domingo, 25 de setembro de 2011

CARTAS CARIOCAS


Brasíla-DF, 25 de Setembro de 2011.


Caro Amigo;


Amanhã estarei no Rio, a cidade maravilhosa. Eu conheço bem o Rio e volto lá sempre que posso. É mesmo uma das cidades mais lindas do mundo, com certeza, a mais bela do Brasil. Tem a violência desorganizada da pobreza dos morros, tem o crime organizado e tem os "filhinhos de papai" que também, muitas vezes, são criminosos.

Quase tudo igual a qualquer outra metrópole não fosse um charme que é só seu. Não sei se é a geografia de tirar o fôlego; se é o sol; se as curvas da garota de Ipanema; se o mar azul; se a floresta atlântica; se o Cristo Redentor ou o Pão de Açúcar. Mas tem a "ginga" do malandro e o chiado charmoso do sotaque carioca. O sol e os desenhos sinuosos da calçada de Copacabana. O samba da Mangueira e  da Portela. É tanta coisa meu amigo, que se fosse te contar, escreveria um jornal e não uma singela carta como esta.

É minha intenção te informar, diariamente, por meio destas cartas, das minhas impressões pessoais da cidade  dos acontecimentos do meu dia na minha interação com essa gente de valor, a gente carioca. Tomara minha intenção não te canse, mas é que para mim és tão importante que preciso, quase que de pé de ouvido, contar-te. Bom seria que estivesses cá comigo para juntos irmos ao Rock in Rio e ver o Cold Play e o Maroon Five. Já que cá não estás, te deixarei informado por meio de minhas cartas diárias desde o Rio.


Um abraço.


Wanderley Lucena
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Rio de Janeiro-RJ, 26 de Setembro de 2011

Caro Amigo;

Chegamos ao Santos Dumont e para não ser, mais uma vez, roubado pelo taxistas que insistem em achar que meu dinheiro é farinha, peguei o “frescão” – e isso, aqui no Rio, é tão somente um ônibus que tem ar-condicionado. Custou-me seis reais e desembarquei, confortavelmente, na Princesa Isabel, a um quarteirão de onde, no Leme, me hospedo sempre que venho por aqui.

Tive de dormir um pouco para recuperar as forças depois da noite mal dormida e do vôo na lata de sardinha. Viajar na classe econômica é viajar enlatado. Sabes que, no momento, não posso dar-me a exageros. A lata de sardinha não chega a matar o cristão, mas é quase desumano o que fizeram com o espaço de um avião doméstico. Como não posso ir de primeira classe... 

Já era meio da tarde quando me dirigi ao Giraffas e almocei. Giraffas, sim senhor! Apesar de bonitinha a comida delivery da rede, de tão pouquinha, faz bem à consciência de quem não quer engordar.  Fiquei sonhando o bife à parmegiana do Beira.

Saí andando e já estava bem pertinho da estação de metrô  General Arcoverde e decidi não ir à pé para Ipanema.  Meu cafezinho já fazia uma falta danada no juízo – sou dependente de cafeína, como sabes – e saí surtado, em crise de abstinência, até que tomei meu cafezinho na Visconde de Pirajá numa charmosa cafeteria. Por pouco não pedi ao atendente que me aplicasse na veia.

Esqueci minha sunga ADIDAS em Brasília e decidi comprar outra. Terminei comprando também uma mochila, da mesma marca, para usar em Paris. As três listrinhas são chiques e não tem como errar. E na minha idade não dá pra arriscar muito. E sabes que vou a Paris já no mês que vem.

Tomei novo cafezinho na Colombo do Forte de Copacabana, já na volta, e fiz compras para o desjejum no Zona Sul – aqui as coisas estão mais baratas que no Pão de Açúcar do Sudoeste. Aproveitei e comprei um estoque de geléias de morango para abastecer a minha despensa em Brasília. Aqui tá pela metade do preço e - detalhe - são polonesas. Isso mesmo: são importadas. Volto com a mala cheia.

