sábado, 30 de julho de 2011

TONS



Busco cores amareladas
A mostarda 
A canela
O outono
Se não as acho
Busco os vermelhos tons
A paixão
A púrpura
Da nobreza da corte
Do sangue
Do azul turquesa
Do mar do Caribe
Do céu do Brasil
Na falta delas
Cai bem o preto
Da elegância
Da negritude
Da África
Cai bem o branco
Da paz
Da saúde
Do réveillon
Da discrição
O preto e o branco
Do Charles Chaplin
Das fotos velhas
Iluminação em espaço 
Em paisagem
Contraste de propósito
Comedido fico a te admirar
Estupefacto sempre.

Wanderley Lucena

PRETENSÃO


Tão bonita que ficaste
E eu ainda quis enfeitar-te
Coloquei parágrafos
Dei nova métrica
Quiz até fazer rimas
 Quis transformar-te em poesia
Como se poeta eu fora
Se o fora não te copiara 
Criar deveria
Te expus em contrastes
Espero tu gostes das novas nuances
É que te pretendi nova roupagem
Parecida com a minha
Tomara minha minha ousadia
Minha nova pontuação
Não te incomode ao ponto
De me pedires desistir
Devolver minha indébita apropriação.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 29 de julho de 2011

VONTADES


Tenho inúmeras vontades. 
Há muitas vontades habitando cá comigo, habito num mundo, vasto mundo, de vontades. 
Talvez eu seja uma daquelas pessoas que se possa chamar de "cheinha das vontades", favor não confundir com "cheinha do querer".
Por exemplo, às vezes, tenho vontade de abraçar o mundo, de viajar o mundo, de cuidar de todo mundo. 
Outras vezes, quando fico estressada, tenho vontade de chutar o balde ou enfiar o pé na jaca. Quando dá, chuto mesmo, mas tem situações que não dá e nessas, o melhor a fazer é exercitar a respiração e exercitar outra vez, contar até dez, cem, mil ou até mesmo engolir um sapinho, de quando em vez, não faz mal.
Aliás, segue uma dica:  vale à pena investigar quantas calorias tem o sapo que se pretende engolir.
Tem hora que dá vontade mesmo é de tirar a roupa, sair correndo e gritando, quase sempre essa vontade aparece em dia de trânsito lento. 
Ainda bem que tem vontade que dá e passa. 
Todavia, há outras, que não passam tão facilmente. 
Vontades silenciosas. 
Vontades espalhafatosas.
Tem uma vontade que sempre me é presente, é a vontade de entregar sorrisos.
Quase sempre consigo realizá-la, só preciso que o outro esteja  aberto. 
Uma vontade louca que me dá, é a vontade de cheirar, essa é uma das vontades que dependendo da situação pode soar estranha ou até mesmo cômica. 
Mas, não resisto, me entrego e cheiro. 
Cheiro mesmo. 
Há também a vontade de fazer "Hummm!" quando estou prestes a saborear um prato que estava com muita vontade de comer, é quase que uma vontade automática. 
Vontade de tomar sorvete azedo, é uma vontade que é só minha.
Tem vontade que pode ser dividida, por exemplo, vontade de dormir de conchinha. 
Tem vontade que  pode ser divertida. 
Passar vontade no outro, pode ser divertido. 
Deixar o outro na vontade e matá-la, é diversão na certa.
Vontade só deixa de ser vontade quando a realizamos. 
O que não dá é pra ficar na vontade.
Já tive vontade de ser loira, de ser ruiva. 
De ter cabelos curtos, compridos. 
Lisos, encaracolados, realizei. 
Já tive vontade de viajar por horas dirigindo o carro por uma estrada qualquer, só eu e o "Creedence", em alto e bom som, viajei. 
Já tive vontade de morar no interior, morei. 
Já tive vontade de pedir um namorado pra lua, pedi. 
Já tive vontade de tomar banho de mangueira depois de ser "gente grande", tomei. 
Já tive vontade de chorar no meio do filme, chorei. 
Já tive vontade de comprar um sapato e comprei três. 
Já tive vontade de fazer uma tatuagem, fiz. 
Tenho vontade de fazer outras, farei. 
Já tive vontade de casar, casei. 
Hoje, confesso que essa foi uma das vontades mais engraçadas que eu já tive. 
Já tive vontade de plantar uma árvore, plantei. 
Já tive vontade de escrever um livro e ainda tenho. 
Vontade de ter filhos. 
De adotar um filho.
Já tive vontade de não ter vontades, sorte a minha que nunca consegui realizá-la. 
O que não dá é para ficar sem vontade.
Sou mesmo uma garota cheia e movida pelas vontades.
Hoje tenho vontade de ter vontades. 
Invento as minhas própria vontades, só para realizá-las depois.
Agora há poucos instantes mesmo, tive vontade de comprar um casaco de bolinha e outro de listrinha.
Não comprei, mas uma amiga matou a sua vontade e comprou. 
Também fiquei feliz.
Melhor é ser cheia das vontades, que caminhar vazia.
Respeito as minhas vontades assim como respeito e considero as suas.
Apesar de escrever sobre tantas vontades que tenho, que as terei, que mato, certa de que construirei outras. 
Apesar de dizer tanto, a única coisa que eu queria mesmo expressar é que hoje, hoje eu acordei novamente com aquela estranha vontade, a vontade de ir morar no mato.

