidas que comprei. Vou mostrar as pelancas em Ipanema. E o faço sem constrangimentos. Tem muita gente linda aqui, globais aos montes, mas... o que tem de gente feia. Então, me sinto em casa.

Um abraço e até amanhã.

Wanderley Lucena

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Rio de Janeiro-RJ, 28 de Setembro de 2011.




Caro Amigo;

Nunca senti tanto frio no Rio - na verdade, já sim - não tive coragem de entrar no mar até o momento. Tomara que a temperatura suba e que o sol dê a cara com gosto. Fazem 19 graus agora. E só são 4 horas da tarde. A previsão é que a temperatura despenque ainda mais.

Mas enfrentei o frio com bravura e subi o Corcovado a bordo do velho trem vermelho que vai ladeira arriba cortando a Floresta da Tijuca. Apesar do dia nublado consegui ver perfeitamente a geografia estonteante desta cidade. O mar azul e a ilhas pingadas nele, além da silhueta sex da cidade a chamar a todos ao deleite. Por um lado Lagoa Rodrigo de Freitas, Ipanema e Copacabana. Por outro, a ponte Rio-Niterói, o Santos Dumont. As barcas, pequeninas de tão longe que as vi, a fazerem a travessia, via mar, para a terra de Araribóia.

No mesmo bairro, peguei um ônibus que me levou para o Jardim Botânico. Além de belíssimo, é uma aula história. Imaginar que D. Pedro, nosso Imperador bigodudo foi quem plantou aquilo tudo. Que a Marquesa de Santos dava seus passeios de fim de tarde pelas alamedas de palmeiras imperiais plantadas pelo seu amante, o mesmo bigodudo.

Tinha a intenção de dar um pulo no Parque Lage mas, cansado que estava, desisti. O Parque Lage era a residência da mesma Marquesa. Um beleza de parque com muitas estátuas espalhadas a céu aberto, córregos e lagos artificiais. O belíssimo palacete que foi a residência da Marquesa é hoje uma escola de arte. Modelos vivos, nus em pelo, podem ser vistos pelas vidraças das janelas, a serem pintados pelos alunos. Mas, estava por demais cansado e desisti. Fui para casa e dormi um pouco e proteger-me do frio intenso que me incomodava.

Queira Deus, vá se embora esta frente fria que me dói até os ossos e possa eu entrar nas águas abençoadas e salgadas deste mares.

Um abraço e até amanhã.

Wanderley Lucena


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Rio de Janeiro-RJ, 29 de Setembro de 2011.

Caro Amigo;

Hoje, finalmente, fez sol como eu desejei. A praia estava mesmo uma beleza. Acomodei-me numa cadeira alugada de um barraqueiro e pedi uma cerveja porque ninguém é de ferro. Uma cerveja em frente ao mar de Ipanema tem sabor inigualável, como você bem sabe.

Chamou-me a atenção a quantidade de maconheiros fumando abertamente, à luz do dia, orgulhosamente. E não vou aqui fazer discurso moralista, não mesmo. Mas as coisas mudaram muito desde a nossa época. Ninguém sente vergonha de puxar a erva e, muitos deles, sentem mesmo é orgulho. Talvez estejam mesmo a revolucionar os conceitos. Ademais, com o advento do crack, quem dera, nossos viciados fossem todos, tão somente, maconheiros.

Os morenos que serviam às barracas fazendo as vezes de garçom, se sentaram, comodamente, em círculo e ascenderam seu “baseado” e esqueceram das obrigações que, talvez, nunca as tiveram. Pedi a um deles, já fumado, com os olhos mais vermelhos que os de um dragão, que trouxesse uma prévia da conta. Ele me respondeu, debochado, dizendo que eu mesmo poderia fazer a prévia, já que tudo o que eu consumira tinha seu preço anotado na conta que estava em meu poder. Ora veja! Pois, pois!

De longe, vi uma moça de formas por demais arredondadas. Os seios pareciam dois melões e a bunda estava, por demais, empinada. A moça tirou a parte de cima do biquíni e, sem qualquer desfaçatez, mostrou os melões a quem os quisesse ver e aquém não os quisesse também, debruçou-se sobre eles e empinou o bundão rumo ao por do sol, num top lesse básico. O que ela menos queria era bronzear-se. Queria mesmo era chamar a atenção. A minha, pelo menos, ela conseguiu. Mas, notei mais. Os gestos exagerados, artificiais, e... o queixo. Acho que foi o queixo que a entregou. Os melões lhe foram ali implantados por algum Pitangui do Morro da Rocinha e a bunda, idem. Tratava-se de um travesti. Isso mesmo, um traveco – e isso é apenas o registro do que vi e vai sem preconceitos. Travecos e outros tipos não são exclusividade do Rio e na nossa cidade tem aos montes.

Peguei um “bronze” e me fui, a pé mesmo, e almocei no New Natural. Um restaurante onde se come muito bem e, totalmente, natural. Tudo leva selo verde, sem agrotóxico e, como um pouco de sorte, você pode dá de cara com alguns globais almoçando na mesa ao lado da sua.

Um café e fui pra casa passando pela pedra do Arpoador que se encontrava lotada de gente a ver o por do sol. Mais uma vez, uma quantidade muito, mas muito maior, de gente a fumar maconha. A pedra virou um enorme cachimbo de pajé. Até eu saí de lá “chapado” com a maresia que respirei sem ter para onde correr.