Agora estou a te escrever enquanto faço uma boquinha antes de dormir na Sanduicheria Leme Light. Um pão cheio de carne assada. Uma delícia.

Um abraço.

Wanderley Lucena

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Rio de Janeiro-RJ, 27 de Setembro de 2011.

Caro Amigo;

Te escrevo desde o Morro da Urca e, por incrível que pareça, a rede wi-fi é ótima - mas também... depois de pagar cinquenta e três reais pra subir no Bondinho... Embora o bilhete seja caro, vale a pena subir até o Pão de Açúcar pelo bondinho teleférico. A visão da paisagem é única.

No Pão de Acúcar, quem se prende apenas à paisagem, não sabe o que perde se não explorar a trilhas sinuosas e encantadas por dentro da floresta morro abaixo. Tudo muito bem calçado, com mesinhas de concreto e para-peitos para a proteção e conforto dos turistas. É só descer pelas escadas abaixo e pronto. Uma floresta encantada está a seus pés. O preço pode até ser alto, mas, se voce quiser subir a Eiffel, visitar o Louvre, não é menos caro. Não é que seja caro, nós é que ganhamos mal, meu amigo.

Para me inspirar, tomo uma caipirosca de lima no restaurante encima do Morro da Urca. Você não sabe o que é isso. Aqui se ouvem várias línguas. Turistas do mundo todo você pode ver aqui. Fiquei vendo o macaco "soin", lindo, clicado pela minha câmera, sem ter que fazer o zoom, de tão perto que o bicho estava da gente. Impressionante como estes bichos estão acostumados aos humanos e recebem alimentos de suas mãos.

Vou passar no ap e botar a minha Adidas que comprei. Vou mostrar as pelancas em Ipanema. E o faço sem constrangimentos. Tem muita gente linda aqui, globais aos montes, mas... o que tem de gente feia. Então, me sinto em casa.

Um abraço e até amanhã.

Wanderley Lucena

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Rio de Janeiro-RJ, 28 de Setembro de 2011.




Caro Amigo;

Nunca senti tanto frio no Rio - na verdade, já sim - não tive coragem de entrar no mar até o momento. Tomara que a temperatura suba e que o sol dê a cara com gosto. Fazem 19 graus agora. E só são 4 horas da tarde. A previsão é que a temperatura despenque ainda mais.

Mas enfrentei o frio com bravura e subi o Corcovado a bordo do velho trem vermelho que vai ladeira arriba cortando a Floresta da Tijuca. Apesar do dia nublado consegui ver perfeitamente a geografia estonteante desta cidade. O mar azul e a ilhas pingadas nele, além da silhueta sex da cidade a chamar a todos ao deleite. Por um lado Lagoa Rodrigo de Freitas, Ipanema e Copacabana. Por outro, a ponte Rio-Niterói, o Santos Dumont. As barcas, pequeninas de tão longe que as vi, a fazerem a travessia, via mar, para a terra de Araribóia.

No mesmo bairro, peguei um ônibus que me levou para o Jardim Botânico. Além de belíssimo, é uma aula história. Imaginar que D. Pedro, nosso Imperador bigodudo foi quem plantou aquilo tudo. Que a Marquesa de Santos dava seus passeios de fim de tarde pelas alamedas de palmeiras imperiais plantadas pelo seu amante, o mesmo bigodudo.

Tinha a intenção de dar um pulo no Parque Lage mas, cansado que estava, desisti. O Parque Lage era a residência da mesma Marquesa. Um beleza de parque com muitas estátuas espalhadas a céu aberto, córregos e lagos artificiais. O belíssimo palacete que foi a residência da Marquesa é hoje uma escola de arte. Modelos vivos, nus em pelo, podem ser vistos pelas vidraças das janelas, a serem pintados pelos alunos. Mas, estava por demais cansado e desisti. Fui para casa e dormi um pouco e proteger-me do frio intenso que me incomodava.

