sábado, 1 de abril de 2017

Somos Dois

Foi numa noite escura e preta como breu que sai de casa, sem eira nem beira, apenas porque eu queria sentir a escuridão. Botei o minha jaqueta de capuz e dobrei a esquina a caminhar com molejo exagerado, pendendo para um lado e para o outro. Eu conhecia bem aquelas quebradas. Não fora o meu receio ante a escuridão eu diria que tudo era igual. Passei a sentir os cheiros e ouvir o que acontecia ao redor.

Só não quero é ir muito longe! Quero morrer de velho. E nem sai de casa com algum trocado para agradar o ladrão caso me apareça. Documentos também, deixei-os em casa. Caso me morra, morrerei como indigente! A ideia não me agrada nenhum pouco. Tem esses tênis velhos e a jaqueta de capuz, a calça e a camiseta surradas. Espero me deixem a Calvin Klein pra me esconder as vergonhas.

Alguém tropeçou num balde ali? Ou seria só um gato a fugir e a esbarrar em alguma bacia? Tem vozes vindo dali. Seriam os drogados? Os moradores de rua? Perai! Tem alguém chamegando ali naquela calçada imunda dentre aqueles cobertores velhos e fedidos. Mas, e daí? Só porque estão em situação de rua?

- Boa noite! - falei ao bicho doido, rastafári, que passava com um cigarro no bico e as mãos dentro do bolso da jaqueta.

- Tem cigarro ai? - Se o cara estava a fumar um cigarro... pergunta idiota!

O doido parou e me ofereceu o cigarro que eu nem fumava. Na verdade, só queria interagir. Fiz-me de "mala" e perguntei: Tudo beleza, véi?

O cara encostou na parede, levantou o pé o grudou na parede, Odeio gente que põe o pé na parede dos outros. Mas, eu queria voltar para casa são e salvo. Fiz-me de igual e, também, levantei a perna e sapequei o pesão na parede. Tossi bastante e joguei o cigarro fora. Ficou evidente a minha inabilidade com o tabaco. Justifiquei e informei que eu não fumava nadinha e que só queria mesmo era manter algum contato com essa gente que vive na noite, na escuridão.

O rapaz sorriu bastante e me informou: Somos dois!


Wanderley Lucena




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