Um abraço e... até amanhã.

Wanderley Lucena

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Brasília-DF, 01 de           Outubro de 2011.


Caro Amigo;


É claro que preferia o conforto de um bom hotel ao apartamento alugado para a temporada aqui no Rio. Sai bem mais barato e vale à pena se você não for dos mais exigentes. Em compensação você é que tem de manter a higiene ou pagar uma faxineira. O café da manhã você mesmo terá de fazer.  Eu até gosto de alguns dos afazeres domésticos, entretanto, confesso, sou avesso às outros.

Fui, ontem a um bar da moda,  à noite, em Ipanema. O ambiente era moderninho e a rapaziada também. Mas eu não estava na mesma energia que meus pares. Eles se divertiram por demais e, hoje, tinham estórias mil a contarem-se uns aos outros. Achei o lugar caro e contive-me dos gastos exagerados.

O sol deu as caras com tudo novamente e me fui com todos os protetores solares já passados, rumo à praia de Ipanema. Os gringos gastavam seus ricos dólares e se excitavam ante a pouca roupa de nossas lindas mulatas. Vendedores de abacaxi, sacolé, empadas, sanduiches, guará viton, salada de frutas e etc... e tal, empesteavam a praia nas suas idas e vindas, aos berros a anunciar  o seu produto. A temperatura da água do mar estava uma delícia e adorei ficar de molho por um tempo, a boiar relaxado sobre ela.

Já era fim de tarde quando fiz o caminho volta, a pé. Olhei o contraste dos prédios com a favela encravada no morro do Cantagalo. Fiquei com inveja dos favelados e sua visão do alto do morro rumo ao mar de Ipanema e Copacabana. Uma visão paradisíaca.

Um dia sol mas sem grandes emoções ou expectativas. Amanhã, ao contrário, é o dia em que estarei com todas as energias voltadas para a cidade do rock. Economizar a energia hoje para descarregar amanhã. Essa é a ordem!

Um abraço

Wanderley Lucena
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Rio de Janeiro-RJ, 02 de Outubro de 2011.

Caro Amigo;

Uma emoção botar os pés na cidade do Rock. Muita coisa pra ver. Sem falar nos shows, um logo depois do outro. Dois palcos, um deles, do tamanho de um prédio de dez andares. A maior expectativa era com o Cold Play, mas a banda Manah, do México e o grupo Maroon Five, que antecedeu ao grande show, já valia o ingresso que me custou uma baba. Quando o Cold Play subiu ao palco... Jesus! Fogos, luzes demais, raios lazer, chuvas de papel laminado, efeitos especiais na tela de LED. Foi lindo, meu amigo! Pena que você não estava aqui.

Cheguei em casa com a certeza de que entrei na terceira idade mesmo. Meus pés em frangalhos, mas, o pior era a coluna  que parecia que ter sido esmagada por um carro tanque. Tomei um banho com muita dificuldade e me joguei na cama. Acordei por volta do meio-dia de hoje. Ainda estou ressaquiado. Mas valeu muito a pena.

Hoje ainda fui à praia, aqui no Leme mesmo, bem em frente ao prédio. O tempo, aberto de início, foi fechando .ao longo da tarde. Mas entrei no mar em despedida nostálgica. É que amanhã volto pra Brasília. Tomara que a seca daí já se tenha ido. Tão log eu chegue, espero sua visita pra um café literário, ou um papo frugal para falarmos dos outros.

Um abraço!

Wanderley Lucena
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Rio de Janeiro-RJ, 03 de Outubro de 2011.

Caro Amigo;

Eu e minhas trapalhadas. Achei que hoje já era 4 de outubro, dia do meu embarque. Me levantei de madrugada, saí correndo para o aeroporto e, depois de fazer check in, quando já embarcava as malas, quando descobriram que eu estava antecipado em um dia.

Voltei frustrado para o apt ao qual já estava sem as chaves que havia jogado por debaixo da porta. Tentei, pelejei até... puxar a chave com um arame que encontrei, mas... nada. A danada foi parar do outro lado da sala e nao tinha vara que a alcançasse. Tive de chamar o chaveiro e foi ele quem conseguiu abrir a danada. Paguei uma baba pelo serviço do profissional, sem falar no táxi de ida e volta para o aeroporto.

Enfim, coisas de Lucena. Minhas trapalhadas às quais você já está é acostumado. Mas são essas trapalhadas que me rendem essas estórias que, depois vou lê-las e rio até. Espero que você também.

Amanhã nos vemos em Brasília. Um abraço e até amanhã.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ABDUZIDO POR UM E. T. PASSARINHO


Almocei sozinho e fui pagar a conta. Saquei a carteira do bolso e quando a olhei de perto não reconheci. Não era minha a carteira que estava em meu bolso. A carteira era de meu amigo que se encontrava, naquele momento, em minha casa a usar, de favor, a minha internet.

Peguei o cartão de crédito dele e entreguei à moça do caixa, certo de que, depois de explicar ao meu amigo a situação, ele não se importaria de eu ter usado seu cartão de crédito naquela emergência. Tudo bem se o caixa não tivesse me mandado digitar a senha do cartão na maquina. O cartão era de chip e precisava, obrigatoriamente, de uso da senha. Retirei o cartão e pedi um tempo.

