sábado, 16 de janeiro de 2016

Roxy do Francês

Aqui tem um lugar chamado Roxy. Isso mesmo! O Roxy bar, na Praia do Francês é uma espécie de estação espacial intergalática. Tenho certeza que a lanterna-flash-apaga-memória de MIB - Homens de Preto - seria usada repetidas vezes ao ponto de acabar a bateria do artefato. Os mesmos MIB's teriam muito trabalho para recolher grande quantidade de seres intergaláticos que frequentam o lugar.

São seres complexos, muito deles, completamente loucos. Tem os "cheirados", o pessoal da "erva", os do Daime, os do Ê e por ai vai. Há! E tem os chatos, como eu, que insistem em nada usar! Será? Dizem alguns que não sou tão chato assim. Há quem goste.

Há toda uma diversidade de excentricidades naquele espaço. Seres de diversos planetas e dimensões se encantram ali para uns goles.  Excentricidade  é a palavra que melhor que melhor define o Roxy Bar. 

Existem seres tão diversos que, desconfio com grande chances de certezas, que são verdadeiros ET's tentando disfarçar-se em humanos. Prostitutas e traficantes e mafiosos; loucos e drogados; falantes e tímidos que mal abrem a boca; tem intelectuais e equivocados - esses  não são os mais chamativos, mas, alguns deles podem se enquadrar, num outro sentido, no contexto dos ET's disfarçados. 

Os evangélicos, por pura hipocrisia, evitam o lugar. Mas, vez ou outra vejo uns aqui e ali a comer uma pizza e morrer de inveja da liberdade dos demais. Muitas moças recatadas com suas saias jeans compridas abaixo dos joelhos e a usar tenis com meias brancas a aparecer e seus costes de cabelhos abaixo dos ombros, conforme manda a bíblia - dizem elas. Elas passam cabisbaixas pela frente do lugar, loucas para ousarem entrar e serem prostitutas como as que ali estão a se divertir e valorizar a liberdade da humanidade que nos é innerente.

Tem os finos e os bregas. A moça feia e bêbada e a santa com cara de Amélia. Tem anjos e demônios. Tem a senhora louca, drogada e barraqueira. Tem mulheres lindas e poderosas e até as puritans que, nem sempre, são evangélicas. Tem amigos e inimigos.

Enfim, a atmosfera é densa desde o serviço até a clientela. Mas, vale à pena sempre. Eu passo todas as noites por lá. Tomo a minha cerveja depois de ficar horas a esperar que algum garçon perceba que não estou invisivel ou que sou apenas uma pilastra imóvel.

Tem frequentadores assíduos e esporádicos. Tem os lindos e os que não podem ser considerados apenas feios de tão horrorosos. Tem mães e pais de famílias; tem empresários e desempregados a pedir que se lhe paguem alguma cerveja. Tem solitários e grupos inteiros. Tem aqueles que aparecem todas as noites ou aquele ao qual se ver uma única vez.

Tem a moça feia que pensa ser bonita e que se veste vulgarmente e a mostrar o corpo despudoramente quase e sempre com o mesmo figurino - um short surrado e horrendo enfiado no "rego" e um sutiã de tricõ na cor branca. Essa fica a jogar o cabelo para lá e para cá enquanca saca fotos selfie a fazer biquinhos e por os dedos, sensualmente nos lábios. Ela sorri para a câmera e tenta mostrar as protuberancias de bunda e peito. É cena constrangedora que atribuo a uma doida de pedra. Mas, doidos de pedra são os tipos mais comuns no lugar. Seria eu um deles? 

A lingua predominante é mesmo o bom e velho português do Brasil - alías, concordo ser o português brasileiro a lingua mais bonita do planeta - mas, por vezes senti-me numa adega italiana. Sim, há muitos italianos no local. O dono é italiano e isso atrai seus patrícios. Mas, ouve-se o francês, o alemão, o inglês e muitos outros idiomas. Mas, o idioma é o que menos importa. 

O serviço é sempre muito tenso e os garções vivem a brigar. É de atmosfera pesada e os serviçais perdem a oportunidade de se divertir ao não perceber e aceitar que o multiculturalismo lhes seria oportunidade para o enriquecimento intelectual e diversão. 

Mas, o pessoal do serviço, por si só, já merecia ser identificado pelo Homens de Preto como verdadeiros ET's.  Um dia me dedicarei a escrever sobre cada um deles que são figuras riquíssimas e podem virar ótimos personagens de uma ficção qualquer. Não quero nomear nenhum deles ante ao fato de que me tornei amigos de quase todos e não quero ser tido futriqueiro que se sente superior. Não! Não me sinto superior. Considero um deles. Sou só mais um excêntrico dentre os tantos frequentadores desse ambiente incrível que se chama Roxy Bar na Praia do Francês.

Wanderley Lucena

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