sexta-feira, 10 de junho de 2011

TOLERARE

Semana passada (acho que dia 01/06/11), conversava com um amigo pelo celular de dentro de um ônibus que seguia na direção da Esplanada dos Ministérios, quando uma invasão de decibéis provocou a interrupção do bate-papo. Telefone no bolso, desviei a atenção buscando compreender o que se passava. Pelo acúmulo de ônibus de turismo, trânsito engarrafado e vários carros de som aos brados, automaticamente imaginei tratar-se de mais uma dentre as várias passeatas características do modelo democrático e que tanto insistem em tornar-se parte da cotidiano e cenário do brasiliense.

Como o trânsito estava lento, e por não ter mais nada interessante que fazer no momento, agucei mais os sentidos para entender que tipo de manifestação estava testemunhando (vai que aquele fosse mais um momento histórico acontecendo no cenário onde tantos outros relevantes aconteceram! Seria uma oportunidade ímpar de ser uma testemunha ocular. Bem mais interessante que ouvir música pelo rádio do celular. Um ótimo bônus para quem estava a trabalho dentro de um ônibus!). 

Olhando meio de longe, observei milhares de cidadãos no exercício do seu direito: mulheres de todas as idades, raças e provavelmente classes sociais e homens de todas as idades, raças e classes sociais. Huummm... poderia ser então reinvindicações trabalhistas, algum segmento do governo, ou do sistema financeiro... Poderia ser um grupo de ruralistas marcando presença na semana de discussão do novo código florestal, tentando conquistar mais um pedaço de mata ciliar em detrimento das águas. Não haviam ambientalistas - eles sempre vêm com criativos mecanismos para chamar a atenção: inflam balões, tiram a roupa, pintam corpos, fazem o que estiver ao alcance para expor seus anseios e receios, felizmente. 

Para ter mais certeza, aproveitei a aproximação do local e consegui ler à distância algumas faixas: "família isso, família aquilo...". Pensei, que legal!, deve ser um movimento em prol do fortalecimento da lei Maria da Penha; deve ser uma manifestação contra o elevadíssimo índice de violência sexual praticado por pais contra filhos(as), no âmbito das 4 paredes daquilo que deveria ser um lar;  deve ser um movimento por um sistema habitacional mais inclusivo, no qual uma família que vive com um salário ou menos possa adquirir um teto digno para morar; devem estar buscando uma melhoria nos programas de transferência de renda, ou mais empregos para pais e mães, ou creches para filhos... 

Quando imaginei que finalmente tinha matado a charada, consegui ler outras faixas: "homossexuais isso, homossexuais aquilo...". Pensei: ôxi, seria uma demonstração de lucidez coletiva? Estariam aqueles milhares de brasileiros caminhando em uníssono rumo a defesa de uma família mais universal e verdadeiramente representativa? Mas, à medida que a proximidade ficou maior, outras tantas faixas e frases se tornaram mais legíveis, pois eram complexas e contendo muitas informações para serem lidas à distância: "versículo tal... carta tal... bíblia tal, deus tal..."

Óbvio, não há alices no seu país de maravilhas nem polianas que sobrevivam muito tempo. A realidade obscura e infeliz é que ali se agrupavam milhares de cidadãos brasileiros, detentores de direitos e deveres cívicos garantidos por uma constituição soberana, bradando raivosamente contra os direitos de outros cidadãos brasileiros, igualmente detentores de direitos e deveres cívicos garantidos por uma constituição soberana!!!! Irônico perceber dentre eles mulheres e negros, dentre outros tantos grupos representativos que ainda hoje sequer consolidaram a conquista dos seus próprios direitos básicos.

Indignado e revoltado, é o básico que poderia usar para me qualificar naquele momento, por perceber a grandeza da liberdade democrática sendo colocada à serviço da insensatez e limitação de alguns.  Mas a indignação não qualificava tudo. Minha revolta foi fortemente acentuada ao perceber naquele festival de ignorância a inclusão da palavra "deus" e seu significado para nossa cultura.

Primeiro, tentava entender o que que versículos e bíblias estavam fazendo em frente ao congresso de um país laico. A catedral ficava uns dois kilômetros antes. As igrejas evangélicas se agrupavam fartamente na avenida L-2 sul assim como outras tantas agremiações religiosas. Inevitável lembrar dos impropérios proferidos nas tribunas governamentais, escudados com a vinculação com um "deus", protagonizados por representantes de todo tipo de ilicitude que se pode ter notícia. Que asco!!! A fé (esperança), um dos principais patrimônios do ser humano, sendo colocado na lata de lixo da ambição desta meia-duzia apodrecida.

Segundo, admitindo precariamente a inclusão de alguma religiosidade nesta discussão de cunho absolutamente legal, o que a religião poderia ter contra a homossexualidade e a união de pessoas de mesmo genital? Mesmo detestando discutir religião e suas diferentes filosofias, sinto-me no direito de questionar até esta instancia desta sandice, pois nos meus mais de quarenta anos de razoável vivência religiosa, à frente de púlpitos de variadas designações, não consegui identificar nada mais cristão e verdadeiramente religioso que "amai-vos uns aos outros", "não julgueis", "vós sois espíritos", máximas que pairam muito acima das relações sexuais, estas sim da alçada individual e para qual o verdeiro Deus nos concedeu a liberdade de arbitrar e decidir.

Sentindo isso tudo, quase pensei: Senhor, perdoai-nos pois não sabemos o que fazemos. Claro, interrompi o pensamento imediatamente ao lembrar-me de que deus não existe à nossa imagem e semelhança(!). Quão estúpido seria pensar num Deus perfeito, mas ofendido!!! Quão estúpido seria pensar na existência de um Deus(a) criador(a) de todo um universo imperiscrutável à nossa compreensão e conhecimento, enrubescido de raiva ante a união de simples seres humanos de mesmo sexo, habitantes deste planetinha perdido no infinito cósmico! Acho que ele deve estar mais preocupado com outras coisas, como a aplicação da lei do Amor, esta sim universal e bem pouco conhecida e praticada entre nós.

Por fim, voltando ao cenário da tal manifestação de desrespeito e intolerância, vencido o desconforto causado pelo cheiro de fogueira inquisitória ou suor de cruzados estupradores, tentei visualizar algo de bom naquilo tudo. E, pasmem, consegui! Claro, óbvio, incrível, como ninguém percebeu!! Após milênios de estupros multilaterais, assassinatos multilaterais, queimadas multilaterais, enfim, estavam caminhando lado a lado os protagonistas dos maiores episódios de violência praticados no planeta (em nome de Deus)!! Ombro a ombro. Praticamente abraçados. Unidos enfim. E graças a quem? Aos homossexuais.

Como então duvidar: homossexualidade é coisa de Deus!

Com o perdão pela conclusão irônica (mas real) e agora menos indignado...

Abraços,

Valdemar Vasconcelos

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