segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

MENINOS OLEIROS


Sobe e desce ladeira com a canga de latas aos ombros
Latas descem vazias e voltam cheias
Águas do Rio Corda
Jogadas sobre o massapê
Depois de cortado no barranco
Agora barro amontoado
Molhado depois de muitas cangas de suor
Pernas infantis em corpos impúberes
Marcham forçadas por músculos cansados
Não podem se dá ao luxo da exaustão
De tão amassado vira liga pesada
 Barro liguento gruda nas pernas nele enterradas
Depois de muito pisar pode ser jogado da forma
Sol a pino quer derreter muleiras
Juízo trabalha a mil
Inconformada realidade
Futuro incerto 
Miséria quase certa
Revolta que arde no peito 
Não sai de lá
Conta com a sorte que insiste em lhe ser sisuda
Leva barro molhado no peito
Massa que viraria bela cerâmica
Mas os meninos são oleiros
Não são artesãos
Lança na forma e molda com as mãos rasgadas
Às centenas de milhares tijolos postos a secar
Quadrados sem graça vão virar parede 
Depois de secos são colocados em calheiras
Lenha que se acende queima o barro empilhado
Queimado fica pronto
Jogados um a um sobre carroceria de caminhão velho
Esfola dedos em carne viva
Merreca recebida vai direto para mãos maternas
Mãos que lavam de trouxa de madame
Rosto altivo de guerreira
Ensina que não se desiste da luta
Só a morte tira o sonho
Ela que se apresente muito depois 
Em novas terras
Somente depois de saborear o que lhes pertence
O conforto e a bonança
Pobreza é lembrança
O barro é cerâmica rica que enfeita casa de madame
Madame que se orgulha dos filhos de passado oleiro.

Wanderley Lucena


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