quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

OLHA A FACA!


Há uma nuvem negra sobre este povo. Há retardo tecnológico e educacional. Aqui as pessoas jogam o seu lixo na esquina mesmo sabedores que isto é falta de educação e que cães e gatos arrastarão o lixo pela rua depois de rasgarem os sacos plásticos que os acondicionam. Aqui  a briga é para se continuar a jogar o lixo no mesmo lugar que se joga a vinte anos, dizem eles. Têm orgulho de não aceitar o novo e batem no peito, soberbamente, para afirmarem a masculinidade e resolverem suas pendengas na faca. Aqui se mata gente como se fosse galinha e a "honra" do marido corneado é lavada à sangue.

Mas, neste momento, há uma retração geral. Muitos estão abatidos, enfurnados em seus cafofos. Muitos deles endividados até a tampa. Desesperados, recolhem-se à escuridão de seus quartos, em suas alcovas humildes.  A grama secou porque não têm ânimo nem coragem para rega-la ou porque a empresa de água já lhes cortou o fornecimento. A cara é verdadeira carranca e o espírito abatido faz envergar a coluna e baixar a olhada que mira apenas o calçamento da rua.

A consciência coletiva é tacanha e de mal gosto. Idéias simples são rejeitadas em nome da tradição ignorante de que o "forasteiro" e suas idéias devem ser rejeitados. Aqui se olha com espanto à forasteiro que, educadamente, recolhe as fezes de seu velho e moribundo cãozinho. Os restos de construção ficam meses jogados pelos moradores adiante de suas residências, no meio da rua.

O carteiro não entrega cartas, mas, joga-as por cima dos muros, dentro dos lotes, sem se preocupar se chegarão ao seu destinatário ou se a chuva vai destruí-las. Os correios abrem apenas para três clientes por vez e a fila é formada do lado de fora, sob sol escaldante. Os caixas do banco param para o almoço, todos ao mesmo tempo, mesmo que a agência esteja lotada de clientes. O protocolo da prefeitura faz os registros em livros enormes e manuscritos - não há computadores - e a servidora informa que assim permanecerá, pois, do contrário ela perderá o emprego. O cartório de notas e oficios segue os mesmo moldes.

A praia está linda, porém, sofre do mesmo marasmo. Não há animação e os turistas não existem. As barracas estão sem música e os garçons irritados por faltarem-lhes a comissão do dia-a-dia. A moça do caixa foi demitida e está soltar fumaça pelos ouvidos.  As barracas-restaurantes são horríveis e de péssimo serviço. A higiene e a assepsia não existem. 

Eu não sei quanto tempo permanecerei nesse paraíso de paisagem e inferno de espíritos. Certo é que não ficarei aqui a não ser que o Cosmos me determine. Meu espírito me avisa: "é apenas um estágio". Minh'alma confirma em alegria. Quero mesmo ir-me de corpo e alma, de mala e cuia, levando na bagagem o conhecimento aqui adquirido. Esta terra ainda não me deu nada além disso: aprendizagem. Talvez seja isto que vim fazer aqui: aprender.

Wanderley Lucena


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