quarta-feira, 18 de março de 2015

CADAFALSO

Levaram-me - levei-me? - até o cadafalso e me puseram a corda no pescoço e... quem dera fosse bamba. Olhei para baixo pelo buraco quadrado. Estávamos a uma altura de uns quatro metros do chão. Não havia plateia. O dia era opaco, morno. Um vento cortante trazia ao meu nariz o cheiro do esgoto que corria a céu aberto pela valeta abaixo da calçada de pedras seculares. Havia o algoz que cumpria as ordens e mais ninguém. Aquele algoz trazia o peso do todo. Escondido dentro de touca que lhe cobria até o pescoço e que me mostravam olhos pequenos e assustados. Era franzino, raquítico. Decepcionei-me ante o seu tamanho já que esperava um gigante barrigudo que não me permitisse qualquer reação. Entretanto, não queria reagir. Minhas mãos, mesmo que não estivessem atadas não se levantariam contra ele. Maior que o meu medo era a humilhação. Mil palavras se sobrepuseram em pensamentos turvos e saudosos. Muitos deles de pura amargura. Outros doces e felizes. Minha conclusão era de que valera aá pena. Em alguns segundos as tábuas cederiam aos meus pés e eu esperava a liberdade. Havia tristeza em minh'alma. Mais que ela, havia um imenso mar de sobriedade agradecida. Não me vinham lágrimas. Havia resignação. Os segundos viraram horas. A espera parecia infinita. Sequer sentia algum ódio. Havia amor e agradecimento. Logo eu sairia dali para não sei onde. Queria continuar a sentir todo o ser que agora me sentia. Podia me sentir inteiro e em total simbiose com o universo. O céu estava fora, infinito aos meus olhos. Mas, dentro de mim havia o mesmo céu. Respirei fundo e senti que o ar me preenchia não só os pulmões. Percebi o vulto do braço forte e nu a puxar a alavanca, enfim. Sai de cena e continuei a perceber-me ressonando junto com todos e com tudo. A calma se apropriou de meu ser. Não mais dor. Não mais ânsia. Só amor.

Wanderley Lucena 

Nenhum comentário: