sábado, 23 de janeiro de 2016

A Garçonete e a Privada

O pessoal do serviço do Roxy Bar, na Praia do Francês, em Alagoas, Brasil, por si só já seria material suficiente para estórias que renderiam um livro de muitas páginas. Cada garçon, assim como qualquer indivíduo, traz características muito peculiares. Eles consideram que o trabalho é excessivo e correm para lá e para cá como se o mundo estivesse a se acabar e eles tivessem que sobreviver em meio a uma chuva de pedras. Quem se sentar junto ao balcão, e não nas muitas mesas espalhadas pelo salão, perceberá o clima tenso e denso. A atmosfera não acompanha a boa música que toca quase inaudível apesar de tantas reclamações para que o volume suba um pouco mais. Ouvir Pink Floyd muito longe, abrir bem os ouvidos e mesmo assim não poder apreciar a música é exercício irritante e enfadonho. 

Tem a mocinha loira, de olhar furtivo,  mãe de três filhos, estudante de algum curso superior que não me lembro e que aparece do nada, correndo pelo salão como se estivesse ocupada a atender algum cliente. Ele aparece e desaparece por quase meia hora. Volta  aparecer e, de novo, some por mais meia hora. A observá-la, percebi que a funcionária que mais usava o banheiro de serviço era justo ela. E sabe porquê? Segundo me informaram, depois de fechar a porta, baixa a tampa do vaso e sentada ali tira uma soneca para recuperar o cansaço da correria ou da praia, da "maresia", dos namoros que a fazem perder a noite (ou ganhar - a depender de onde se olha). Acorda e sai correndo pelo salão e volta correndo para o mesmo banheiro a fazer a mesma coisa tentando disfarçar a sua atitude.

Mas, a mesma moça me informou não ser ela garçonete. Parece-me que é bióloga ou algo que o valha e que, portanto, goza de certo privilégio - ao menos em sua cabeça - já que é superior aos demais. Que por ser bióloga não precisa se preocupar em servir como os demais. Sempre notei certo ar de superioridade na moça. Agora estava respondido o porquê. Ela se considerava bióloga e não garçonete. Há grande equívoco no argumento da garçonete que dorme na privada. Ela pode não ser garçonete. Ela está garçonete. Que aproveitasse a oportunidade de trabalhar na nave intergaláctica que é o Roxy e que fosse feliz ao falar com tantos de tantas nacionalidades. Mas, na cabeça da gorçonete, o Brasil estava a perder uma bióloga e ela era obrigada a desenvolver atividades indignas. Resta saber se o dono do estabelecimento conhece a tal falácia da moça e se concorda com ela - coisa que duvido muito. 

Já percebi certo chamego, talvez só por parte dela, em direção a um italiano de olhos azuis como a cor do mar do Francês. Acho logo teremos novo rebento, talvez, com dupla nacionalidade. Mas, esse é apenas um pormenor. Nada contra quem pare seus filhos desde que os crie e crie bem. Mas, a moça é de poucas posses e se mantem com a ajuda do pai. Aqui vive de favor nas casas de amigos. Assim sendo, acho que seria melhor uma laqueadura. Well!

Mas, não é a música baixa que me chama a escrever e sim o serviço desta estação intergalática chamada Roxy Bar. Ontem fui lá como de costume e percebi certa calmaria. O clima estava até bom. Não houve nenhuma discussão ou barraco entre eles. Reclamei, claro. 

- Escuta! - interpelei a garçonete - cadê? Não vai ter um barraco hoje? Uma briga? Uma discussão? Nada? Tenho meus direitos como cliente e quero ver ao menos um barraco! Francamente! Vou reclamar com o dono! (rs)

Fui informado que houve reunião entre todos e o dono e que foram repreendidos. Eu, se fora dono, demitiria metade do pessoal a bem do estabelecimento. Como nada tenho com o estabelecimento que não seja o de consumir, religiosamente a minha cerveja enquanto tento um colóquio mesmo que com a moça que dorme sentada sob a privada, recolho-me à minha insignificância.

PS.: Antes de publicar essa crônica, fui, como de sempre, ao Roxy e não vi a garçonete bióloga que dormia escondida sentada sobre a privada. Disseram-me que um ropante de rebeldia, pegou suas poucas tralhas e ausentou-se com probabilidade de não mais voltar. O assento da privada está vazio. Alguém se habilita?


Wanderley Lucena


Um comentário:

paulaovv disse...

VC PRECISA CONHECER MEU BAR EM SÃO PAULO, VELHAS VIRGENS ROCKIN BEER (RUA DO HORTO, 594)...TERIA BOAS INSPIRAÇÕES PARA CRONICAS. AINDA QUE NINGUÉM DURMA NO BANHEIRO...ABRAX...