quarta-feira, 16 de novembro de 2011

THE BREAD IS OLD.

O Hotel se impunha e estava em frente à Praça da Independência em Florença, Itália. O primeiro café da manhã, no entanto, me decepcionou um pouco. Não foi porque fosse pobre. Estava até bem servido e havia alguma variedade e até salada de frutas frescas, coisa meio rara por aqui pela Europa. Quase tudo aqui vem em conserva, mas nem por isso deixa de ser gostoso. Aliás, algumas delas são mais saborosas que as bananas empretejadas que compramos nas feiras daí. Mas o que me deixava meio fulo era a cara do pão francês. Aqui ele se apresenta branco opaco e duro igual pedra, como se de uma semana estivesse ali naquela cesta.

Já no segundo dia, a moça que fazia o serviço, muito eficiente, corria de lá para cá a não deixar faltar nada aos hóspedes. Mas tinha ela cara de poucos amigos. Era sisuda e tinha ombros largos. O cabelo loiro preso por uma fita preta em laço e um avental igualmente preto sobre calça e blusas brancas me fez lembrar um carcereiro de Aushevitz. O pão estava ali novamente, sem graça, branquelo e nada convidativo. Resolvi me dirigir, a uma certa distancia, à carcereira que nos servia e da qual eu ainda não tinha ouvida a voz. Fui no meu deficiente inglês e tasquei: “the bread is old”.

A moça que já era sisuda virou em minha direção em movimento brusco. Senti o arranhar de um portão pesado e enferrujado de um castelo medieval a abrir-se. As sobrancelhas estavam cerradas e ela começou a falar em inglês de forte sotaque germânico. Não entendi quase nada do que ela me dizia. Mas entendi que era a sua responsabilidade colocar pães frescos à mesa todos os dias e que se não o fizesse, sua cabeça podia rolar, ou seja, poderia ser demitida. O que chamou mais a minha atenção foi o gesto feito com o polegar. A mão fechada e o polegar em riste que ele fez passar sobre sua garganta em tom ameaçador. Senti a minha própria cabeça a rolar. Recolhi-me enquanto minha irmã, em bom inglês, tratou de apaziguar a gafe. Disse minha irmã que o pão servido no Brasil é diferente e que estava havendo apenas um choque de culturas naquele ambiente.

Agora, sempre que vejo os pães pálidos nos hotéis daqui, corro para a bandeja de croissants que, sem dúvida, são quase e sempre iguais e não tem como eu não gostar.

Wanderley Lucena

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