"Ôh, vontade de ir morar no mato!"


Extraido do blog: Coisas de Madá - http://linguagemimagembobagem2009.blogspot.com/

terça-feira, 26 de julho de 2011

Os Outros



Os outros e suas impressões
Eu e as minhas impressões
Conclusões errôneas
Mas as entrelinhas
Por vezes
Tão difíceis de lê-las
Por vezes tão desnecessárias
Noutras essenciais
Mas que se viva com intensidade
"Duela a quién duela"
Mas como dói
Dói em mim que escrevo
Dói em quem leio
Mas quanta leitura errada
Seria bom ser analfabeto
Cego talvez
Prefiro aprimorar-me e errar menos
Julgar pouco ou a nada
Que sejas livre
Que sejamos livres

Wanderley Lucena

sábado, 23 de julho de 2011

SECURA E MORTE

Verde foste vida
Secura és morta
Viraste peça de assento
Utilidade bela
Pior fim terei eu
A nada enfeitarei
Banquete de vermes
Quiçá melhor sorte
Cinzas espalhadas ao vento
Jogadas nas águas do mar
No tronco de alguma árvore
Pelas mãos de quem me amou
Verde intenso vida
Que um dia secará
Secura e morte
Quiçá melhor sorte
Peça de assento

Wanderley Lucena

INFERNO!


Eu já saía do meu condomínio quando fui abordado por uma senhora de meia idade, forte, aparentando  muito boa saúde. Os cabelos estavam degringolados e a roupa era, providencialmente, meio esfarrapada. Junto com ela, três crianças que pareciam ter a mesma idade. Depositados ao chão, três imensos sacos transparentes onde pude ver uma grande quantidade de mantimentos. Vi pacotes de biscoitos de primeira qualidade, pacotes de arroz e feijão, açúcar e café que podiam sortir um mercado de porte médio. Muitos outros gêneros, vários deles não eram sequer de segunda necessidade. Aquela senhora fez cara de coitada, entonou a voz e me estendeu a mão suja. Me pediu esmolas.

No seu breve pedido explicou-me que passava fome e aqueles meninos que a acompanhavam, diga-se, um de cada cor, eram seus filhos e ela precisava sustentá-los. Pedia-me qualquer coisa, podia ser dinheiro, alimentos, roupas, etc... Olhei para o condomínio vizinho e vi outra senhora de mesma aparência, também acompanhada de três crianças remelentas. Em todos os condomínios aos quais pude avistar, haviam mulheres e crianças faziam a mesma coisa. Avistei os sacos abarrotados de mantimentos e as mãos estendidas a pedir.

Em um estacionamento próximo estava uma kombi já quase arrastando no asfalto ante o peso da carga. Dois rapazes, fortes e muito saudáveis, recebiam os sacos das esmolas recolhidos nas redondezas por aquela quadrilha.

É verdade que jamais colocaria aquela mulher dentro da minha casa para efetuar qualquer serviço ante o risco de ficar sem a prataria. Entretanto, a título de teste, informei-lhe que tinha uma trouxa de roupas sujas e que se ela quisesse lavá-la eu a remuneraria. Pude ouvir a respiração da mulher, o peito inflando de raiva e os olhos a soltar fogo. Olhou-me de riba a baixo. Perguntou-me se tinha ela cara de lavadeira. Isso mesmo. Ela ficou indignada porque eu a oferecia atividade remunerada e digna. Diga-se: minha mãe, por muito tempo, lavou trouxas e trouxas de roupas escanchada numa tábua na beira do Rio Corda. Foi assim que, com muita dificuldade, nos manteve até conseguir emprego no estado de carteira assinada.

