quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tio Esaú


- E tio Esaú, mãe? A Senhora tem notícias dele?

- Ô Maninho! Parece que as coisas lá não estão boas não. É tanto sofrimento há tanto tempo. Ele não anda mais. Rasteja pelo chão quando quer ir de um canto ao outro. E agora, fiquei sabendo, que já nem rastejando chega a lugar nenhum.

- Pois é, minha mãe. Eu estava falando com um primo de lá. Disse que todos já estão torcendo para que ele se vá de vez. Tá sofrendo muito, dando muito trabalho. Tia Eulina cuida dele dia e noite, parece que tá raquítica de tanto lidar com ele.

Era pouco mais de meio dia quando vi as lágrimas rolaram pela pele enrugada do rosto de minha mãe. O seu irmão mais velho, centenário, já com uma perna amputada há tempos por causa de uma trombose, estava prestes a partir dessa para uma melhor.

Naquele exato momento eu tive a sensação de que ele morria. Cheguei em casa por volta das 15h e vi que meu primo me chamava ao telefone.

- Diga à titia que Tio Esaú acabou de falecer!

Eu chorei! Liguei antes para minha irmã que, zelosa e cuidadora, se dirigiu à ela e lhe deu a notícia.

- Eu já esperava. Foi melhor assim! – respondeu ela com as lágrimas fartas a lhe caírem mais uma vez.

Liguei mais tarde para saber como ela estava e minha irmã me pediu, falando baixinho, que não mais tocasse no assunto e que ela estava bem. Ela estava confortada e conformada.

O que nos faz querer aproveitar cada minuto da vida é a certeza de que vamos morrer. Estou certo de que a morte, por mais que não pareça aceitável, nada mais é que mais um momento da própria vida. E eu acredito mesmo que, não fora a morte, a vida seria verdadeiro inferno.

Wanderley Lucena



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