Queira Deus, vá se embora esta frente fria que me dói até os ossos e possa eu entrar nas águas abençoadas e salgadas deste mares.

Um abraço e até amanhã.

Wanderley Lucena


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Rio de Janeiro-RJ, 29 de Setembro de 2011.

Caro Amigo;

Hoje, finalmente, fez sol como eu desejei. A praia estava mesmo uma beleza. Acomodei-me numa cadeira alugada de um barraqueiro e pedi uma cerveja porque ninguém é de ferro. Uma cerveja em frente ao mar de Ipanema tem sabor inigualável, como você bem sabe.

Chamou-me a atenção a quantidade de maconheiros fumando abertamente, à luz do dia, orgulhosamente. E não vou aqui fazer discurso moralista, não mesmo. Mas as coisas mudaram muito desde a nossa época. Ninguém sente vergonha de puxar a erva e, muitos deles, sentem mesmo é orgulho. Talvez estejam mesmo a revolucionar os conceitos. Ademais, com o advento do crack, quem dera, nossos viciados fossem todos, tão somente, maconheiros.

Os morenos que serviam às barracas fazendo as vezes de garçom, se sentaram, comodamente, em círculo e ascenderam seu “baseado” e esqueceram das obrigações que, talvez, nunca as tiveram. Pedi a um deles, já fumado, com os olhos mais vermelhos que os de um dragão, que trouxesse uma prévia da conta. Ele me respondeu, debochado, dizendo que eu mesmo poderia fazer a prévia, já que tudo o que eu consumira tinha seu preço anotado na conta que estava em meu poder. Ora veja! Pois, pois!

De longe, vi uma moça de formas por demais arredondadas. Os seios pareciam dois melões e a bunda estava, por demais, empinada. A moça tirou a parte de cima do biquíni e, sem qualquer desfaçatez, mostrou os melões a quem os quisesse ver e aquém não os quisesse também, debruçou-se sobre eles e empinou o bundão rumo ao por do sol, num top lesse básico. O que ela menos queria era bronzear-se. Queria mesmo era chamar a atenção. A minha, pelo menos, ela conseguiu. Mas, notei mais. Os gestos exagerados, artificiais, e... o queixo. Acho que foi o queixo que a entregou. Os melões lhe foram ali implantados por algum Pitangui do Morro da Rocinha e a bunda, idem. Tratava-se de um travesti. Isso mesmo, um traveco – e isso é apenas o registro do que vi e vai sem preconceitos. Travecos e outros tipos não são exclusividade do Rio e na nossa cidade tem aos montes.

Peguei um “bronze” e me fui, a pé mesmo, e almocei no New Natural. Um restaurante onde se come muito bem e, totalmente, natural. Tudo leva selo verde, sem agrotóxico e, como um pouco de sorte, você pode dá de cara com alguns globais almoçando na mesa ao lado da sua.

Um café e fui pra casa passando pela pedra do Arpoador que se encontrava lotada de gente a ver o por do sol. Mais uma vez, uma quantidade muito, mas muito maior, de gente a fumar maconha. A pedra virou um enorme cachimbo de pajé. Até eu saí de lá “chapado” com a maresia que respirei sem ter para onde correr.

Um abraço e... até amanhã.

Wanderley Lucena

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Brasília-DF, 01 de           Outubro de 2011.


Caro Amigo;


É claro que preferia o conforto de um bom hotel ao apartamento alugado para a temporada aqui no Rio. Sai bem mais barato e vale à pena se você não for dos mais exigentes. Em compensação você é que tem de manter a higiene ou pagar uma faxineira. O café da manhã você mesmo terá de fazer.  Eu até gosto de alguns dos afazeres domésticos, entretanto, confesso, sou avesso às outros.

