domingo, 18 de setembro de 2011

Janela Indiscreta

Fazia tempos que via desde uma de minhas sacadas - e nem são tantas assim - duas moçoilas e uma septuagenária, nuas em pêlo, a desfilarem pelos cômodos de seu apartamento. As moças enfiavam as mãos nas suas cavidades íntimas, como que a se coçarem por causa de algum cricri, enquanto conversavam umas com as outras, descontraidamente. 

Talvez não soubessem que os vidros fumês de suas janelas as protege dos olhares externos apenas durante o dia e que, à noite, de luzes acesas... de fora para dentro tudo se vê e que, ao contrário, quem está de dentro, nada vê a fora. Inverte-se o efeito fumê das vidraças.

As moçoilas jamais poderiam posar nuas para qualquer revista masculina e a septuagenária... Embora não gostasse do que via, permanecia hipnotizado a olhar a intimidades das moças.  Mas comprei uma lanterna neon e, numa noite em que se encontravam mais à vontade do que a Eva no Paraíso, danei a piscar o neon na direção delas. Muito tempo depois elas me perceberam e, assustadas, cobriram-se em toalhas de emergência.

Do outro lado do meu ap, noutra sacada, há tempos atrás, um rapaz, andava para lá e para cá, todas as noites, segurando um telefone com os ombros à orelha, nuzinho como Adão antes de perceber-se em pecado. Não só nuzinho, mas excitado, a fazer sexo consigo mesmo, num vai-e-vem frenético com uma das mãos - nada que o caro leitor nunca o tenha feito - em êxtase, a revirar olhos... e, por vezes, a atacar a geladeira com as partes traseiras arrebitadas na cara de quem o via. Se satisfazia o guloso, nos dois sentidos.

Não sei se o moço entrava em transe depois de fumar algumas folhas colhidas do imenso pé de maconha plantado em belíssimo vaso, com certeza, chinês, talvez ming, que estava postado, devidamente, de forma a pegar o sol dos trópicos. Impressionante a vitalidade da planta e a do moço ao fazer-se sexo todas as noites, talvez, sabendo que podia ser observado desde o meu prédio por quem o quisesse.

Mas o tal moço mudou-se e ocupou o mesmo apartamento um outro rapaz gordinho - e "gordinho é apenas para não ser agressivo sem necessidade - que decidiu dá novas cores às paredes. A pintura, feita por ele mesmo, era sempre efetuada à noite, com o dito cujus de pincel em punho - e tudo bem...  a beleza está nos olhos de quem ver - vestido em uma cueca tamanho "P", mostrando a quem quisesse ver, o seu imenso cofre e seus imensos pneus, além dos pêlos degringolados que lhe cobriam o corpo e que me lembravam, em muito, um gorila que vi certa vez no Geographic Channel. Pelo menos o gordinho não tinha nenhuma erva plantada na cozinha em vaso paraguaio.

No mesmo prédio das moçoilas, doutra feita, um pintor, dessa vez, profissional, também à noite, decide dá uma pausa no seu árduo trabalho de pintura num apartamento vazio e, pára pra descansar um pouco de sua labuta, a olhar displicente pela janela, protegido pelo mesmo vidro fumê. O rapaz começou a acariciar-se e, os mesmos movimentos frenéticos de vai-e-vem deixaram o pintor tarado a contorcer-se, a abrir a boca e a roçar os lábios com a língua. Uma cena medonha que podia ser vista por uma imensa platéia.

Considero que tais cenas fazem parte da modernidade. Coisa de quem mora num conglomerado de prédios. Mas se eu morasse num sítio as cenas seriam com as galinhas, com os porcos, com as joaninhas, enfim... considero que é coisa de quem está vivo. Tanto de quem viu, quanto de quem fez. Ademais, é melhor que ser ser cego.

Um comentário:

VeraBruxa disse...

Buenas!
Comentário no Dia do Gaúcho: "Mas bah tchê! Que vizinhança!
Abraço.