Em todo estacionamento desta cidade, mesmo o mais periférico, no entorno da capital, você não sairá de seu carro sem ser abordado por um indivíduo que diz diz que vigiará seu carro. Virou um inferno! E se você disser que dispensa o serviço, ao retornar ao seu carro, o encontrará riscado ou com o pneu furado.  Pode acontecer de você chegar e nem ser abordado por eles, mas ao retornar, ouvirá um "bem vigiado ai, chefe!". Certa vez, certo de que o moço não sabia qual era o meu veículo que ele dizia "bem vigiado", falei-lhe que se ele dissesse qual era o meu carros dentre os vários ali estacionados eu lhe pagaria o que ele me pedisse. Ele sorriu sem graça, coçou a cabeça e se afastou.

A mendicância não é fenômeno do nosso tempo. Jesus nos ensinou a ajudar aos necessitados. Mas os valores estão de tal forma invertidos que até a mendicância virou forma se aproveitar do próximo. As mulheres disfarçadas de mendigas, com certeza, comem melhor que muitas das pessoas que, de coração, lhes doaram um pacote de biscoito negresco.

O estacionamento que deveria ser público, virou propriedade privada de indivíduos sem qualquer capacitação, muitos deles presidiários foragidos que se estapeiam e se matam para manter a propriedade do ante a ameaça de qualquer outro que queira tomar-lhe o pedaço de asfalto do qual tira, facilmente e sem suor, o dinheiro para manter seu vício em craque.

Não é pouco o que esses meliantes tiram por dia em um estacionamento qualquer. Nenhuma gorjeta dada é menor que um real. Se ele receber trinta gorjetas por dia, no final do mês já ganhou mais que muita gente que trabalha duro, o dia inteiro. E muitos deles recebem mais de trezentas gorjetas por dia. É ótimo negócio!

Já faz tempo que não dou esmolas. Só se vejo escancarado que o pedinte é mesmo um inválido. Minhas boas ações as faço com quem conheço. Aquela viúva que conheço há anos, o primo pobre que precisa de roupas usadas ou não. O sobrinho ao qual pago a escola. E por ai vai.

Mas a inércia do estado ante tal modalidade de crime é mesmo revoltante. É vergonhoso! Estamos reféns da falta de vergonha de quem considera a mendicância digna e lavar uma trouxa de roupas indigna. Estamos reféns de quadrilhas que dizem estar guardando nossos carros quando são eles que informam aos ladrões que  nosso carro tem um GPS ou outro aparelho qualquer.

Um inferno! Uma vergonha!

Wanderley Lucena

sexta-feira, 22 de julho de 2011

quinta-feira, 21 de julho de 2011

CAFÉ COM AMOR

Sou viciado em café.
Se já estiver pronto quando eu me levantar...
se foi preparado pelas mãos de quem dormiu na minha cama...
se quem o preparou pensava em mim, bem...
o sabor fica ainda melhor.
E se for tomado numa mesinha de uma calçada qualquer de...
Paris?
No outono de novembro
Com aquele frio
Folhas amareladas a cair.
É querer demais?
Se Deus quiser! Deus quer! Deus quererá!
Vamos?

Wanderley Lucena

FAXINA ESPIRITUAL

Eu tinha uma ótima diarista. Ela era por demais caprichosa. Arrumava minha casa como se eu fora seu filho. Limpava a sujeira das gavetas, dos cantos e frestas. Tratava de tudo com o maior cuidado e jamais me quebrou qualquer objeto. Mas, tudo que é bom dura pouco, diz o ditado popular. Arrumou coisa melhor e se foi. 

Me indicou a irmã. Pensei que o capricho estava no sangue. Ledo engano. A coisa mudou do vinho pra água, e água barrenta. Na mesma máquina que lavava panos de prato, ela também lavava, pano de chão, toalhas, cuecas etc... tudo de uma só vez, na mesma lavada, na mesma água.

Quebrou tanta coisa aqui em casa que achei que ela sofria de Parkinson. E as faxineiras só quebram aquilo que mais queremos. Aquele bibelô da última viagem a Paris e que você o trouxe embalado como se fosse um ovo. Pois é esse tipo de coisa que elas quebram. 

A roupa de cama era trocada, porém, ela não se dava ao trabalho de passá-la. Os vidros que eram transparentes ficaram fumê. O pano que ela passava neles era o mesmo que ela limpara o a gordura do fogão. Eita coisa irritante! Eu não vou ensinar mulher a fazer faxina. Preferi mandar embora com uma desculpa qualquer.  

Eu fiz uma incursão pela versão masculina do serviço doméstico tempos atrás. Me falaram que eles fazem melhor que elas. Entretanto, a experiência também foi desastrosa. O moço se me apresentou com a aparência muito ruim. A pobreza estava estampada nas havaianas que ele ganhara de alguém que tinha o pé muito maior que o seu. Para resolver o problema, ele as cortou na parte do calcanhar. O corte foi feito à faca, muito sebosamente. As havaianas estavam decepadas. Coisa feia de ver, só aceita por causa da pobreza de quem necessita recorrer a expediente tão precário.  Mas não foi só isso. Ele não sabia mesmo fazer faxina.