Peguei meu celular no bolso da bermuda e liguei para meu amigo que, com certeza me passaria a sua senha. Senti vibrar o outro bolso da bermuda e um celular a tocar. O celular do meu amigo também estava comigo. Fiquei espantado e encrencado, sem saber como pagar a conta. Onde estaria a minha carteira? Com sorte, na minha casa. Não me restou alternativa a não ser chamar o gerente e explicar-lhe a situação. Deixei nome e telefone para que a conta pudesse ficar pendurada e eu pagá-la depois. 

Já saia com meu carro da garagem a céu aberto e empurrei o cartão do estacionamento na maquininha que libera a cancela quando, sobre ela, pousou um passarinho todo faceiro, olhando para um lado e para o outro, cantando feito um louco, na altura da minha mão, a menos de meio metro de mim, sem medo algum. Ele ignorava totalmente fato de eu ser predador natural, o meu tamanho ante o seu, o barulho do carro ou a cancela a se levantar. Eu poderia tocá-lo com minha mão tranquilamente. Fiquei ali parado a observá-lo por uns minutos e acelerei o carro em seguida, deixando-o ali, sobre a maquininha, a cantar, como se rindo da minha cara. Olhei o céu limpo e azul do planalto central esperando ver alguma nave espacial. Nem uma nuvem sequer. Tudo azul.

Pensei, ainda no restaurante, que tinha sido abduzido. afinal, a carteira do meu amigo em nada se parece com a minha e o celular muito menos. Quando vi o passarinho, tive certeza ser ele o E. T. que estava ali naquela forma alada, a gozar de minha cara.

A minha carteira eu tinha mesmo esquecido em casa. Não fumei nada. Aliás, não fumo nada. Mas se tivesse fumado, a danada tava estragada. Mas o juízo é que não achei até agora.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

UMA REFLEXÃO SOBRE FÁBULAS



Do alto de seu púlpito, falando para um público cauterizado pela ignorância, aos berros, com total empáfia e demonstrando desrespeito para com a religião alheia, o pastor contava aos incautos ouvintes a estória de Lord Ganesha, deus do riquíssimo panteão indu. Eu já estava a me retirar, não só porque já conhecia a estória desse deus, mas, também por desprezar a forma como aquele pastor ridicularizava o lord Ganesha e todos os que nele acreditam. Mas eu fiquei curioso para saber o desfecho daquele discurso insano e me preguei no banco duro de madeira. 

Lord Ganesha, segundo a fábula, já estava concebido no ventre da esposa de um guerreiro que saíra para a guerra desconhecendo que a deixara grávida. Ao retornar para sua casa, sete anos depois, encontrou a brincar o menino de seis anos de idade. O guerreiro concluiu que sua esposa o havia traído quando de sua ausência e, enfurecido, sacou da espada e degolou a cabeça do menino. A mãe em desespero saiu à procura de um animal qualquer ao qual pudesse cortar-lhe a cabeça para grudar no corpo de seu filho desfalecido. O primeiro animal que lhe apareceu foi um elefante. Ela lhe cortou a cabeça e grudou no corpo do menino que virou, desde então, Lord Ganesha, deus destruidor dos obstáculos. 

O pastor peguntava aos presentes como alguém podia acreditar numa estória tão infantil, ingênua e ridícula, dentre outros adjetivos nada respeitosos. Todos riam do que o pastor dizia. Menos eu que, indignado, procurei o pastor, por pura prudência, depois do culto, para perguntar-lhe se ele acreditava que uma serpente falara, em voz audível, com a Eva no paraíso. Se ele acreditava que tudo havia sido criado em seis dias, do nada, e que seu deus, todo poderoso, cansou-se a ponto de decretar feriado no sétimo dia. Se ele acreditava que Jonas havia sido engolido por uma baleia que, depois de alguns dias, empanzinada com a indigesta presa,  o vomitara vivo. Que um jumento falara com quem o surrava. Que Jesus um dia virá, montado num cavalo branco sobre nuvens, com todo o seu exército, flutuando sobre elas como se nem peso de algodão tivesse, etc... etc... etc...

O pior é que a sua resposta foi afirmativa, embora, seus olhos demonstrassem total insegurança. Eu lhe informei que tais estórias, contadas todas no "livro da verdade", a bíblia, eram tão fantasiosas, ingênuas e infantis quanto a deus Ganesha. 

É que o macaco senta encima do rabo e dana a falar do pitoco do coelho. O telhado é de vidro mas... vamos jogar pedra no telhado dos outros. Me retirei do ambiente certo de que ali não mais voltarei. Só não foi tempo totalmente perdido porque deixei no pastor a insegurança e, queira Deus, a reflexão. 

Wanderley Lucena

domingo, 18 de setembro de 2011

Janela Indiscreta

Fazia tempos que via desde uma de minhas sacadas - e nem são tantas assim - duas moçoilas e uma septuagenária, nuas em pêlo, a desfilarem pelos cômodos de seu apartamento. As moças enfiavam as mãos nas suas cavidades íntimas, como que a se coçarem por causa de algum cricri, enquanto conversavam umas com as outras, descontraidamente. 

Talvez não soubessem que os vidros fumês de suas janelas as protege dos olhares externos apenas durante o dia e que, à noite, de luzes acesas... de fora para dentro tudo se vê e que, ao contrário, quem está de dentro, nada vê a fora. Inverte-se o efeito fumê das vidraças.