Fui, ontem a um bar da moda,  à noite, em Ipanema. O ambiente era moderninho e a rapaziada também. Mas eu não estava na mesma energia que meus pares. Eles se divertiram por demais e, hoje, tinham estórias mil a contarem-se uns aos outros. Achei o lugar caro e contive-me dos gastos exagerados.

O sol deu as caras com tudo novamente e me fui com todos os protetores solares já passados, rumo à praia de Ipanema. Os gringos gastavam seus ricos dólares e se excitavam ante a pouca roupa de nossas lindas mulatas. Vendedores de abacaxi, sacolé, empadas, sanduiches, guará viton, salada de frutas e etc... e tal, empesteavam a praia nas suas idas e vindas, aos berros a anunciar  o seu produto. A temperatura da água do mar estava uma delícia e adorei ficar de molho por um tempo, a boiar relaxado sobre ela.

Já era fim de tarde quando fiz o caminho volta, a pé. Olhei o contraste dos prédios com a favela encravada no morro do Cantagalo. Fiquei com inveja dos favelados e sua visão do alto do morro rumo ao mar de Ipanema e Copacabana. Uma visão paradisíaca.

Um dia sol mas sem grandes emoções ou expectativas. Amanhã, ao contrário, é o dia em que estarei com todas as energias voltadas para a cidade do rock. Economizar a energia hoje para descarregar amanhã. Essa é a ordem!

Um abraço

Wanderley Lucena
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Rio de Janeiro-RJ, 02 de Outubro de 2011.

Caro Amigo;

Uma emoção botar os pés na cidade do Rock. Muita coisa pra ver. Sem falar nos shows, um logo depois do outro. Dois palcos, um deles, do tamanho de um prédio de dez andares. A maior expectativa era com o Cold Play, mas a banda Manah, do México e o grupo Maroon Five, que antecedeu ao grande show, já valia o ingresso que me custou uma baba. Quando o Cold Play subiu ao palco... Jesus! Fogos, luzes demais, raios lazer, chuvas de papel laminado, efeitos especiais na tela de LED. Foi lindo, meu amigo! Pena que você não estava aqui.

Cheguei em casa com a certeza de que entrei na terceira idade mesmo. Meus pés em frangalhos, mas, o pior era a coluna  que parecia que ter sido esmagada por um carro tanque. Tomei um banho com muita dificuldade e me joguei na cama. Acordei por volta do meio-dia de hoje. Ainda estou ressaquiado. Mas valeu muito a pena.

Hoje ainda fui à praia, aqui no Leme mesmo, bem em frente ao prédio. O tempo, aberto de início, foi fechando .ao longo da tarde. Mas entrei no mar em despedida nostálgica. É que amanhã volto pra Brasília. Tomara que a seca daí já se tenha ido. Tão log eu chegue, espero sua visita pra um café literário, ou um papo frugal para falarmos dos outros.

Um abraço!

Wanderley Lucena
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Rio de Janeiro-RJ, 03 de Outubro de 2011.

Caro Amigo;

Eu e minhas trapalhadas. Achei que hoje já era 4 de outubro, dia do meu embarque. Me levantei de madrugada, saí correndo para o aeroporto e, depois de fazer check in, quando já embarcava as malas, quando descobriram que eu estava antecipado em um dia.

Voltei frustrado para o apt ao qual já estava sem as chaves que havia jogado por debaixo da porta. Tentei, pelejei até... puxar a chave com um arame que encontrei, mas... nada. A danada foi parar do outro lado da sala e nao tinha vara que a alcançasse. Tive de chamar o chaveiro e foi ele quem conseguiu abrir a danada. Paguei uma baba pelo serviço do profissional, sem falar no táxi de ida e volta para o aeroporto.

Enfim, coisas de Lucena. Minhas trapalhadas às quais você já está é acostumado. Mas são essas trapalhadas que me rendem essas estórias que, depois vou lê-las e rio até. Espero que você também.

Amanhã nos vemos em Brasília. Um abraço e até amanhã.

Wanderley Lucena

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