Para piorar, na segunda faxina, veio me pedir dinheiro emprestado. E pior: eu emprestei. Ele sumiu no meio da capoeira. Foi a última vez que o vi. Pior ainda: senti falta de um anel. Acho que ele me furtou. Sim, ele me furtou, com certeza. E não era um anel qualquer. Eu o comprara em uma das minhas viagens e me era como o bibelô de Paris. Filho de uma p.... Tomara que use havaianas decepadas para o resto da vida!

Agora estou na labuta. Hoje foi dia de faxina. Fazia um bocado de tempo que não me dava a esse trabalho. A tarefa não é das mais árduas. É claro que prefiro ir ao shopping e voltar e encontrar a casa limpinha, brilhando, cheirando a incenso aceso pela diarista que acabou da ir embora. Ocorre que empregado doméstico virou ouro no Brasil. Não é só isso. Eles estão despreparados demais. 

Pus na rádio que toca forró do bom. Bem apropriado pra animar o corpo pra uma faxina. Ouvi o Luiz Gonzaga e tantos outros. Além da lembrança da minha terra, de minhas origens, o forró dava a energia e a faxina foi até fácil. Lustrei móveis, passei pano molhado no piso, lavei o banheiro como jamais fora lavado. Ficou branquinho, limpíssimo, aromatizado. Delícia! Nada demais pra quem já trabalhou em olaria, carvoaria,  roça, etc...

Passar roupa é tarefa que requer alguma técnica. Não é o fim do mundo não. Eu ontem passei um tantão. Basta um ferro de passar que se imponha, uma tábua de passar bem posta, mãos ágeis e... carinho, e... músculos também. 

Depois da faxina, fui ali no mercado e comprei flores que coloquei no vaso. Abri as janelas, o coração e relaxei sentindo a fragrância da vela perfumada.

Quer bem feito? Faça você mesmo. Com exceções, claro!

Quer um faxineiro ai?

Wanderley Lucena


terça-feira, 19 de julho de 2011

REBUCETÊ!


Não estou mal humorado, muito pelo contrário... mas, não sei porque, tenho visto que o mal gosto tem crescido na minha cidade. Jesus! Cruz credo! Bom... é melhor usar o velho clichê: melhor que ser cego.

Fui á Ermida Dom Bosco depois de longo tempo. Era fim de tarde e, propositadamente, pretendia mostrar o belíssimo por do sol a um amigo visitante. Demos de cara com umas vinte noivas a tirar fotos para seus books de casamento. Estragaram o mais lindo por de sol. Noivas que mais pareciam drags queens com tanta maquiagem e vestidos bufantes, deitadas na grama, de bumbuns pra cima, riso estatelado, piscando os cílios postiços como asas de borboletas monarcas.

Uma delas bateu recorde, ganharia disparado o troféu do mal gosto. O vestido tinha uma longa calda a arrastar no chão, mas a frente do mesmo vestido... pense num negócio...  no comprimento, era mini-saia. As pernas da moça estavam muito bem expostas, embora, ensacadas em uma meia-tarrafa. Rendas e frufrus a dar com pau, compunham a minha saia.  Uma imensa, coroa made in Paraguay, brilhava como o imenso lustre do Municipal. Na cabeça, o que me pareceu ser uma peruca em cachos imensos, muito bem encaracolados, me lembravam os anjos barrocos do Aleijadinho e o velhos bobes. Aquilo só podia ser fruto dos velhos bobes, caso aquilo fosse mesmo cabelo e não uma peruca  sintética.

Para todos os lados, o mesmo inferno. Noivas, noivas e noivas. Flashes a espocar entre sorrisos engessados. Além dos fotógrafos mal apanhados nas fuças, de auxiliares impúberes e despreparados,  as mães das noivas, orgulhosas, de peitos fartos, ofereciam espetáculo à parte. 

No outro dia, num domingo ensolarado, fomos ao Parque da cidade. Infernos! Parece que agora virou moda na cidade. Casais recém-casados, oriundos de motéis da cidade, estão nos obrigando a ver a sua felicidade. Corações desenhados nos vidros, balões presos em todos os vidros, latas a arrastar pelo asfalto presas nos para-choques do seus carros populares. "Recém-casados", "Unidos pelo Senhor Jesus!", "Felizes para sempre" eram frases que estampavam os tais casais. As caras mal-dormidas exalavam o torpor da noitada de sexo. O som que vinha dos carros era o da música sertaneja.