As moçoilas jamais poderiam posar nuas para qualquer revista masculina e a septuagenária... Embora não gostasse do que via, permanecia hipnotizado a olhar a intimidades das moças.  Mas comprei uma lanterna neon e, numa noite em que se encontravam mais à vontade do que a Eva no Paraíso, danei a piscar o neon na direção delas. Muito tempo depois elas me perceberam e, assustadas, cobriram-se em toalhas de emergência.

Do outro lado do meu ap, noutra sacada, há tempos atrás, um rapaz, andava para lá e para cá, todas as noites, segurando um telefone com os ombros à orelha, nuzinho como Adão antes de perceber-se em pecado. Não só nuzinho, mas excitado, a fazer sexo consigo mesmo, num vai-e-vem frenético com uma das mãos - nada que o caro leitor nunca o tenha feito - em êxtase, a revirar olhos... e, por vezes, a atacar a geladeira com as partes traseiras arrebitadas na cara de quem o via. Se satisfazia o guloso, nos dois sentidos.

Não sei se o moço entrava em transe depois de fumar algumas folhas colhidas do imenso pé de maconha plantado em belíssimo vaso, com certeza, chinês, talvez ming, que estava postado, devidamente, de forma a pegar o sol dos trópicos. Impressionante a vitalidade da planta e a do moço ao fazer-se sexo todas as noites, talvez, sabendo que podia ser observado desde o meu prédio por quem o quisesse.

Mas o tal moço mudou-se e ocupou o mesmo apartamento um outro rapaz gordinho - e "gordinho é apenas para não ser agressivo sem necessidade - que decidiu dá novas cores às paredes. A pintura, feita por ele mesmo, era sempre efetuada à noite, com o dito cujus de pincel em punho - e tudo bem...  a beleza está nos olhos de quem ver - vestido em uma cueca tamanho "P", mostrando a quem quisesse ver, o seu imenso cofre e seus imensos pneus, além dos pêlos degringolados que lhe cobriam o corpo e que me lembravam, em muito, um gorila que vi certa vez no Geographic Channel. Pelo menos o gordinho não tinha nenhuma erva plantada na cozinha em vaso paraguaio.

No mesmo prédio das moçoilas, doutra feita, um pintor, dessa vez, profissional, também à noite, decide dá uma pausa no seu árduo trabalho de pintura num apartamento vazio e, pára pra descansar um pouco de sua labuta, a olhar displicente pela janela, protegido pelo mesmo vidro fumê. O rapaz começou a acariciar-se e, os mesmos movimentos frenéticos de vai-e-vem deixaram o pintor tarado a contorcer-se, a abrir a boca e a roçar os lábios com a língua. Uma cena medonha que podia ser vista por uma imensa platéia.

Considero que tais cenas fazem parte da modernidade. Coisa de quem mora num conglomerado de prédios. Mas se eu morasse num sítio as cenas seriam com as galinhas, com os porcos, com as joaninhas, enfim... considero que é coisa de quem está vivo. Tanto de quem viu, quanto de quem fez. Ademais, é melhor que ser ser cego.

sábado, 17 de setembro de 2011

TEMPO, TEMPO, TEMPO.

É incrível como, no melhor da vida, quando curto minha sonhada e merecida aposentadoria, o tempo passa rápido como um trem. O dia ficou menor, muito menor. Acordo, tomo meu café, mal entro no computador, dou uma fuçada na net e já é hora do almoço. Depois de fazer uma "siesta", quando dá, já é hora de ir pra academia. Chego em casa e já está na hora da novela das seis. Logo já ouço jingle do Jornal Nacional. Um lanche noturno e já estou vendo meus lençóis a me chamar, como se feiticeiros, a lançar-me a algum tipo de encantamento. Quando menos espero já estou no braços de Morfeu. 

Fico pensando que se o tempo passa, a idade aumenta. Se a idade aumenta, a morte se aproxima. E queira Deus morra eu de morte morrida e não de morte matada. Bem que o relógio podia atrasar. As horas podiam passar mais devagar. O dia podia ter o dobro de horas. O ano podia ter o dobro de dias. 

É bem verdade que acordo mais tarde. Saio quando quero e sem hora pra voltar. Não tenho a rotina obrigatória do trabalho. Tenho a rotina inevitável dos afazeres domésticos. Acordar é necessário, assim como, preparar o café, sair pra almoçar, pra ir ao banco... e assim por diante. Mas certo é que o tempo se esvai como a areia por entre os dedos. 

Certa vez ouvi o Paulo Autran a dizer que a vida só é boa por causa da morte. Sem a morte, a vida seria um verdadeiro inferno, dizia ele. E concordo. Mas cadê a fonte da juventude? Juro que transformaria a minha vida em inferno. Beberia uma garrafa da tal água. Talvez tomasse um porre. Andaria borracho a sorrir, a cantar, a dançar e... riria para as paredes. 

Se não tenho a fonte da juventude, sugarei até a última gota do que a vida me oferece. Viverei intensamente. E nessa caminhada levarei o mínimo de bagagem. Pararei para falar com estranhos e farei amizade com eles. Não quero saber: me recuso a está morto em vida. Vive la vie! Vamos a Paris?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

DESEJOS DE CRIAÇÃO


Esse negócio de escrever parece que vicia. Tem horas tenho desejos de escrever. Desejos de criar uma banalidade, uma trivialidade, talvez, uma densidade. Só pra escrever mesmo. Escrever por escrever. Manifestar-se vivo. Como quem ataca a geladeira mesmo sem está com fome.

