terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Desejos de Literatura

Tenho desejos de escrever. Já tive desejos de publicar livros. Já tive desejos de ser ouvido. Já tive desejos de ser lido. Agora, já não sei mais. Lendo a Clarice, a Lispector, me identifiquei com ela no quesito "literatura". Clarice escrevia para quem a lia e tinha profundo respeito pelo seu leitor, porém, ela o fazia pelo simples ato de escrever para si mesma. Escrever é ato orgásmico. Talvez um parto derivado de alguns minutos ou de meses ou até anos, a depender do que se escreve. Há textos que se nos vêm e os parimos de imediato. Outros ficam gestando em nossas cabeças por tempos incontáveis até que são paridos. Há os que levam anos sendo paridos. São de parto difíceis e, por vezes, natimorto. Daí, jogamos na lata de lixo o que parimos com tanta sofreguidão.

Se Clarice não queria nem se considerava literata, embora, com tantas bons partos, imagina eu. Sou um neófito nessa arte de parir. Sou, creio eu, na verdade, um engodo. Mas insisto em desejar. E assim me ocorre de escrever em blog o que um dia, queira Deus, publicarei em livro. A depender das críticas, claro! Vou me dirigir, antes de tudo, a quem me avalie com imparcialidade e verdade antes desse passo tão importante e ao qual não quero frustrar-me.

Ontem ganhei de presente um livro de um hóspede a quem considerei apenas um "qualquer". A comentar-lhe sobre minha escrita ele me presenteou com o livro de sua autoria: "Na Terra das Mulheres sem Bunda". O material é primoroso e eu folheei curioso. Vou ler o livro pela capa. Vamos ver o restará depois da leitura. Jamais o imaginei escritor ante a figura bonacha e tatuada dos pés à cabeça. O título do livro tão surpreendente quanto ele próprio. Parece coisa boa. Vou ler sim.

E por falar em literatos, ofereci de cortesia, quatro noites à FLIMAR - Feira de Literatura de Marechal Deodoro em Alagoas - Brasil. Afinal, cabe ao empresariado certa quota de responsabilidade social no fomento á cultura, creio eu. Veio-me um escritor que o reconheci da Globo News. Interessante é que o moço-escritor, quando da entrevista, me convenceu. Mas, já aqui, não gostei nem um pouco do que se apresentou. Era soberbo e desdenhava de quase tudo. Insuportável que era, deu-me, igualmente, um de seus livros. Abri-o e folheei por mera educação sabedor de que o jogaria na lixeira em seguida. E foi o que fiz. Aliás, tomei o cuidado de queimar o tal livro que até que se apresentava com boa capa e com boa formatação. Mas, não sou obrigado a reconhecer que figura tão desagradável, de repente, poderia escrever e, inclusive, escrever bem. Fico com o meu desdém e com o benefício da dúvida.

Mas, o ato de escrever-parir, é como todos os demais partos. Conheci mulheres horrorosas que pariram filhos lindos. Conheci cafagestes que pariram homens de bem e muito éticos. É a mesma coisa. Vamos ver que filhos serei eu capaz de parir. 

O parto é ato solitário e ante o computador que começa com o desejo bem anterior - ao menos no meu caso. Entretanto, alguns diálogos de watssap com amigos inteligentes já me viraram textos - confesso! A cada parto, naturamente, os demais vão ficando mais fáceis. É assim com tudo na vida, creio!

Já tive tantos desejos. Continuo a desejar tanto. Talvez sejam os desejos dos grávidos! Apenas desejo desejar sempre!


Wanderley Lucena


2 comentários:

Unknown disse...

Quando acabei minha graduação em História, passei a querer só literatura por causa do volume de textos ligados ao estudo.

Unknown disse...

Literatura é objeto de salvação (Clarice diz que é a amizade).
Adê