Qualquer pessoa de bom senso retiraria tais apetrechos ainda no motel. Mas não... eles querem que todo mundo os vejam e os ouçam...  Só me lembrava da música do Lupicínio Rodrigues: "Esses moços, pobres moços... Há! Se soubessem o que eu sei".

Mas, aproveitando que meu amigo precisava conhecer os pontos turísticos da capital, decidi levá-lo à boa e velha Água Mineral em dia de semana. Minha esperança era encontrá-la um pouco mais vazia que nos finais de semana. Há muito tempo que deixei de frequentar o local. Ouve o tempo em que o mal gosto, a falta de educação ainda não imperavam por ali. Mas ao chegarmos, logo de cara, percebi que o local permanece estagnado no tempo. A mesma estrutura de quiosques dos anos sessenta serve caldo-de-cana e pasteis encharcados de gordura que podem levar o incauto consumidor, facilmente,  ao pronto socorro do HBB.

A piscina estava entupida de meninos ao berros, casais em carícias que deixariam qualquer moderno de cabelos em pé, farofa de ovo, mulheres se depilando, outras a descolorir todos os pelos e pentelhos com a velha fórmula caseira feita com amônia. As imensas cabeleiras das mulheres poderiam facilmente inspirar Dante Alighieri. Ensaboavam-se displicentes debaixo dos chuveiros públicos, o pente a descer de cima abaixo no cabelo molhado e cheio de espuma, a descer pelas costas e se acabando nas mesmas bundas cheias de estrias e celulites, enfeitadas com orgulho por um fio dental. Bundas imensas e cabeludas de gordos em sungas tamanho "P" mostravam cofres nada minúsculos. Pavoroso!

Os incomodados que se retirem, manda o clichê. Foi o que fiz. Voltei pra casa rapidinho, quase certo que nunca mais porei os pés na belíssima Água Mineral.

O Park Shopping. Fui lá também. E faz tempo que ali não boto os pés em finais de semana pelos mesmo motivos da Água Mineral. Prefiro nas segundas-feira. Nos finais de semana aquilo vira uma feira popular. E diga-se: nada tenho contra as feiras. Até gosto delas, mas sei que trata-se de uma feira. O dito shopping virou um inferno. A população aumentou demais. O povo se reproduz como rato. Um auê, uma rodoviária.

Mas fui na segunda-feira. Pensei em pegar um filme. Desisti de cara. Lotado! Fila de dobrar quarteirão. Não sei se por causa da estréia do Harry Potter. Um fuzuê! Um "rebucetê!", como diria minha amiga Giselda. Entrei em meu carro e voltei para o meu apartamento.

Me resta o quê? Ficar em casa? Viver a clausura? Paris é a saída. Se pudesse! Se meu dinheiro desse!

Morrer? Tá bom!

Wanderley Lucena




O SEGREDO DA FELICIDADE


- Descobri o segredo da felicidade, você promete guardar?
- Eu prometo!
- Sonhei que eu podia andar sobre as águas...
- E como foi a sensação?
- Como se as ondas do mar tivessem levado todos os meus problemas e relembrado todos os momentos especiais.
- Então andar sobre as águas é o segredo da felicidade?
- Não, o segredo é sonhar... 
 
* Extraído do site: http://sitedepoesias.com

segunda-feira, 18 de julho de 2011

QUEBRANDO O GELO


"Falar sobre costumes culturais é sempre um tema delicado. Mas aprender um pouquinho sobre a cultura social de um país diferente que se pretende visitar é tão importante quanto conhecer seu idioma. E não me refiro aqui à cultura relacionada às artes, falo sobre fatores básicos da vida em sociedade. De comportamento. Da maneira como a vida cotidiana funciona no lugar. Creio que isso serve para qualquer pessoa, em qualquer lugar: para o brasileiro visitando a França, o alemão que vai ao Brasil ou o americano em férias na Indonésia. Às vezes são detalhes simples que não apenas abrem portas, mas evitam situações embaraçosas, além de ser uma bonita demonstração de atenção e respeito ao país visitado.

Portanto, peço que ouça com reservas o turista que acabou de voltar de Paris reclamando que o parisiense é mal-humorado e criticando a maneira como as pessoas agem ou se vestem. Normalmente esse é o tipo de turista que já sai da casa com uma imagem estereotipada na cabeça. Que prefere colher opiniões ao invés de planejar a viagem e que, infelizmente, por fazer uso de uma visão simplista sobre a vida cotidiana da cidade, pouco terá a acrescentar na volta. Vai falar de compras, de comida, mostrar fotos de monumentos (sim, muitas fotos, pois passa pelos marcos historicos na velocidade de um click) e passar adiante suas impressões distorcidas.