Por vezes fico pensando mil coisas, mas nenhuma delas me serve de inspiração. É como olhar para dentro da geladeira lotada e nada querer comer porque  nada abre o apetite. É chato quando não vem a inspiração. É como um empanzinamento, uma má digestão, uma azia, uma queimação estomacal.

Por vezes, quando menos espero, vêm frases, estórias completas, idéias mil. Um redemoinho invertido que desce desde os céus e despeja sobre minha cabeça, borbotões de inspiração. Tudo na mesma hora, ao mesmo tempo. Por vezes, corro para o computador e dano a digitar sem parar. Depois é fazer as correções e postar. 

Tem horas que não adianta... mesmo que a inspiração seja ótima, a preguiça é maior. Fico tentando gravar na minha mente tudo o que se me passa. No outro dia, quando tento lembrar, muitas delas já se  me foram e, por mais que eu force, nada do que se me ocorreu ontem, se me vem hoje.

O que acabo de escrever é, por exemplo, um desses momentos de improdutividade, de inércia criativa. E não é que acabei produzindo!

Agora... deixa eu ir ali na cozinha ver o que tem na geladeira!

Wanderley Lucena

sábado, 3 de setembro de 2011

VINAGRETE SEM VINAGRE



- Quando vais me fazer uma das tuas personagens em um dos seus contos? - perguntou-me o amigo Beto, à minha frente, numa mesa de boteco da cidade.

Causou-me certa surpresa que meu amigo estivesse a esperar que eu o fizesse personagem em alguma das minhas estórias frugais.

- Talvez neste momento estejas virando uma... - respondi bem humorado - ...ou não! - conclui em tom debochado e aos risos.

A noite estava com um vento gelado e incômodo. O serviço do bar não era do melhores, mas, estava a contento. De repente, a farofa que acompanhava meu espeto de frango, veio para o meu colo num movimento em falso do meu garfo e tudo que era de farinha voou para fora do prato, por sobre a mesa e para  o chão... mais parecendo uma tempestade de areia no Saara. Sim, era um garfo mesmo. Farofa com garfo, creia-me!

Acompanhava o espetinho, uma vinagrete sem vinagre. Percebi a carência do ingrediente e perguntei pelo vinagre do vinagrete ao simpático garçon que, depois de algum tempo, retornou informando-nos que não havia "vinagre" no estabelecimento. Sim Senhor! Farofa com garfo e agora... vinagrete sem vinagre. Pedi limão e me veio um quarto dele. Tudo bem... estavam a economizar nos sabores azedos. Mas eu era que começava a azedar... e azedo fico ácido por demais.

Fui explicar ao meu amigo e ao garçom que "vinagrete" vem de "vinagre", portanto, aquilo não era "vinagrete". Meu papo era quase tão chato quanto o do casal da mesa ao lado. Dois professores de matemática engataram, em alto e bom som, um colóquio "cabeça" sobre álgebras, triângulos e hipotenusas. O professor, inflado como um pavão, tentava impressionar a professora com sua vasta experiência como mestre de matemática. O mais surpreendente é que parece que conseguia, pois, a professora parecia encantada com ele e suas divagações. Mal conseguíamos disfarçar a vontade de sairmos "voados" para mesa em canto oposto ao deles ou do próprio estabelecimento, de uma vez por todas.

Em seguida, uma garçonete nos trouxe novo espeto de frango sem que houvéssemos pedido. Houve duplicidade de pedidos. Entretanto, precavidos, o aceitamos sem qualquer objeção, haja vista, nossa fome e o serviço lento.

Bem... mas agora vou concluir a presente crônica porque tenho de ligar ao meu amigo para que ele a leia e constate que, finalmente, virou personagem e não mais vai poder me cobrar por tal negligência.

Wanderley Lucena

sábado, 27 de agosto de 2011

A LEI DO RETORNO - (Uma crônica pesada para... descontrair).


"Eu lhe desejo a Lei do Retorno" - Ouvi o velho clichê e fiquei pensando na tal Lei Espiritual que prega: "o que você fizer ou desejar, voltará para você". O moço não me desejava que a tal lei se me retornasse por causa das tantas coisas boas que produzi e sim, pelas coisas erradas. E todos erramos... e todos acertamos.

Oras! O moço ao me desejar a lei do retorno, conforme se via em seu olhar amargo e ressentido, queria me ver como motivo de escárnio, leproso, quiçá... morto, num futuro muito próximo. Com certeza ele iria sentir-se vingado e, porque não, feliz e agradecido ante a natureza e sua justiça implacável e infalível. Ocorre que o moço, em sua amargura e rancor, ao intentar-me tanto mal com a lei do retorno, esqueceu-se que o seu desejo para comigo pode voltar-se contra ele também, segundo a mesma Lei. 

Eu fico com o ensinamento simples e nada novo do Profeta Gentileza: "Sorria para o mundo e ele sorrirá para você"; "Gentileza gera gentileza" e etc... e tal. Mas, não tenho nenhuma vocação para a santidade. Nunca fui santo. Sou mesmo um pecador assumido e "carente da graça de Deus". Que ele tenha misericórdia de mim e do moço rancoroso e de seus desejos tão turvos. 

