quarta-feira, 20 de abril de 2016

Desfrute e Deleite

Vivo a me assustar com trupicos e tropeções. Qualquer valeta me faz pisar em falso e me desequilibro. Por enquanto chega a ser divertido. Rio com a insegurança de minhas pernas ante os degraus da escada. É mesmo inevitável a distração ante a cena do quotidiano de cidade agitada na qual vivo. Ademais, tem o celular e o maldito watssap que me faz ficar a teclar ou a ler mensagens, mesmo que me deslocando à pé. E quando o sol está aberto, à pino, fica ainda mais complicado. A tela, praticamente, desaparece e fico a insistir em ver o que me chegou. Sem que perceba a calçada se acaba e há um degrau. Um poste me aparece de repente e bem no meio da cara. Um susto e me recomponho. 

E sei que é porque se me chega a velhice. Não é apenas descuido ou desatenção. Não é acidente puro e simples. Até porque sinto o peso quando vou tomar banho. Há um medo de cair e de me machucar. Antigamente não existia isso.

Se por enquanto é divertido perceber-me às portas da velhice, sei que chegará o dia e a hora em que a amaldiçoarei. Sei que me quebrarei um osso a qualquer hora. Se for apenas um dedo, vá lá. Mas e se for a cara? Sim, porque já quase acertei em cheio alguns postes fincados no meio das calçadas. Eu sei da minha imprudência. Mas, quem resiste à tentação? Como deixar para ler em casa a mensagem no telefone quando você já a espera com alguma ânsia? 

Pois bem, os dias sobre a terra, segundo consta, são para desfrute e deleite. Não vou antecipar a dor. Que valha apenas o dia de hoje. O amanhã ainda virá e eu espero que ele me seja tão bom quanto este dia que estar a ser muito bem vivido. As dores de hoje eu já as esqueci. Os dissabores não os levarei em conta. Que venha a alegria de viver e que a dor seja apenas a certeza de que se estar vivo.

Wanderley Lucena



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