Por isso acredito que “Viver Paris é descobrir a cidade por conta própria... Nada se compara às suas próprias experiências.” Essas frases estão na apresentação do blog. E creio que também se aplicam bem aqui. Quer uma dica preciosa? Talvez a melhor que eu possa lhe dar? Veja o mundo com seus próprios olhos. Experimente a atmosfera parisiense por si mesmo. O resultado de uma viagem feita com a cabeça livre de conceitos pré-concebidos, porém aberta às novidades, seguramente vai te surpreender. Para uma viagem agradável a boa informação é essencial. Já os julgamentos colhidos de segunda mão são totalmente dispensáveis.



E esse verdadeiro clássico do conceito distorcido, no qual “o francês não se esforça em entender, é mal-humorado e não gosta de falar inglês”deve ser visto com cautela.

Sim, os franceses de modo geral falam bem inglês. Por outro lado, vejo que o problema esta mais nas nossas diferenças culturais do que no fato deles gostarem ou não de falar o inglês. As regras básicas de etiqueta social que infelizmente estão saindo de uso no Brasil, aqui são respeitadas a risca. Ignorar essas regras é o que faz toda a diferença entre receber um sorriso e atenção ou um semblante fechado. Portanto, quer ver um francês ser afável e prestativo? Dirija-se a ele com a devida cordialidade. Quer um exemplo prático? Imagine que você precisa de uma informação simples e vai abordar uma pessoa na banca de jornal.

Assim não: “Onde fica a rue du Bac?” Variações: “Escuta, onde fica a rue du Bac?”, “Ô meu querido, onde fica a rue du Bac?” ou ainda “Psiu... Onde fica a rue du Bac?”

Assim sim: “Bom dia, por gentileza, o senhor sabe me informar onde fica a rue du Bac?” Variação: “Com licença, o senhor pode me informar onde fica a rue du Bac?”

Portanto, não é o inglês o problema, mas a maneira como se fala com as pessoas. Com um pouquinho de educação o turista consegue facilmente atenção e cordialidade - em francês, inglês, mímica ou desenho. E isso vale para falar com o garçom, com a atendente da loja ou com o seu Pierre da quitanda.

Portanto, responda sempre a uma saudação. Não custa nada retribuir a cordialidade e faz uma diferença imensa. Se ao entrar na lojinha desouvenirs a moça do caixa te disser bonjour, por favor, faça o mesmo por ela. E agradeça: seja a informação recebida, a atenção da pessoa que lhe cedeu passagem no elevador, etc. Um simples merci mostra que você pode não saber falar francês, mas é educado.

Além disso, aja com naturalidade, sem elevar a voz, sem muita gesticulação, sem tocar as pessoas ao falar - seja na rua, em casa ou no trabalho. Ser discreto e comedido é a norma fundamental e o segredo da elevação social.

Sobre a boa vontade na compreensão há um ponto importante que muita gente desconhece: o idioma francês tem muitas sutilezas de pronuncia, e vem daí a dificuldade dos franceses em compreender corretamente alguém que tenta se comunicar em francês meio “engessado”. Quer um exemplo?

Dessus (acima); dessous (abaixo); déçu
 (desapontado): em português pode parecer fácil de pronunciar essas palavras de forma distinta, mas em francês a diferença entre elas é extremamente sutil.O intuito desta postagem não é desfilar regras de convívio social, mas mostrar que a diferença cultural entre os dois países existe e pode ser facilmente minimizada através do respeito e da compreensão pelos valores culturais que ja estão fortemente enraizados no dia a dia das pessoas. Esse, no meu entendimento, é o melhor modo de evitar situações desagradáveis ou mal-entendidos desnecessários. Para quebrar o gelo, é preciso apenas um sorriso, respeito e cordialidade. Sei que este post pode ser desnecessario para alguns e parecer um tanto cáustico para outros. Mas pelo que ja testemunhei por mim mesmo, sei que também pode ser util à muita gente".




segunda-feira, 11 de julho de 2011

VIDA ABUNDANTE


Aqui onde moro é puro asfalto e concreto. O pouco verde consiste de alguma grama e plantas ornamentais. É bem verdade que há algumas poucas árvores que resistem entre os blocos residenciais. O incrível é que mesmo assim a natureza, bondosamente, nos oferece seu espetáculo.

Não é de hoje que vejo o ninho do joão-de-barro desde a minha pobre sacada. Ele se instalou no pé de ipê amarelo que foi plantado por um morador sensível. Mas que joão-de-barro esperto. Quanto bom gosto desta criaturinha de Deus. Foi escolher o pé de ipê para fazer a sua morada como que escolhe a melhor rua, a casa mais bonita. Ele podia ter escolhido a jaqueira, o tamarindo e até mesmo o poste de iluminação pública. Mas ele escolheu a árvore mais bela de todas, o ipê-amarelo.