Não sei se a Lei do Retorno existe, mas precavido... desejo ao moço tudo de bom. Saúde e paz! O resto a gente corre atrás. Mas um banho de sal grosso tomei logo que cheguei em casa. É que "prudência e canja de galinha não faz mal a ninguém", não é mesmo?

Wanderley Lucena

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

CRIANCINHAS NADA INOCENTES


Eu vi as imagens nos jornais televisivos das crianças, menores de 11 anos, a depredar os órgãos públicos e fiquei indignado. Viciados em crack eles invadiram um hotel na "cara dura". Ao serem flagrados, reagiram destruindo tudo o que podiam alcançar. Os policiais os levaram para a Delegacia e depois para o Conselho tutelar. Depredaram as instalações enquanto eram observados pelas autoridades impedidas de agirem ante a lei vigente que protege tais criancinhas inocentes.

Mas em seguida fiquei pensando no que aconteceu para que tais criancinhas, nada inocentes, tão precocemente, tivessem perdido a sua infância e no fato de preferirem o crack, a violência das ruas, os bueiros de esgoto, etc... aos seus lares, às suas famílias. O que poderia estar por trás de tanta agressividade?

Gritou na minha cabeça, de imediato: O ESTADO! Sim, a ausência do estado no social. Aquelas crianças jamais tiveram família. É na família onde aprendemos os primeiros valores. É no exemplo e dedicação de nossos pais que miramos o futuro e desejamos ser adultos como eles. É com o amor que aprendemos a amar.

Minha revolta se deslocou para essa imensa estrutura invisível chamada "ESTADO". Pois esse imenso elefante também virou prisioneiro. Ele está acorrentado por uma das pernas. Quem o acorrentou quer apenas aproveitar-se de toda a energia que ele dispõe. O ESTADO não consegue dar um único passo em direção a quem dele precisa.

O ESTADO serve aos políticos. O estado é possessão dessa corja. O Maranhão virou um feudo que passou de pai pra filho. O velho senhor feudal apropriou-se do Acre. Roraima tem um bigodudo por proprietário. Enfim... não citar aqui todos os estado da federação. Mas certo é que todos eles tem o seu dono.

Quem pode mudar essa realidade continua a dormir indolentemente. O povo assiste a tudo. Ver a miséria e os impostos arrecadados desviados em bicas gigantes para os bolsos desses indivíduos. Quando acordarmos e nos levantarmos contra a tirania, tomara, o Estado volte a ser aquele idealizado pelos gregos.

O Estado se interessará por manter o cidadão com dignidade a ele inerente. Família, educação, segurança e saúde não estarão em último plano. As nossas crianças não largarão seus confortáveis edredons para morarem em bueiros nem serão os animais irracionais que vimos na reportagem.

Então... agora sei quem roubou a inocência da criancinhas e quem aprisionou o Estado. Mas outra pergunta me martela a cachola: quem é o culpado por tudo isso? Já sei a resposta: eu e você... que pagamos impostos e, no entanto, permanecemos inertes ante tais descalabros e injustiças e nada fazemos. Eu e você... que elegemos o bando que se estabeleceu no Congresso Nacional, em todos os poderes, e fizeram refém, o ESTADO.




domingo, 21 de agosto de 2011

OTIMISMO A TODA PROVA




"Como não vou ser otimista?
Tenho meu bote e o mar".





RIVOTRIL



"Silencie a sua mente e conseguirá aquietar o seu coração", diz o provérbio
Silenciar a minha mente...
Puxa vida!!! Fiquei a pensar em como fazê-lo.
Achei a resposta:
Dez gotinhas de RIVOTRIL bastam.

Wanderley Lucena

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

MENTE QUIETA



"Tudo é uma questão de manter a espinha ereta, 
a mente quieta 
e um coração tranquilo".

terça-feira, 16 de agosto de 2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

ORA BOLAS!



Ora bolas! Não me venha com chorumelas. O momento é denso, é crítico. Contas a pagar, menino pra criar, patrão pra cobrar horário, mulher pra me aporrinhar. Mas, eu aguentaria isso tudo com bom humor não fosse a Dilma a pedir para conter os gastos, haja vista, a crise mundial. Não seria o pagamento das eleições? Que tal não pagar os patrocinadores de campanha? Que tal colocar ministros e suas quadrilhas na cadeia e reaver todo o patrimônio por eles desviado? Por favor, D. Dilma, deixe meu bolso em paz. Eu pago minhas contas e não gostaria de pagar as suas e, ainda, as do barbudo, sem falar nos tonéis de pinga que ele toma. Mas se tenho que pagá-las, honre o meu suado imposto e me deixe gastar tanto quanto o meu dinheiro me permita. Eu administro minhas crises, minhas contas e tudo o mais. Por favor, invente outra boa desculpa, uma que me convença de que sou mesmo o culpado da crise mundial a que estamos submetidos. Administre sua crise. Eu estou a administrar as minhas. Obrigado!

