quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O Ato

Estás por demais sexual
Acho que estou quase a concordá com tua mãe:
"Tá na hora de aprenderes a cozinhar".
Eu e minha libido...
Não sei aonde a escondi
Mas, vou achá-la qualquer dia, e aí...
Eu quero mesmo é voltar a sentir como no primeiro amor
O gosto da fruta roubada
Esconder-me atrás do muro pra fazer coisa errada e boa
Olhar pelo buraco da fechadura
Coração a sair pela boca
Amar sem ser percebido
Sequer pelo objeto amado
Olhar o precipício e desejar lancar-me
Conscientizar-me, logo em seguida, que vale mesmo é o amor próprio
Curtir fossa às margens do Reno
Tomar um Bordoux qualquer e achar normal e rotineiro
Acordar debaixo do edredon depois de noite intensa
Perceber o corpo quente que aceita o abraço
E que murmura de tanto prazer
Mesmo que jamais se me ocorra
Imaginar-me já é ato de prazer indelével
Alimenta-me como se fora real, quiçá, ainda melhor
O meu abraço quem o recebe, obrigatoriamente, é Brahma
Meu queridíssimo companheiro que não tem como fugir-me
Meu pequeno shitsu é obrigado a aceitar-me, inclusive, os abraços apertados
Rosna, e late, e se me avança, ameaçadoramente, como se o pudera
Arregala-me os olhos em expressão raivosa
Suas presas pequeninas a tocam minha pele em tentativa desesperada e inútil de fuga
Estás vitimado pela impotência ante nosso disparate de poder e posse
Nem que não queiras, és obrigado a suportar-me, querido Brahma
Sinto pena de ti, meu querido
Você depende de mim pra tudo
Perdoa-me, Brahma!
Perdoa o meu amor averso
Tantos donos poderias ter tido
E a vida quis que fora eu a ser-te
Aqui em terras desoladas e áridas de afeto estamos os dois
Vitimados igualmente
Mas, a vida, muitas vezes nos muda o curso natural
E muitas vezes a mudança é pra melhor
Verdade que, por vezes, afasta
E, por vezes, ajunta
Não importa
Nada importa
Importa só o ato
Inspire!
Expire!
Inspire!
Expire!
Lá já se foram quatro atos
Sinta o ato!
Só ele importa
Aprenda a cozinhar!
Aprenda a cozinhar!

Wanderley Lucena





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