quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CASA TERRA

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Nesta seca desértica, tudo o que mais queria era ouvir o estrondar assustador de um trovão. Na verdade... queria mesmo era uma imensa trovoada. Daquelas acompanhadas de ventos ameaçadores. Queria eu ver o céu escuro feito breu ao meio dia. Que o sol se acovardasse e se escondesse. Que pingos gigantes começassem a cair sobre os tetos, sobre a terra poeirenta e o cheiro de terra molhada se me chegassem às narinas como perfume de fina essência. Que as águas escorressem para as calhas e grotas e adentrassem às entranhas da terra. Que voltassem essas mesmas águas, agora puras e cristalinas, a surgir nas nascentes dos rios. Que os rios corressem cálidos e complacentes rumo ao mar. Que o equilíbrio fosse perpétuo e não fôssemos nós, os seres humanos, criaturas desestabilizadoras da ordem natural das coisas. 

Que tais águas dessem vida e matassem a sede de todos os viventes. Que fôssemos gratos e reverentes ante tal manifestação da natureza. Que a respeitássemos e a quiséssemos manter limpa e cristalina. Que soubéssemos que nossa casa não termina quando fechamos a porta. Que não jogássemos lixo nas ruas como não jogamos na sala da nossa casa. Que entendêssemos que nossa casa, afinal, chama-se TERRA. Que soubéssemos respeitar ao planeta como presente maior, de Deus, do cosmos ou mesmo do acaso. Que a nave terra não fosse por nós implodida. Estamos destruindo a este planeta como os vírus destroem nosso corpo. Somos a causa da doença neste corpo chamado terra. Estamos matando a quem nos alimenta. Sugamos tudo até a última gota. Uma pena mesmo!


A poeira cobre a cidade com um marrom pavoroso e a seca retira toda a umidade existente. Meu nariz arde quando respiro e os meus lábios, de tão ressecados, racham e me fazem sangrar. O ar que respiro me adentra aos pulmões como se fumaça de vulcão a queimar-me as vias. Minha pele se esbranquece em efeito craquelê. De tão ressecada pode ser riscada como se fora um quadro negro. 


Besunto-me com toneladas de cremes. Creme para o rosto, para as mãos, para o corpo. Não funciona direito. Minhas cutículas estão esfoladas e meus pés parecem maxixe.


Tomo, no mínimo, dois litros de água por dia no intuito de me hidratar. Evito determinadas comidas. Evito atividades físicas no horário em que o sol está mais quente. Sigo à risca todas as recomendações da saúde pública.


Utilizo-me de toda a parafernália existente. Dois aparelhos, um que umidifica e outro que climatiza, estão a aspergir vapor de água no meu quarto. Mesmo assim é difícil. O que deveria ser solução, traz diversas outras consequências, várias delas, danosas à minha saúde. Os tais umidificadores são verdadeiros viveiros de colônias de fungos e bactérias que, se instalados no pulmão do pobre vivente... bau-bau. Eu me assustei quando fui fazer uma faxina nos tais aparelhos. Bolor e fungos que podiam encher um prato fund!. Taquei água sanitária na colônias e me senti um exterminador.


Na poeira acumulada no ambiente, embora todos os cuidados necessários para extirpá-la, habitam ácaros. Indivíduos horrorosos que olhados por meio de lente de aumento, parecem em muito com os monstros marcianos de um filme trash qualquer. Se não controlados podem provocar diversas doenças.


E tudo causa da escassez das chuvas. Que venham as chuvas! Melhor: vamos embora daqui? Para onde? Para outro planeta? - Sim. E faremos tudo diferente? - Me engana que eu gosto!


Wanderley Lucena

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