Wanderley Lucena

domingo, 14 de agosto de 2011

RETICÊNCIAS



Mas pra quê tantas reticências?
Pra quê tantos pontinhos?
...três pontinhos no início
Três pontinhos no final...
Oche! Os pontinhos mostram um caminho?
Formigas passando ao chão?
Grãos de açúcar sobre a mesa?
Caca de rato?
Se não são as reticências...
É a interrogação?
Outro ponto que insiste na redação
Essa curva tão acentuada que parece cabo de guarda chuva
Cachos de cabelo caídos no piso do salão?
A bengala do vovô?
A pergunta que não quer calar?
Que muitas vezes fica sem resposta, e...
Taí  de novo a reticência
Então... que venha outro ponto
Que grite...
Sou reticente!
Mas dessa vez com exclamação.

Wanderley Lucena

PÁGINA VIRADA


Leste o livro que te emprestei
...e quantas páginas viradas...
não me leste.
Interpretaste tão bem
...e quanta eloquência...
não me compreendeste.
Fico cá a imaginar
...de mim que pensas...
não te importo.
Quero meu livro de volta
...se quiseres vir junto...
não sei se te quererei.
O livro que te emprestei
...se o me trouxeres...
com certeza o receberei.

Wanderley Lucena




sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PÉ NA JACA


O mundo está em crise. As bolsas financeiras desabam. A presidente pede prudência no consumo. Descobriu-se que o ouro era de tolo. Para que o sistema bancário não venha à falência, os governos injetam bilhões de dólares. As guerras levam outra grande quantia. As eleições são, da mesma forma, bilionárias. A corrupção generalizada é bolso roto por onde escoam metade ou mais do recolhido. Eles nunca sabem de nada e nunca são punidos. E quem tem de pagar a conta sou eu? Francamente! Tudo desabando e eu aqui pensando: querem me culpar pela queda. No fim, sei que vou terminar por pagar a conta deles. Não podem dar aumento de salário, a saúde uma calamidade, a educação... nem falo, e o resto todo do mesmo jeito. Cadê os estudantes? Vamos para a rua fazer a revolução. Na verdade... que vontade de enfiar o pé na jaca e mandar a conta para a presidente pagar. Há! Mas ela não paga as minhas contas. Porque mesmo que eu pago as dela? E ainda pago as do Sarney, do Jucá e todo o resto da cambada. 
Poxa! Que sacanagem! Só eu que pago o pato! Cansei dessa brincadeira!

Wanderley Lucena

HOMEM SÁBIO







"Um homem sábio pode considerar a vida uma comédia, uma tragédia ou uma farsa e, ainda assim, gozá-la".


Harry Emerson Fosdick



terça-feira, 9 de agosto de 2011

SEXO! (uma crônica para maiores de idade)



'Sexo: é quando você ama tanto alguém que quer morar dentro dele'.

Li essa definição para o sexo e fiquei refletindo no quão feminino me soou. Tal definição foi escrita, criada, por uma mulher, óbvio. Apesar de reconhecê-la linda, sei que o homem, o ser masculino, quer fazer sexo com todas e, se possível, com todas ao mesmo tempo. Homem não pensa em amor quando faz sexo. É que "homens são de marte e mulheres são de vênus", deve ser isso.

Homem que faz sexo com uma única mulher por toda a vida, se existe este homem, ele deve ser estudado e colocado em algum museu. Seria a raridade das raridades. Mas este homem não existe e se existe deve morrer de vergonha de declarar sua sorte aos demais. Seria motivo de escárnio dos demais.

É verdade que, em contraste, a modernidade apresenta essa nova mulher, dona de seu próprio corpo e pagadora de suas contas. Ela dá pra quem quiser. Se não dá é porque é covarde mesmo, porque não o quer ou por alguma frigidez. Ou porque é alguma feia, o tipo bruxa, a quem ninguém quer. Mas conheço feias que dão muito. Conheço feias lindas. Conheço lindas horrorosas. Mas as lindas horrorosas só não dão se não quiserem. Elas dão sem muito refletir. Elas podem até descobrir que foram usadas e não amadas, mas concluem que também agiram da mesma forma. Elas por elas. E se dão por satisfeitas.

Mas é claro que um certo recato cai bem na mulher. Acho até que lhe é próprio por natureza. Já o homem... esse age como reprodutor. Basta sentir o cheiro da fêmea. Basta ver as formas arredondadas da cintura. Não precisa nem sentir o cheiro não. Parte para o abate... por mais vulgar que minha redação possa parecer.

E não estou a fazer nenhuma defesa da promiscuidade. Acho mesmo que há momentos em que parece que achamos a pessoa que nos preencherá para o resto da vida. Ledo engano. Logo descobrimos que não existem príncipes encantados mas, sim, sapos cururus, tampouco, princesas puras e castas enclausuradas em torres. Elas viram megeras logo depois de trocar as alianças.

Todos têm o direito de ir-se, independente do sexo, independente de sexo.  "As coisas que amo, deixo-as livres". O amor que possui e aprisiona não é verdadeiro. O amor não depende, nem co-depende. 

O amor não é eterno. É sentimento humano que pode ser tão fugaz quanto a estrela cadente no céu. E ele não deixa de ser verdadeiro por isso. Se alguém disser: eu te amo - pode ser a mais pura verdade. Verdade que vale apenas para o momento em que é dita. Amanhã é outro dia. Não sabemos as suas dores nem dissabores. Que vivamos o agora!

