segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cotidiano

Sem mais nem menos voltei para casa já meio bêbado e, melhor, acompanhado de duas criaturas incríveis. Ela de Brasília e a passar alguns dias por aqui a aproveitar a praia. Ele nativo, porém, de tiradas inteligentes e marcantes. Falastrão, ousado, sem papas na lingua, chegando quase ao tosco, porém, de beleza igual ou superior à da moça à qual demonstrava todo o poder da testosterona. 

A conversa, ainda no bar, girava sobre temas banais, porém, agradabilíssima para todos que ali estávamos. Eu os convidei a tomar um Casal Garcia, vinho de muito boa qualidade, dizem, já que não sou nenhum somelier. Mas, a proposta foi aceita com efusividade e rumamos para minha humilde residência, a poucos metros do bar. 

A casa estava um pardieiro e eu ruborizei-me ao pedir-lhes desculpas. A cozinha tinha louça suja na pia e já vai pra uma semana que não chamo a empregada a fazer a faxina. Não me lembrei de colocar a música e a conversa foi aumentando de volume que eu, a todo instante, pedia para decermos a tom mais ameno, haja vista, a vizinhança implicante que cobra silêncio sepulcral como se isso aqui fosse lugar que não merece gente feliz. 

Já era madrugada quando abri o Casal Garcia. Com as glândulas palatais inchadas ante o sabor seco tenso do vinho, ríamos e gesticulávamos em conversas exaltadas que iam desde à crítica à cultura local até às viagens marcantes que fizéramos.

A noite tinha que acabar e ambos se foram, dessa vez, com ela sentada na garupa da bicicleta do moço. Não sei o que aconteceu até que ele a deixasse na porta de sua casa. Mas, espero que tenham aproveitado a vida, a noite, o minuto. Porque desta vida pode ser que não levemos nada, nem as lembranças. Mas, que em vida gozemos toda intensidade da humanidade divina que habita em cada um de nós!

Wanderley Lucena

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