quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Baldiação

Vendi meu carro e não pretendo comprar outro tão cedo, haja vista, os custos de manutenção altíssimos neste país. A gasolina com preços estratosféricos, por si só, já justificaria minha atitude. Mas, existem os famigerados IPVA, lincenciamentos, etc... E, ainda, pneus, lavagem, estacionamentos, etc... etc...

Hoje, depois de não sei quantos anos a andar de carro, fui pegar um ônibus. Queria chegar até um shopping no centro da cidade, porém, teria que pegar, não um, mas dois ônibus, ou seja, teria que fazer uma "baldiação", na lingua local.

Minha saga começou por volta das 9h quando o sol já está à pino - e aqui o sol está à pino desde muito mais cedo. O sol aqui, às 5h já está nascido e bem alto. Em compesação, `s 17h30min já é noite escura, de meter dedo no olho. A parada do ônibus era marcada apenas por uma placa azul com a figura de um onibus colada num poste torto de iluminação pública. Já suado e incomodado com o calor, tentei me enquadrar à esquálida sombra que me dava o poste. Exercício hercúleo já que sempre me ficava alguma parte do corpo a torrar no sol.

Enfim, uma minivan, atende ao meu aceno. Ao entrar senti como que a baforada de um caldeirão nos infernos. O interior estava abafado e fedorento. As janelas eram pequenas e mal abriam. O transporte público por aqui, seja ele qual for, nunca contará com um ar condicionado. Suando às bicas, recepcionou-me o cobrador. Um verdadeiro vampiro. Tinha ele apenas dois dentes, os caninos. Fiquei com a piada na cabeça: um deve ser pra abrir cerveja e outro, côco.

Pra variar, lotadíssima, a van disparou á toda velocidade fazendo curvas e passando por quebra-molas como se fora um fiapo de areia no chão. Ante o meu deslocamento, o simpático vampiro-cobrador desceu uma espécie de tabuleta-banco pregada na parede de minivan. Havia uma lixeira cheia no piso e a tabuleta desceu sobre ela. O cobrador-vampiro apontou-me, gentilmente, a inusitada cadeira à qual não me fiz de rogado e assentei-me, resignado. Peguei a Clarice debaixo do sovaco e folheei em vão. Os solvancos faziam minha mão subir quase ao teto e em seguida ao piso. Fechei-a e fiquei atento à cena ao meu redor, já sabedor que minhas impressões não seriam as melhores. Mas, desafiador que sou, permaneci a observar.


Vi casinhas humildes e sujas; vi lixo espalhado na rua, nas praias e nas ruas; vi mil ambulantes a vender desde caldo de cana a calcinhas eróticas; vi muito mais. Chegamos na Praça da Cadeia onde se daria a tal "baldiação". A praça sob sol escaldante e poucas árvores, estava tomada por todo o tipo de ambulantes que vendiam as mesmas bugingangas, pra variar. Vi num ônibus que vinha, a placa que indicava o nome do shopping ao qual eu ia e dei sinal. Sentei numa cadeira de plástico amarela sem acochoamento e do lado do corredor e não da janela. Péssima escolha a minha. A última cadeira vazia era, justo, aquela ao meu lado e... uma raínha Momo, imensa, uma jamanta de tão grande, decidiu sentar-se nela. Eu fui expulso de meu assento, ou pelo menos metade de minhas nádegas que ficaram no corredor. A gorda era evangélica e danou a cantar hinos que o capeta teria dificuldades de ouvir. Bravamente, permaneci encostado na sua imensa bunda, pedindo aos deuses que me permitissem o bom senso de não me meter com ela numa discussão qualquer. 

Olhei pela janela lambuzada pela maresia de anos e assisti ao ápice da minha ópera, do meu drama: o Salgadinho. Vi e senti o mal cheiro do esgoto que ele virou. Um rio que já teve águas cristalinas, potáveis e caudalosas e que virou um imenso esgoto à céu aberto. Um cavalo quase explodindo com os  gases da putrefação com um enxame de moscas varejeiras a lhe sobrevoar boiava em suas águas a descer lentamente, levado pela força da correnteza preguiçosa em direção ao mar azul e cristalino do mar de Maceió.  O Salgadinho já foi rio de águas límpidas, cristalinas e potáveis - dizem os locais. Pois, foi ele transformado nessa "coisa" que leva desde sofás velhos e podres a animais mortos variados, inclusive, gente. É o progresso! Diriam alguns. Eu acho que é pura falta de educação e consciência ambiental mesmo.

E as boas impressões deste lugar? Dessa viagem tão curta e tão longa? Tentarei achá-las posteriormente, porém, injustamente, não as contarei. Prefiro a tragédia!

O shopping chegou e eu desci aliviado com a sensação de que aquele era um ônibus fantasma. Depois... voltei para casa de táxi mesmo sabendo da facada que me custaria. Mas, dessa vez sem "baldiação". 

Wanderley Lucena

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