E amor não é sexo. O sexo não tem que ser com amor. Sexo é selvagem. Sexo é necessidade fisiológica. Ao menos para os homens. É também vaidade. Sim, homem gosta de se sentir o dono de harém. Homem é animal quase irracional. Não consegue, muitas vezes, dominar seus instintos. N'outras vezes é por puro egoísmo mesmo. Não pensa na família que tem e no sofrimento que sua atitude poderá causar aos seus entes queridos. 

Respeito é amor. Amar é respeitar. É querer possuir, porém, dominar seus instintos em seguida. É saber que pode, mas não deve e... controlar-se. Fazer isso por respeito a si próprio e depois, por respeito ao outro, aos outros. Por não querer tornar-se bestial. É voltar para casa e saber-se merecedor do abraço do filho e do beijo daquela que o espera com a comida quentinha e, depois, ainda lhe oferece o... SEXO!

Wanderley Lucena

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DUERME NEGRITO




Duerme, 
duerme negrito...
Que tu mama está en el campo,
 negrito.

Mercedes Sosa





LUNA GITANA



Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.

Federico Garcia Lorca




quinta-feira, 4 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CASA TERRA

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Nesta seca desértica, tudo o que mais queria era ouvir o estrondar assustador de um trovão. Na verdade... queria mesmo era uma imensa trovoada. Daquelas acompanhadas de ventos ameaçadores. Queria eu ver o céu escuro feito breu ao meio dia. Que o sol se acovardasse e se escondesse. Que pingos gigantes começassem a cair sobre os tetos, sobre a terra poeirenta e o cheiro de terra molhada se me chegassem às narinas como perfume de fina essência. Que as águas escorressem para as calhas e grotas e adentrassem às entranhas da terra. Que voltassem essas mesmas águas, agora puras e cristalinas, a surgir nas nascentes dos rios. Que os rios corressem cálidos e complacentes rumo ao mar. Que o equilíbrio fosse perpétuo e não fôssemos nós, os seres humanos, criaturas desestabilizadoras da ordem natural das coisas. 

Que tais águas dessem vida e matassem a sede de todos os viventes. Que fôssemos gratos e reverentes ante tal manifestação da natureza. Que a respeitássemos e a quiséssemos manter limpa e cristalina. Que soubéssemos que nossa casa não termina quando fechamos a porta. Que não jogássemos lixo nas ruas como não jogamos na sala da nossa casa. Que entendêssemos que nossa casa, afinal, chama-se TERRA. Que soubéssemos respeitar ao planeta como presente maior, de Deus, do cosmos ou mesmo do acaso. Que a nave terra não fosse por nós implodida. Estamos destruindo a este planeta como os vírus destroem nosso corpo. Somos a causa da doença neste corpo chamado terra. Estamos matando a quem nos alimenta. Sugamos tudo até a última gota. Uma pena mesmo!


A poeira cobre a cidade com um marrom pavoroso e a seca retira toda a umidade existente. Meu nariz arde quando respiro e os meus lábios, de tão ressecados, racham e me fazem sangrar. O ar que respiro me adentra aos pulmões como se fumaça de vulcão a queimar-me as vias. Minha pele se esbranquece em efeito craquelê. De tão ressecada pode ser riscada como se fora um quadro negro. 


Besunto-me com toneladas de cremes. Creme para o rosto, para as mãos, para o corpo. Não funciona direito. Minhas cutículas estão esfoladas e meus pés parecem maxixe.


Tomo, no mínimo, dois litros de água por dia no intuito de me hidratar. Evito determinadas comidas. Evito atividades físicas no horário em que o sol está mais quente. Sigo à risca todas as recomendações da saúde pública.


Utilizo-me de toda a parafernália existente. Dois aparelhos, um que umidifica e outro que climatiza, estão a aspergir vapor de água no meu quarto. Mesmo assim é difícil. O que deveria ser solução, traz diversas outras consequências, várias delas, danosas à minha saúde. Os tais umidificadores são verdadeiros viveiros de colônias de fungos e bactérias que, se instalados no pulmão do pobre vivente... bau-bau. Eu me assustei quando fui fazer uma faxina nos tais aparelhos. Bolor e fungos que podiam encher um prato fund!. Taquei água sanitária na colônias e me senti um exterminador.


Na poeira acumulada no ambiente, embora todos os cuidados necessários para extirpá-la, habitam ácaros. Indivíduos horrorosos que olhados por meio de lente de aumento, parecem em muito com os monstros marcianos de um filme trash qualquer. Se não controlados podem provocar diversas doenças.


E tudo causa da escassez das chuvas. Que venham as chuvas! Melhor: vamos embora daqui? Para onde? Para outro planeta? - Sim. E faremos tudo diferente? - Me engana que eu gosto!


Wanderley Lucena

sábado, 30 de julho de 2011

TONS



Busco cores amareladas
A mostarda 
A canela
O outono
Se não as acho
Busco os vermelhos tons
A paixão
A púrpura
Da nobreza da corte
Do sangue
Do azul turquesa
Do mar do Caribe
Do céu do Brasil
Na falta delas
Cai bem o preto
Da elegância
Da negritude
Da África
Cai bem o branco
Da paz
Da saúde
Do réveillon
Da discrição
O preto e o branco
Do Charles Chaplin
Das fotos velhas
Iluminação em espaço 
Em paisagem
Contraste de propósito
Comedido fico a te admirar
Estupefacto sempre.

Wanderley Lucena