Todo ano, no meio do asfalto do estacionamento, alimentando-se da terra no pequeno quadrilátero aberto no asfalto em que foi plantado, o pé de ipê esbanja vida. A florada, toda amarela, imensa, intensa, abunda em contraste com o cinza do concreto dos prédios tristes e decadentes e, ainda, com o preto do asfalto morto. A depender do ângulo, o contraste é com o azul do céu imenso. 

Nas madrugadas, um sabiá, incrivelmente,  insiste em me acordar com seu canto afinado. Parece querer  embalar-nos, quiçá, pedir socorro, protestar, gritar que lhe invadiram e tomaram o espaço de cerrado em que viveram seus antepassados. Certo é que o canto é causa encantamento.

Eu não sabia que sabiá cantava durante a madrugada. Mas que coisa! Que mistério! Ele canta por volta das tres horas da madrugada. Acordo com sua melodia afinada. Me enche de felicidade e êxtase. Agradeço aos céus pela vida daquele sabiá e também pela minha. Eu até já o vi, em horário diurno, a caçar insetos na grama do meu condomínio. Se ele pudesse entender o que eu gostaria de lhe dizer... Eu o agradeceria e, em gesto budista, o reverenciaria.

Mas olhando melhor desde a minha sacada, não sei se por causa do joão-de-barro, do sabiá, do ipê-amarelo ou de tudo o mais, percebo que ela é riquíssima. Vou arejar a casa, abrir as janelas, acender um incenso, ouvir Marisa Monte, cantar junto com ela e fechar os olhos para imaginar campos de alfazema nunca vistos. Vou dançar sozinho e sentir o cheiro dos temperos na minha cozinha enquanto faço o almoço.

Sabiás, ben-te-vis, joãos-de-barro, anuns, borboletas, besouros, lagartixas... natureza infinita ao redor. Ao alcance da vista, debaixo dos nossos pés, acima das nossas cabeças. Tem gente que não ver. Tem gente que não ver nada.

Que alegria me traz o joão-de-barro, o ipê-amarelo, o sabiá... e tudo o mais.

Wanderley Lucena

domingo, 10 de julho de 2011

DONA MORTA


"Não tenho conclusões para a morte e espero que ela também não as tenha para mim. Se boa ou ruim, se é o fim ou um novo começo, se traz alívio ou sofrimento...
Por enquanto prefiro achar a Dona Morta, uma penetra de festa, pois chega sem ser convidada. Por vezes, chega no auge da festa. E ainda que venha trajando um pretinho básico, é antiquada. Sem falar naquela face branca, pálida, com cara de quem já morreu... Poderia ao menos passar o blush antes de sair de casa.

E quanto ao amanhã? Fica a dica: Sair do futuro onde não podemos fazer nada, exceto em sonhos, em fantasias, em divagações, e entrar no presente, onde tudo acontece (Eu tento, nem sempre consigo)".

Madá - do blog: Imagem, linguagem e bobagem. 

sábado, 9 de julho de 2011

A MOÇA BANGUELA


Quando ouvi a estória que passo a vos contar, quase não acreditei. Confesso, quase morri de rir. E espero que você que ora me ler, faça o mesmo. É minha intenção vos fazer rir. A estória é real, bem como, conheço as personagens.

O moço tinha posses e se apaixonou pela moça de poucas posses. Ela era linda, corpo estonteante e  uma boca carnuda. Porém, para o lado direito do sorriso, dois dentes que lhe faltavam, a faziam posar sempre de perfil quando ia tirar fotos. Seu sorriso era sempre comedido na tentativa de disfarçar, senão, esconder totalmente a falha no sorriso.

Ocorre que o moço estava apaixonado e decidiu dar de presente à moça uma prótese. Aquela que antigamente era chamada de "chapa". Não era tão caro quanto o implante dentário e o moço podia, tranquilamente, dispender de seus recursos e melhorar a auto-esto estima da amada.

Pronto! Agora a moça podia rir à vontade. Tirar fotos de frente e a sorriso largo. Mas, o tempo foi esfriando a paixão do moço. A moça já não se sentia tão grata. A discórdia em assuntos bobos e a falta do afeto se instalaram. Os dois começaram a brigar com frequência. Decidiram, depois de um imenso "barraco" a acabar a relação. Como em todo término, jogou-se toda a roupa suja no tanque. A lavagem foi feita em público.

