sábado, 23 de julho de 2011

INFERNO!


Eu já saía do meu condomínio quando fui abordado por uma senhora de meia idade, forte, aparentando  muito boa saúde. Os cabelos estavam degringolados e a roupa era, providencialmente, meio esfarrapada. Junto com ela, três crianças que pareciam ter a mesma idade. Depositados ao chão, três imensos sacos transparentes onde pude ver uma grande quantidade de mantimentos. Vi pacotes de biscoitos de primeira qualidade, pacotes de arroz e feijão, açúcar e café que podiam sortir um mercado de porte médio. Muitos outros gêneros, vários deles não eram sequer de segunda necessidade. Aquela senhora fez cara de coitada, entonou a voz e me estendeu a mão suja. Me pediu esmolas.

No seu breve pedido explicou-me que passava fome e aqueles meninos que a acompanhavam, diga-se, um de cada cor, eram seus filhos e ela precisava sustentá-los. Pedia-me qualquer coisa, podia ser dinheiro, alimentos, roupas, etc... Olhei para o condomínio vizinho e vi outra senhora de mesma aparência, também acompanhada de três crianças remelentas. Em todos os condomínios aos quais pude avistar, haviam mulheres e crianças faziam a mesma coisa. Avistei os sacos abarrotados de mantimentos e as mãos estendidas a pedir.

Em um estacionamento próximo estava uma kombi já quase arrastando no asfalto ante o peso da carga. Dois rapazes, fortes e muito saudáveis, recebiam os sacos das esmolas recolhidos nas redondezas por aquela quadrilha.

É verdade que jamais colocaria aquela mulher dentro da minha casa para efetuar qualquer serviço ante o risco de ficar sem a prataria. Entretanto, a título de teste, informei-lhe que tinha uma trouxa de roupas sujas e que se ela quisesse lavá-la eu a remuneraria. Pude ouvir a respiração da mulher, o peito inflando de raiva e os olhos a soltar fogo. Olhou-me de riba a baixo. Perguntou-me se tinha ela cara de lavadeira. Isso mesmo. Ela ficou indignada porque eu a oferecia atividade remunerada e digna. Diga-se: minha mãe, por muito tempo, lavou trouxas e trouxas de roupas escanchada numa tábua na beira do Rio Corda. Foi assim que, com muita dificuldade, nos manteve até conseguir emprego no estado de carteira assinada.

Em todo estacionamento desta cidade, mesmo o mais periférico, no entorno da capital, você não sairá de seu carro sem ser abordado por um indivíduo que diz diz que vigiará seu carro. Virou um inferno! E se você disser que dispensa o serviço, ao retornar ao seu carro, o encontrará riscado ou com o pneu furado.  Pode acontecer de você chegar e nem ser abordado por eles, mas ao retornar, ouvirá um "bem vigiado ai, chefe!". Certa vez, certo de que o moço não sabia qual era o meu veículo que ele dizia "bem vigiado", falei-lhe que se ele dissesse qual era o meu carros dentre os vários ali estacionados eu lhe pagaria o que ele me pedisse. Ele sorriu sem graça, coçou a cabeça e se afastou.

A mendicância não é fenômeno do nosso tempo. Jesus nos ensinou a ajudar aos necessitados. Mas os valores estão de tal forma invertidos que até a mendicância virou forma se aproveitar do próximo. As mulheres disfarçadas de mendigas, com certeza, comem melhor que muitas das pessoas que, de coração, lhes doaram um pacote de biscoito negresco.

O estacionamento que deveria ser público, virou propriedade privada de indivíduos sem qualquer capacitação, muitos deles presidiários foragidos que se estapeiam e se matam para manter a propriedade do ante a ameaça de qualquer outro que queira tomar-lhe o pedaço de asfalto do qual tira, facilmente e sem suor, o dinheiro para manter seu vício em craque.

Não é pouco o que esses meliantes tiram por dia em um estacionamento qualquer. Nenhuma gorjeta dada é menor que um real. Se ele receber trinta gorjetas por dia, no final do mês já ganhou mais que muita gente que trabalha duro, o dia inteiro. E muitos deles recebem mais de trezentas gorjetas por dia. É ótimo negócio!

Já faz tempo que não dou esmolas. Só se vejo escancarado que o pedinte é mesmo um inválido. Minhas boas ações as faço com quem conheço. Aquela viúva que conheço há anos, o primo pobre que precisa de roupas usadas ou não. O sobrinho ao qual pago a escola. E por ai vai.

Mas a inércia do estado ante tal modalidade de crime é mesmo revoltante. É vergonhoso! Estamos reféns da falta de vergonha de quem considera a mendicância digna e lavar uma trouxa de roupas indigna. Estamos reféns de quadrilhas que dizem estar guardando nossos carros quando são eles que informam aos ladrões que  nosso carro tem um GPS ou outro aparelho qualquer.

Um inferno! Uma vergonha!

Wanderley Lucena

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