Ela chegou a chamar-lhe de "brocha", coisa que, sinceramente, não acho que o moço o seja. Mas, ele em atitude descontrolada e vingativa a chamou de "banguela". Ato contínuo, aos berros, pediu o que, segundo suas próprias palavras, era seu por direito. Sim, ele queria a "chapa" da moça. Disse que tinha em seu poder até a nota fiscal da mesma. 

Todos ficaram estupefactos quando a moça, orgulhosa e com desdém, tirou a "chapa" babada e a entregou nas mão do moço. A boca da moça murchou no local onde estava instalada a "chapa". Ela se retirou frustrada. envergonhada e ferida. Voltou a fotografar de perfil.

O sangue do moço esfriou e percebeu-se que a vergonha em sua cara. Não pediu desculpas por nada. Mas seu seu semblante era o de quem queria que o chão se abrisse e ele desaparecesse. Retirou-se ele em seguida à moça, porém, em direção oposta à dela.

Alguns não se continham. Seguravam a boca e apertavam as barrigas. Riam descontroladamente. Outros, boquiabertos, sem entender como os dois chegaram a tal ponto. Alguém chegou a cantarolar: "o cravo brigou com a rosa debaixo do mata-pasto".

Aos que presenciavam a cena restou a certeza de que o sorriso do moço ficou tão sem graça que chegou a ser quase igual ao da moça banguela.

Wanderley Lucena

sexta-feira, 8 de julho de 2011

MORTE CERTA




Bom seria se o amanhã fosse certo e sempre. Ou não? Ouvi certa vez que a vida só nos é tão boa por causa da morte. É a certeza da morte que nos faz aproveitar o dia de hoje. Sem a morte a vida seria um verdadeiro inferno.

Wanderley Lucena

quarta-feira, 6 de julho de 2011

INDOLÊNCIA



Amanhã cedinho, logo que despertar, escreverei o que agora, deitado, quase nos braços de Morfeu, passo a pensar.
A inspiração me chega clara e impressionantemente linda.
Frases completas.
Texto que vai desde o início até o epílogo.
Tudo pronto e amarrado. 
Inquieto, sinto que deveria escrever já.
Amanhã será outro dia e os meus afazeres não me deixarão escrever exatamente o que penso agora.
Mas quanta indolência. 
Não acho forças. 
Permaneço em meu leito. 
Com olhos fechados tento cravar da forma mais forte possível em minha mente o que ora me chega.
Como que por boca de algum anjo inspirador. 
Que ele me acompanhe até amanhã quando, com certeza, tentarei lembrar exatamente o que me chegou de alcova.
Quando com certeza não me lembrarei do que me chegou de alcova.
Sono que chega e que apagará não apenas a inspiração.


Wanderley Lucena

DÚVIDA



Eu respondi que "não"
Mas que dúvida atroz!
Com certeza deveria ter respondido "sim"
Voltei atrás
Disse "sim"
E agora... já não sei...
Deveria ter ficado no "não"
Dúvida atroz
Errei quando respondi  "sim"
Arrependido
Vou dizer "não"
Mas sei que vou me arrepender
Voltar atrás
Direi "sim"
Dúvida...

Wanderley Lucena

sábado, 2 de julho de 2011

SILÊNCIO




Impera o silêncio incômodo
Você pra lá 
Eu pra cá
Mágoas e decepções
Lembranças ruins que se instalam n'álma
Espíritos armados 
Tudo pronto para a guerra
Levo como arma a língua
Vontade de mudar
De convencer
Quedar-me só
Queda-te só
Silêncio que fala
Que corta
Negro como noite
Impregna corações
Flor murcha se não se rega
Que venha a cura
Se encontrado o amor
Vou buscar-te
Cuidar-te
Serei eu
Serás tu
Silencia, mas não cala
Tempo que se perde
Calo mas não silencio
Fala-me!
Respondo-te
Falo-te!
Responde-me.

Wanderley Lucena


sexta-feira, 1 de julho de 2011

ÂNSIA



Eu soube que estás por aqui
Desejei que me fizesses uma visita
Comecei a limpar o ambiente
Coloquei flores na mesinha de canto
Escondi tudo o que pudesse ser desfavorável
Fiz a sua sobremesa
Coloquei toalhas limpas no banheiro
Troquei a roupa de cama
Comprei um vinho bom
Pus velas a queimar
Fiz faxina no coração
Tirei a poeira
Me abasteci de sentimentos bons
Joguei no lixo as lembranças das tolices que ouvi
Lavei a cara
Pus à mesa a melhor prataria
Abri as janelas
Controlei a ansiedade
Decorei frases
Imaginei situações
Desejei o abraço e o beijo
Senti a tua mão tocar minha nuca e meus poros se abrirem
Esperei
Sofri
Acordei

Wanderley Lucena